Rotas perigosas apontam para o caos

 

Como se não bastasse tudo o que estamos vivendo, agora querem nos proibir de ajudar as pessoas na rua. A dica é: dar emprego e não esmola. Não entendi a mensagem. Até porque não tenho condições de oferecer trabalho a quem me aborda pela cidade. Seria maravilhoso se eu pudesse! Então, se tenho dinheiro, dou. Se estiver próxima de um supermercado ou bar, compro algo que ajude a amenizar a fome da pessoa que me pede. O aumento da pobreza é um fato indiscutível. A miséria nunca foi tão cruel, pelo menos para meus olhos sensíveis, que já viram tanto. Não há como negar. E ninguém pode me impedir de tentar amenizar a fome de um ser humano como eu.

Não há como esconder o que está escancarado. E nenhuma maquiagem vai disfarçar o óbvio. A precarização do trabalho, da educação pública, da saúde e das políticas sociais é um fato. Teremos mais pobres, mais moradores de rua, mais papeleiros e mais indivíduos vulneráveis emocionalmente. Chamá-los simplesmente de vagabundos é negar a alteridade, é não ver o outro. O problema é muito mais grave e necessita de análise profunda, sem o banal viés classista ou político-partidário. A sociedade é responsável, sim. Somos todos responsáveis. E os políticos muito bem instalados e remunerados precisam ter respostas e soluções dignas para situações extremas como estas.

Afinal, é comum os governos oferecerem ajuda a empresários quando suas empresas estão falindo e precisam demitir funcionários para ter um respiro e recuperar perdas. A crise é palpável. O desemprego aumentou. Portanto, não sejamos hipócritas. Os discursos que taxam desempregados como preguiçosos é superficial, fascista. É claro que ninguém é santo nesta paróquia, nem no topo nem na base da pirâmide. Mas o fato concreto é que reformas como a trabalhista e da previdência atingem diretamente assalariados deste Brasil da delicadeza perdida. Como fica a autoestima de uma pessoa que, de repente, perde tudo? Não dá para esconder, muito menos ficar jogando a culpa, aleatoriamente, na população.

A maior prova de que o fascismo está na ordem dos dias foi dada recentemente, para quem quiser ver e ouvir, pelo agora ex-secretário da Cultura Roberto Alvim. Ao copiar no detalhe o discurso do ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels, em um vídeo para comunicar um projeto aos artistas brasileiros, Alvim ratificou o autoritarismo de um governo sem escrúpulos, inspirado no nazismo. E não há ingenuidade nesta ação pensada/copiada e colocada em prática.

Atitude sintomática, não? Especialmente vinda do secretário de um governo que autoriza e faz uso cotidiano da violência, de forma simbólica e real, através de ameaças e atos concretos. Basta lembrar o que acontece na Amazônia – o desmatamento em nome de quem só pensa em destruir para enriquecer, a morte de indígenas que defendem suas terras, o descaso com o aquecimento global. Segundo dados do Inpe/Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a área devastada na região chegou a 9.165,6 quilômetros quadrados, a maior devastação no bioma registrada nos últimos cinco anos.

E o que se espalha pelo resto do país, negando a multiplicidade cultural que nos constitui?

O recrudescimento do racismo, o assassinato de negros e mulheres, as ações contra a lei de acessibilidade e inclusão, os discursos que destilam ódio contra um educador como Paulo Freire, contra a comunidade LGBT ou contra a arte representada pela atriz Fernanda Montenegro. Alvim deixou muito claro na sua fala aprovada pelo presidente desta república usurpada que não há espaço para a diversidade no Brasil.

A triste série de absurdos que vamos vivendo cotidianamente aponta para o caos. E, como já escrevi aqui, estamos anestesiados. Onde se esconde a nossa capacidade de indignação? E nossas instituições o que fazem? E a classe política? Especialmente, os políticos de centro, centro esquerda e esquerda que não conseguem abrir mão de suas medíocres ambições pessoais e partidárias enquanto afundamos na lama fascista? Políticos sem grandeza suficiente para mobilizar a população e promover uma união avassaladora em nome da democracia que queremos. Só vejo este caminho, que me parece tão cristalino, para tirar o país desta rota assustadora.

O mínimo de atenção para algumas falas da cúpula de Brasília já mostra porque a rota é perigosa. Certamente todos já ouviram as desastradas colocações do ministro da Educação, Abraham Weintraub. Ou do chanceler Ernesto Araújo. Ou a loucura explícita da ministra da Família, Mulher e Direitos Humanos, Damares Alves e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que parece nada entender da questão ambiental. E do ministro da Economia, Paulo Guedes, do ministro-chefe do Gabinete da Segurança Pública, general Augusto Heleno, entre outros.

O presidente já se referiu a torturadores como heróis ao elogiar Brilhante Ustra quando ainda era apenas um deputado que fazia manifestações histéricas e descontroladas no Parlamento. Já elogiou ditadores como Pinochet e Stroessner. Ofende grosseiramente quem lhe contesta, como fez com Maria do Rosário, com o presidente da França e faz quase todos os dias com a imprensa. Vê toda manifestação popular como terrorismo ou “coisa de comunista”. Já declarou que vai varrer do mapa os opositores políticos, expulsando-os do país, com o objetivo de fazer “uma limpeza nunca vista na história desse Brasil”. Chamou nordestinos de “Paraíba” e disse que todo cearense é “cabeçudo”. Já fez a apologia do trabalho infantil e faz pouco caso do trabalho escravo. No absurdo mais recente, diz que “esquerda não merece ser tratada como ‘pessoas normais’”. E não se cansa de fazer observações irresponsáveis sobre assuntos sérios nas suas indigestas redes sociais. Esperar o que do presidente de uma nação que se comporta assim? Não dá mais para fingir que nada está acontecendo. Ou, como canta Gonzaguinha, “não dá mais pra segurar, explode coração”.

