Pra onde ir?

Há um sentimento devastador no ar. Um desânimo. Um cansaço. Um desencanto. Uma embriaguez que entorpece os sentidos, o corpo e a alma. Um vazio. Um medo. Uma tristeza. Um esperar pelo que já não é. E não vai voltar.

Há um reacender do preconceito, que sinto a cada andar pelas ruas. Olhares invasivos. Curiosidade desmedida. Risos disfarçados. Deboche. Piadas entre dentes. E o que mais inquieta e entristece é que essa discriminação vem de jovens normalmente bem vestidos, descolados, que andam em grupos.  Então, canto baixinho, quase como um lamento, a música de Caetano Veloso, “Dom de Iludir” – “Não me olhe / Como se a polícia andasse atrás de mim”. E sigo, mesmo que não tão forte e cheia de coragem como gostaria de seguir.

A pergunta é: O que está acontecendo, justamente agora, quando acessibilidade e inclusão são temas muito discutidos, que estão na pauta das escolas, das instituições, das famílias, da mídia? Justamente agora, quando conseguimos encarar o preconceito sem meias palavras?

É possível entender, apesar da indignação que esta tentativa de entendimento provoca. Quando nos damos conta de que há hoje no Brasil uma autorização explícita que não está voltada para a empatia, a resposta está dada. Para onde nos leva? Certamente não é para o diálogo e para uma convivência harmoniosa. Muito pelo contrário. O caminho é a barbárie, o armamento, o ódio. Acirra o que há de mais desumano nos humanos, o irracional. Precisamos mesmo nos defender uns dos outros? Andar como se nossas vidas fossem feitas de inimigos?

Estamos sem freio. Perdemos o rumo na tão festejada era da tecnologia, que faz automóveis voarem, possibilita investigações extraordinárias, conecta e vigia todo mundo, mas não consegue deter o mal estar do nosso dia a dia. Perdemos o sentido do humano, o olhar acolhedor, a solidariedade. No que estamos nos transformando? O que queremos? Por que queremos? Para onde vamos? Qual o sentido do nosso andar?

É um andar que tropeça em uma população miserável e triste, que anda pelas ruas, cresce assustadoramente, e fingimos não ver. Ou nos defendemos desta visão porque não suportamos. Olhares e corpos cansados, perdidos, famintos, enlouquecidos, jogados nas calçadas ou puxando carroças pesadas, em uma cidade bonita, ancorada por um rio imenso, com um pôr do sol maravilhoso. Cidade que parece ter perdido a noção do que chamamos de humanidade.

Sabemos que nem todos os que estão atirados pelos becos querem dali sair. Mas sabemos também que há muitos que precisam apenas de uma palavra, de um gesto, de uma nova oportunidade ou de alguém que os estimule a retomar o que largaram pelo caminho. A cidade que vejo hoje abandonou seus encantos, sua sensibilidade, suas ruas esquisitas cantadas pelo poeta e estampa uma pobreza nunca antes vista pelos meus olhos. Pisou nos versos, esqueceu as rimas e já não sabe da sua gente.

Releitura de crônica de abril de 1991

A vida é feita misturadamente de dor e prazer. E de um irremediável desejo que mantém na humanidade o fascínio pelo viver. Esse desejo – que é falta – é o que nos impulsiona na busca do que em nós é essência. Para nos preencher, nos fazer inteiros e, quem sabe, para nos apaziguar.

A seguir, a atualização de uma crônica muito triste que escrevi em abril de 1991. Encontrei ao mexer em uma pasta de escritos guardada no fundo de uma gaveta. Provavelmente, ao escrevê-la, eu estava no meu inferno zodiacal. Quem sabe em todos os infernos.

Quem é ela?

Tudo indicava que vinha de caminhos diversos. Truncados, acolhedores, tortuosos, amorosos, onde sempre construiu ninhos. E biombos para esconder, quem sabe, o medo e a insegurança. Vinha do não social. Fantasias, ilusões, decepções, histórias outras que não a sua própria história. Vinha cercada de proteções que foram levantadas ao longo dos anos – muros que salvavam e, ao mesmo tempo, segregavam.

