Em tempos ásperos Há que…

Há que ter paciência para enfrentar a cidade, sua concretude explícita e agressiva no verão de extremos e seus humanos que vão e vêm atordoados, às vezes tão impermeáveis. Há que desviar os olhos dos espigões azulados, disfarçados de céu, e das marcas de empreiteiras sem escrúpulos que descaracterizam o espaço urbano, com o aval de governos e administradores públicos que se corrompem por um punhado de reais.

"Tempos ásperos", por Tamar Matsafi

“Tempos ásperos”, por Tamar Matsafi

Há que tomar o ônibus no ponto escaldante, mesmo que pare longe da calçada e seja difícil o acesso e o equilíbrio ao subir.                                                                                 Há que suportar o olhar do motorista que, apesar de piedoso, não percebe que estacionou de forma inadequada e não consegue ver a diferença. Já é muito para ele carregar os cansados passageiros do cotidiano pelas ruas tumultuadas da metrópole.
Há que esticar ao máximo as pernas curtas para acessar os balcões de bancos e outros tantos balcões. Os atendentes, distraídos no cumprimento mecânico de suas tarefas, pouco sabem de acolhimento e inclusão.
Há que encarar os sorrisos e os discursos protocolares que louvam a “superação” e nada fazem pela acessibilidade.

Há que desviar dos carros estacionados irresponsavelmente nas calçadas. O espaço público, sem fiscalização, é mais das máquinas do que das pessoas.
Há que caminhar pelas ruas com o lixo transbordando na volta. Os próprios moradores colocam nos containers, misturando tudo e mostrando total descaso com a cidade, já tão abandonada. Há que ter cuidado para cruzar nas faixas de segurança. São poucos os motoristas que consideram a faixa um sinal de alerta e respeito aos pedestres.
Há que respeitar os sinais de trânsito, criados para disciplinar o movimento urbano. Mas muitos pedestres e motoristas pouco se importam com isso.

Há que enfrentar o medo de sair de casa e a inquietude que acompanha cada passo. É um medo real e é também o medo de gente como a gente que anda por aí.

Há que não se submeter ao que é imposto e ao que humilha, como falou o cidadão Eduardo Marinho, que abriu mão do conforto do mundo burguês, foi viver na rua e descobriu a arte para se manifestar (https://voosubterraneo.wordpress.com/2013/12/06/eduardo-marinho/). Como ele, penso que é preciso simplesmente viver e não cultivar o desejo insólito de vencer na vida.

O que é mesmo vencer na vida?                                                                                      Há que abandonar as “expectativas mercadológicas da excelência” e uma vida “sob estresse e sob uma cobrança que nunca irá ser satisfeita porque todos nós, seres humanos, temos singularidades, com possibilidades e limitações, sendo estas mais evidentes (como é o caso de uma pessoa com deficiência) ou não”, como escreveu Carla Abreu, que tem nanismo, no seu blog (https://www.facebook.com/abreucacau?fref=ts).

"Inocência", por Tamar Matsafi

“Inocência”, por Tamar Matsafi

Há que estimular o afeto, a dignidade, a delicadeza, o encontro, a diversidade, a tolerância.
Há que se brincar com as crianças e se cercar dos amigos e de gente do bem.
Em nome de tempos menos ásperos, acessíveis e inclusivos!

Por espaços urbanos acessíveis e inclusivos

Alertar a população e os gestores públicos para as limitações cotidianas das pessoas que têm uma deficiência e sensibilizá-los para as conquistas é compromisso de todos nós, assim como reivindicar políticas que priorizem a inclusão e a acessibilidade é um direito. Repensar a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar as dificuldades enfrentadas pelos cidadãos é um dever das administrações municipais, estaduais e federais, em sintonia com suas comunidades.

"Acessibilidade para que?", por Tamar Matsafi

“Acessibilidade para que?”, por Tamar Matsafi

Em 2016 esse foi o foco principal dos meus comentários, assunto que vai seguir no centro das minhas atenções em 2017. O objetivo é estimular a reflexão, provocar conversas coletivas em nome dos direitos humanos e da não-discriminação e impulsionar atitudes transformadoras. Não podemos deixar que essa luta caia no esquecimento ou seja ofuscada pelo descaso ou pela inércia.

Começo relembrando trechos de um texto que compartilhei no blog sobre a cidade no início da campanha eleitoral para prefeito.

A jornalista e consultora em audiodescrição Mariana Baiarle, que tem baixa visão, escreveu: “O olho às vezes me atrapalha. A visão embaraçada muitas vezes me trai. Minha retina desvairada me leva a tropeços constantes em ruas e calçadas esburacadas. Mas a rotina de tombos e tropicões me ensina também a levantar, a re-levantar e encarar a vida de diferentes maneiras”.

De forma poética, Mariana deixa claro que o espaço urbano precisa de intervenções que facilitem a vida, em perfeita sintonia com o que diz a arquiteta Flavia Boni Licht: “Acessibilidade é pensar, edificar e adequar espaços e equipamentos para a diversidade humana. Em algum momento da vida, uma parcela significativa da população tem sua mobilidade reduzida: idosos, gestantes, crianças, mães que carregam bebês no colo e/ou carrinhos, pessoas em processo de reabilitação, vítimas leves de acidentes de trânsito e/ou de trabalho”.

O difícil cotidiano da cidade

*Proliferam calçadas irregulares e quebradas, sem rebaixos do meio-fio, sem piso tátil, um problema para a autonomia de pessoas cegas ou com baixa visão, cidadãos que precisam usar cadeira de rodas ou bengalas, idosos com alguma dificuldade de locomoção.

