Quando escrever é resistir

Minha fala no encontro com alunos das professoras Sabrina Vier e Márcia Lopes Duarte, na Unisinos, em 4 de setembro. Uma noite de muita emoção, muita troca e muito afeto, a partir do tema “A escrita como um ato de inscrição”.

Estou diante de um desafio. Não me sinto autorizada ou, melhor, não me sinto segura para falar sobre um tema tão vasto e tão profundo. Mas me sinto à vontade, pela experiência adquirida vida afora, para afirmar que escrever é resistir, que a palavra liberta. O professor, sociólogo e crítico literário Antônio Cândido diz, em um texto sobre literatura que “pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo, a literatura nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza”. E na literatura está a palavra. Está escrita.

Sou uma leitora de tudo o que me cai nas mãos desde os tempos de escola. E sempre gostei muito de escrever. Fui uma escritora de cartas para os amigos. Minhas agendas eram verdadeiros diários do cotidiano. Quando entrei para o jornalismo essa necessidade virou trabalho, o que sempre fiz com prazer. Tenho o hábito de carregar um bloquinho e uma caneta na bolsa porque, invariavelmente, vou usar. Os horizontes que descortinei através da leitura e da escrita abriram muitas portas na minha vida, externas e internas.

Acredito que escrevemos por inúmeras razões, mas a escrita é para mim uma espécie de tábua de salvação, de amparo, de norte. Faz ecoar vozes que poderiam me sufocar, logo me faz respirar. É um impulso para a vida lá fora. Uma espécie de válvula de escape, entre a realidade e o delírio, por onde transita uma inquietação/interrogação sobre a condição humana, sobre o fim inevitável e o desejo de permanência.

Escrevo “para suportar o buraco, para criar sentido ao que não tem sentido, para não matar e para não morrer, para desacomodar”. Esta afirmação é da jornalista Eliane Brum, repórter e escritora que consegue traduzir em palavras, com sensibilidade rara, esses tempos sombrios.

“As palavras ancoram por um momento”. Portanto, a escrita é uma forma de resistência e de afirmação. É uma maneira de nos vermos existindo. É o que fazemos para não enlouquecer, muitas vezes.

Foi a dor avassaladora que senti ao perder minha irmã que me levou a escrever vertiginosamente. Como uma maneira de não desistir, de preencher um vazio insuportável, de não sucumbir. Um ano depois da morte da Marlene, professora do curso de Letras da Unisinos, que tinha nanismo como eu, publiquei meu primeiro texto no blog isso não é comum, do site Sul21.

Quase sem perceber, fui abrindo portas. Tomei contato com pessoas que, como eu, eram diferentes e estigmatizadas cotidianamente. Ampliei meus relacionamentos, me fortaleci. Sensibilizei ainda mais o olhar para o outro e entendi que falar da diferença que me constitui é encarar a fragilidade da condição humana. É contrapor-se ao preconceito de qualquer natureza. É saudar a diversidade tão necessária para uma vida libertária.

A escrita pode vir de muitas maneiras. Do que não entendemos. De uma preocupação com os caminhos/descaminhos da humanidade. Da constatação de que o poder é corrosivo. Da triste certeza de que a destruição da natureza é real. De inúmeras questões que pontuam o cotidiano, o nosso tempo. Ou todos os tempos. Ou de uma necessidade de desbravar espaços interiores, dores escondidas, revelar segredos da alma. Sempre na tentativa de entender/absorver a realidade, o que está fora, a vida que nos escapa a todo momento. O que virá, entre um assombro e outro.

Pode ser uma recusa ao que está dado, aos clichês repetidos exaustivamente para justificar descaso e desconhecimento ou explicar o inexplicável. Pode ser um jeito de mostrar que cansamos dos discursos, das promessas vazias, da hipocrisia social.

É uma maneira de não sucumbir diante das adversidades e seguir firme, apesar da dor. É assumir o protagonismo da nossa condição, a nossa singularidade diante do olhar do outro, daquele que te olha e te vê como um sub-humano, impulsionado pelo olhar de uma sociedade despreparada que ergue barreiras quando deveria derrubá-las.

É assumir um lugar de fala, Fora do institucional, como escreve a filósofa Djamila Ribeiro, autora do livro “O que é Lugar de Fala?”. É estar atenta às frestas do cotidiano e ao que escapa por elas. Qual é o nosso lugar de fala, de escrita, no Brasil atual? Como não alertar as pessoas diante do que está aí, do desmonte premeditado no campo da educação e da arte?

Muitas pessoas me perguntam se, a partir do que escrevo sobre deficiência, acessibilidade, inclusão, preconceito, direitos humanos, já recebi retorno do poder público ou de algum órgão governamental que trate de questões que envolvam a diferença, seja ela qual for. Minha resposta: Nenhum retorno.  Outra pergunta: Alguma coisa mudou neste período? Resposta: Quase nada. Mais uma pergunta: Não é desestimulante? Resposta: Não! Desistir seria desolador. E a escrita me organiza e me desafia.

