O cotidiano e o sonho que se distancia

Sempre ouvi dizer que quando um assunto vira tema de muitas conversas, discussões, artigos, encontros, enfim, é porque o seu conteúdo está em falta. Estamos, então, absurdamente carentes de respeito, direitos, liberdade. É sobre isso que falamos e escrevemos vertiginosamente. É o que lamentamos sem parar. É o que nos falta.

A diversidade humana segue espantando e a intolerância mostra suas garras afiadas nas situações mais cotidianas. Machuca. Fere. Os movimentos sociais, sempre tão estimulantes, são rechaçados e a força bruta dos governos se impõe com violência. Sem pudor.

Queremos a democracia e lutamos por igualdade e dignidade, em todas as esferas. Repudiamos todas as matrizes que alimentam o preconceito, ignoram nossa memória e roubam direitos básicos das pessoas. Nosso desejo genuíno e sensato é, ao mesmo tempo, incompatível com o Brasil de hoje.

Na estranha semana que passou, alguns acontecimentos deixaram evidente que ainda estamos longe do sonho de viver entre pessoas que respeitem outras pessoas e seu direito de ser quem são. E tristemente vemos o país se distanciando do mínimo de dignidade que uma nação precisa para acolher sua gente.

Memória da ditadura em risco

Mais uma ação nefasta do desgoverno federal é tema de reportagem do jornal Extra Classe online – http://www.extraclasse.org.br/edicoes/2017/08/nem-memoria-nem-verdade-nem-justica/. A prova de que Temer e seus aliados trabalham incessantemente por um Brasil sem rosto, uma educação sem memória e um povo subjugado porque quem não conhece sua história verdadeira é fácil de enganar/dominar.

A Comissão da Anistia, criada para ‘reparar moral e economicamente as vítimas de atos de exceção, arbítrio e violações aos direitos humanos cometidos entre 1946 e 1988’, corre sérios riscos, assim como as Comissões da Verdade, que trabalharam para recuperar essa memória. ‘Os anistiados não estão tendo suas portarias assinadas. Muitos estão com idade avançada, com doenças até de sequelas das torturas que sofreram, e não têm acesso à reparação. E outros não têm o processo apreciado porque a comissão não está funcionando’. A denúncia é feita por Moreira da Silva Filho, professor da Escola de Direito da PUCRS e do Pós-Graduação em Ciências Criminais. Antes da ruptura institucional em 2016, com a deposição da presidenta Dilma Rousseff, a Comissão estava também construindo políticas de memória’.

Homofobia em Porto Alegre

Celebração vira caso de polícia motivado por preconceito, na Associação Leopoldina Juvenil, bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Marcos Vinicio Beccon e o namorado Raul Weiss foram vítimas de discriminação em uma festa de formatura. As pessoas se divertiam, tudo parecia normal, até que um beijo entre os dois desestabilizou a frágil harmonia da celebração. A intolerância brotou de todos os lados. Não vou entrar nos detalhes do que aconteceu, mas a atitude é o retrato da covardia e do preconceito velado – “tudo bem ser gay, mas não aqui na minha festa”.

Comportamentos assim estão tão entranhados no inconsciente de todos nós que, às vezes, até soam como normais, mas não são! A presença de pessoas naturalmente livres, que não têm medo de assumir a sua condição, incomoda. Elas nos desafiam, especialmente se vivemos engavetados, de costas para a diversidade, consumindo sem críticas os discursos discriminatórios que já vêm prontos e tabelados. É necessário desmascarar a hipocrisia e desorganizar essa ordem social que alimenta o preconceito.

20883770_1464532716974437_1141768226_o

Chico Buarque crucificado e endeusado

A pergunta é: Por que Francisco Buarque de Hollanda, conhecido como Chico Buarque, compositor, dramaturgo e escritor brasileiro, provoca tanto amor e tanto ódio? É tão difícil deixá-lo viver, amar, desamar, compor, descompor, escrever, ser politicamente correto ou incorreto? O que querem dele?

O recuo das águas mostra descaso com a natureza

O que dizer do lixo que ficou escancarado às margens do Guaíba com o recuo das águas? Definitivamente, temos discurso, mas não temos prática. Cobramos das autoridades, mas não participamos. Não cuidamos do mínimo necessário para a vida saudável que tanto queremos. Os governos são indigestos, sim. E a população – eu, tu, ele, nós, vós, eles – é hipócrita. Prega, cobra, mas nada faz. Até quando?

Arte e suavidade – Amaro Abreu e seu Habitat

Amaro Abreu está com a exposição “Habitat – II Parte”, que tem curadoria da Cristina Pozzobon, no Clube de Cultura (Ramiro Barcelos, 1853), até o dia 21 de agosto. Recomendo para quem não viu. E para quem já viu, digo que vale a pena ver de novo. Escrevi o texto de apresentação da mostra, que tem muito do texto que fiz para o livro. Amaro é um guri talentoso, tem uma sensibilidade incrível e faz um trabalho que me emociona muito.

Amaro

Arte e suavidade – Amaro Abreu e seu Habitat
O menino curioso, que poeticamente via peixinhos a nadar no lago dos profundos olhos azuis da Marlene, minha irmã, cresceu. De repente. Quando o reencontrei, parou na minha frente um menino-homem, expressão carinhosa muito comum no nordeste brasileiro para dizer, “a criança que você conheceu já não é mais a mesma”. Logo vi que não era, mas que guardava muito do universo lúdico de menino no entusiasmo, no jeito de olhar, de falar, no sorriso. A suavidade daquela infância que nunca nos abandona, especialmente quando nos revelamos através da arte.

Fomos conversando e descobri que o menino já se aventurou pelo mundo. Articulado, dono do seu nariz, criativo, cheio de ideias, levou seus olhos para outras paragens. Bisbilhotou, desenhou, pintou, grafitou. Foi rabiscando a vida diversa que pulsa em todo lugar com seus lápis, tintas, sonhos, sprays, nanquim, fantasias, aquarelas e desejos. Desvendou, compartilhou e deixou em muros e painéis as criaturas inusitadas que cria.