Incertezas, inquietações, interrogações

 

Pois então, 2020 é fato. Nada mudou, é certo. Mas a possibilidade de alterar alguns números, apenas dois, acendeu uma luzinha tímida de esperança na passagem de ano. Luz que se apagou logo ali adiante – no alvorecer do dia já cansado depois dos excessos e da euforia tradicional da festa.

Há algum tempo já não faço planos. E procuro não criar expectativas. Também já não priorizo a organização, mesmo carregando o rótulo de pessoa organizada. As surpresas da gangorra da vida, para o bem e para o mal, foram/são tantas que fui abrindo mão de coisas que acreditava serem importantes para seguir com mais leveza. Quando menos se espera, um acontecimento nos paralisa, angustia, enlouquece. Arranca as certezas mais banais. Rouba nossa tranquilidade.

O tempo é de incertezas, sob os mais diversos aspectos. Se entendêssemos minimamente a fragilidade da condição humana, não seríamos tão ingênuos nem tão prepotentes. Pelo contrário. Seríamos gentis, humildes, solidários, firmes. Exerceríamos verdadeiramente o que chamamos de humanidade. Mas essa delicadeza nos foi roubada pela rudeza dos dias.

O tempo é de inquietações. Algumas tão internas, carregadas do medo de perder e de uma emoção avassaladora. Outras, estruturadas na consciência do ser social e político que somos. O meu tempo, neste momento, é feito de indignação e tristeza. É muito difícil, para quem viveu e lutou nos ásperos anos da ditadura militar, o enfrentamento com a degradação moral que se impõe hoje no Brasil. Ver a ignorância ocupar o lugar da sabedoria. E, consequentemente, acompanhar a negação explícita da cultura, da arte, da educação, do conhecimento, conquistas que dão asas aos voos e nos fazem seres livres e críticos. É duro suportar a arrogância e a soberba do poder medíocre e corrosivo do Brasil atual pisoteando nossos sonhos.

O tempo é de muitas interrogações. O que leva algumas pessoas a sentir uma superioridade tão raivosa e cruel? O que leva quem está no comando a fazer a apologia da violência, autorizar a destruição do meio ambiente e a morte de quem reage e diz não? Por que insuflar o preconceito e retirar direitos de quem já vive praticamente com o mínimo?  Por que querem um povo subjugado, sem opinião e sem dignidade? O que está dado é o resultado de ambições desmedidas, excesso de poder, dinheiro em demasia, cargos e salários milionários que compactuam com a corrupção para manter privilégios, uma camada social que ainda almeja a casa grande para ser servida pela senzala.

O tempo é de discursos medíocres, discussões bizarras nas redes sociais e aplausos para a imbecilidade explícita, enquanto o mundo desaba sobre nossas cabeças. E seguimos anestesiados, apáticos diante de tanta insanidade.

Ponto final no desabafo

 

“É árdua a luta contra o preconceito! Especialmente quando nos deparamos com o título da coluna de um articulista como Flávio Tavares. Está no jornal Zero Hora do último final de semana de 2019 (28 e 29 de dezembro), na página 21: ‘O ano ou um anão?’. A palavra anão não é sinônimo de algo torpe ou indigno. Não aceito o uso de uma condição física para expressar o que ele diz no artigo. E lamento que venha de um jornalista que eu respeito muito”. Este foi o desabafo que fiz no face em 28 de dezembro, depois de ler o texto do Flávio. Recebi inúmeras mensagens de apoio e ponderações.

A jornalista Marjori Michelin, com quem trabalhei no início das nossas vidas profissionais, ainda na TV Guaíba da família Caldas Júnior, sintetizou muito bem o que penso: “Lelei, querida, entre trocadilhos e “brincadeirinhas inocentes” vão se perpetuando absurdos, desinformações, ignorâncias, preconceitos e, vez por outra, canalhices. Falta de intenção não serve mais como desculpa, o gesto (palavra, aqui), diz tudo, explicita ideias e revela convicções ou, na melhor das hipóteses, revela o desinteresse e o descaso pela causa alheia, o que, por si só, já é bem desabonador”.

No dia 6 de janeiro de 2020, Flávio Tavares me enviou um e-mail: “Cara Lelei. Recebi de amigos, como o Francisco Marshall e a Jussara Porto, a cópia da tua avaliação em torno do meu artigo sobre o ano de 2019. Assim, por tudo o que és, pensas e ages, faço respeitosa observação sobre o que dizes. Em meu artigo, tentei apenas fazer um jogo de palavras em torno do aumentativo “ão” e aplicá-lo ao ano que passou. Não é feio ser anão e, assim, a palavra “anão” não é feia nem maldosa em si ou por si mesma. No caso do meu artigo, foi empregada apenas num jogo de palavras, significando algo pequeno num ano que não conseguiu levar adiante a punição do maior assalto público do Rio Grande, como é o caso da CEEE, até hoje em “segredo de justiça” e sem sentença. Enfim, não tentei acentuar nenhum dos torpes preconceitos ainda usuais, pois — como bem dizes no ‘face book’– “anão não é sinônimo de algo torpe e indigno”. Assim, no final do meu artigo de 29 de dezembro, ao escrever que resta saber “se 2019 foi um grande ano ou,apenas, um anão”, expressei apenas que foi um ano pequeno. Reitero meu respeitoso abraço por tudo o que és, pensas e ages, desejando-te um 2020 cheio de realizações”.