Mas o mundo que definitivamente escolheu frequentar não oferecia guarida. Muito menos bálsamo para os males da existência. Levou tempo para ver a vida lá fora, absolutamente nua, para além dos muros. A visão atordoava. E doía a nudez que se instalava de um jeito assustador, potencializada pelos olhares estranhos que a observavam. Até nos momentos em que se via linda, cheia de coragem, pronta para pedir socorro.

Depois de um tempo, e ainda no meio dos muitos temporais, juntou todos os elementos que a fizeram, fazem e desfazem, e passou a escrever sobre os vastos e intensos sentimentos tão intimamente incrustados. Uma tentativa de traduzir, conhecer, entender e, talvez, se redimir do que negou e deixou de ser. Textos doces e agridoces, que a ampararam nos períodos de esconderijo – quando nada era dito, mas era sentido – e a amparam e libertam ainda hoje quando a palavra já não se esconde e possibilita a travessia dos fantasmas do viver.

O que fez esta mulher? Onde se escondeu e com que chaves que mesmo ouvindo o seu grito foi difícil achar seu rastro?

São perguntas que a jogam novamente no útero da mãe e a fazem nascer mais uma vez. Sem disfarces. Já foi ao fundo do poço. Colocou os pingos nos is. Deu nome aos bois. Escreveu certo por linhas tortas. E torta por linhas certas. Entrou na contramão. Atrapalhou o trânsito. Dançou. Perdeu-se. Fragmentou-se. E se refez. Como um quebra cabeças. Foi atrás dos pedaços espalhados. Juntou-os. Encarou a inundação da tristeza oceânica, que doeu como o romper da onda contra o rochedo. Foi e voltou. Estilhaçou. Assumiu disfarces de luz e brilhos de sol. E provou da solidão inacessível do horizonte no mar.

Comeu o pão que o diabo amassou? Não. Recusou consumir o alimento amassado pelo senhor das trevas. E olhou para o pequeno universo que a rodeava, tão bonito! Olhou para a família e para os amigos que seguiam inteiros e intensos. Olhou para o amor que mobiliza tanta gente e para o amor que sempre carregou internamente.

Hoje vive alimentada por esse amor. A dor ainda dói, mas não sufoca e não a impede de desejar e enfrentar o desconhecido. Não seria possível sobreviver de outra maneira. Desnuda, buscou o que nela é essência, o que tem que ser, com a certeza de que é possível ser plena na imperfeição.

Nanismo é uma condição física, não moral

Nanismo é uma condição física. Está relacionado à altura de um indivíduo, bem menor que a média, o que a genética e a medicina explicam muito bem. Portanto, não é um adjetivo. Muito menos uma palavra para depreciar ou julgar comportamentos, falas, posicionamentos ou uma expressão para acusar alguém por atitude mesquinha, medíocre, vulgar. Logo, não serve para definir a falta de moral que domina o Brasil. Não sou dada a radicalismos, nem apegada ao politicamente correto, mas às vezes alguns usos da palavra incomodam muito. Ora! Falta de moral não tem nada a ver com nanismo. Pode relacionar-se à falta de caráter, de limites, de respeito, enfim. Ao nanismo, não!

E mais uma vez reafirmo: Nada sobre nós sem nós!

Minha amiga Carla Abreu escreveu em um texto maravilhoso que “a pessoa com deficiência tem uma forma de viver diversa da padronizada, com demandas e enfrentamentos diferentes, mas nós não somos nem piores e nem melhores que outras pessoas, nem coitados e nem super-heróis, apenas pessoas que têm um modo de estar no mundo que, em algumas situações, é diferente da maioria”.

Aos desavisados, que desconhecem a força da palavra, recomendo darem uma olhadinha na incrível Cartilha Escola para Todos! Nanismo, que tem como objetivo primeiro uma sociedade inclusiva e justa e já está disponível para as escolas e instituições que tiverem interesse. A primeira edição, criada por um grupo liderado pela designer Vélvit Ferreira Severo, de Rio Grande/RS, mostra que o respeito às diferenças é fundamental para que cada um viva bem e em harmonia com a sua singularidade. Trabalhar a conscientização na escola, de forma simples e lúdica, a partir do cotidiano de uma criança com nanismo, é o caminho natural, saudável e efetivo para o entendimento de que todos são diferentes de alguma maneira.