Amaro Abreu hoje é um artista urbano. Eu, que não o via há muito tempo, fiquei surpresa e encantada. Mais ainda quando ele me chamou para escrever sobre seu trabalho no livro Habitat, que lançou em 2016, convite que me deixou incrivelmente feliz. Por ser quem é. E porque das suas mãos nascem figuras que dizem muito da vida vertiginosa que levamos, das ilhas que formamos para nos proteger, da diferença e da fragilidade que desacomodam nossas certezas, da diversidade que nos constitui como sujeitos únicos, da liberdade que buscamos.

As criaturas que Amaro vai desenhando e espalhando por aí desconsertam, inquietam, alegram, preenchem, fazem rir, emocionam. Coloridas e disformes, delicadas e fortes, às vezes são incrivelmente líricas, pura suavidade, leveza, e nos convidam a bailar. Em outras, surgem como fortalezas que guardam tesouros humanos preciosos, provocando um pensar incessante. Fazem parte de um universo vasto e inquieto, fora da ordem, que sempre me fez refletir, falar e escrever, hoje quase que cotidianamente, na tentativa de entender os humanos e seu Habitat.

Que segredos guardam esses seres, ao mesmo tempo circenses e melancólicos, brutos e lúdicos, enraizados e soltos, nesse misto de tristeza e alegria? Saltitantes, à beira do abismo, amordaçados, à espreita, olhos arregalados, despedaçados e inteiros, genuínos na sua adorável imperfeição, o que querem dizer assim tão inconstantes?
Dizem de nós, seres fragmentados, assustados, urgentes, às vezes dilacerados, que somos. Humanos?

Dizem dos outros que nos habitam. Revelam nossas tantas faces, nossa polaridade, nossos sentimentos divididos diante do mundo multifacetado, encantador e cruel. Habitável?

Dizem das vidas paralelas que, estranhamente, tentamos equilibrar.

Dizem de nós, tão coletivos e tão solitários nessa caminhada em busca de um final feliz.

Fale, responda, liberte

Depois de ouvir o depoimento da professora aposentada, Diva Guimarães, 77 anos, sobre desigualdade e o preconceito que enfrentou ao longo da vida por ser pobre e negra, o ator Lázaro Ramos falou emocionado: “A gente precisa fazer um pacto de investir em educação pública de qualidade. Não podem sucatear a educação brasileira. A escola pública tem que ser valorizada. O professor tem que ser valorizado”, sob o aplauso de uma tenda lotada, na 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty/RJ, em debate com o tema ‘A pele que habito’.

Diva se declarou “uma sobrevivente pela educação e pela mãe”, que definiu como uma guerreira. São momentos que lavam a alma da gente e acendem a esperança.

Os desiguais, os diferentes, os que não correspondem ao ideal de ‘ser humano’, estão se manifestando e se posicionando com firmeza. E quanto mais falam, mais o preconceito aparece. É difícil para os “normais” encarar a diversidade de vozes que assumem a sua condição, denunciam o preconceito e reivindicam o direito de ir e vir com liberdade e respeito. E quanto mais ouço, leio, falo, mais me convenço que a mudança está na educação, bem lá no início, na pureza da criança ainda não contaminada.

Simplicidade e verdade
Os caminhos de uma educação libertadora passam inevitavelmente pela simplicidade, jamais pelo extraordinário. Passam pelo afeto, pelo acolhimento, pelo diálogo, pela segurança, pela verdade. Precisamos de olhares que percebam as diferenças que nos rodeiam. Busquem a história de cada indivíduo, produzam vínculos, proporcionem a troca e a visibilidade, diluam os fantasmas, possibilitem o sonho, enfrentem o preconceito com atitude.

Nestes tempos permissivos, em que tudo pode ser dito e tudo pode ser feito, em que o bullying está no centro da cena, há que se dar limites para a insanidade humana, encarando toda a atitude que segrega, ofende, humilha, com a simplicidade do que é verdadeiro.

Quem disse que não é possível? Ver o outro para além de qualquer barreira, com sensibilidade e respeito, é transformador. Não podemos dar lugar ao desejo da invisibilidade como fuga das agressões preconceituosas. E responder naturalmente à curiosidade das crianças, sem alimentar espanto, medo ou o que seja, é o princípio da visibilidade que traz a cidadania. Afinal, de um jeito ou de outro, todos buscamos respostas para o que desconhecemos.

A seguir uma pequena história de quando enfrentei a rejeição, se é que posso chamar assim, pela primeira vez.

A criança precisa de respostas
Na primeira vez em que ouvi alguém gritar “olha uma anãzinha!”, eu ainda morava em Jaquirana, que na época pertencia ao município de São Francisco de Paula. Estava na fila para entrar na escola, lá pelos 6 anos. Não tive dúvidas! Dei meia volta e corri, aos prantos, para a casa dos meus avós maternos. Tudo era muito perto. Uma das tias, irmã mais nova da minha mãe, também não teve dúvidas! Pegou na minha mão e me levou de volta, direto para a sala do diretor da escola. Ele, sobrinho do meu avô materno, assim que ouviu o relato da tia, e certamente percebeu meus olhinhos assustados, foi mais um a não ter dúvidas! De mãos dadas comigo, passou nas salas de aula e me apresentou naturalmente aos alunos – “Essa é a nova coleguinha de vocês. Respeitem, sejam amigos”.

Um gesto. Uma atitude fora do protocolo. E o acolhimento estava dado. Hoje, chamamos esse comportamento de “inclusivo”. Na época, ninguém se dava conta do quanto de sensibilidade havia na atitude do diretor e do quanto uma ação assim pode ser vital na vida de uma criança diferente da média. Depois desse episódio simbólico, fui estudar na pequena cidade da longa avenida, que eu gostava tanto, São Chico. E, sem medo, fui para a escola sozinha no primeiro dia. E fiquei.