"Calçada para carros", por Tamar Matsafi

“Calçada para carros”, por Tamar Matsafi

*Carros que ocupam as calçadas, sem deixar espaço para o pedestre passar.

*Obras de toda forma e qualidade que invadem calçadas, representando risco para o pedestre.

*Sinaleiras que necessitam de revisão dos tempos para a travessia de pedestres. Afinal, não são apenas para os veículos, mas para quem anda na cidade.

*Linhas de ônibus urbanos sem áudio interno que oriente os usuários sobre as paradas e sem um sistema adequado para acolher cadeiras de rodas.

*Paradas de ônibus que também necessitam de um sistema de áudio, avisando a linha que está chegando.

*Balcões muito altos de bancos, repartições públicas, hospitais e caixas eletrônicos de um modo geral, o que dificulta a autonomia de pessoas com nanismo e cadeirantes.

E as leis? E a fiscalização? E a ética?

E a pergunta que não quer calar: Que projetos de revitalização possíveis, voltados para acessibilidade, criação de ambientes acolhedores, livres de barreiras físicas, têm os novos prefeitos das nossas cidades?

“A eliminação das barreiras físicas da estrutura da cidade, de todo o mobiliário urbano, das edificações, dos meios de transporte e de comunicação enriquece e amplia a qualidade de vida dos moradores e visitantes, possibilitando, além disso, a inclusão das pessoas com deficiência no cotidiano. Isso significa uma cidade efetivamente democrática” – Flavia Boni Licht.

Impressões de um ano cruel

"Tempos obscuros", por Tamar Matsafi

“Tempos obscuros”, por Tamar Matsafi

Um país sequestrado.

Executivo, Legislativo e Judiciário mergulhados na lama.

Instituições da República falidas, ocupadas por políticos mesquinhos e sem caráter.

STF sem dignidade.

Imprensa conivente, unilateral, sem reflexão.

Para o bando que entrega o país ao capitalismo mais sórdido, não basta a aprovação da ultraneoliberal PEC dos gastos, resultado do pacto desumano entre políticos corruptos e elites soberbas. Eles são insaciáveis. Querem muito mais. Nunca saberemos o quanto vão sugar de todos nós. Os projetos, votados às pressas, nas madrugadas, sem discussão, em nome de uma “agenda positiva”, revelam uma estranha modernização da administração pública.

O corte de investimentos em educação e pesquisa certamente nos torna menos autônomos no campo da ciência e muito vulneráveis como cidadãos. Sem cultura, sem análise, sem reflexão e com mudanças que desestruturam o ensino médio e fundamental, o que temos pela frente é a vulnerabilidade do pensamento crítico e de direitos fundamentais. A anulação do estudo de disciplinas como filosofia e sociologia interfere diretamente na formação de indivíduos livres, responsáveis e éticos.

Os cortes de verba para a saúde pública nos deixam mais doentes e frágeis e nos jogam na privatização. O governo lava suas mãos, mas elas continuam sujas.

Os podres poderes ignoram a liberdade de pensamento, a justiça social, as conquistas de um povo sofrido.

Para fechar um ano emblemático, difícil, sombrio, de perdas nunca antes imaginadas, a demolição dos seis casarões históricos da rua Luciana de Abreu, em Porto Alegre, é muito simbólica. As palavras do advogado Milton Terra Machado, ao justificar o fato, traduzem esse simbolismo: “A construtora Goldsztein está fazendo tudo com calma, com muita parcimônia”. Ele só esqueceu de dizer “às escondidas”, como quase tudo o que aconteceu no Brasil neste triste 2016 que chega ao fim.

"Abismos", por Tamar Matsafi

“Abismos”, por Tamar Matsafi

Estamos carentes!

Enquanto os poderes lavam as mãos, que continuam sujas, o povo brasileiro assiste, atônito e sem voz, mudanças que acabam com conquistas sociais significativas. Estamos diante de um dos maiores retrocessos na história recente do país.

Resistir e lutar contra o desmonte geral é urgente e necessário.

Que 2017 nos livre da ignorância e nos devolva a esperança, a garra e a delicadeza!

"Resistiremos", por Tamar Matsafi

“Resistiremos”, por Tamar Matsafi

Presente de Natal!

Nesta semana, que termina na confraternização de Natal, os trabalhadores gaúchos da comunicação pública, da cultura, das ciências, da pesquisa, da educação e do planejamento de vários setores de inteligência do Estado (inteligência, o que é isso?) ganharam do governador, e da sua servil base aliada, a aprovação de um pacote cruel. Muito bem embalado pelo autoritarismo mais vil, o pacote fecha portas, gera o desemprego de milhares de pessoas, o fim de projetos importantes e de muitos sonhos. Além de não aprofundar a discussão sobre a proposta, o governo sonegou informações e tratou os profissionais que protestaram com violência desmedida.
Para quem, como eu, luta desde sempre por liberdade de expressão, igualdade de direitos, cidadania, acessibilidade, inclusão, emprego e salário dignos, foi uma afronta difícil de dimensionar. “Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso percebe que, quando os direitos são brutalmente suprimidos e os canais democráticos de reivindicação são bloqueados, o único caminho que sobra para os desesperados é o mais violento”. Palavras do jornalista e poeta Eduardo Sterzi. E assim foi!
Restou uma grande tristeza, o medo do que virá e uma sensação terrível de descrédito e de impotência. E muitas perguntas!