Não podemos deixar que a palavra se transforme em sinônimo do que é considerado indigno, torpe, pouco e seja usada de forma pejorativa. Já escrevi sobre o assunto outras vezes, mas nunca é demais voltar ao tema quando depreciam a nossa condição de um jeito tão irresponsável. É o caso também de expressões como “salário com perna de anão” (referência ao salário considerado baixo), “anão moral” (Ciro Gomes ao se referir a Michel Temer, que chamou também de ‘traidor e parceiro íntimo de tudo que não presta”), “anão diplomático” (porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, ao reagir às críticas do Itamaraty que condenou o uso desproporcional da força militar por Israel na faixa de Gaza, em julho de 2014). E, ainda, a lamentável expressão “anões do orçamento” (nome dado a um grupo de deputados no final dos anos 1980, início dos 90, envolvidos em fraudes com recursos do Orçamento da União, investigados por uma CPI, parlamentares sem repercussão nacional, ou seja, ‘anões do poder’).

E tem muito mais, mas fico por aqui. Já está de bom tamanho a minha indignação.

Quando escrever é resistir

Minha fala no encontro com alunos das professoras Sabrina Vier e Márcia Lopes Duarte, na Unisinos, em 4 de setembro. Uma noite de muita emoção, muita troca e muito afeto, a partir do tema “A escrita como um ato de inscrição”.

Estou diante de um desafio. Não me sinto autorizada ou, melhor, não me sinto segura para falar sobre um tema tão vasto e tão profundo. Mas me sinto à vontade, pela experiência adquirida vida afora, para afirmar que escrever é resistir, que a palavra liberta. O professor, sociólogo e crítico literário Antônio Cândido diz, em um texto sobre literatura que “pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo, a literatura nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza”. E na literatura está a palavra. Está escrita.

Sou uma leitora de tudo o que me cai nas mãos desde os tempos de escola. E sempre gostei muito de escrever. Fui uma escritora de cartas para os amigos. Minhas agendas eram verdadeiros diários do cotidiano. Quando entrei para o jornalismo essa necessidade virou trabalho, o que sempre fiz com prazer. Tenho o hábito de carregar um bloquinho e uma caneta na bolsa porque, invariavelmente, vou usar. Os horizontes que descortinei através da leitura e da escrita abriram muitas portas na minha vida, externas e internas.

Acredito que escrevemos por inúmeras razões, mas a escrita é para mim uma espécie de tábua de salvação, de amparo, de norte. Faz ecoar vozes que poderiam me sufocar, logo me faz respirar. É um impulso para a vida lá fora. Uma espécie de válvula de escape, entre a realidade e o delírio, por onde transita uma inquietação/interrogação sobre a condição humana, sobre o fim inevitável e o desejo de permanência.

Escrevo “para suportar o buraco, para criar sentido ao que não tem sentido, para não matar e para não morrer, para desacomodar”. Esta afirmação é da jornalista Eliane Brum, repórter e escritora que consegue traduzir em palavras, com sensibilidade rara, esses tempos sombrios.

“As palavras ancoram por um momento”. Portanto, a escrita é uma forma de resistência e de afirmação. É uma maneira de nos vermos existindo. É o que fazemos para não enlouquecer, muitas vezes.

Foi a dor avassaladora que senti ao perder minha irmã que me levou a escrever vertiginosamente. Como uma maneira de não desistir, de preencher um vazio insuportável, de não sucumbir. Um ano depois da morte da Marlene, professora do curso de Letras da Unisinos, que tinha nanismo como eu, publiquei meu primeiro texto no blog isso não é comum, do site Sul21.