Novos enfrentamentos vieram. Alguns grosseiros, outros engraçados e ingênuos, muitos absolutamente preconceituosos. Mas estudar, aprender, relacionar-se para além dos quintais das casas familiares era um desejo inabalável. Internamente, sem entender bem aquele sentimento, alimentava o forte desejo de olhares sem julgamento. Até entender e olhar para esses olhares, sem receio. Segui experimentando a vida do jeito possível, à flor da pele, com meus tantos limites e outros tantos desejos.

Sempre é interessante voltar ao tema

Em abril de 2016 escrevi um artigo para o portal da cidade de Cachoeirinha, que ainda seria lançado. Não consegui acompanhar o andamento. Não sei se foi publicado. Reli o texto um dia desses. É um apanhado de quase tudo o que tenho falado sobre as minhas inquietações relacionadas à diferença, inclusão e acessibilidade. Mexi um pouco no texto e achei oportuno trazê-lo para o blog. É bom voltar ao assunto que me colocou entre os blogueiros do Sul21.

Inclusão e Acessibilidade

Assim que a causa das pessoas com deficiência física, visual, auditiva, mental ou intelectual conquistou a visibilidade necessária, a fala em defesa dessas pessoas foi para as ruas. Os discursos vieram para o centro da cena, instigando o debate sobre temas como acessibilidade, inclusão, respeito e diversidade, e projetos e leis foram criados para amenizar as dificuldades. Muitos olhares se voltaram para os diferentes e passaram a perceber suas carências e sua luta em busca de uma vida menos complicada e mais humana.

Não tenho dúvidas sobre a importância dessa conscientização, no sentido de sensibilizar, fazer pensar e estimular a mudança. Mas é bom ter claro que há algo mais urgente a ser feito para que as diferenças não causem tanto espanto, a superação não vire bandeira, a inclusão se incorpore naturalmente ao cotidiano das pessoas e o convívio se torne solidário. A educação, tão sucateada pelos governos atuais, é o caminho.

Educar para a diferença

É preciso educar, em casa e na escola, para a diversidade que constitui os indivíduos. Mostrar que a grande riqueza humana está no encontro das diferenças, nas múltiplas possibilidades e capacidades de cada um, na cooperação e na troca. Mas para isso é necessário falar sobre o preconceito com a criança, não sonegar informações, tratar com naturalidade suas perguntas, não contaminar seus olhares infantis tão livres e curiosos.

Para ir e vir com dignidade, precisamos muito mais do que discursos, leis e projetos. Por mais que tenhamos rampas, calçadas adequadas, balcões e banheiros adaptados, elevadores e ônibus acessíveis, equipamentos de toda ordem, difusão da língua de sinais e do sistema braile, campanhas pela inclusão e emprego através de cotas – conquistas sem dúvida fundamentais – tudo ainda será precário se a discriminação persistir. Não basta o cumprimento burocrático das leis. É fundamental desacomodar posturas sacralizadas e aprender cotidianamente a conviver com a diferença.

Não basta cumprir protocolos

Sabemos que as bem-vindas adaptações físicas do meio, que em princípio parecem fáceis de executar, são lentas, mal feitas muitas vezes e, se não houver fiscalização, ficam no campo da promessa. As empresas, o público e o privado de modo geral, acordaram para a importância do acolhimento, mas não sabem como fazer. Cumprem o protocolo. Apenas.

Acolher não significa passar a mão na cabeça, fingir que está tudo bem, minimizar a capacidade de trabalho. Acolher é compreender, orientar e exigir. As pessoas com deficiência necessitam ser percebidas na sua dimensão. Jogá-las em alguma atividade, sem saber das suas potencialidades, sem o devido preparo e sem o preparo dos colegas de jornada, é desconhecer o que significa efetivamente a palavra inclusão. Só encarando os limites, e todo temos limites, será possível subverter a ordem e mudar comportamentos. Nada muda por decreto. Há um caminho a ser trilhado com afeto e firmeza. E o princípio, como já disse, está na educação para a diferença.

 

Vamos falar sobre preconceito? – Pela diversidade, pela tolerância, pelas diferenças todas que nos desafiam, nos fazem melhores, nos tornam livres e múltiplos.

No dia 13 de junho, no Santander Cultural, participei de um encontro com estudantes de segundo grau que integram o programa Cidadania e Talento.com do CIEE-RS, módulo Comunicação. Falei e respondi muitas perguntas da garotada durante uma hora e meia. Mais uma vez, saí estimulada. Jovens atentos e curiosos acompanharam e participaram da conversa. A proposta que fiz foi falar de preconceito a partir da minha condição, ampliando para outros segmentos.

A seguir um pouco do que dividi com esse público especial

Conversa_Foto CIEE-RS

Se o nosso desejo é provocar a mudança, precisamos pensar coletivamente sobre o preconceito que nos ronda. Está em nós. Que sentimento hostil e grosseiro é esse que intimida, maltrata, humilha, vira piada, agressão, bullying? O que nos leva a rejeitar uma pessoa? É fundamental questionar os motivos que nos fazem discriminar e afastar alguém de um convívio que deveria ser natural. Quem tem uma deficiência física, mental, emocional, intelectual, por dificuldades auditivas ou de visão, é ignorada e, muitas vezes, jogada na solidão.

Lamentamos as barreiras físicas que encontramos no cotidiano, mas a pior barreira é o preconceito, fruto de uma sociedade prepotente, maniqueísta, que segrega e humilha quem não corresponde a um padrão de normalidade sem sentido. Uma sociedade hierarquizada, dividida em categorias absurdas, alimentada por uma elite cruel. Em nome de quê?

Esse comportamento está tão entranhado no inconsciente de todos nós que, às vezes, até parece normal. É o que sofrem as pessoas chamadas de deficientes, mas também os negros, os índios, a comunidade LGBT e tantos outros grupos. A presença desses seres “imperfeitos” e pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores, incomoda muito. Eles são a certeza de que a perfeição, assim como a tal “raça pura”, não existe.