No dia 7, respondi: “Caro Flávio. Tenho muito respeito por ti e sou uma leitora dos teus artigos na ZH. Minha avaliação está ancorada em muitas piadas e observações que já ouvi, e ouço, nas ruas por conta do nanismo. Tenho como objetivo nos últimos anos reagir, fazer um contraponto, para que as pessoas fiquem atentas. Alguns usos de algumas palavras às vezes geram comentários muito desagradáveis. Tenho vários exemplos assinalados, desde a famosa expressão “anões do orçamento”. Na rua, em muitas ocasiões, fui chamada assim. Não é o caso do uso que fizeste. Escrevi até um artigo comentando, enviei para a ZH, mas não publicaram. Como estamos conversando sobre isso, o artigo segue abaixo. Agradeço muito o teu retorno. E que 2020 seja um bom ano pra todos nós! Abraço”.

Ano e Anão. Que paralelismo é este?

Se o desejo é mudar, vamos pensar sobre o preconceito que temos internalizado e se manifesta na fala, na escrita, nas atitudes cotidianas. O que nos leva a dar um sentido pejorativo à uma palavra para criticar um fato, uma pessoa, inferiorizar alguém, fazer uma piada? Quem tem uma deficiência, se é que podemos chamar assim, é alvo de muitos comentários indignos. Tomo a palavra anão, muito usada de forma grotesca e indevida, para seguir meu raciocínio. O jornalista e articulista Flávio Tavares, que respeito muito, em recente artigo publicado no jornal Zero Hora, onde critica lamentáveis episódios ainda não resolvidos envolvendo a CEEE, colocou como título da coluna “O Ano ou o Anão”.

Sob o ponto de vista da ética, do humanismo, da liberdade e da diversidade, 2019 realmente não foi um grande ano. Pelo contrário, foi péssimo, mas não vejo sentido algum em classificá-lo como um ano anão. É desolador perceber, mais uma vez, que o nanismo ainda é visto de forma pejorativa, como sinônimo do que é indigno, torpe, pouco. E são muitos os usos indigestos. É o caso das expressões “salário com perna de anão” (referência ao salário considerado baixo), “anão moral” (usada por Ciro Gomes ao se referir a Michel Temer, ‘traidor e parceiro íntimo de tudo que não presta, à frente deste capítulo do golpe de estado em marcha no Brasil’, e seu sócio Eduardo Cunha), “anão diplomático” (porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, ao reagir às críticas do Itamaraty que condenou o uso desproporcional da força militar por Israel na faixa de Gaza, em julho de 2014). E, ainda, “anões do orçamento” (nome dado a um grupo de deputados no final dos anos 1980, início dos 1990, envolvidos em fraudes com recursos do Orçamento da União, investigados por uma CPI). Parlamentares sem repercussão nacional, ou seja, ‘anões do poder’.

O uso preconceituoso de algumas palavras está tão entranhado no inconsciente de todos nós que até parece normal. É o que sofrem as pessoas que têm alguma deficiência, e também negros, índios, a comunidade LGBT e tantos outros grupos. A presença desses seres “imperfeitos”, carimbados e pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores, incomoda muito. Eles são a certeza de que a perfeição, assim como a tal “raça pura”, não existe. Mas os discursos já vêm prontos e embalados para serem assimilados sem crítica. Portanto, é nossa obrigação desmanchar os pacotes e desorganizar a ordem social imposta, que alimenta o preconceito. Sabemos da importância dessa discussão. É fundamental que venha e provoque reflexão.

Por mais que nós, pessoas com nanismo, tenhamos rampas, calçadas adequadas, balcões mais baixos, banheiros adaptados, elevadores e ônibus acessíveis, campanhas pela inclusão e emprego, tudo ainda é precário e continuará sendo se o preconceito que carregamos, e está na palavra, não for combatido. Precisamos de respeito, acolhimento e de uma educação para a diversidade que nos constitui como seres plurais e únicos. Mostrar que a grande riqueza humana está no encontro das diferenças, com suas múltiplas possibilidades e capacidades, é vital. A pior barreira é o preconceito, fruto de uma sociedade prepotente, hierarquizada, maniqueísta, que segrega e humilha quem não corresponde a um padrão de normalidade sem sentido. Em nome de quê?

Lelei Teixeira

leleigira@gmail.com

   Porto Alegre, 30 de janeiro de 2019

2019 chega ao fim deixando fortes rastros de ódio e intolerância

 

O que vem por aí?