Quase sem perceber, fui abrindo portas. Tomei contato com pessoas que, como eu, eram diferentes e estigmatizadas cotidianamente. Ampliei meus relacionamentos, me fortaleci. Sensibilizei ainda mais o olhar para o outro e entendi que falar da diferença que me constitui é encarar a fragilidade da condição humana. É contrapor-se ao preconceito de qualquer natureza. É saudar a diversidade tão necessária para uma vida libertária.

A escrita pode vir de muitas maneiras. Do que não entendemos. De uma preocupação com os caminhos/descaminhos da humanidade. Da constatação de que o poder é corrosivo. Da triste certeza de que a destruição da natureza é real. De inúmeras questões que pontuam o cotidiano, o nosso tempo. Ou todos os tempos. Ou de uma necessidade de desbravar espaços interiores, dores escondidas, revelar segredos da alma. Sempre na tentativa de entender/absorver a realidade, o que está fora, a vida que nos escapa a todo momento. O que virá, entre um assombro e outro.

Pode ser uma recusa ao que está dado, aos clichês repetidos exaustivamente para justificar descaso e desconhecimento ou explicar o inexplicável. Pode ser um jeito de mostrar que cansamos dos discursos, das promessas vazias, da hipocrisia social.

É uma maneira de não sucumbir diante das adversidades e seguir firme, apesar da dor. É assumir o protagonismo da nossa condição, a nossa singularidade diante do olhar do outro, daquele que te olha e te vê como um sub-humano, impulsionado pelo olhar de uma sociedade despreparada que ergue barreiras quando deveria derrubá-las.

É assumir um lugar de fala, Fora do institucional, como escreve a filósofa Djamila Ribeiro, autora do livro “O que é Lugar de Fala?”. É estar atenta às frestas do cotidiano e ao que escapa por elas. Qual é o nosso lugar de fala, de escrita, no Brasil atual? Como não alertar as pessoas diante do que está aí, do desmonte premeditado no campo da educação e da arte?

Muitas pessoas me perguntam se, a partir do que escrevo sobre deficiência, acessibilidade, inclusão, preconceito, direitos humanos, já recebi retorno do poder público ou de algum órgão governamental que trate de questões que envolvam a diferença, seja ela qual for. Minha resposta: Nenhum retorno.  Outra pergunta: Alguma coisa mudou neste período? Resposta: Quase nada. Mais uma pergunta: Não é desestimulante? Resposta: Não! Desistir seria desolador. E a escrita me organiza e me desafia.

Estamos no lugar errado? Somos inferiores? Nossas vidas são indesejadas, tortas, erradas?

Quase ninguém vê a singularidade de uma pessoa com deficiência que transpõe infinitas barreiras físicas e sociais todos os dias. No sentido prático, o que realmente esses olhares veem, querem, a não ser nos depreciar? O que entendem por inclusão? Apontam algum tipo de acessibilidade? Quem está preocupado com estas questões? O que pensam autoridades, governos, profissionais de Engenharia e Arquitetura, se é que conseguem pensar para além do seu quadrado!

A invisibilidade está novamente decretada, apesar de nossas tão suadas lutas e conquistas. Não reconhecemos tais criaturas, parece dizer, toscamente, quem comanda a nação, enquanto o preconceito autorizado vai se alastrando como peste.

Diante deste cenário, a escrita se torna vital. Não podemos perder a possibilidade de usar a nossa voz, que está na palavra, para ampliar os horizontes na convivência com as diferenças. É na diversidade que libertamos nossos olhares e fazemos as vozes ecoar. É na diversidade que está a grande riqueza humana.

Ler, por exemplo, a coluna de Eliane Brum semanalmente é um exercício fundamental para reorganizar ideias, certezas e incertezas sobre a humanidade que habita em nós, para sentir e promover a alteridade, acolher, coexistir, respeitar, cuidar, amar todas as vidas.

A escrita de Eliane, também chamada de jornalismo literário, possibilita uma experiência de empatia incomum, quase impossível no jornalismo tradicional, comprometido com a impossível verdade dos fatos. Sem contraponto!

Portanto, a escrita, a palavra, é fundamental para narrar, contar um fato, resistir e interferir nos caminhos da história, possibilitando a vida e o sonho.