Como os discursos já vêm prontos e embalados para serem assimilados sem crítica, é nossa obrigação desmanchar os pacotes e desorganizar a ordem social imposta, que alimenta o preconceito.

Meus pais tiveram duas filhas com nanismo. Contavam que o comentário que ouviam de muita gente era: “Não vão se criar”. Morando no interior, numa época de informação mínima, procuraram um médico. “Suas filhas têm nanismo”, foi o diagnóstico, seguido de uma observação, “o que não interfere no desenvolvimento intelectual”. Fomos para vida. Escola, faculdade, trabalho. Para espanto de muitos, nos criamos. Dificuldades? Fora do núcleo familiar, muitas! Especialmente na rua. Olhares curiosos, risos, dedos apontando, piadas, invasão da privacidade, perguntas indiscretas, brincadeiras indelicadas, toques desrespeitosos.

Comentários do tipo “isso é tamanho de gente”, “levanta do chão”, “não sabia que alguém como você se divertia”. Até já me deram parabéns por eu estar em um show com amigos. Como se para pessoas como eu isso não fosse permitido!

Avançamos muito pouco nas questões de acolhimento da diferença, da mais banal a mais complexa. É desolador perceber que, em pleno século XXI, sejamos ainda incapazes de ver e aceitar o outro naturalmente, sem pré-julgamentos.

Necessitamos de olhares livres, não contaminados, para ir e vir com dignidade

Insisto sempre em dizer que o preconceito não se resolve apenas com leis, normas e equipamentos. Necessitamos de olhares sensíveis e humanos. Olhares que reconheçam e acolham a diferença. As instituições (públicas, privadas ou independentes), incapazes de sair do convencional, se enredam em normas na tentativa de facilitar um cotidiano que desconhecem. Desperdiçam a maravilhosa chance de conviver e aprender com uma pessoa diferente, ouvindo dela o que ela precisa. E, por acomodação, perdem a possibilidade de entender a diversidade, inventar, reinventar, facilitar, mudar, quebrar rotinas.

Para além da condição física e intelectual, da profissão, da eliminação de barreiras físicas, acessibilidade é direito social. Inclusão é cidadania. Acolher não é favor. É perceber o que o outro precisa. É se abrir para outras capacidades. É estar atento para entender os limites, orientar e exigir. Acredito que educar para a diferença que constitui os indivíduos ainda é o melhor caminho, em casa e na escola.

Procurem olhar para quem é diferente. Não fujam desse enfrentamento. Falem sobre a diferença. Ouçam o que essa pessoa tem a dizer. Este é o recado que quero deixar para jovens como vocês, que logo vão estar no mercado de trabalho, constituir família, ter filhos. Ninguém é coitado, vítima, herói. Nem mais, nem menos. Temos comportamentos diversos, limites, sonhos, aptidões, convicções, direitos. É nosso dever lutar pela cidadania, livres das amarras do preconceito.

Com estudantes do Programa_Foto CIEE-RS

Lanceiros Negros – Por quê?

Quando reivindico inclusão, acessibilidade e respeito às diferenças, reivindico justiça e humanidade. Tudo o que faltou na triste noite de 14 de junho de 2017, na esquina das ruas General Câmara e Andrade Neves, no centro de Porto Alegre, em ação truculenta da Brigada Militar, comandada por um governo que não inclui, não acolhe, não respeita a diversidade, não entende o que é ser humano. Ou, melhor, não sabe do Ser Humano. Famílias da comunidade Lanceiros Negros foram arrancadas de um prédio que pertence ao Estado de forma violenta, covarde e desnecessária em uma noite fria, véspera de um feriado.

Sem condições de escrever sobre esta história de abuso de poder, prepotência, brutalidade e hipocrisia, busquei alguns comentários de pessoas que respeito. Poderia ter sido diferente? É óbvio que sim, mas quando o poder perde a lucidez, sobra só violência.

O retrato do descaso com o ser humano
Liza Cenci, Grupo Inclusivass – Clima tenso de guerra, tiros, bombas ao descer na rua da ladeira. Chego em casa e está cheio de fumaça. 70 Famílias despejadas. Frio na alma. Tristeza. Retrocesso.

Luis Eduardo Gomes, jornalista Sul21 – O José Ivo não curtia que eles estavam ali no Centro. Invasores dizia a nota do governo do Estado. E então mobilizou sua cavalaria e mandou tirar todo mundo de lá. Para preservar o prédio, dizia a nota, enquanto a Brigada arrancava a porta com uma caminhonete e destruía tudo por onde passava, incluindo as pessoas, suas esperanças, suas pequenas posses, suas noites quentes.

Jussara De Azeredo Sá, advogada – Importante esclarecer para quem está muitíssimo mal informado e defendendo o governador nessa reintegração covarde que acontece agora no centro de Porto Alegre. O imóvel é do Estado. O Estado é que moveu ação de reintegração de posse. Portanto, o Sartori. Um imóvel que estava abandonado há mais de doze anos! Ao menos se informem antes de defender o indefensável. Ah, e pra quem, na falta de argumentos e sensibilidade diz que se trata de uma “ocupação política”: sim! É uma ocupação política. O direito à moradia é uma questão política. O descaso com a moradia é uma questão política. A decisão de despejar as pessoas sem uma política social que garanta o direito à moradia é uma decisão política. A cidadania é uma questão política. Viver é um ato político.

Lu Vilella, Livraria Bamboletras – E ainda fazem “campanha do agasalho”. Hipócritas. Fascistas. Desumanos. Monstros.