Enquanto os podres poderes lavam as mãos – e seguem com as mãos sujas – assistimos, praticamente sem voz e com poucas representações fortes e dignas, o aniquilamento de conquistas sociais significativas. Atônitos, estamos diante de um país sequestrado. E experimentamos um dos maiores e mais cruéis retrocessos da nossa história recente. Instituições da República falidas. Executivo, Legislativo e Judiciário ocupados por senhores de carreira, alienados e pouco comprometidos com as questões urgentes da vida do povo. Senadores e deputados federais no berço esplêndido da ilha da fantasia conhecida como Brasília. Assim como deputados estaduais e vereadores. Cada turma do seu jeito. Em Porto Alegre, além de reivindicar um aumento de 30%, os vereadores aprovaram o projeto Escola sem Partido, o que significa aprovar a censura, que nos espreita. Somos seres políticos, portanto o “sem” já define um partido, seja ele qual for.

Na esfera econômica, o triste destaque dos últimos dias é uma empresa que descaradamente faz chantagem, sonega impostos, além de assediar e intimidar moralmente seus funcionários. Mas ainda não basta. Agora, o proprietário discursa contra direitos básicos das pessoas, como acessibilidade e inclusão, e mantém a soberba graças aos favores trocados com quem detém o poder. Um toma lá, dá cá deplorável.

Já na esfera ambiental o que acontece na Amazônia escancara o descaso com o nosso patrimônio natural maior, nosso presente e nosso futuro. “A Amazônia é questão de vida ou morte. Precisamos lutar por ela”, escreveu recentemente a jornalista Eliane Brum, ao compartilhar um texto de Jonathan Watts, editor global de meio ambiente do The Guardian, que ressaltou: “Não são brancos que estão morrendo, como de hábito, pelo menos não ainda. São os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e também agricultores familiares. Sei muito bem que a situação do país toda é terrível. Mas na Amazônia, é onde estão os interesses de Bolsonaro e seus amigos”. A integridade da nossa terra está nas mãos de governos que não se importam com a preservação, repudiam a diversidade e estimulam a violência.

O que está em jogo? Os direitos básicos de um povo muito sofrido – liberdade de expressão, justiça social, educação, saúde, segurança. A nossa dignidade e a nossa autonomia entregues para indivíduos sem escrúpulos. E boa parte da imprensa, como de hábito, segue unilateral, escorregadia, incapaz de uma análise plural, reflexiva e profunda.

Sob o ponto de vista pessoal, minhas dores inevitavelmente misturam-se às dores da sociedade. E nessa fusão de sentimentos vou percebendo, aos solavancos, o tanto que tiraram dos seres políticos e sociais que somos. Todos nós. As marcas são profundas. Necessitamos urgentemente de olhares sensíveis, de fluidez, de sabedoria, de uma humanidade que o poder que nos sufoca desconhece.

Sei que a época é de aliviar as tensões de um ano difícil, de um desmonte nunca antes imaginado, para viver com serenidade os rituais de passagem tão necessários. Sei que é preciso respirar profundamente entre familiares e amigos e brindar a vida com alegria. É fundamental seguir olhando para o outro com afeto, entre risos, abraços, lágrimas e brincadeiras, com a certeza de que é possível a mudança que sonhamos. Sem radicalismos e sem alimentar mágoas, buscar a harmonia, respeitando as diferenças que nos constituem.

O bando que hoje entrega o país ao capitalismo mais sórdido, resultado de um pacto fascista articulado por políticos e uma elite sem escrúpulos, é insaciável. Esse bando nos quer submissos e covardes. Nunca saberemos o quanto ainda vão sugar de todos nós. Os ataques à educação, à ciência, às artes, ao conhecimento e aos direitos das pessoas com deficiência não cessam e é uma maneira de nos tornar vulneráveis como cidadãos. Sem cultura, sem análise, sem reflexão, sem acolhimento, com ataques sistemáticos aos movimentos sociais, e com a desestruturação do ensino, o que temos pela frente é a ausência de pensamento crítico. Um povo sem história e sem memória é mais fácil de subjugar. A eliminação de direitos fundamentais interfere diretamente na formação de indivíduos livres, responsáveis e éticos.

Para fechar um ano duro, sombrio, de perdas nunca antes imaginadas, e em nome da minha saudável rebeldia, recuso a polaridade que não leva a lugar nenhum. Precisamos da palavra que nos coloque novamente em sintonia para divergir e buscar a mudança como seres civilizados que somos. Precisamos do olho no olho, do debate a céu aberto, livres do ódio insano autorizado, que contamina as redes sociais e as nossas relações com o mundo ao redor, plantando mentiras para nos desestruturar.

Apesar do cenário obscuro que vejo estampado no horizonte, meu desejo é que 2020 nos livre da ignorância que tomou conta do Brasil e nos devolva o prazer do conhecimento, a garra, a esperança, a capacidade de lutar pelos nossos sonhos. Recuperar a delicadeza perdida é o que me move neste momento polarizado, de tanto ódio. Quero de volta a nossa humanidade avassaladora e diversa, tão ameaçada neste cotidiano irracional. Quero a humanidade transgressora, libertária, saudável, solidária e rebelde no que tem de mais genuína, múltipla, íntegra e despojada.

Que país é este? Um desabafo!

Que país é este que autoriza a violência, a tirania e a crueldade?  Que país é este que só tem olhos para o mercado e o lucro? Que país é este que vira as costas para a população carente, explorada e intimidada diante da truculência de quem deveria garantir a segurança? Que país é este que mata índios, negros e pobres e torna ainda mais precária a vida de quem já não tem quase nada? Que país é este que mantém um governo tóxico que liberou, em menos de um ano de mandato, o uso de 400 produtos venenosos, além de tantos outros venenos que nos contaminam cotidianamente?