Estamos no lugar errado? Somos inferiores? Nossas vidas são indesejadas, tortas, erradas?

Quase ninguém vê a singularidade de uma pessoa com deficiência que transpõe infinitas barreiras físicas e sociais todos os dias. No sentido prático, o que realmente esses olhares veem, querem, a não ser nos depreciar? O que entendem por inclusão? Apontam algum tipo de acessibilidade? Quem está preocupado com estas questões? O que pensam autoridades, governos, profissionais de Engenharia e Arquitetura, se é que conseguem pensar para além do seu quadrado!

A invisibilidade está novamente decretada, apesar de nossas tão suadas lutas e conquistas. Não reconhecemos tais criaturas, parece dizer, toscamente, quem comanda a nação, enquanto o preconceito autorizado vai se alastrando como peste.

Diante deste cenário, a escrita se torna vital. Não podemos perder a possibilidade de usar a nossa voz, que está na palavra, para ampliar os horizontes na convivência com as diferenças. É na diversidade que libertamos nossos olhares e fazemos as vozes ecoar. É na diversidade que está a grande riqueza humana.

Ler, por exemplo, a coluna de Eliane Brum semanalmente é um exercício fundamental para reorganizar ideias, certezas e incertezas sobre a humanidade que habita em nós, para sentir e promover a alteridade, acolher, coexistir, respeitar, cuidar, amar todas as vidas.

A escrita de Eliane, também chamada de jornalismo literário, possibilita uma experiência de empatia incomum, quase impossível no jornalismo tradicional, comprometido com a impossível verdade dos fatos. Sem contraponto!

Portanto, a escrita, a palavra, é fundamental para narrar, contar um fato, resistir e interferir nos caminhos da história, possibilitando a vida e o sonho.

Precisamos de mais bibliotecas nas escolas públicas. E precisamos entender que bibliotecas não são apenas lugares onde se guardam livros. São espaços vivos, de convivência, de descobertas, de promoção de leitura, de conversas, de compartilhamento de ideias que ampliam nossos horizontes, de formação de leitores para além do que circula pelas mídias sociais, tão carregadas de ódio e preconceitos.

A possibilidade da expressão natural através da escrita, da posse e do uso da palavra, nos dá a chance de exercer a cidadania, de sermos sujeitos ativos do mundo que habitamos, de nos ver existindo e reconhecer o outro, a humanidade que nos é comum e, assim, promover naturalmente o cuidado com a vida, todas as vidas. Segundo o professor Luiz Percival Leme Britto, doutor em Linguística, pesquisador e formador de professores da Universidade Federal do Oeste do Pará, que atua na área de Educação e Linguagem, “sem a posse da palavra não há liberdade possível”. Portanto, é urgente que tomemos a palavra. É urgente que cada um se inscreva como sujeito responsável por seus atos e pelo meio social onde vive. Não somos ilhas.

Não somos mais uma nação?

A notícia de que moradores do bairro Cabo Branco, de João Pessoa, querem proibir pessoas com deficiência de frequentar a praia para não tirar “a beleza de um bairro nobre da cidade” – é estarrecedora. Que elite prega tal segregação? A da raça pura do nazismo na Alemanha? A do fascismo de Mussolini na Itália? A dos escravocratas do Brasil colonial, que traziam negros da África para servi-los? A dos saudosos da ditadura que matou e torturou? A do poder econômico, achando que tudo pode porque detém o dinheiro que circula no país? Dinheiro que é fruto do trabalho da maioria da população, muitas vezes explorada. Dinheiro que é sonegado. Dinheiro que é desviado.

O que seria desta casta superior não fosse o suor de quem está na base da pirâmide?

Pelo que sei, as areias e o mar são públicos. “Não fazem diferença de classe social, cor, etnia, origem, gênero. Inclusive os animais são bem-vindos”, como afirmou a vereadora Helena Holanda (PP), uma das autoras do projeto “Praia Acessível”. Projeto que provocou a ira dos endinheirados, chiques, bem vestidos e mal educados frequentadores do local. A ação inclusiva leva para a praia aos sábados pessoas com deficiência para participar de atividades musicais e esportivas na orla. Os moradores incomodados, segundo a vereadora, pediram a retirada do projeto porque “não estaria trazendo um ‘quadro belo’ para a vizinhança”. Helena reagiu e afirmou que vai ampliar o programa, “com o aval da prefeitura de João Pessoa, e levar ao Ministério Público a denúncia de discriminação de moradores”.

O que seria um ‘quadro belo’ para tais pessoas?

É fato. O ambiente social e político da contemporaneidade naturalizou a barbárie. A classe dominante gargalha e consome, enquanto a Amazônia arde. A classe política se acovarda no parlamento, enquanto o Brasil é humilhado. E o governo segue desgovernando. A educação foi abandonada. A ciência e o conhecimento viraram crimes. A previdência social começou a ser destruída. E a produção artística, feita por vagabundos que não querem trabalhar, perdeu patrocínios e apoios.