Que seres humanos são esses que habitam a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul?
O que querem?
Por que não ouvem?
Por que não conseguem dialogar com a população?
Por que fecham as portas da casa?

"Obstáculos", por Tamar Matsafi

“Obstáculos”, por Tamar Matsafi

A maioria desses senhores não sabia exatamente o que estava aprovando na madrugada da última quarta-feira, 21 de dezembro. E essa ignorância ficou clara nos discursos vazios e ofensivos, em nome de um “ajuste” que nem sabiam o que era. Votavam como marionetes, para cumprir conchavos e negociatas pessoais e de seus partidos. E, claro, para garantir as benesses no final de cada mês, sem parcelamento e com muitos penduricalhos. Alguns até pareciam constrangidos, mas foram incapazes de uma atitude corajosa.
Esse é o parlamento gaúcho hoje, medíocre e ineficaz, espelho do que acontece país afora.

Enfim, conseguiram!
O projeto 246/16, que extingue seis fundações estaduais – Zoobotânica (FZB), Piratini (TVE e FM Cultura), Ciência e Tecnologia (Cientec), Economia e Estatística (FEE), Desenvolvimento de Recursos Humanos (FDRH) e Planejamento Metropolitano e Regional (Metroplan) – saiu vitorioso, 30 votos a favor e 23 contra.
Vitórias como esta deixam claro que no Brasil pós-golpe não é o bem estar social da população que interessa. O que importa é dar guarida a políticos corruptos, preservar benefícios de qualquer natureza, manter acima da lei o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, proteger o empresariado que mantém regalias em troca de favores, assegurar o lucro ofensivo dos bancos e os parcos salários dos trabalhadores. A cada dia, menos.
Uma mediocridade assustadora, recheada de raiva, vingança e entreguismo, acompanha cada passo de políticos sem escrúpulos que querem nos tirar a identidade, a memória, a história, a alegria. Mais uma vez, a poesia traduz o mal estar que sinto e me salva do que é mesquinho.

“Da vez primeira que me assassinaram, / perdi um jeito de sorrir que eu tinha. / Depois, a cada vez que me mataram, / Foram levando qualquer coisa minha” – Mario Quintana.

Resistiremos!

"Desistir jamais", por Tamar Matsafi

“Desistir jamais”, por Tamar Matsafi

Fundamental, agora, é saber e não esquecer como cada deputado votou nesse pacote indigesto. A sugestão é imprimir a lista e colocar onde os olhos sempre alcançam.
Adão Villaverde (PT) – Não
Altemir Tortelli (PT) – Não
Edegar Pretto (PT) – Não
Jeferson Fernandes (PT) – Não
Luiz Fernando Mainardi (PT) – Não
Miriam Marroni (PT) – Não
Nelsinho Metalúrgico (PT) – Não
Stela Farias (PT) – Não
Tarcisio Zimmermann (PT) – Não
Valdeci Oliveira (PT) – Não
Zé Nunes (PT) – Não
Álvaro Boessio (PMDB) – Sim
Edson Brum (PMDB) – Sim
Gabriel Souza (PMDB) – Sim
Gilberto Capoani (PMDB) – Sim
Ibsen Pinheiro (PMDB) – Sim
Juvir Costella (PMDB) – Sim
Tiago Simon (PMDB) – Sim
Vilmar Zanchin (PMDB) – Sim
Adolfo Brito (PP) – Sim
Frederico Antunes (PP) – Sim
Gerson Borba (PP) – Sim
João Fischer (PP) – Sim
Marcel van Hattem (PP) – Sim
Sérgio Turra (PP) – Sim
Ciro Simoni (PDT) – Não
Eduardo Loureiro (PDT) – Não
Enio Bacci (PDT) – Não
Gilmar Sossella (PDT) – Sim
Juliana Brizola (PDT) – Não
Marlon Santos (PDT) – Não
Vinicius Ribeiro (PDT) – Sim
Aloísio Classmann (PTB) – Sim
Luís Augusto Lara (PTB) – Não
Marcelo Moraes (PTB) – Sim
Maurício Dziedricki (PTB) – Sim
Ronaldo Santini (PTB) – Não
Adilson Troca (PSDB) – Sim
Jorge Pozzobom (PSDB) – Sim
Pedro Pereira (PSDB) – Sim
Zilá Breitenbach (PSDB) – Sim
Elton Weber (PSB) – Sim
Liziane Bayer (PSB) – Sim
Miki Breier (PSB) – Sim
Any Ortiz (PPS) – Sim
Juliano Roso (PCdoB) – Não
Manuela d`Ávila (PCdoB) – Não
Sérgio Peres (PRB) – Sim
João Reinelli (PV) – Sim
Missionário Volnei (PR) – Sim
Pedro Ruas (PSOL) – Não
Bombeiro Bianchini (PPL) – Não
Regina Becker Fortunati (REDE) – Não

 

Ecos de uma semana difícil

Em meio a cenas triviais do cotidiano de quem tem uma dificuldade, as percepções são inquietantes. Há muitos “jeitinhos” de levar a vida neste vasto país desde que aqui ancoraram as caravelas de Cabral. E aí mora o perigo. As cenas principais que se desenham nas alcovas palacianas, gestadas no Planalto Central, têm requintes de injustiça. Para quem luta dia a dia por dignidade, esse Brasil de berços nada esplêndidos inquieta. As marcas sociais e culturais centenárias que nos fazem escravagistas e bajuladores do poder assustam.