Fátima Ávila – Ocupação Lanceiros Negros abriga famílias que perderam suas casas, muitas por conta do tráfico ou por terem perdido seus empregos. Cumpre um papel importantíssimo de dar moradia e dignidade a essas pessoas, papel esse que deveria ser do estado. O estado se nega a cumprir com seu dever e ainda por cima manda desocupar com violência policial um prédio que estava abandonado, jogando 80 famílias na rua em uma noite fria. Tem crianças, tem mulheres grávidas, tem GENTE lá dentro. São super organizados e acolhem pessoas, muitas vezes, que vieram do interior e não têm onde dormir ou o que comer para que consigam se reerguer. Que vida queremos pra nossa cidade? Que vida essas pessoas vão ter? Quem coloca a cabeça no travesseiro no quentinho da sua casa e não se preocupa com essa gente tirada à força e jogada na rua? E aí vem me dizer que querem uma cidade sem violência? Imaginem o trauma dessas crianças? Pra onde vocês acham que eles vão correr? Somos todos responsáveis por essa situação.
Leandro Selistre, designer – Hoje, 15/06, é o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa. Ontem à noite vários idosos foram agredidos na absurda atuação da polícia e do estado na Ocupação Lanceiros Negros. A justiça que mandou desocupar o prédio vai punir com o mesmo rigor essa violência?

Carmem Cecília Magalhães, professora – Meu Deus! Que atitude funesta desse governo Sartori. Tirando vidas do abrigo de um lugar que chamavam de lar e as jogando no relento da noite fria! O que vai testar nesse prédio abandonado e sem vida? Pedra e cimento onde antes ouvíamos vozes de crianças e bebês! Grande “obra desse governo”, um prédio fantasma igual ao coração seco e de pedra do governador Sartori. Qualquer obra que seja feita neste local após essa cruel desocupação será marcada pelas lágrimas dos que foram expulsos. A História jamais vai esquecer essa amaldiçoada ação desse governador. Ele será para sempre lembrado pelas lágrimas e pelo choro das crianças e bebês assustados e despachados na noite fria.

Jorge Correa, jornalista – Quando uma estrutura de tijolos e argamassa vale mais do que homens, mulheres e crianças, a civilização faliu. Cadê a humanidade?

Nina de Oliveira, jornalista – Quando a boate Kiss ardeu em Santa Maria/RS, naquele janeiro de 2013, levando mais de 200 almas, Cezar Schirmer era o prefeito da cidade e se eximiu de responsabilidades. Atualmente é o secretário de segurança do RS e, junto com o governador Sartori, autorizou o despejo de famílias, com suas crianças e velhos, da Ocupação Lanceiros Negros,usando de toda a força desnecessária da Brigada Militar, para mandar para a noite gelada os desvalidos. Os que vivem à margem desta sociedade desumana e desigual.
Para isto servem estes cidadãos. Para agir da maneira mais torpe, cruel e covarde. São gânsters. Andam em bando espalhando o terror. Ainda levaram preso o deputado do PT, da Comissão de Direitos Humanos, da Assembleia Legislativa, Jeferson Fernandes. Isto precisa ser denunciado. Todos precisam saber.

Daniel Soares, jornalista – Não é preciso dizer mais nada. Sartori e sua corja são criminosos. Comando da BM é capacho de um governador que atrasa salários, fecha escolas, quer vender patrimônio e ainda mantém um secretário de Segurança que afirma que a insegurança é imaginária.

Marco Weissheimer, jornalista – Chegando em casa agora da cobertura da ação de despejo da Ocupação Lanceiros Negros. Truculência é apenas uma das palavras para descrever o que aconteceu, entre ilegalidades flagrantes, como a ausência do Conselho Tutelar em uma ação contra famílias com crianças, cujo “crime” foi lutar por um teto para morar. Outra foi a notável falta de preparo e profissionalismo de integrantes da Brigada Militar, que abusaram da truculência e do desrespeito para com as famílias que estavam sendo despejadas do local onde viviam há um ano e sete meses. Para não falar da truculência com jornalistas que cobriam a operação. Mas não são necessários adjetivos. O melhor retrato sobre o que aconteceu é uma descrição sobre o que aconteceu na noite desta quarta-feira, no centro de Porto Alegre. Ao final do espetáculo de truculência e falta de compromisso social, os principais derrotados não foram os moradores da Lanceiros Negros, mas sim o governador José Ivo Sartori, o Judiciário e a Brigada Militar. Uma nota especial para a coragem do deputado Jeferson Fernandes, alvo de jatos de spray pimenta jogados à queima roupa em seu rosto e, especialmente, das famílias que resistiram e ousaram construir, no centro de Porto Alegre, uma alternativa de vida. Honraram o sentido do nome que escolheram para batizar esse espaço.

Dinorah Araújo, jornalista e atriz – Por que a Brigada Militar destruiu a biblioteca da Ocupação Lanceiros Negros? Destruir bibliotecas é uma ação usual dos governos autoritários, das ditaduras. Então, o que é o atual governo do RS?
Carlos Badia, músico – Programa Esfera Pública na Rádio Guaíba de POA sobre a questão da desocupação no prédio dos Lanceiros Negros está sendo extremamente esclarecedor. Rádio Guaíba dando show de jornalismo. Nenhum representante do governo do PMDB, mesmo convidado, se dignou a ir. Deve ser vergonha, pois como se está comprovando agora, a ação do governo através da brigada esteve repleta de equívocos jurídicos, que serão judicialmente investigados em profundidade a partir de agora.Sem falar na violência que foi injustificada, como se vê agora. Os índios que moravam na ocupação não puderam entrar no prédio hoje para pegar seus materiais de trabalho para vender no centro. Um equívoco atrás do outro. O governo do estado está sendo omisso nesse caso. Deveria dar uma satisfação à sociedade.

Adriana Franciosi, fotógrafa – Vergonha do Estado do Rio Grande do Sul. Ontem o governo Sartori, amparado pela decisão de uma juíza, que por sinal recebe auxílio moradia de 5 mil reais. desalojou 70 famílias com crianças na madrugada fria. A brigada Militar com sua truculência habitual contra pessoas de baixa renda, e até mesmo contra jornalistas, tirou as pessoas de um prédio no centro, o qual por 12 anos o Estado abandonou. E pior o governo Sartori, PMDB, faz isso sem ter um mísero plano para onde levar essas famílias.