O preconceito e todo tipo de discriminação recrudesceram no Brasil, e no mundo, neste ano de 2019. Minha experiência, minhas andanças pelas ruas, meus ouvidos atentos, minhas leituras e minha sensibilidade confirmam. Vivemos tempos nada gentis por aqui. Nada acolhedores. Nada empáticos. Tempos de soberba. Tempos de prepotência. Tempos de descaso com o outro. Estamos todos fora dos armários, desvairados, sem limites, nos engalfinhando de um jeito assustador.

É o que nos sobra quando a violência é autorizada e apoiada por quem detém o poder. E insuflada por seus asseclas.

Não somos mais uma nação. Na pátria amada Brasil de hoje mais vale a sordidez, o deboche, as conversinhas hipócritas e banais nas redes, as notícias falsas, a provocação, a polarização. Enquanto o fogo queima o pulmão do mundo e a fumaça se espalha, sufoca, escurece, o país se desumaniza e é manchete que nos envergonha no mundo inteiro. E seguimos nos debatendo. Até quando? Quem se importa?

Recomendo a leitura do texto de Tarso Genro no Sul21 –

https://www.sul21.com.br/colunas/tarso-genro/2019/08/bolsonaro-sai-da-animalidade-e-entra-na-historia/

E a última coluna assinada por Fernanda Young em O Globo –

https://oglobo.globo.com/cultura/em-sua-ultima-coluna-fernanda-young-sentencia-cafonice-detesta-arte-23903168?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar&fbclid=IwAR0zaV1C4cDQuMZDrL_TFYbYFURu53QfAOQ8Zrb5SavKoeWmiJPIsevRQ

Amaro Abreu na Bahia com Vida Paralela e Habitat

Retomo aqui uma história de 2016, quando encontrei, por acaso, Amaro Abreu no centro de Porto Alegre e paramos para um café. Ele contou que estava finalizando um livro e me convidou para escrever um texto. Fiquei surpresa, emocionada e feliz. O pedido vinha de um cara que conheci criança no início dos anos 1990. Já não era mais uma criança, claro, mas os olhos e o sorriso ainda guardavam o brilho da infância. Aquela infância que não abandona quem segue brincando através da arte.

Descobri que Amaro já havia desvendado um vasto mundo. Articulado, criativo, observador, levou seus olhos para outras paragens. Bisbilhotou, desenhou, pintou, grafitou. Rabiscou a vida diversa que pulsa em todo lugar com seus lápis, tintas, sonhos, sprays, emoções, nanquim, fantasias, aquarelas e desejos. Desvendou novos cenários. Compartilhou outros jeitos de viver e foi deixando em muros e painéis suas criaturas inusitadas.

Naquele encontro disse que havia lido alguns textos do meu blog e gostado muito. Quando me conectei com suas criações, entendi o que nos sintonizava. As criaturas que Amaro vai desenhando e espalhando por aí fazem parte de um universo vasto e inquieto.

Amaro Abreu é um artista urbano, grafiteiro, aquarelista. Está apresentando no Instituto Goethe, em Salvador/Bahia, a exposição “Vida Paralela” com o lançamento do livro “Habitat” (Libretos, Porto Alegre, 2016). A seguir, o texto que escrevi para o livro.

O Habitat de Amaro Abreu

Das mãos de Amaro Abreu nascem figuras que dizem muito da vida vertiginosa que levamos, das raízes que nos amparam, das ilhas que formamos para nos proteger, da diferença e da fragilidade que desacomodam nossas certezas, da diversidade que nos constitui como sujeitos únicos, das luzes e das sombras do cotidiano, da liberdade que buscamos.

As criaturas que Amaro vai desenhando e espalhando por aí desconsertam, inquietam, alegram, preenchem, fazem rir, emocionam. Coloridas e disformes, delicadas e fortes, às vezes são incrivelmente líricas, pura suavidade e leveza, e nos convidam a bailar. Em outras, surgem como fortalezas que guardam tesouros humanos preciosos, provocando um pensar incessante. Fazem parte de um vasto universo fora da ordem, que sempre me fez refletir, falar e escrever, hoje quase que cotidianamente, na tentativa de entender os humanos e seu Habitat.

Que segredos guardam esses seres do Habitat de Amaro, ao mesmo tempo circenses e melancólicos, brutos e lúdicos, enraizados e soltos, frágeis e fortes, nesse misto de tristeza e alegria? Saltitantes, voadores, lisérgicos, à beira do abismo, amordaçados, à espreita, olhos arregalados, despedaçados e inteiros, ingênuos e intrépidos, suaves, carnavalescos, genuínos na sua adorável imperfeição, o que querem dizer assim tão inconstantes?