Nas minhas andanças necessárias, sinto a cidade violenta, nervosa, os trabalhadores tensos e as pessoas nas ruas desesperançadas, sem a mínima tolerância. Consumindo. Consumindo-se.

Acessibilidade para quê?

"A fila tem que andar", por Tamar Matsafi

“A fila tem que andar”, por Tamar Matsafi

Linha T9, Auxiliadora, em direção ao Centro. Entro. Assim que piso no segundo degrau, o motorista arranca bruscamente. Vou me equilibrando como posso. Uma senhora ocupa quase todo o primeiro banco, reservado para pessoas com deficiência. Sento no pouco que sobra. Ela nem se mexe. Vou me segurando com dificuldade. E a criatura impassível. De repente se dá conta de que o ônibus chega onde quer descer, levanta rápido, quase me derruba e sai porta afora. Solidariedade é algo que desconhece.

Caixa Econômica Federal, agência da esquina das ruas 24 de Outubro e Quintino Bocaiúva. Do balcão, a moça me olha. E eu me estico. Ela segue impassível. E vou me virando. Até que estende um papel e uma caneta e pede que eu assine. Apoiada em quê? No ar? Parece sadismo, mas sei que não é. A atitude é típica de quem não vê o outro. Apenas cumpre o ritual de mais um dia cansativo de trabalho, mecanicamente.

Linha T5, Aeroporto, em direção ao bairro Floresta. Pego o ônibus na rua Venâncio Aires. Já lotado. Em seguida, entra uma moça. Espreme-se entre as pessoas e a sacola que carrega fica batendo no meu rosto, insistentemente. Olho, faço um pequeno gesto para afastar a sacola e ela, quase ofendida: “Não tenho controle sobre a bolsa, até porque todos me empurram nesse ônibus atrolhado”. E as queixas sobre a decadência do transporte público em Porto Alegre jorram.

No mesmo ônibus, uma menina de uns 4 anos me vê, puxa a avó pela mão e insiste: “Uma mulher pequena, olha, olha!”. Uma, duas, três vezes. A avó só consegue disfarçar. Não olha para a neta. Não me olha. Nenhum movimento para esclarecer o espanto da criança. Melhor ignorar do que encarar. Afinal, é só uma criança manifestando sua curiosidade natural.

É assim. Por todos os lados.

Enquanto isso, lá vai o Brasil, anulado, descendo a ladeira. Infelizmente, não a ladeira da canção de Moraes Moreira!

"Subindo a ladeira", por Tamar Matsafi

“Subindo a ladeira”, por Tamar Matsafi

Executivo, Legislativo e Judiciário mergulhados na lama.

Instituições da República ocupadas por políticos mesquinhos e sem caráter.

Mídia superficial, conivente, unilateral.

Contraponto para quê?

A ultraneoliberal PEC dos gastos é aprovada rapidamente por senadores oportunistas de um Congresso que perdeu o respeito pelos cidadãos que representa. Resultado de um pacto cruel entre políticos corruptos e elites nefastas. Grupos preocupados em manter os privilégios a qualquer custo entregam o futuro ao capitalismo financeiro mais sórdido. Condenam o país à dependência e a população à miséria e à ignorância.

O corte de investimentos em educação e pesquisa certamente vai tornar o Brasil menos autônomo no campo da ciência e da cultura, colocando os cidadãos a mercê de um ensino medíocre e descomprometido. No pacote do governo, reina a escola sem partido para gerar jovens sem voz.

O corte de verbas na saúde pública vai deixar a população mais carente, mais doente e vulnerável. Nesse jogo, as cartas ficam nas mãos dos planos privados. Os que têm como, pagam. Os que não têm, vão minguar nas filas. Simples assim!

Os podres poderes ignoram a liberdade de opinião, a diversidade, a justiça social, o debate, as conquistas de um povo que trabalha. E vai trabalhar muito mais com as novas regras da previdência social. Mas o governo lava suas mãos sujas.

Como lembrou o músico Raul Elwanger no simbólico 13 de dezembro de 2016: “Em 13 de dezembro de 1968, o Ato 5 enterrou nosso país em décadas de violência contra seu povo. Agora, a mesma casta predadora está destruindo o Brasil, com aventuras golpistas e totalitárias de grande perigo para todo cidadão e projeto econômico de misérias. Às vezes com a farda, às vezes com a toga, às vezes de gravata: sempre a mesma casta predadora. Colônia, escravidão, ditadura”.

A jornalista Bia Lopes alertou para os ventos que sopraram em Porto Alegre nesse mesmo dia 13: “Simbólico? Ventos fortes varrem o Brasil. Justo no 13 de dezembro, quando é lembrada a promulgação do AI 5, que deu início a um dos piores momentos da história brasileira, é aprovada a PEC da Morte. Ai de nós!”

Para finalizar, palavras de João Goulart: “Não há ameaça mais séria à democracia do que desconhecer os direitos do povo”. E de Nelson Mandela: “Quando um homem fez o que considera seu dever para com seu povo e seu país, pode descansar em paz”.

Alguém ouviu?

Exposição fotográfica dá visibilidade a mulheres com deficiência

Precisamos sair dos guetos e dos discursos prontos em busca de olhares sensíveis e não contaminados pelo preconceito, para que não roubem nossa beleza

Temos pouco tempo. Só até esta sexta-feira, 9 de dezembro, é possível conferir no Memorial do Legislativo (rua Duque de Caxias, 1029), a exposição fotográfica TODAS SÃO TODAS. A mostra busca o reconhecimento da presença das mulheres com deficiência na sociedade. Vem para provocar a reflexão sobre o lugar delegado a elas e construir um novo olhar através do seu protagonismo. Lá estão, em 30 fotos, 11 mulheres que pousaram de corpo e alma para a fotógrafa Daiane Peixoto.