Que estado é este em que livros são encaminhados para virar papel higiênico? Que estado é este que só pensa em privatização? Que estado é este que mantém os salários atrasados, parcelados, e tenta há 48 meses normalizar o que não é normal? Que governo é este que ainda quer tirar do funcionalismo benefícios adquiridos, como o percentual de insalubridade, entre tantas outras medidas de um pacote salvador, que só salva os já salvos?

Perdemos a decência, o respeito pelo outro, a possibilidade de um diálogo aberto, o desejo de viver em harmonia na diversidade.

Diante desta aniquilação de direitos em nome de uma “crise fiscal” e da desumanização da vida a cada minuto, lembro o que escreveu o ator, diretor e produtor Rodrigo Pena, em agosto de 2019, na revista Joyce Pascowitch: “Como projeto de nação, sociedade, nunca fomos tão ridículos”. E mais uma vez ouço a voz do poeta João Cabral de Melo Neto: “não há guarda-chuva contra o mundo”.

Falta dinheiro? Falta. É desorganização dos governos e do poder público de um modo geral? É. O Estado está falido? Está. O desvio de verbas é uma realidade? É. O uso é equivocado? É. De quem é a responsabilidade? Da máquina administrativa inchada, do excesso de funcionários, do custo do que é público, como educação, saúde, assistência social e previdência, dizem os donos do poder, que só sabem jogar a culpa da falência nos trabalhadores, por conta dos salários e das vantagens que recebem. Sempre a velha e equivocada retórica. É bom que se diga que direito social não é mercadoria e que a solução não está na adoção de modelos comprovadamente fracassados.

A política neoliberal do estado mínimo aniquila conquistas e direitos fundamentais da população, amplia a desigualdade, estimula ainda mais a concentração de riqueza e poder nas mãos de muito poucos, agrava os problemas, gera altos índices de criminalidade, queda dos índices de educação e de qualidade de vida. Mas os governos insistem. Partidos, políticos, empresários e seus asseclas de um modo geral não querem sair de suas bolhas. São incapazes de um pacto decente pela nação e só pensam em vender tudo, liquidar com o patrimônio. Privatizar, privatizar, privatizar é a ladainha de sempre, potencializando o pior do neoliberalismo, a desumanidade.

Pelo viés das forças políticas conservadoras, autoritárias e preconceituosas, dos liberais que defendem o capital a qualquer custo, os empresários e o mercado não têm responsabilidade pelo que aí está. As empresas seguem protegidas e sonegando seus impostos milionários. E os políticos só têm olhos para seus umbigos. Não abrem mão de campanhas escandalosas, onde o dinheiro brota de todos os lados, para assumir o comando de um município, de um estado, de um país. Ou virar senador, deputado, vereador. Não têm vergonha de rifar cargos, encobrir falcatruas e tirar verba da saúde e da educação para engordar o fundo eleitoral. Discursam nos palanques como salvadores da pátria. Arrancam da cartola soluções milagrosas e fazem promessas mirabolantes. Depois de eleitos, passam quatro anos fazendo projetos estapafúrdios e inúteis, lamentando exaustivamente a falta de dinheiro e se eximindo de qualquer responsabilidade concreta.

Por que se candidatam? Que fascínio é este pelo comando de estruturas falidas? Que vantagens levam, afinal, para encarar tantas dificuldades? Os discursos até podem parecer ingênuos, mas não há ingenuidade nesta bolha onde tudo ou quase tudo se compra. Há, sim, esperteza, ganância e descaso com as pessoas. Portanto, os discursos são cínicos. Desumanos. Primários. É um deboche tanta queixa e tanta falsidade, enquanto a população espera um projeto positivo, por mínimo que seja.

Se tanto batalham para ser prefeito, vereador, governador, deputado, senador, presidente, para ocupar qualquer cargo, é porque querem fazer algo que valha a pena. Na minha santa ingenuidade, algo que contribua com o desenvolvimento sustentável, com a educação, a saúde pública e o bem estar de uma comunidade.

Que nada! É apenas o poder pelo poder que move esta gente. E, claro, as benesses que o poder gera e que nós pagamos.

Todos os que aí estão em seus postos, muito bem pagos, de líderes salvadores da pátria sabiam o que estavam assumindo ao se candidatar. Sabiam das suas responsabilidades com os votos que receberam. Ao trabalhar para serem eleitos não deveriam ter consciência da árdua tarefa que os aguardava e honrar a dimensão do cargo? Aquele ou aquela que se candidata, faz campanha, acordos, alianças, viaja o país inteiro, não deveria pecar pelo descaso. Até porque ninguém é ingênuo nesta seara.  Por que, então, o ridículo discurso da penúria, cheio de ameaças, repetido exaustivamente do Oiapoque ao Chui, depois de eleitos? É patético. E seria cômico se não fosse trágico.

Acessibilidade para quê?

Volto a um texto que escrevi e publiquei neste blog em abril de 2015 para concluir que, institucionalmente falando, quase nada mudou. Mas a nossa luta está mais forte e mais consistente, o que me estimula neste novembro de 2019.

“ – Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?” – fala do anão Umberto no livro infantil A história mais triste do mundo (Bolacha Maria Editora, 2014), do psicanalista e escritor Mário Corso.