Dizem de nós, seres fragmentados, assustados, urgentes, às vezes dilacerados, felizes e infelizes que somos. Humanos?

Dizem dos outros que nos habitam. Revelam nossas tantas faces, nossa polaridade, nossos sentimentos divididos diante do mundo multifacetado, encantador e cruel, que descobrimos, exploramos, construímos, destruímos, reconstruímos. Habitável?

Dizem da frágil condição humana e das vidas paralelas que, estranhamente, tentamos equilibrar.

Dizem de nós, tão coletivos e tão solitários nessa caminhada frenética em busca de um final feliz.

Ao trabalho, então!

O que me desencanta ainda mais nesses tempos obscuros, de desmonte do que é voltado para a dignidade humana, é perceber que mesmo algumas pessoas que se intitulam democratas não conseguem respeitar o trabalhador. Os discursos libertários em nome dos cidadãos ficam no plano teórico quando se trata de mostrar serviço a qualquer custo. É produção, renda, dinheiro, exploração, lucro, aparência. Já vi muito e sigo percebendo essa tamanha distorção. Na prática, trabalha-se hoje muito mais do que as horas estipuladas, se é que ainda se estipulam horário e função.

Aliás, os trabalhadores, nesta era insana de celulares e rede social que não têm limites, devem estar sempre disponíveis porque, inevitavelmente, serão convocados. A qualquer hora do dia ou da noite, feriados e finais de semana. Isto porque tudo, mesmo a ação mais banal e óbvia, corriqueira, precisa estar na rede. Todos precisam se mostrar. Para quem mesmo? Dane-se a vida pessoal, o ócio necessário para a criação, o afastamento saudável para renovar energias e olhares.

“A tecnologia nos fará trabalhar menos.” Quem foi mesmo que disse isso?

Os discursos, tão sociais e politicamente corretos, foram esquecidos. A empresa, o executivo, o chefe ou quem quer que seja, precisa garantir poder e status. Tu serás acionado, sim, nas vinte e quatro horas disponíveis porque a ansiedade pela ansiedade de quem te banca, empresários, patrões, chefias, e a tua própria, já não reconhece outra forma de gerir um negócio, de trabalhar.

Poucos conseguem admitir que, em muitos casos, o que poderia ser feito hoje pode ficar para amanhã. Nada vai se perder. Reside aí uma grande dificuldade de ver o subjetivo que há em qualquer ação de trabalho, uma questão humana por excelência. E volto à nossa incapacidade de olhar para o outro, de sair do burocrático, da norma, e reinventar o fazer cotidiano.

Ao trabalho, então! Mesmo com os salários vergonhosamente atrasados e reduzidos, o que não importa. Afinal, os governos – pobres governos! – têm sérios problemas. E por conta desses problemas, sempre os mesmos, conseguem passar quatro anos se lamentando, de um jeito heroico, claro – “estamos fazendo o possível para colocar as contas em dia”.

Definitivamente, não entendo por que os políticos ainda se dispõem a concorrer para um cargo público. É muito sacrifício, minha gente! Mas certamente seus salários polpudos não atrasam. Está certo. Vereadores, deputados, senadores e seus comparsas precisam ser bem remunerados para justificar tanta dedicação!

Um grito preso na garganta

Os anos 1980 ficaram conhecidos como a década perdida. Saímos de uma ditadura cruel, que perseguiu, censurou, torturou e matou sem piedade, e mergulhamos em uma “abertura lenta, gradual e irrestrita” proposta pelo ditador Ernesto Geisel. Panos quentes no passado autoritário. Melhor não falar. Melhor, ainda, negar. Mas uma grande pressão popular gerou o movimento Diretas Já e o que se conseguiu foi uma esfarrapada eleição indireta, com Tancredo Neves na linha de frente, que adoeceu e não chegou a assumir. Morreu em 21 de abril de 1985. Seu vice José Sarney, que sempre estava ao lado do poder, não importava de onde viesse, articulando e negociando, assumiu a presidência. Dívida externa infinita, inflação altíssima, economia conturbada. E vieram os planos para salvar o país – Cruzado, Bresser, Verão. Até que apareceu o milagroso Caçador de Marajás, Fernando Collor de Melo, capa da Revista Veja. O discurso, moralista e salvador, prometia colocar ordem na casa. E como gostamos de acreditar no conto da carochinha, elegemos o senhor da caça. Deu no que deu!

É mais ou menos desta época a crônica que segue.

Um grito preso na garganta

A noite avança inquietante. Talvez porque seja domingo e as ruas estão quase desertas. Faz frio e a cidade se recolheu cedo. Nem os bêbados cruzam na sua confusão de pernas em busca de um porto seguro. Nem os contumazes frequentadores dos bares da madrugada, em busca de um papo para disfarçar a solidão.