Na foto, Luciana Silveira Alberton, portadora de síndrome de Down, pelas lentes da fotógrafa Daiane Peixoto

Na foto, Luciana Silveira Alberton, portadora de síndrome de Down, pelas lentes da fotógrafa Daiane Peixoto

A iniciativa é do Grupo Inclusivass, formado por mulheres com deficiência. O projeto TODAS SÃO TODAS tem como objetivo incorporar a perspectiva e as necessidades específicas das mulheres com deficiência às políticas existentes de enfrentamento à violência doméstica e às demais políticas públicas para as mulheres.

Para a realização da mostra, que integra as atividades dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, o Inclusivass contou com a parceria da organização não-governamental Coletivo Feminino Plural. Teve ainda o apoio do Fundo Fale Sem Medo (Instituto Avon/Fundo ELAS), Campanha HeforShe, Frente Parlamentar dos Homens pelo Fim da Violência Contra a Mulher da Assembleia Legislativa do RS e Laboratório Viacolor.

No Brasil, há mais de 25 milhões de mulheres com deficiência, segundo dados do IBGE de 2010. No entanto, para o governo e para a sociedade, estas mulheres são invisíveis. Diariamente, driblam barreiras em todas as áreas: comunicação, saúde, educação, mobilidade, emprego, segurança, cultura, lazer, renda. Saiba mais sobre o projeto em www.inclusivass.blogspot.com.br ou www.todassaotodas.blogspot.com.br

Mudar esta realidade é uma das nossas tantas lutas. E esta exposição ainda vai percorrer muitos lugares.

Na foto, Josiane França, portadora de deficiência visual pelas lentes da fotógrafa Daiane Peixoto

Na foto, Josiane França, portadora de deficiência visual pelas lentes da fotógrafa Daiane Peixoto

Na foto, Ewelin Canizares, portadora de polineuropatia, pelas lentes da fotógrafa Daiane Peixoto

Na foto, Ewelin Canizares, portadora de polineuropatia, pelas lentes da fotógrafa Daiane Peixoto

Assino o texto de apresentação que está no folder da mostra e segue abaixo.

A beleza não pode ser roubada
Esta é uma exposição que nasce de trajetórias diversas, lutas, trabalhos e sonhos de mulheres diferentes pela sua deficiência e pelo enfrentamento de um cotidiano cheio de limites que a sociedade potencializa ao insistir em não vê-las. Ou vê-las a partir de rótulos criados para disfarçar o estigma. As fotografias da mostra concretizam um desejo que, na contramão do enquadramento, busca um olhar sensível, não contaminado, que as perceba por inteiro.

A adequação a uma vida restrita, quase invisível, como ela se mostra para quem tem uma diferença, nunca bastou para essas mulheres, que não querem ficar presas à imagem de vítimas ou heroínas, em eterna superação. Querem ser admiradas, sim, mas não para compensar a sua condição. O que as move transita por outras vias – atravessar o fantasma do preconceito que intimida e exclui e experimentar o que aí está do jeito possível, à flor da pele, com intensidade e paixão. Apesar dos tantos limites que o dia a dia impõe. Querem revelar o feminino que os olhares ao redor, muitas vezes prolongamentos dos seus próprios olhares, insistem em não ver.

“Que olhar é esse que de dentro de mim me espia? Que olhar é esse que me afasta de mim?”

E são tantos os olhares a inquietar, desafiar, sufocar, amedrontar, sem ver.

Desvendar esse cotidiano invasivo que as faz estranhas é não deixar que essa invisibilidade esconda as mulheres que são. Tão múltiplas e, ao mesmo tempo, tão iguais a todas as outras na sua subjetividade. Maduras, profissionais, recolhidas, inseguras, curiosas, inquietas, destemidas, tímidas, livres, apaixonadas, mães, amantes.

Em nome da diversidade desejada, Carol, Cris, Denise, Ewelin, Fernanda, Josiane, Lelei, Lisa, Luciana, Regina e Vitória abrem asas para um caminho libertário que as tire da imposição das normas e das leis e dê a elas a visibilidade negada. Provavelmente não sabem muito bem como vai se desenhar essa jornada, mas sabem que é latente e que pulsa forte na vida de toda mulher que busca inclusão, acessibilidade, respeito e independência.

No simbolismo das fotos, elas se autorizam efetivamente a sair dos guetos e dos discursos prontos para serem vistas com a sua deficiência e para que não roubem a sua beleza.

Foto de Daiane Peixoto

Foto de Daiane Peixoto

O que não quer calar e registro aqui para não engasgar!
– A exposição não foi realizada no saguão da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul porque a “casa do povo” estava fechada. Mais que isso, estava toda gradeada. A “casa do povo” fechada, com seus eleitos lá dentro, com medo do povo! É, no mínimo, esquizofrênico, não é?

– Essa exposição tem que estar onde o povo está! Como diz a canção de Milton Nascimento, “Nos Bailes da Vida” – “Todo artista tem que ir aonde o povo está”.