Recuar, virar, mexer – descortinar o avesso

A solidão é minha, não é de mais ninguém! Assim como “a dor é minha só, não é de mais ninguém”, que ecoa nos meus ouvidos na voz de Marisa Monte. “Aos outros eu devolvo a dó, eu tenho a minha dor”. Ponto.

Quando se perde uma guerra, depois de algumas batalhas espinhosas, a recomendação é avaliar e, se necessário, recuar. Sinto que perdi e que é coerente no momento o recuo. Ao mesmo tempo, ao olhar pelo avesso, percebo que nada foi em vão. Sem dó. O que fiz foi por mim. Pelos meus valores e crenças, pelo que entendo por respeito, ética, solidariedade, amor, humanidade. Pelo que aprendi de um jeito muito natural com meus pais, avós, tios, amigos.

Pelo que aprendi vida afora, com a minha diferença. Não me encolhi diante do preconceito, mas soube me retirar em determinadas situações para evitar a exposição excessiva, às vezes cruel. E hoje poder falar com naturalidade sobre preconceito, invisibilidade social e inclusão no sentido de contribuir de forma efetiva para uma sociedade múltipla e libertária.

Se o aprendizado primeiro veio do ninho familiar, as asas ganharam ainda mais força na vida lá fora, no mundo do trabalho e nos tantos enfrentamentos. Na responsabilidade às vezes absurda, no cuidado que sempre tive com o outro, na maneira de levar a vida e de lidar com o conhecimento, o poder e o dinheiro. Nunca dei ousadia ao ter, mas ao ser. Desde sempre. Agora, com a maturidade, mais ainda.

Então, pronto!

"Travessias", por Tamar Matsafi

“Travessias”, por Tamar Matsafi

Dia desses, ao me sentir um Dom Quixote desesperado, uma visionária querendo mudar o mundo ao redor, parei para encarar os fantasmas que me atordoavam. E voltei alguns passos. Só assim para recuperar o fôlego e seguir acreditando que é possível, sim, mudar alguma coisa.

“Ande e olhe / Vire e mexa / Não se incomode / Com essa falta de assunto / Ande muito / Veja tudo / Não diga nada além / De dois minutos”, canta Gal Costa.

Andei, olhei, virei e mexi nas muitas linhas da vida, retas e curvas. Há tantos atalhos que podem nos levar por outros caminhos, formulando novas questões para não enferrujar, não acumular mágoas inúteis, não estagnar burramente. Ou, como disse o Diego Titello, há a possibilidade de olhar pelo avesso, considerar o contrário, o inusitado, para não cair no perigo da história única. “Ler o avesso do bordado é fundamental para entender os sentidos do desenho das linhas para além da superfície”.

Ler o avesso do avesso do avesso do avesso
A canção “Sampa”, que Caetano Veloso fez para São Paulo, cidade onde chegou muito jovem para impulsionar sua carreira, diz muito de tudo o que sinto.

“E quem vem de outro sonho feliz de cidade / Aprende depressa a chamar-te de realidade /Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso / Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas / Da força da grana que ergue e destrói coisas belas / Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas / Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços / Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva / Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba / Mais possível novo quilombo de Zumbi / E os Novos Baianos passeiam na tua garoa / E novos baianos te podem curtir numa boa.”

"O avesso", por Tamar Matsafi

“O avesso”, por Tamar Matsafi

Comunicação e direitos humanos – uma conversa olho no olho com alunos do Jornalismo e de Publicidade e Propaganda da Feevale

No dia 22 de maio vivi um momento raro de alegria e realização pessoal e profissional. Fui convidada para falar com os alunos do Curso de Comunicação (Jornalismo e Publicidade e Propaganda) da Universidade Feevale, a partir do tema Comunicação e Direitos Humanos.

Encontro alunos Comunicação_ Feevale

Que papel exerce a mídia nesses tempos em que a cultura do sucesso é exaltada e a sociedade insiste em dividir as pessoas em vencidos e vencedores? Qual a relação entre a cultura midiática e o aumento do bullyng? Por que a mídia insiste na superação quando se refere às pessoas com deficiência, aos negros, aos marginalizados de um modo geral, quando ocupam um lugar que a sociedade entende como lugar da “normalidade”? Estas foram algumas das questões que orientaram a minha conversa olho no olho com alunos atentos, que fizeram muitas perguntas. Neste dia, tomei contato com um trabalho sensível, humano, questionador e contemporâneo desenvolvido pelo grupo de professores em parceria com os estudantes.

Me senti em casa. Além da recepção carinhosa e acolhedora, um auditório lotado, de olhares atentos e instigantes. Saí reabastecida, com a certeza de que é possível mudar, formular outras questões e incluir esta discussão na formação dos nossos jovens.

Mais uma vez, agradeço à professora doutora do Curso de Jornalismo Sarai Schmidt e à equipe linda, ativa e apaixonada que trabalha com ela e os demais professores.

Encontro com alunos da Comunicação Feevale_Só alegria

A seguir um pouco da minha fala
É muito bom compartilhar experiências e inquietações que cercam a vida de pessoas que, como eu, têm uma dificuldade marcante. E é um desafio estimulante falar sobre Comunicação e Direitos Humanos, universos que transitam por fronteiras muito vulneráveis nesses tempos em que o debate reflexivo perde espaço para a polarização raivosa.

A pergunta é: Como tratar de temas como deficiência, acessibilidade, inclusão e preconceito, evitando cair no heroísmo, no fetiche, no sensacionalismo, no clichê, na vitimização, no paternalismo, no estereótipo, no constrangimento e na superação tão endeusada pela sociedade e reforçada pela mídia?

Para começo de conversa, é preciso entender que inclusão não é concessão, como são percebidos os direitos das minorias efetivados sob o viés do benefício e da bondade. Os espaços de representatividade e de legitimação da diferença são ainda pontuais e frágeis.

Portanto, falar sobre o assunto e encarar a repercussão da diferença na sociedade em que vivemos são tarefas necessárias. Contraditoriamente, me parece que quanto mais falamos em diversidade e conquistas sociais, mais cresce a intolerância, o que escancara o despreparo de todos nós para o convívio com a diferença.