A noite avança misteriosa. Quase sinistra no silêncio pesado das suas esquinas vazias. Os poucos sinais de vida despontam de algumas janelas iluminadas e da minha respiração tensa, que nunca senti tão forte. Caminho espreitando os tantos espaços em minha volta. Medrosamente. É um tempo de guerra, fria, surda, contida, dolorosa. E tenho um grito preso na garganta, que esperava se diluísse com os novos tempos. Mas não! Segue preso e quase me sufoca.

E lá vem a lembrança de uma canção, de Caetano Veloso, mais uma – “eu tenho um beijo preso na garganta / eu tenho um jeito de quem não se espanta / eu tenho corações fora do peito”.

A esperança alimentou em mim a certeza de mudança, mas os novos tempos chegaram velhos e corrompidos. Aninharam-se na mesma cama do poder prostituído e se encolheram diante do desafio de jogar o jogo da verdade e recomeçar fora dos alicerces que sustentavam a corrupção e a mediocridade.

A noite avança escura e triste. E eu caminho apreensiva, como se um batalhão de fantasmas me perseguisse. Não os adoráveis fantasmas da fantasia infantil. Os fantasmas da vida real, que impediram a mudança. E agora querem impedir que se questione, se fale, se diga não. Querem nos calar, instalados solidamente na farsa que insistem em chamar de democracia.

A noite avança inexoravelmente. E a manhã que não chega nunca!

Que outro jeito? Eu vou!

Uma crônica escrita em junho de 1987, que me parece muito atual.

Nem tudo estava tão certo naquela tarde fria aparentemente serena e azul. Qualquer coisa mexia e remexia por dentro, feito um bicho que se debate dentro de um vidro, numa última tentativa de liberdade. Feito um pé num sapato apertado. Um cisco no olho. Formigamento.

Andava de um lado para o outro. Estonteada. Perdeu a conta das vezes em que virou e revirou o disco, que nem ouvia, no aparelho de som. Roía e olhava as unhas. Nervosamente. Entre uma tentativa e outra de respirar forte. Na realidade, nada estava fora de lugar. As vinte e quatro horas do dia corriam normais. Precisas. Alterar o ritmo do relógio não seria mesmo uma solução. Que outro jeito?

Lavou o rosto mais uma vez. Examinou-se mais alguns segundos no espelho. Tanto cansaço. Na pele, nos olhos, na vida. Sacudiu a cabeça, os ombros, o pó. Passou um batom rápido. Pronto. Se tem que ser, que seja! Pegou a bolsa. Verificou se a casa estava bem fechada. Olhou o gás. Desligou o toca-disco e foi caminhando corredor afora em direção à porta da rua. Mas havia outras portas. Instintivamente, cantarolou baixinho a música “Gothan City”, de Jards Macalé e Capinam, mais dois malditos que ousavam desafiar o coro dos contentes, – “Cuidado, há um morcego na porta principal / Cuidado, há um abismo na portal principal”.

Para além das portas, cruzando a rua serena e azul, mexida e remexida, no centro do burburinho, mais parecia um ser em contramão. Ia, enquanto todos vinham. Ou paravam no meio do caminho. Instintivamente Lembrou o poema de Carlos Drummond de Andrade – “no meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra”. Seguia. E se debatia. Já não apenas interiormente. Agora tudo era muito visível. Cabeça, tronco e membros. Pernas ao infinito. Ação e reação. A certeza de que nada estava certo. Muito menos ela que esperneava exausta entre os braços cruzados, apontando para o morcego na porta principal.

A rua parecia não ter fim. E ela andava, repetindo como um mantra: Se tem que ser, que seja agora! O tempo esgotou. Instintivamente Repetiu inúmeras vezes os versos de “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso – “Eu vou / Por que não, por que não? / Por que não, por que não? Por que não, por que não?”. E foi!

Entre dores e delícias

Há dias de desencanto, bem difíceis, em que olhamos sem filtro para a miséria física e moral que nos cerca e ficamos especialmente vulneráveis – “e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d´água”.

Há dias em que não entendemos o movimento do mundo ao redor e só desejamos um pouco de paz de espírito – “a gente se sente como quem partiu ou morreu, a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu”.

Há dias e noites em que os noticiários da tradicional e conservadora mídia brasileira estampam um jogo político tão sórdido, na voz de parlamentares tão mesquinhos, que o desejo que nos pega profundamente é o de ir embora – o que não seria uma solução. Mas o que mais assusta, em se tratando de meios de comunicação e formadores de opinião, é a ausência de uma análise profunda dos fatos, a partir de vários pontos de vista.  O viés é um só, pesado e medido.

Há dias em que a pergunta que não quer calar é: O que fazem vereadores, deputados e senadores eleitos pelo povo? A minha resposta, lamentavelmente, é “vivem muito bem, obrigado, com polpudos salários, inúmeros assessores e incontáveis visitas às bases eleitorais”. E ainda nos envergonham com projetos absurdos. Temos o deputado que sugere incluir doce de leite na merenda escolar. Ou a solicitação insana do senador em prisão domiciliar querendo passar férias no Caribe. É o vale-tudo que reina absoluto na ilha da fantasia no Planalto Central do país e suas subsidiárias.