A poesia que fala da diversidade, hoje e ontem, fala de resistência, fala de nós

Antes, um convite
Abre nesta segunda-feira, 5 de dezembro, às 18h, no saguão da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, a exposição fotográfica TODAS SÃO TODAS. A iniciativa é do Grupo Inclusivas, formado por mulheres com deficiência. A mostra reúne 30 fotos de 11 mulheres, que pousaram de corpo e alma para a lente da fotógrafa Daiane Peixoto. EM cartaz até o dia 9 de dezembro. No próximo texto vou falar especificamente sobre este assunto.

Flores que persistem

Mariana Baierle é jornalista, professora e consultora em audiodescrição e acessibilidade. Tem deficiência visual parcial (baixa visão) desde que nasceu. A profissão, mas especialmente nossa diferença, a busca incessante por inclusão, justiça, direitos humanos, cidadania, educação e cultura e a sensibilidade de Mariana nos aproximaram. Ela tem o blog Três gotinhas – http://tresgotinhas.com.br/. Ali vai espalhando delicadas gotas sobre o que pensa. “Pequenas reflexões, comentários, observações sobre o mundo e reivindicações”. Ali estão crônicas e poemas que escreve. Busquei o poema abaixo que diz muito desse tempo e da nossa resistência.

mariana-baiarle-no-centro-da-foto

A flor no caminho

Uma flor no asfalto
Uma flor na brita
Uma flor desfacelada no fogo
E transformada em cinza
(…)
No caminho não há apenas
pedras e flores mortas
Há uma flor que persiste,
que sobrevive no concreto
e em meio à brutalidade
(…)
Há uma flor que resiste, espalhando
beleza e perfume no cenário cinza
Fagulhas de esperança
Labaredas de amor
No corpo, na mente, n’alma
(…)
Água que alimenta a flor
Água que apaga o fogo
O momento é de água e fogo
Precisamos respirar para prosseguir
(…)
Esperança e fatalismo
Idealismo e circunstância
Louvores e sanções
Sonho e apocalipse

Poesia teimosa e viva

Nei Duclós é jornalista. Formou-se em História pela Universidade de São Paulo. Nasceu em Uruguaiana. Morou e trabalhou em Porto Alegre. Vive em Florianópolis há muitos anos. É autor de 20 livros, entre impressos e e-books, poesia e prosa.

Foi em 1972 que Nei abriu seu baú de poesia para lançar, três anos depois, “Outubro” com 83 poemas selecionados com Caio Fernando Abreu, Cláudio Levitan, Ida Lobato e Juarez Fonseca. O livro foi lançado pela Editora A Nação, em coedição com o Instituto Estadual do Livro, que tinha na direção a professora Lygia Averbuck, sensível, sintonizada com grandes pensadores. Não sei se essa turma, na época, se deu conta que “Outubro” vinha para ficar. Quarenta anos depois, em outubro deste ano, a obra ganha a segunda edição e se mostra tão vigorosa e atual quanto naqueles tempos conhecidos como “anos de chumbo”.

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Levitan, que criou a capa e as ilustrações, diz que o livro “tem algo de manifesto sem ser panfletário. Tem a jovialidade de uma geração que acreditava nas mudanças, acreditava num homem novo dentro do velho homem, um homem que fosse além da mediocridade, que não se rendesse à desilusão, ao medo, à preguiça. Um homem que ressignificasse as pequenas coisas, como criança que descobre a maravilha do mundo pela gentileza, pela suavidade, pela atenção, como quem reconstrói o mundo pela descoberta das palavras”.

Juarez Fonseca afirma que “Outubro é tão vigoroso, tão marcante, que mesmo sendo uma espécie de manifesto geracional atravessou incólume esses 40 anos. Pode ser lido hoje com igual deslumbramento”. Foi assim que li e reli esta segunda edição e o poema abaixo, que diz de uma geração libertária que ousou sonhar muito.

Carta ao companheiro exilado

Aqui, o sol obstinado
ainda banha a folhagem
a chuva nos visita
e deixa o arco-íris quando parte

As cores da saudade
abriram a palma
da nossa mão pálida
e a vontade de buscar-te
soltou-se como um raio

Descobrimos que era muito tarde

Agora, que a madrugada se acaba
e o sol nos dá na cara
não sabemos o que fazer
com essa ressaca

Batem nas portas
e revistam roupas e pacotes
estamos na praia do naufrágio

Domar vieram boiando coisas mortas
entre elas
nossos sonhos e emboscadas

Intensidades. Brilho nos olhos. Faces

Semana intensa, inquietante, misto de esperança e desesperança, com picos de nem tudo está perdido e acho que tudo vai dar certo.

Brilho nos olhos                                                                                                    

Participei, no dia 23 de novembro, do TEDxYouth@PAS, evento organizado pelos alunos da Pan American School de Porto Alegre. No encontro, os convidados tinham até 18 minutos para dividir experiências com o público, crianças, jovens, pais, professores. O ilustrador Cadu, Carlos Augusto Pessoa de Brum, deixou dois recados fundamentais: “Desafie preconceitos”. “A arte salva”. A ONG Sol Maior, antes da apresentação do seu grupo musical, sublinhou o que disse Cadu: “Música e dança são agentes de transformação. A arte agrega valor à vida de jovens vulneráveis socialmente”.

Falei sobre meu cotidiano com o nanismo. E comecei fazendo algumas perguntas: Quantos de vocês convivem ou já conviveram com pessoas que têm nanismo? O que sentem quando encontram um anão? Que sentimentos afloram? Pena, admiração, curiosidade, rejeição, solidariedade, espanto, medo? No final, uma menina me procurou para responder minha pergunta. Disse: “Eu sinto orgulho porque os anões não se escondem”. Os olhos daquela garotada brilhando, atentos, somados a essa resposta, salvaram o meu dia. Reacenderam a esperança.