A sociedade reserva um lugar para quem foge dos padrões de normalidade sobre os quais o mundo está estruturado. E, sem nos darmos conta, reforçamos esse lugar sem questionar. Ninguém se espanta ao ver o negro como porteiro, operário, empregada doméstica, porque este é o espaço que lhe cabe. Assim como ninguém se admira ao ver o homossexual como costureiro, cabeleireiro, fazendo o gênero pitoresco, irônico, com humor fino, ferino. O anão divertindo as pessoas, dando cambalhotas, sendo alvo de chacota, ou como figura mágica, também não espanta. É o que lhe cabe no latifúndio da perfeição. Portanto, vê-los respondendo ao discurso já dado sobre eles, que a mídia reproduz porque dá ibope e atrai público, não espanta ninguém. É perfeitamente natural e chega a ser condição para que sejam incluídos.

O espanto surge quando rompem esses espaços. Aí a diferença assume outras proporções e a sociedade se defronta com o que não quer ver e, de certa forma, rejeita. Rejeição explicitada pelo preconceito diante da pessoa real, de carne e osso, com sentimentos, paixões, contradições e a sua DIFERENÇA.

É nesse confronto que as pessoas que fogem do padrão por opção sexual, religiosa, de raça, cor, ou por algum tipo de deficiência, física, mental, intelectual, surdez, dificuldade de visão, uso de cadeiras de roda, enfim, instauram a desordem e desorganizam a frágil organização da sociedade.

E aí somos assoberbados pelo discurso da superação
A pessoa com deficiência tem que provar o tempo todo que é capaz. “É o famoso ‘matar um leão por dia”. E a mídia só contribui para isso. Segue falando ‘o deficiente’, por exemplo, e investe no sensacionalismo. Se não tem superação, não tem notícia. É a pessoa com deficiência que deve se adaptar à sociedade, e não o contrário.

Só vamos chegar ao desenvolvimento social que buscamos quando entendermos que cada um tem contribuições a dar, a partir do seu jeito de ser e de ver o mundo, do seu saber e da sua maneira de colaborar para a qualidade de vida de todos. SEM SUPERAÇÃO! A luta dos cidadãos é a mesma. Contra a discriminação, contra o apartheid, contra a falta de oportunidades, contra a reiterada posição de discriminar parecendo que não está discriminando.

A importância de pensar o papel dos meios de comunicação
A mídia é formadora de opinião, portanto tem uma responsabilidade fundamental neste sentido: mostrar a vida como ela é, tratar de questões que envolvem a deficiência e o preconceito com naturalidade e verdade, denunciar, apontar leis que preservam os direitos das pessoas com deficiência, sem alimentar mitos, nem transformar os deficientes em vítimas, heróis ou guerreiros a serem admirados.

Precisamos estar atentos aos efeitos do discurso dos meios de comunicação sobre a diferença. É importante instigar, fazer pensar, mas evitar o sensacionalismo, que não contribui em nada para causa nenhuma. Precisamos de mais civilidade, mais humanidade e mais sabedoria ao falar da deficiência, seja ela qual for.

O tratamento dado aos anões pela mídia, especialmente no rádio e na televisão, é abusivo, para não dizer cruel. Comunicadores de programas como Manhattan Connection e Pretinho Básico, da Rádio Atlântida, já fizeram comentários absurdos, infelizes e preconceituosos sobre os anões. E vou me poupar de falar aqui de programas de auditório como o de Rodrigo Faro, Ratinho e Faustão, que prestam um desserviço para a causa. Só tratam do estereótipo, sem nenhum contraponto. Pelo discurso desses comunicadores, quase nazista, não é delegado ao anão um comportamento humano.

Como todo comunicador, que precisa ser interessante, chamar a atenção, preencher um espaço, garantir a audiência para o bem ou para o mal, sem pensar ou questionar, eles ironizam grosseiramente a condição de vida dos anões, demonstrando farta ignorância sobre a diferença e a deficiência.

O que é possível fazer? Não deixar passar. Denunciar sempre. Criticar. Não se submeter. Formular novas questões. Tarefa para jovens como vocês que em breve estarão no mercado de trabalho.

Para encerrar, lembro duas frases de canções de Caetano Veloso, que podem funcionar como uma bússola nessa jornada: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” e “De perto ninguém é normal”.

Não somos nem vítimas nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com a nossa dificuldade.

A poesia, a condição humana, a experiência que nos salva!

Tudo é tenso. Tudo treme. Tudo é ponto de interrogação. “A espera desespera”, escreve o poeta de “a vida das sobras”, Carlos Caramez. Não sabemos nada. O momento é de apreensão. A vida na ponta dos dedos. O coração aos pulos, com direito a um respiro/suspiro prolongado entre um baque e outro. Para não morrer da espera asfixiante. Essa é a condição. É o que nos sobra nos momentos cruciais.

E por falar em “a vida das sobras” (Editora Leitura XXI), o livro está nas livrarias de Porto Alegre. Recomendo! São poemas curtos, vigorosos e proféticos. Um alerta. Falam de uma geração que sonhou, se desesperou, lutou para voltar a sonhar e vê o sonho escapando pelas mãos. Há no tecido poético vozes de quem não desiste. O livro do jornalista e produtor cultural Carlos Caramez encerra a trilogia “poemas incuráveis”, formada por “Última Safra do Silêncio” (Mercado Aberto/1998 – Prêmio Açorianos de Literatura em 1999) e “Construção das Ruínas” (Leitura XXI). O site do poeta é https://www.carloscaramez.com/