Tão simples quanto verdadeira! O tema é recorrente na minha vida: acessibilidade. Ao me deparar com questões assim, me vem a certeza de que ainda estamos distantes dessa possibilidade porque ela depende do olhar que vê o outro, coloca-se no lugar, acolhe. Percebe a diferença e entende que o problema não se resolve apenas com leis, normas e equipamentos.

Se estivesse em um hospital, certamente o anão Umberto perguntaria: Por que usar aparelhos de pressão grandes em braços tão pequenos? Ninguém lembra. E quando é sugerido, lá vem o ponto de interrogação estampado nos rostos. Antes disso, já teve o riso disfarçado, a curiosidade, a dificuldade de lidar e tratar com naturalidade.

Experiência recente, e muito dolorosa, me mostrou que avançamos quase nada quando o assunto é acolhimento da diferença, da mais banal a mais complexa. O tamanho, o peso, a dosagem da medicação, o conforto, o que fazer com um adulto em um corpo tão pequeno? Praticamente não há respostas e nem quem as busque. Às vezes, tudo parece tão inatingível que a sensação é de que sempre seremos estrangeiros em busca de um espaço para viver com o mínimo de dignidade.

Ouse pedir um banquinho para alcançar na pia do banheiro em um hotel! Todos te olham como se estivesses pedindo uma cadeira com design assinado pelos irmãos Campana. Não importa quantas estrelas tenha o hotel, os rostos viram pontos de interrogação e a resposta é a mesma: Ah, não temos, vamos ver! Até aparecerem com uma caixa de maçã ou um engradado de bebidas, bem vulneráveis. Ou, ainda, com uma cadeira enorme, de dois braços, que ocupa o banheiro inteiro. Ou tu ou a cadeira. Ponto. Resolvido o problema.

Já escrevi muito sobre tudo isso e reafirmo: leis são necessárias. Regulam, dão garantias, sinalizam, acendem uma luz na escuridão: a sociedade está preocupada! Mas, antes de tudo, necessitamos de olhares sensíveis, criativos, humanos. Enquanto a burocracia discute a maçaneta ideal, como baixar balcões, como buscar verba para comprar uma escadinha, pegar um medidor de pressão infantil, enfim, como atender quem foge totalmente dos padrões dados e assimilados, a vida segue.

MAs instituições, públicas, privadas, independentes, sejam elas quais forem, enredam-se em regras, normas e detalhes na tentativa de facilitar um cotidiano que, via de regra, desconhecem e, assim, perdem a maravilhosa capacidade da improvisação. “Ordens são ordens”. Basta cumprir! Sem entender ou questionar. E seguimos driblando esse admirável mundo “normal”. Tão normal e tão acomodado que não vê na diversidade a possibilidade de sair dos espaços institucionalizados, inventar, reinventar, criar, facilitar, mudar.

Um bando e muitos outros

Remexendo em guardados, encontrei o texto abaixo. Tudo indica que escrevi em 20 de julho de 1987 para o programa Palcos da Vida, da TVE/RS, apresentando o cantor e compositor Bebeto Alves. Não resisti à boa lembrança e resolvi publicar no blog.

Um bando e muitos outros

Foi lá pela segunda metade dos anos 70 que Bebeto Alves surgiu nos palcos da vida porto-alegrense. Era o tempo das Rodas de Som nas madrugadas de sexta-feira, produzidas pelo cantor e compositor Carlinhos Hartlieb, que lançaram vários músicos gaúchos.

Bebeto integrava o grupo Utopia, com Ricardo e Ronaldo Frota. Duas violas e um violino. Som acústico novo, ousado, harmonioso, numa época em que os acordes das guitarras elétricas detinham o poder. O Utopia se desfez em julho de 1976, mas Bebeto continuou, levando na voz forte e bonita o sentimento e a solidão/nostalgia do pampa para misturá-los ao burburinho da cidade grande e à pressa dos urbanos.

Pleno das suas origens de menino criado nas barragens do rio Uruguai, buscou o mar. Fundiu-os. Levou suas milongas. Violas. Guitarras. Estabeleceu pontes. Abriu porteiras. Galopes. Horizontes. Despedidas. Inverne e verão. O porto escancarado ao mar. Um bando e muitos outros. Alquimia que resultou no primeiro disco individual, gravado entre março e abril de 1981, no Rio de Janeiro, onde mescla, com rara beleza, a amplitude do pampa aos sons encontrados pelo caminho, agora feito de ruídos metálicos, esquinas e a solidão das multidões.

“Entre um chorinho e esse tal de roque, entre um baião e um chote”, a sua milonga tomou outras formas, assumiu outros ritmos. No segundo disco, de 1983, tornou explícita a notícia urgente de que Bebeto Alves era um compositor/cantor brasileiro que cantava, com as suas raízes, os sentimentos universais.

O verão carioca, o som das discotecas, a música jovem, a política do corpo, a vontade de fazer sucesso levaram Bebeto ao terceiro disco, dançante, sonoro, moderno, bem mais urbano e identificado com a vida no Rio de Janeiro. Novo País foi gravado em 1985. Depois dele um período de reciclagem. A volta ao sul. O pé na estrada mais uma vez. Nova Iorque. Outras tantas andanças. Redefinição de caminhos. E o caminho de casa novamente para a gravação de mais um disco, o quarto, recentemente no Porto de Elis.