Precisamos de mais bibliotecas nas escolas públicas. E precisamos entender que bibliotecas não são apenas lugares onde se guardam livros. São espaços vivos, de convivência, de descobertas, de promoção de leitura, de conversas, de compartilhamento de ideias que ampliam nossos horizontes, de formação de leitores para além do que circula pelas mídias sociais, tão carregadas de ódio e preconceitos.

A possibilidade da expressão natural através da escrita, da posse e do uso da palavra, nos dá a chance de exercer a cidadania, de sermos sujeitos ativos do mundo que habitamos, de nos ver existindo e reconhecer o outro, a humanidade que nos é comum e, assim, promover naturalmente o cuidado com a vida, todas as vidas. Segundo o professor Luiz Percival Leme Britto, doutor em Linguística, pesquisador e formador de professores da Universidade Federal do Oeste do Pará, que atua na área de Educação e Linguagem, “sem a posse da palavra não há liberdade possível”. Portanto, é urgente que tomemos a palavra. É urgente que cada um se inscreva como sujeito responsável por seus atos e pelo meio social onde vive. Não somos ilhas.

Não somos mais uma nação?

A notícia de que moradores do bairro Cabo Branco, de João Pessoa, querem proibir pessoas com deficiência de frequentar a praia para não tirar “a beleza de um bairro nobre da cidade” – é estarrecedora. Que elite prega tal segregação? A da raça pura do nazismo na Alemanha? A do fascismo de Mussolini na Itália? A dos escravocratas do Brasil colonial, que traziam negros da África para servi-los? A dos saudosos da ditadura que matou e torturou? A do poder econômico, achando que tudo pode porque detém o dinheiro que circula no país? Dinheiro que é fruto do trabalho da maioria da população, muitas vezes explorada. Dinheiro que é sonegado. Dinheiro que é desviado.

O que seria desta casta superior não fosse o suor de quem está na base da pirâmide?

Pelo que sei, as areias e o mar são públicos. “Não fazem diferença de classe social, cor, etnia, origem, gênero. Inclusive os animais são bem-vindos”, como afirmou a vereadora Helena Holanda (PP), uma das autoras do projeto “Praia Acessível”. Projeto que provocou a ira dos endinheirados, chiques, bem vestidos e mal educados frequentadores do local. A ação inclusiva leva para a praia aos sábados pessoas com deficiência para participar de atividades musicais e esportivas na orla. Os moradores incomodados, segundo a vereadora, pediram a retirada do projeto porque “não estaria trazendo um ‘quadro belo’ para a vizinhança”. Helena reagiu e afirmou que vai ampliar o programa, “com o aval da prefeitura de João Pessoa, e levar ao Ministério Público a denúncia de discriminação de moradores”.

O que seria um ‘quadro belo’ para tais pessoas?

É fato. O ambiente social e político da contemporaneidade naturalizou a barbárie. A classe dominante gargalha e consome, enquanto a Amazônia arde. A classe política se acovarda no parlamento, enquanto o Brasil é humilhado. E o governo segue desgovernando. A educação foi abandonada. A ciência e o conhecimento viraram crimes. A previdência social começou a ser destruída. E a produção artística, feita por vagabundos que não querem trabalhar, perdeu patrocínios e apoios.

O preconceito e todo tipo de discriminação recrudesceram no Brasil, e no mundo, neste ano de 2019. Minha experiência, minhas andanças pelas ruas, meus ouvidos atentos, minhas leituras e minha sensibilidade confirmam. Vivemos tempos nada gentis por aqui. Nada acolhedores. Nada empáticos. Tempos de soberba. Tempos de prepotência. Tempos de descaso com o outro. Estamos todos fora dos armários, desvairados, sem limites, nos engalfinhando de um jeito assustador.

É o que nos sobra quando a violência é autorizada e apoiada por quem detém o poder. E insuflada por seus asseclas.

Não somos mais uma nação. Na pátria amada Brasil de hoje mais vale a sordidez, o deboche, as conversinhas hipócritas e banais nas redes, as notícias falsas, a provocação, a polarização. Enquanto o fogo queima o pulmão do mundo e a fumaça se espalha, sufoca, escurece, o país se desumaniza e é manchete que nos envergonha no mundo inteiro. E seguimos nos debatendo. Até quando? Quem se importa?