Há dias em que o melhor é não pensar e cantar bem alto e em bom tom para todos ouvirem – “vai passar”.

Há dias em que os ombros não suportam as dores da alma, mas essa dor pode ser muito particular, relacionada à sensibilidade e à vivência de cada indivíduo – “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Sei da minha!

Há dias em que não encontramos consolo. Mesmo assim, a vida segue no seu ritmo. Não paramos.

Mas, de repente, encontramos no meio do caminho um pequeno café, quase escondido. Os olhares dos proprietários, mãe e filho, são acolhedores. Há respeito. Há dignidade. Há alegria.

Então, ali sento para almoçar com calma e tomo um expressinho de sobremesa. Tudo muito devagar. As nuvens escuras vão se dissipando. O início da tarde já não parece tão sombrio. E o céu vai ficando cada vez mais azul.

Leio uma entrevista do escritor angolano José Eduardo Agualusa em que ele diz: “Em tempos de construção de muros, os livros são nossas pontes”. Leio outra entrevista, essa do israelense David Grossman, falando sobre a capacidade da literatura de expandir nosso universo interno: “Abra um livro para compreender seus inimigos”.

Pequenos gestos e leituras me mostram que a humanidade não vai sucumbir. A vida cotidiana é feita desses tantos retalhos que aquecem a alma, trazem conhecimento, alimentam o espírito e espalham confiança.

Então, sigo.

Observação – Citação das canções “Gota d´água”, “Roda Viva” e “Vai passar” de Chico Buarque e “Dom de Iludir”, de Caetano Veloso.

O que somos e porque somos

“Mas afinal, o que eu tenho? O que é isso que me faz ser quem eu sou? Uma coisa é certa: eu sou diferente e é essa diferença que me faz único. Eu não preciso ser consertado, eu não preciso ser igual a você”.

Os questionamentos e as reflexões trazidas pelo documentário Meu Nome É Daniel, dirigido e protagonizado por Daniel Gonçalves, 35 anos, deixam evidente o quanto o viés é a normalidade. As pessoas com deficiência enfrentam uma exigência de superação para serem devidamente aceitas e incorporadas em um meio social muitas vezes apático, que não vê a sua diferença. Ou que só percebe quando há um esforço de normalização.

O filme participou da sexta edição do Cine Caramelo (cinecaramelo.com.br) – Festival de Cinema Infanto-Juvenil que aborda questões relacionadas à acessibilidade e inclusão – em Porto Alegre, com a presença do diretor, homenageado no evento. Premiado no Festival Internacional de Cinema de Cartagena, na Colômbia, Meu Nome É Daniel está qualificado para disputar uma indicação ao Oscar. A previsão de estreia no circuito brasileiro é em agosto.

Ao mostrar a sua trajetória, a partir de uma deficiência rara, nunca diagnosticada, que afeta a coordenação motora, o diretor recusa o lugar-comum. Essa é a primeira vez, pelo menos no Brasil, que uma pessoa com deficiência faz um filme sobre sua vida. Na maioria das vezes, as pessoas com deficiência são retratadas por quem não tem uma deficiência. Para o diretor, “assumir esse lugar de fala é uma coisa muito importante”.

Segundo Daniel, o que me remete para muitos textos já publicados aqui neste blog, as pessoas com deficiência costumam ser representadas sob dois prismas. Ou como coitadas e incapazes ou, no outro extremo, como heroínas. Ao mitificar o personagem, diz o diretor, a sociedade comete um grande equívoco porque faz dele uma figura inalcançável. Por isso, procurou evitar esse tratamento no filme. Na cena em que tenta fritar um ovo, dispensou a música de fundo para não estimular uma emoção fácil. Na montagem, deixou de fora depoimentos de pessoas que não eram da família e que o tratavam como herói. “Minha vida não foi mais difícil do que a de uma pessoa sem deficiência. Acho que foi diferente. De certa forma, se todos tivessem acesso às coisas que eu tive, provavelmente também estariam no lugar em que eu estou ou, pelo menos, fora desse lugar invisível, onde normalmente as pessoas com deficiência estão”, ponderou.

Para a escritora gaúcha Lau Patrón, que participou de um bate-papo sobre inclusão com o diretor em Porto Alegre, as pessoas com deficiência aparecem muito pouco nas produções culturais – ainda mais se considerarmos que 24% da população brasileira tem algum tipo de deficiência. Lau é publicitária, mãe de João, sete anos, que tem a rara Síndrome Hemolítico Urêmica Atípica, e autora do livro “71 Leões” (Belas Letras, 2018), história sobre maternidade, dor e renascimento. Para ela, os filmes abusam dos clichês. “A pessoa vira o exemplo para os outros se sentirem bem com as próprias vidas. Mandam um vídeo no grupo do WhatsApp de uma menina, que não tem uma das pernas, correndo. E colocam: Se ela consegue, qual é a tua desculpa para não correr hoje?”. “Nossas vidas não podem ser instrumento para os outros se sentirem de bem com a vida deles. Isso é muito cruel”, diz Lau.