Luís Alberto Nunes Alves/Bebeto Alves, 33 anos, um milongueiro das barrancas do rio Uruguai que ouviu Elvis Presley, cantava em inglês nos programas infantis de rádio, era crooner de conjunto de baile, isto ainda em Uruguaiana. Em Porto Alegre, curtia com os amigos a guitarra e a loucura de Jimmy Hendrix, o blues e agitava os ares da cidade com sua música forte, regional/urbana/universal, resultado de muitas e bem assimiladas influências.

Hoje, entre os muitos caminhos e os muitos voos, Bebeto ainda resgata, como poucos, os elementos do folclore da sua terra natal, incorporando-os às influências da música latino-americana, música urbana brasileira e ao novo que está por aí e que virá. Criou asas.

Um livro a favor da vida

Restabelecer a relação médico-paciente. Humanizar as consultas e as internações hospitalares. Alertar para os riscos da medicalização. Advertir sobre os excessos da indústria farmacêutica. Os diversos questionamentos feitos pelo médico André Islabão em seu primeiro livro, Entre a estatística e a medicina da alma – Ensaios não controlados do Dr. Pirro (Pubblicato Editora, 2019, 236 páginas), propõem uma reflexão profunda a respeito da saúde pública e do futuro da própria medicina. Uma das minhas alegrias é ter sido convidada pelo autor para escrever a orelha do livro que será lançado em Porto Alegre neste sábado, 19 de outubro, das 16h às 19h, na cafeteria La Croissanterie (rua Ramiro Barcelos, 1829, bairro Bom Fim).

Um livro a favor da vida

Surpresa, alegria, curiosidade. Assim reagi quando André Islabão me falou que estava escrevendo um livro. Por conhecê-lo e saber do seu jeito peculiar de conduzir as consultas e se relacionar com os pacientes. Logo pensei que não seria apenas mais um livro sobre a medicina, hoje tão contaminada por interesses econômicos que sustentam um vasto mercado com a medicalização do nosso cotidiano. Na primeira leitura, confirmei minha percepção. Nas releituras, me apaixonei pelas ideias e pela escrita literária do autor. Não é técnico. Não é científico. Não é pretensioso. É um livro simples, sobre escolhas, vida, morte. Humano.

Entre a estatística e a medicina da alma – Ensaios não controlados do Dr. Pirro fala de uma relação que precisa ser restabelecida, médico e paciente, hoje substituída por pílulas salvadoras, em nome de urgências para além da saúde. Já não podemos ser tristes, adoecer ou envelhecer. Já não se vê a pessoa – corpo, alma e fragilidades – em busca de acolhimento, uma palavra, um olhar. A felicidade e a juventude se impõem.

O primeiro livro de André Islabão é crítico, filosófico, corajoso. Necessário. Suas reflexões falam de nós que, muitas vezes, precisamos é de alguém que nos ouça, de um aperto de mão ou de um abraço. O autor reconhece os avanços da medicina, mas aponta para um perigoso endeusamento da tecnologia que pode nos jogar em uma existência a qualquer custo ao negar a inexorável condição humana – a finitude.

Acompanhei o processo desta publicação, com a parceria de Vitor Mesquita e Andrea Peccine da Costa, da Pubblicato Editora, e com José Walter de Castro Alves e Kixi Dalzotto, companheiros de trabalho e de vida. Aprendemos muito. E assinar a orelha deste livro precioso me enche de orgulho. Recomendo uma leitura sem pressa destes ensaios nada comportados, do “Dr. Pirro”, que servem para viver.

André Islabão nasceu em Pelotas (RS), no dia 29 de setembro de 1971. É formado em Medicina pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Reside desde 1992 em Porto Alegre (RS), onde trabalha. É “médico, mas também pai, músico, tradutor, compositor, artista e escritor” – como se define. Decidido a tentar reduzir o abismo crescente entre a medicina moderna e a visão mais holística do ser humano, acredita que a saúde da alma é tão importante quanto a do corpo. Pensando nisso começou a escrever livros, compartilhando suas ideias. Juntou o piano a suas ferramentas terapêuticas e passou a levar um pouco de alegria em forma de música a algumas casas geriátricas da cidade.

Pra onde ir?

Há um sentimento devastador no ar. Um desânimo. Um cansaço. Um desencanto. Uma embriaguez que entorpece os sentidos, o corpo e a alma. Um vazio. Um medo. Uma tristeza. Um esperar pelo que já não é. E não vai voltar.

Há um reacender do preconceito, que sinto a cada andar pelas ruas. Olhares invasivos. Curiosidade desmedida. Risos disfarçados. Deboche. Piadas entre dentes. E o que mais inquieta e entristece é que essa discriminação vem de jovens normalmente bem vestidos, descolados, que andam em grupos.  Então, canto baixinho, quase como um lamento, a música de Caetano Veloso, “Dom de Iludir” – “Não me olhe / Como se a polícia andasse atrás de mim”. E sigo, mesmo que não tão forte e cheia de coragem como gostaria de seguir.

A pergunta é: O que está acontecendo, justamente agora, quando acessibilidade e inclusão são temas muito discutidos, que estão na pauta das escolas, das instituições, das famílias, da mídia? Justamente agora, quando conseguimos encarar o preconceito sem meias palavras?