Recomendo a leitura do texto de Tarso Genro no Sul21 –

https://www.sul21.com.br/colunas/tarso-genro/2019/08/bolsonaro-sai-da-animalidade-e-entra-na-historia/

E a última coluna assinada por Fernanda Young em O Globo –

https://oglobo.globo.com/cultura/em-sua-ultima-coluna-fernanda-young-sentencia-cafonice-detesta-arte-23903168?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar&fbclid=IwAR0zaV1C4cDQuMZDrL_TFYbYFURu53QfAOQ8Zrb5SavKoeWmiJPIsevRQ

Amaro Abreu na Bahia com Vida Paralela e Habitat

Retomo aqui uma história de 2016, quando encontrei, por acaso, Amaro Abreu no centro de Porto Alegre e paramos para um café. Ele contou que estava finalizando um livro e me convidou para escrever um texto. Fiquei surpresa, emocionada e feliz. O pedido vinha de um cara que conheci criança no início dos anos 1990. Já não era mais uma criança, claro, mas os olhos e o sorriso ainda guardavam o brilho da infância. Aquela infância que não abandona quem segue brincando através da arte.

Descobri que Amaro já havia desvendado um vasto mundo. Articulado, criativo, observador, levou seus olhos para outras paragens. Bisbilhotou, desenhou, pintou, grafitou. Rabiscou a vida diversa que pulsa em todo lugar com seus lápis, tintas, sonhos, sprays, emoções, nanquim, fantasias, aquarelas e desejos. Desvendou novos cenários. Compartilhou outros jeitos de viver e foi deixando em muros e painéis suas criaturas inusitadas.

Naquele encontro disse que havia lido alguns textos do meu blog e gostado muito. Quando me conectei com suas criações, entendi o que nos sintonizava. As criaturas que Amaro vai desenhando e espalhando por aí fazem parte de um universo vasto e inquieto.

Amaro Abreu é um artista urbano, grafiteiro, aquarelista. Está apresentando no Instituto Goethe, em Salvador/Bahia, a exposição “Vida Paralela” com o lançamento do livro “Habitat” (Libretos, Porto Alegre, 2016). A seguir, o texto que escrevi para o livro.

O Habitat de Amaro Abreu

Das mãos de Amaro Abreu nascem figuras que dizem muito da vida vertiginosa que levamos, das raízes que nos amparam, das ilhas que formamos para nos proteger, da diferença e da fragilidade que desacomodam nossas certezas, da diversidade que nos constitui como sujeitos únicos, das luzes e das sombras do cotidiano, da liberdade que buscamos.

As criaturas que Amaro vai desenhando e espalhando por aí desconsertam, inquietam, alegram, preenchem, fazem rir, emocionam. Coloridas e disformes, delicadas e fortes, às vezes são incrivelmente líricas, pura suavidade e leveza, e nos convidam a bailar. Em outras, surgem como fortalezas que guardam tesouros humanos preciosos, provocando um pensar incessante. Fazem parte de um vasto universo fora da ordem, que sempre me fez refletir, falar e escrever, hoje quase que cotidianamente, na tentativa de entender os humanos e seu Habitat.

Que segredos guardam esses seres do Habitat de Amaro, ao mesmo tempo circenses e melancólicos, brutos e lúdicos, enraizados e soltos, frágeis e fortes, nesse misto de tristeza e alegria? Saltitantes, voadores, lisérgicos, à beira do abismo, amordaçados, à espreita, olhos arregalados, despedaçados e inteiros, ingênuos e intrépidos, suaves, carnavalescos, genuínos na sua adorável imperfeição, o que querem dizer assim tão inconstantes?

Dizem de nós, seres fragmentados, assustados, urgentes, às vezes dilacerados, felizes e infelizes que somos. Humanos?