a vida das sobras_____CarlosCaramez_Capa*
Diante da certeza de que “não há guarda-chuva contra o mundo”, como escreveu João Cabral de Melo Neto no poema dedicado a Carlos Drummond de Andrade, e da vulnerabilidade de todos nós, reafirmo: Sempre me comoveu e comove a condição humana. Hoje, com a maturidade, ainda mais. Diante do inexorável, aprendi que o que nos ampara é a solidariedade, o amor, a generosidade, o ver o outro na sua dimensão e a luta coletiva.
*
Nos hospitais, de um modo geral, porteiros, auxiliares e pacientes me olham com um misto de pena, curiosidade, espanto e vários pontos de interrogação. São gentis. Não me dizem não. Minha figura, de alguma maneira, os comove. Se me comunico, peço alguma informação, aí tudo se transforma em admiração. E, claro, normalmente, liberam a pergunta que não quer calar, o que eu faço. Quando digo que sou jornalista o milagre se dá e os rostos se enchem de sorrisos. Jornalista? Não tenho dúvidas de que por trás dessas reações, às vezes tão absurdas, está uma grande incredulidade – como uma pessoa assim chegou nesse lugar?
*
Em meio ao caos, o relato comovente da metamorfose de uma mãe aponta para a luminosidade. E nos salva! Com a palavra Flávia Berti Hoffmann, mãe de Bernardo, que tem nanismo.

Minha metamorfose sendo mãe!
“Eu já fui mãe que buscou os porquês quando soube que teria um filho com deficiência. Já fui mãe que sofreu por ter poucas informações sobre nanismo e por não saber como seria o futuro do Bernardo.
Sou mãe que quando saio na rua com meu filho, não passamos despercebidos, somos alvo de olhares curiosos e também carinhosos. Sou mãe que já escutou em alto e bom tom: “acho que ele tem um probleminha”
Já acreditei que o preconceito teria fim, hoje vejo que isso faz parte de alguns seres humanos, e esses, eu quero longe da minha vida.
Já me intitulei mãe especial, mãe abençoada, privilegiada e outras tantas.
Hoje sou inclusiva e informada, mas antes de tudo apenas MÃE!
Minha maior conquista? Não associar tudo que acontece, principalmente na vida do Bernardo, com a acondroplasia. Afinal de contas antes de qualquer rótulo, deficiência ou alteração genética, ele é uma criança.
Hoje posso dizer que, se tenho alguma missão na vida, é a missão de ser mãe e mostrar para ele que todos temos dificuldades, somos todos diferentes fisicamente, mas que o coração deve estar sempre cheio de sonhos e amor!”.

Bernardo*
Comunicação e Direitos Humanos
É estimulante também o convite que recebi da professora doutora Sarai Patricia Schmidt, do Curso de Comunicação da Feevale. Nesta segunda-feira, 22 de maio, às 19h30min, vou falar sobre Comunicação e Direitos Humanos para os alunos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da instituição.
Um debate necessário nesses tempos turbulentos. E, claro, um grande desafio. Comunicação e Direitos Humanos são universos que transitam por fronteiras muito vulneráveis. A pergunta é: Como tratar de temas como deficiência, acessibilidade, inclusão, preconceito, evitando cair no heroísmo, no fetiche, no sensacionalismo, no clichê, no estereótipo e na tão endeusada pela mídia superação?

 

“Laerte-se” e vá além, sem medo do avesso de todos nós

No dia 22 de abril foi lançado em São Paulo, no Reserva Cultural, o documentário “Laerte-se”, direção de Eliane Brum e de Lygia Barbosa da Silva, que também assinam o roteiro em parceria com Raphael Scire. A montagem é de Nani Garcia. A produção tem a assinatura de Lygia e Raphael. A realização é da Tru3Lab para a Netflix e a partir do dia 19 de maio estará disponível na Netflix para 190 países.

O filme revela um pouco mais dessa criatura libertária, ousada e inquietante chamada Laerte Coutinho, cartunista e chargista. Suas buscas, o feminino e tantas questões que dizem respeito à mulher que se insurgiu nessa caminhada, quando, aos 57 anos, Laerte assumiu sua transexualidade e passou a viver uma experiência inusitada.

Laerte - foto divulgação documentário

Laerte – foto divulgação documentário

Para Eliane, que conduz a entrevista no filme, o momento de mostrar para o mundo algo que se cria, neste caso uma criação coletiva, é, “ao mesmo tempo tão alegre, ao mesmo tempo tão frágil, ao mesmo tempo tão trêmulo.” E ela tem toda a razão! E esse momento que vem através da arte é singular, denso e tenso na sua amplitude. É revelador do avesso do avesso do avesso de todos nós.

Laerte Coutinho é tão surpreendente na sua busca que até virou verbo – Laertar-se

A sinopse do filme diz que “Laertar-se ao mesmo tempo que impele ao movimento, como um imperativo de vida, se volta para si, numa interrogação persistente. Mas aquela que retorna não é o mesmo que foi. E isso a cada volta. Ao acompanhar Laerte Coutinho em seu percurso de investigações sobre o que é ser uma mulher, o documentário também se faz ponto de interrogação. Ou apenas espaço de possíveis”.

No documentário, “Laerte conjuga um corpo no feminino, esquadrinha conceitos e preconceitos. Não busca identidade. O que conjura são desidentidades. Laerte é filho e filha, é vó e vô. É também pai, de três filhos, órfão de um. É ainda quem leva a filha ao altar como pai e como mulher. E quem, mesmo sem útero, gesta. Envia suas criaturas para confrontar a realidade na ficção dos quadrinhos como uma vanguarda de si. E, nas ruas, ficciona-se como personagem real”.

“Laerte, pessoa de todos os corpos e de nenhum, embaralha qualquer binarismo. Ao indagar sobre Laerte, este documentário escolhe vestir a nudez, aquela que vai além da pele que se habita”.

Depois do lançamento, a agenda que vem pela frente é motivo de alegria para Eliane “porque os documentários têm pouco ou nenhum espaço nos cinemas brasileiros”. Os dois documentários anteriores dela, “Uma História Severina” e “Gretchen Filme Estrada”, percorreram o mundo, mas muito pouco frequentaram as telas de cinema no Brasil. “E a gente faz um filme para que ele possa ser visto e debatido, para que ele produza algum movimento interno nas pessoas. Para que ele tenha sua própria aventura no mundo”.