É possível entender, apesar da indignação que esta tentativa de entendimento provoca. Quando nos damos conta de que há hoje no Brasil uma autorização explícita que não está voltada para a empatia, a resposta está dada. Para onde nos leva? Certamente não é para o diálogo e para uma convivência harmoniosa. Muito pelo contrário. O caminho é a barbárie, o armamento, o ódio. Acirra o que há de mais desumano nos humanos, o irracional. Precisamos mesmo nos defender uns dos outros? Andar como se nossas vidas fossem feitas de inimigos?

Estamos sem freio. Perdemos o rumo na tão festejada era da tecnologia, que faz automóveis voarem, possibilita investigações extraordinárias, conecta e vigia todo mundo, mas não consegue deter o mal estar do nosso dia a dia. Perdemos o sentido do humano, o olhar acolhedor, a solidariedade. No que estamos nos transformando? O que queremos? Por que queremos? Para onde vamos? Qual o sentido do nosso andar?

É um andar que tropeça em uma população miserável e triste, que anda pelas ruas, cresce assustadoramente, e fingimos não ver. Ou nos defendemos desta visão porque não suportamos. Olhares e corpos cansados, perdidos, famintos, enlouquecidos, jogados nas calçadas ou puxando carroças pesadas, em uma cidade bonita, ancorada por um rio imenso, com um pôr do sol maravilhoso. Cidade que parece ter perdido a noção do que chamamos de humanidade.

Sabemos que nem todos os que estão atirados pelos becos querem dali sair. Mas sabemos também que há muitos que precisam apenas de uma palavra, de um gesto, de uma nova oportunidade ou de alguém que os estimule a retomar o que largaram pelo caminho. A cidade que vejo hoje abandonou seus encantos, sua sensibilidade, suas ruas esquisitas cantadas pelo poeta e estampa uma pobreza nunca antes vista pelos meus olhos. Pisou nos versos, esqueceu as rimas e já não sabe da sua gente.

Releitura de crônica de abril de 1991

A vida é feita misturadamente de dor e prazer. E de um irremediável desejo que mantém na humanidade o fascínio pelo viver. Esse desejo – que é falta – é o que nos impulsiona na busca do que em nós é essência. Para nos preencher, nos fazer inteiros e, quem sabe, para nos apaziguar.

A seguir, a atualização de uma crônica muito triste que escrevi em abril de 1991. Encontrei ao mexer em uma pasta de escritos guardada no fundo de uma gaveta. Provavelmente, ao escrevê-la, eu estava no meu inferno zodiacal. Quem sabe em todos os infernos.

Quem é ela?

Tudo indicava que vinha de caminhos diversos. Truncados, acolhedores, tortuosos, amorosos, onde sempre construiu ninhos. E biombos para esconder, quem sabe, o medo e a insegurança. Vinha do não social. Fantasias, ilusões, decepções, histórias outras que não a sua própria história. Vinha cercada de proteções que foram levantadas ao longo dos anos – muros que salvavam e, ao mesmo tempo, segregavam.

Mas o mundo que definitivamente escolheu frequentar não oferecia guarida. Muito menos bálsamo para os males da existência. Levou tempo para ver a vida lá fora, absolutamente nua, para além dos muros. A visão atordoava. E doía a nudez que se instalava de um jeito assustador, potencializada pelos olhares estranhos que a observavam. Até nos momentos em que se via linda, cheia de coragem, pronta para pedir socorro.

Depois de um tempo, e ainda no meio dos muitos temporais, juntou todos os elementos que a fizeram, fazem e desfazem, e passou a escrever sobre os vastos e intensos sentimentos tão intimamente incrustados. Uma tentativa de traduzir, conhecer, entender e, talvez, se redimir do que negou e deixou de ser. Textos doces e agridoces, que a ampararam nos períodos de esconderijo – quando nada era dito, mas era sentido – e a amparam e libertam ainda hoje quando a palavra já não se esconde e possibilita a travessia dos fantasmas do viver.

O que fez esta mulher? Onde se escondeu e com que chaves que mesmo ouvindo o seu grito foi difícil achar seu rastro?

São perguntas que a jogam novamente no útero da mãe e a fazem nascer mais uma vez. Sem disfarces. Já foi ao fundo do poço. Colocou os pingos nos is. Deu nome aos bois. Escreveu certo por linhas tortas. E torta por linhas certas. Entrou na contramão. Atrapalhou o trânsito. Dançou. Perdeu-se. Fragmentou-se. E se refez. Como um quebra cabeças. Foi atrás dos pedaços espalhados. Juntou-os. Encarou a inundação da tristeza oceânica, que doeu como o romper da onda contra o rochedo. Foi e voltou. Estilhaçou. Assumiu disfarces de luz e brilhos de sol. E provou da solidão inacessível do horizonte no mar.

Comeu o pão que o diabo amassou? Não. Recusou consumir o alimento amassado pelo senhor das trevas. E olhou para o pequeno universo que a rodeava, tão bonito! Olhou para a família e para os amigos que seguiam inteiros e intensos. Olhou para o amor que mobiliza tanta gente e para o amor que sempre carregou internamente.

Hoje vive alimentada por esse amor. A dor ainda dói, mas não sufoca e não a impede de desejar e enfrentar o desconhecido. Não seria possível sobreviver de outra maneira. Desnuda, buscou o que nela é essência, o que tem que ser, com a certeza de que é possível ser plena na imperfeição.