Na minha fala, citei a afirmação do jornalista Luiz Antônio Araújo, em artigo no jornal Zero Hora (28 de julho de 2014): “Ser anão não é para qualquer um”. E lembrei do anão Umberto do livro infantil A história mais triste do mundo, do psicanalista e escritor Mário Corso – “Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”

Contei pequenas histórias pessoais e enfatizei que é sob o eco do preconceito e da tal “raça pura”, perseguida pelos nazistas, que nós, os diferentes, os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, como escreveu Araújo, ainda vivemos.

Minha participação no TEDxYouth@PAS, da Pan American School de Porto Alegre, realizado na quarta-feira, 24.

Minha participação no TEDxYouth@PAS, da Pan American School de Porto Alegre, realizado na quarta-feira, 23.

Faces                                                                                                                                  

Um dia depois do TEDx, fui gravar uma entrevista para o programa “Faces” da TVE. Reencontrei amigos e profissionais que trabalham para além das adversidades em um espaço público que é de todos nós. Foi comovente o que vi, ouvi, falei.

Impossível, ali, naquele espaço em que trabalhei quatro anos, não ver com lucidez a indigência política, o absurdo que é propor fechar a TVE e a FM Cultura. Onde estão os olhares sensíveis, criativos, humanos? “Ordens são ordens”. Basta cumprir! Sem entender ou questionar. Enquanto isso, vamos encarando esse admirável mundo “normal”, de políticos primários que impõem um desmonte nunca visto. Não conseguem ver na crise a possibilidade de sair do institucional, inventar, reinventar, facilitar, mudar. Apenas buscam culpados e penalizam os já penalizados. A desesperança bate!

A vida dói e pulsa                                                                                                        

Volto a dizer que necessitamos de olhares livres, não contaminados e viciados, para ir e vir com dignidade. Não queremos favores, benemerência, nem mãos na cabeça, fingir que está tudo bem, muito menos minimizar os problemas, desconhecer e negar a realidade. Queremos cidadania, direitos preservados, participação, independência e políticos capazes de ver o outro, dialogar e não fechar as portas da chamada “casa do povo”. Que casa?

Tenho convicção de que a arte salva e que a cultura nos dá identidade. Acredito na educação para a diferença, sem mordaça, e na riqueza da diversidade que constitui os indivíduos.

Para onde vamos com essa política que desconhece tudo isso?

 

A busca pelas margens que ampliam o olhar

Muitas palavras me movem. E algumas, como diversidade e inclusão, pedem olhares mais livres. Não viciados, não domesticados ou menos contaminados. Olhares compridos que conseguem se encantar com a poesia “cheia de desperdícios” de Manoel de Barros, sem saber a razão.

“Dou respeito às coisas desimportantes / e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade / das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.”
(O apanhador de desperdícios, do livro Memórias Inventadas – A Infância).

Vivo buscando esse olhar em poemas, pequenas frases, textos e ações para que a vida cotidiana seja mais fácil, democrática e plural. E para me encher de leveza e esperança.

– *A resposta enfática que a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie deu ao jornalista R. Emmet Tyrell, editor-chefe da revista ‘American Spectator’, no programa BBC Newsnight, foi reconfortante. Ele negava que Donald Trump, presidente eleito dos Estados Unidos, fosse racista, tentando minimizar a crítica da escritora. “Me desculpe, mas se você é um homem branco, você não pode definir o que é racismo”. “Isso não é sobre a sua opinião, o racismo é objetivamente real e Donald Trump tem reforçado essa realidade”, afirmou a autora de “Americanah” e “Sejamos Todos Feministas”. (Fonte: Carta Capital, por Ingrid Matuoka, em 15/11/2016).

"Racismo não", por Tamar Matsafi

“Racismo não”, por Tamar Matsafi

Sabemos que uma família homofóbica e preconceituosa pode tornar insustentável a relação com o filho/filha diferente, assim como uma sociedade intolerante pode fazer o mesmo. Muitos jovens, que lutam pela sua verdade e identidade, são estigmatizados. E, muitas vezes, pela opção sexual, nega-se a eles uma vida digna. São punidos por todos os lados, emocionalmente, socialmente e economicamente. “De 20 a 30% dos jovens em situação de rua no mundo são LGBT, essa é uma taxa superior à de LGBTs na sociedade”, afirma o coordenador do Departamento de Ciências Humanas e Educação da UFSCAR/Universidade Federal de São Carlos, São Paulo.

– *Por isso, a exposição Uma cidade pelas margens, que abre no dia 18 de novembro, 19h, no Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo, é muito bem vinda. Ao trazer o tema LGBTT para um espaço cultural público, os organizadores estimulam a inclusão e fazem uma ponte com a 20ª Parada Livre, que aconteceu recentemente, no dia 13 de novembro, aqui em Porto Alegre. O projeto, que coloca em evidência a trajetória de pessoas e organizações que lutaram pela visibilidade e pelo direito à diversidade na capital gaúcha, é resultado da parceria do Museu com o Nuances – Grupo pela livre expressão sexual; Liga Brasileira de Lésbicas do Rio Grande do Sul (LBL- RS); Curso de Graduação em Museologia, do Laboratório de Políticas Públicas Ações Coletivas e Saúde (LAPPACS) e com o Programa de Pós-Graduação em História (PPGHIST), todos vinculados à Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

"Pela diversidade", por Tamar Matsafi

“Pela diversidade”, por Tamar Matsafi

A mostra fica em cartaz até o dia 30 de dezembro e divide-se em dois eixos. A cartografia da cidade, sob a perspectiva LGBTT – sigla para gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, que identifica espaços de sociabilidade fundamentais para a construção dessa narrativa. E o destaque para a luta, a resistência, a conquista de direitos e os avanços nas questões jurídicas. A iniciativa prevê ainda duas mesas redondas e um Piquenique Cultural temático.