Segundo Lau, nem as mães de pessoas com deficiência escapam do lugar-comum nos roteiros. São normalmente retratadas como a “mãe guerreira”, que abdica de tudo. A expectativa é de que ela viva no sofrimento e, quando consegue sair dessa situação, acaba julgada, afirma a escritora. Daniel e Lau acreditam que o caminho para mudar esse cenário de estereótipos começa na concepção da obra e na formação da equipe, que deve priorizar a inclusão e a diversidade. “A gente precisa trazer essas pessoas para dentro, não tem mudança que não passe por isso. Diversidade é nossa força, não nossa fraqueza. Precisa ter diálogo para quebrar essa estúpida ideia do padrão que gera uma quantidade imensa de pessoas infelizes, que tentam se encaixar em caixinhas”.

Leituras – entre a vida que se impõe e a vida possível

A vida que se impõe

Djamila Ribeiro abre o livro Quem tem medo do feminismo negro? (Cia das Letras, 2018) com um instigante ensaio sobre a sua vida. Ao se referir à infância e à adolescência, deixa evidente o silenciamento que sempre sofreu pela cor e pela condição social. Silêncio que só rompeu quando, aos 18 anos, foi trabalhar na Casa de Cultura da Mulher Negra, organização não governamental que possibilitou que ela estudasse temas relacionados a gênero e raça e tomasse contato com escritoras que a fizeram ter orgulho das suas raízes, como as ativistas sociais norte-americanas bell hooks (Gloria Jean Watkins), Alice Walker e Toni Morrison e a escritora brasileira Conceição Evaristo. A relação com a militância teve início bem mais cedo, quando ainda era criança, por influência do pai, estivador, militante e comunista. Um homem culto, mesmo com pouco estudo formal.

A caminhada de Djamila foi contra o que seria natural na sua condição. Em 2012 graduou-se em Filosofia e em 2015 tornou-se mestre em Filosofia Política, com ênfase em Teoria Feminista pela Universidade Federal de São Paulo/Unifesp. Sua tese compara Simone de Beauvoir e Judith Butler ao feminismo negro. Filósofa, feminista, acadêmica e pesquisadora, Djamila hoje é conhecida no Brasil inteiro. Especialmente por seu ativismo e forte presença no ambiente digital, onde escreve sobre relações raciais e de gênero e feminismo. É colunista online da Carta Capital, Blogueiras Negras e Revista Azmina. Para ela, é fundamental apropriar-se da internet como ferramenta na militância das mulheres negras porque a “mídia hegemônica costuma invisibilizá-las”.

Ludmila foi secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania na cidade de São Paulo na gestão de Fernando Haddad. É presença marcante e requisitada em eventos internacionais que tratam das questões que defende. E se posiciona sempre, apesar dos riscos. Para ela, o assassinato chocante da vereadora Marielle Franco coloca em risco a vida das mulheres negras ativistas do Brasil, o que provoca medo, não desistência, nem covardia, porque não é possível cessar esta luta.

É autora também do livro O que é lugar de fala?(2017), que aborda a urgência pela quebra dos silêncios instituídos, trazendo para o conhecimento do público produções intelectuais de mulheres negras ao longo da nossa história. Escreveu ainda o prefácio de Mulheres, raça e classe, da filósofa negra e feminista Angela Davis. Sua escrita e publicações pontuam o movimento negro e o movimento feminista negro no Brasil. Coordena a edição da coleção Feminismos Plurais, da editora Letramento no Brasil, com títulos como O racismo recreativo, onde o autor Adilson Moreira, doutor em Direito pela Universidade de Harvard, discute os nomes pejorativos dado a negros no Brasil, sob o disfarce da “brincadeira”. Para Ludmila, “resistimos, porque não temos outra opção, mas não dá para negar que estamos vivendo um período muito preocupante em relação à nossa segurança”. Segundo ela, o Brasil é o país que mais mata ativistas de direitos humanos no mundo.

A vida possível

A vida possível, a partir de um ambiente na maioria das vezes hostil e com poucas perspectivas. Uma vida que nasce marcada, em um bairro de periferia, empobrecido, com uma sentença da mãe: Se a sorte não te sorrir até os 45 anos, só vai te restar o destino das pessoas medíocres – “Não, não abaixe a cabeça, não desvie o olhar para as pontas dos seus sapatos gastos. Não há do que se envergonhar, os simples são a maioria na Terra”.