Dizem dos outros que nos habitam. Revelam nossas tantas faces, nossa polaridade, nossos sentimentos divididos diante do mundo multifacetado, encantador e cruel, que descobrimos, exploramos, construímos, destruímos, reconstruímos. Habitável?

Dizem da frágil condição humana e das vidas paralelas que, estranhamente, tentamos equilibrar.

Dizem de nós, tão coletivos e tão solitários nessa caminhada frenética em busca de um final feliz.

Ao trabalho, então!

O que me desencanta ainda mais nesses tempos obscuros, de desmonte do que é voltado para a dignidade humana, é perceber que mesmo algumas pessoas que se intitulam democratas não conseguem respeitar o trabalhador. Os discursos libertários em nome dos cidadãos ficam no plano teórico quando se trata de mostrar serviço a qualquer custo. É produção, renda, dinheiro, exploração, lucro, aparência. Já vi muito e sigo percebendo essa tamanha distorção. Na prática, trabalha-se hoje muito mais do que as horas estipuladas, se é que ainda se estipulam horário e função.

Aliás, os trabalhadores, nesta era insana de celulares e rede social que não têm limites, devem estar sempre disponíveis porque, inevitavelmente, serão convocados. A qualquer hora do dia ou da noite, feriados e finais de semana. Isto porque tudo, mesmo a ação mais banal e óbvia, corriqueira, precisa estar na rede. Todos precisam se mostrar. Para quem mesmo? Dane-se a vida pessoal, o ócio necessário para a criação, o afastamento saudável para renovar energias e olhares.

“A tecnologia nos fará trabalhar menos.” Quem foi mesmo que disse isso?

Os discursos, tão sociais e politicamente corretos, foram esquecidos. A empresa, o executivo, o chefe ou quem quer que seja, precisa garantir poder e status. Tu serás acionado, sim, nas vinte e quatro horas disponíveis porque a ansiedade pela ansiedade de quem te banca, empresários, patrões, chefias, e a tua própria, já não reconhece outra forma de gerir um negócio, de trabalhar.

Poucos conseguem admitir que, em muitos casos, o que poderia ser feito hoje pode ficar para amanhã. Nada vai se perder. Reside aí uma grande dificuldade de ver o subjetivo que há em qualquer ação de trabalho, uma questão humana por excelência. E volto à nossa incapacidade de olhar para o outro, de sair do burocrático, da norma, e reinventar o fazer cotidiano.

Ao trabalho, então! Mesmo com os salários vergonhosamente atrasados e reduzidos, o que não importa. Afinal, os governos – pobres governos! – têm sérios problemas. E por conta desses problemas, sempre os mesmos, conseguem passar quatro anos se lamentando, de um jeito heroico, claro – “estamos fazendo o possível para colocar as contas em dia”.

Definitivamente, não entendo por que os políticos ainda se dispõem a concorrer para um cargo público. É muito sacrifício, minha gente! Mas certamente seus salários polpudos não atrasam. Está certo. Vereadores, deputados, senadores e seus comparsas precisam ser bem remunerados para justificar tanta dedicação!

Um grito preso na garganta

Os anos 1980 ficaram conhecidos como a década perdida. Saímos de uma ditadura cruel, que perseguiu, censurou, torturou e matou sem piedade, e mergulhamos em uma “abertura lenta, gradual e irrestrita” proposta pelo ditador Ernesto Geisel. Panos quentes no passado autoritário. Melhor não falar. Melhor, ainda, negar. Mas uma grande pressão popular gerou o movimento Diretas Já e o que se conseguiu foi uma esfarrapada eleição indireta, com Tancredo Neves na linha de frente, que adoeceu e não chegou a assumir. Morreu em 21 de abril de 1985. Seu vice José Sarney, que sempre estava ao lado do poder, não importava de onde viesse, articulando e negociando, assumiu a presidência. Dívida externa infinita, inflação altíssima, economia conturbada. E vieram os planos para salvar o país – Cruzado, Bresser, Verão. Até que apareceu o milagroso Caçador de Marajás, Fernando Collor de Melo, capa da Revista Veja. O discurso, moralista e salvador, prometia colocar ordem na casa. E como gostamos de acreditar no conto da carochinha, elegemos o senhor da caça. Deu no que deu!