– *Piquenique inclusivo e lançamento do calendário Cada Mês um Mundo do Instituto Autismo & Vida/IA&V, dia 19 de novembro, das 15h às 19h, no Parque Getúlio Vargas/Capão do Corvo, em Canoas, soma-se às ações que acolhem, conscientizam e trazem esperança. A tarde promete ser animada, com muitas brincadeiras inclusivas.

O objetivo do calendário é valorizar as pessoas com autismo e suas famílias, que sofrem muito desgaste pelo seu comportamento diferente e pelas suas limitações, dando forma e cor a crianças que também sonham, têm planos, amigos, amores e dores. A partir de situações do cotidiano, convivendo e brincando com irmãos e irmãs, jogando bola, criou-se um mosaico de tipos físicos, condição social e familiar, para mostrar que o autismo está em todas as classes sociais, raças, credos e ideologias, e que há muita vida e amor em cada história.

O calendário traz 12 fotos de crianças sendo crianças, feitas pela fotógrafa Paloma Fantini, mãe de uma menina com autismo. Na contracapa, fotos de outras crianças e adolescentes, enviadas pelos pais. O valor arrecadado com a venda será revertido ao Instituto Autismo & Vida e utilizado em outras ações de conscientização sobre o autismo. O projeto foi idealizado por Diego Ambrózio e Samantha Konorath, assessorado e produzido pela TD8 Design e Comunicação e realizado pelo IA&V. (Fonte: http://www.autismoevida.org.br/).

 

O que faz a diferença quando o filho é estrangeiro

“Todo filho é, de certa maneira, estrangeiro para seus pais”. “Mas alguns são mais estrangeiros do que outros”. Essas são palavras do publicitário Gustavo Mini em uma corajosa e afetiva palestra, em setembro de 2015, sobre a sua relação com o filho, que tem Síndrome de Prader Willi. Na época, vi/ouvi várias vezes a apresentação do Mini, que está no youtube – https://www.youtube.com/watch?v=cgr3nHhpRJA. Sua fala, serena, mas contundente, ao mesmo tempo me encantava e inquietava.

Por alguma razão, voltei a ver/ouvir o Mini nesta semana, algumas vezes. Passado um tempo e somado ao que leio, vejo, ouço e me dou conta escrevendo no blog e participando de ações voltadas para acessibilidade e inclusão, sinto o encanto desmontar a inquietude. Assim como Mini buscou e encontrou na cultura pop uma maneira comovente de entender e reduzir a distância que se interpôs entre ele e o filho, a partir do diagnóstico médico, fazendo conexões surpreendentes, eu busquei na arte um jeito de me entender e viver entre as pessoas ditas “normais”, com a minha diferença. Às vezes, absurdamente estrangeira! E fico imaginando que meus pais, depois de ouvir do médico que minha irmã e eu tínhamos nanismo, o que não afetaria nosso desenvolvimento intelectual, apostaram na educação para tornar nossas vidas menos estranhas e mais leves e nos fazer independentes.

As dificuldades, físicas, mentais, intelectuais, cognitivas, qualquer que sejam, nos fazem estrangeiros, sim! Sempre há uma grande expectativa em relação ao filho que vai nascer. Filhos são pautados pela perfeição, especialmente nesses tempos contemporâneos, tão competitivos. Ao falar sobre a busca de caminhos para chegar ao filho, Mini mostra com naturalidade o quanto a diferença exige dos pais, das crianças, das famílias, sempre perseguindo algo que reduza as distâncias e aproxime.

“Me ajuda a olhar!”

"Pai me ajuda a olhar", por Tamar Matsafi

“Pai me ajuda a olhar”, por Tamar Matsafi

Diante do inexorável, é fundamental olhar, admitir, assimilar, quebrar tabus, abrir portas, construir pontes e estabelecer as conexões necessárias para as trocas possíveis e uma vida com o mínimo de preconceito e o máximo de inclusão, tranquilidade e conforto.

A não adequação, que perturba a ordem, exclui, inibe e acirra o preconceito, ao mesmo tempo rompe com o determinismo e as verdades absolutas. Ao produzir a dúvida, abre um universo de possibilidades, estimula o conhecimento, impulsiona a criatividade, aponta para a riqueza da diversidade e do inusitado e promove novos olhares. Restaura a utopia que nos faz caminhar firmes no contrafluxo, em direção à luz.

Essa é a grande batalha, não só dos pais que têm filhos diferentes, mas dos filhos que precisam entender o movimento dos pais, encarar o mundo lá fora e conviver com as limitações humanas diante de alguém que, definitivamente, não corresponde ao sonhado/planejado ou à vida como gostaríamos que fosse. São alguns dos muitos desafios de pais que precisam descobrir um meio de se comunicar com seus filhos estrangeiros, filhos esses que, por sua vez, precisam dessa conexão para viver.

Como a pequena história contada pelo escritor Eduardo Galeano, em “O Livro dos Abraços”, sobre o menino Diego, levado pelo pai para conhecer o mar. Foi uma longa caminhada. “E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: – Me ajuda a olhar!”.