Uma infância de perdas, traumas familiares, limitações sociais, lugares marcados. Não avance – “Você é só o filho do limpador de janelas, não devia ter esperado nada diferente”. Não há heróis, nem vilões. Não há esperança. Há o cotidiano em um ambiente de pobreza e limites já traçados – “Minha mãe e meu irmão, Tom, não se cansavam desse negócio de dividir a humanidade em duas partes incomensuravelmente díspares: uma grande maioria medíocre dominada por poucos privilegiados geniais”. Há a necessidade de sobreviver. Há vida real, que pulsa e aponta para o amadurecimento em meio a possível ascensão no submundo. É o que está dado.

Esta é a melancólica trajetória de Vico, que perde o pai e a mãe e vê o irmão ir embora, e seu encontro definitivo com o turco Farik no denso romance Cavalos e Armas (Pubblicato Editora, 2018) do jornalista e escritor Gustavo Machado. É uma história dura, feita de humanidade. Feita de gente que nasceu e vive no andar de baixo, onde toca a vida, do jeito possível – “Passar para o outro lado, passar para o outro andar. É uma ilusão. Sua mãe estava certa numa coisa apenas: dividir a vida em duas partes. Mas se você nasce em uma delas, nunca passa para a outra, por mais que tente, por mais que trabalhe. É como as coisas são”. Um romance comovente sobre a complexa condição humana.

Gustavo Machado também escreveu Sob o Céu de Agosto, já traduzido na Alemanha, e Marcha de Inverno.

Nanismo e perguntas inconvenientes

 

Desde que nos entendemos por gente, pelos três, quatro anos, Marlene, minha irmã, e eu ouvimos perguntas e comentários sobre nanismo. Na infância, nossos pais e avós tratavam de responder à curiosidade exacerbada, muitas vezes invasiva e sem sentido, das pessoas sobre nós e nossos corpos tão pequenos. Na adolescência, as perguntas nos incomodavam muito. E assim, por conta da timidez acompanhada de vergonha, nos recolhemos mais do que devíamos. Na juventude, não falávamos sobre o assunto e nos negávamos a responder qualquer interrogatório ou observação. Vivemos um silêncio quase absurdo sobre a nossa condição até fazermos a travessia do fantasma, amparadas pela psicanálise. Foi uma espécie de libertação.

“O sentimento de inadequação temperado com o desejo de transcendê-la tem sido uma narrativa comum entre os anões”, escreve Andrew Solomon no livro “Longe da Árvore – Pais, filhos e a busca da identidade” (Cia das Letras, 2012)

É por isso que hoje dou tanta importância à fala e aos movimentos das pessoas que têm alguma deficiência. Tenho convicção de que negar ou fazer de conta que a diferença não interfere no nosso estar no mundo e nas nossas emoções é nocivo. O silêncio faz mal e pode levar a uma solidão cruel. A fala organiza, dá coragem e alivia as dores provocadas pelo preconceito. Não quero dizer com isso que as perguntas não sejam, na maioria das vezes, abusivas, inconvenientes e carregadas de uma falta de sensibilidade e informação assustadoras. Especialmente em relação ao nanismo revelam total desconhecimento, discriminação disfarçada e um humor muito duvidoso.

“Ser percebido em sua própria essência como cômico é um fardo significativo” – Andrew Solomon

Os estereótipos são persistentes. A pessoa com nanismo, adulta, na companhia de alguém que não tem nanismo, ouve perguntas e comentários sobre a sua condição, que não são dirigidos a ela, quase sempre carregados de deboche e de uma morbidez doentia. Talvez até tenham alguma ingenuidade, mas é difícil acreditar que assim seja.

“Anões aparecem em show de aberrações, em competições de arremesso de anão e na pornografia”. “Há um voyeurismo coisificador. Prova de uma insensibilidade que vai além da exibida em relação a quase qualquer outro grupo deficiente” – Andrew Solomon

A seguir um pouco do que já ouvi e ainda ouço.

– Ela trabalha?
– Ela menstrua?

– Como ela nasceu assim? Tem mais anões na família?
– Ai que fofinha! Vontade de pegar no colo.
– Ela pinta as unhas, olha!
– Parece uma boneca, vontade de levar para casa. Posso?
– Deve ser bom ter um anão, pode pegar sempre no colo.
– Olha lá um anãozinho!
– Por que tu és tão pequena?

– Eu não sabia que alguém como você se divertia.

– Isso é tamanho de gente!

– Anão não morre.

– Levanta do chão!

-Como está a temperatura aí embaixo?

“Tratam os anões como se fossem propriedade pública e exigem que os pais os expliquem para o mundo” – Andrew Solomon

É por essas e outras tantas observações e perguntas que precisamos de uma dose diária de paciência, discernimento, compreensão e humanidade. Por isso, a fala, a informação, a discussão sobre preconceito e rejeição são tão necessárias. Mostrar que existimos, sim, e damos conta da vida, sim, mas precisamos de respeito, acessibilidade e inclusão. Como qualquer outra pessoa. Ignorar nossa identidade jamais nos dará proteção.