É mais ou menos desta época a crônica que segue.

Um grito preso na garganta

A noite avança inquietante. Talvez porque seja domingo e as ruas estão quase desertas. Faz frio e a cidade se recolheu cedo. Nem os bêbados cruzam na sua confusão de pernas em busca de um porto seguro. Nem os contumazes frequentadores dos bares da madrugada, em busca de um papo para disfarçar a solidão.

A noite avança misteriosa. Quase sinistra no silêncio pesado das suas esquinas vazias. Os poucos sinais de vida despontam de algumas janelas iluminadas e da minha respiração tensa, que nunca senti tão forte. Caminho espreitando os tantos espaços em minha volta. Medrosamente. É um tempo de guerra, fria, surda, contida, dolorosa. E tenho um grito preso na garganta, que esperava se diluísse com os novos tempos. Mas não! Segue preso e quase me sufoca.

E lá vem a lembrança de uma canção, de Caetano Veloso, mais uma – “eu tenho um beijo preso na garganta / eu tenho um jeito de quem não se espanta / eu tenho corações fora do peito”.

A esperança alimentou em mim a certeza de mudança, mas os novos tempos chegaram velhos e corrompidos. Aninharam-se na mesma cama do poder prostituído e se encolheram diante do desafio de jogar o jogo da verdade e recomeçar fora dos alicerces que sustentavam a corrupção e a mediocridade.

A noite avança escura e triste. E eu caminho apreensiva, como se um batalhão de fantasmas me perseguisse. Não os adoráveis fantasmas da fantasia infantil. Os fantasmas da vida real, que impediram a mudança. E agora querem impedir que se questione, se fale, se diga não. Querem nos calar, instalados solidamente na farsa que insistem em chamar de democracia.

A noite avança inexoravelmente. E a manhã que não chega nunca!

Que outro jeito? Eu vou!

Uma crônica escrita em junho de 1987, que me parece muito atual.

Nem tudo estava tão certo naquela tarde fria aparentemente serena e azul. Qualquer coisa mexia e remexia por dentro, feito um bicho que se debate dentro de um vidro, numa última tentativa de liberdade. Feito um pé num sapato apertado. Um cisco no olho. Formigamento.

Andava de um lado para o outro. Estonteada. Perdeu a conta das vezes em que virou e revirou o disco, que nem ouvia, no aparelho de som. Roía e olhava as unhas. Nervosamente. Entre uma tentativa e outra de respirar forte. Na realidade, nada estava fora de lugar. As vinte e quatro horas do dia corriam normais. Precisas. Alterar o ritmo do relógio não seria mesmo uma solução. Que outro jeito?

Lavou o rosto mais uma vez. Examinou-se mais alguns segundos no espelho. Tanto cansaço. Na pele, nos olhos, na vida. Sacudiu a cabeça, os ombros, o pó. Passou um batom rápido. Pronto. Se tem que ser, que seja! Pegou a bolsa. Verificou se a casa estava bem fechada. Olhou o gás. Desligou o toca-disco e foi caminhando corredor afora em direção à porta da rua. Mas havia outras portas. Instintivamente, cantarolou baixinho a música “Gothan City”, de Jards Macalé e Capinam, mais dois malditos que ousavam desafiar o coro dos contentes, – “Cuidado, há um morcego na porta principal / Cuidado, há um abismo na portal principal”.

Para além das portas, cruzando a rua serena e azul, mexida e remexida, no centro do burburinho, mais parecia um ser em contramão. Ia, enquanto todos vinham. Ou paravam no meio do caminho. Instintivamente Lembrou o poema de Carlos Drummond de Andrade – “no meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra”. Seguia. E se debatia. Já não apenas interiormente. Agora tudo era muito visível. Cabeça, tronco e membros. Pernas ao infinito. Ação e reação. A certeza de que nada estava certo. Muito menos ela que esperneava exausta entre os braços cruzados, apontando para o morcego na porta principal.

A rua parecia não ter fim. E ela andava, repetindo como um mantra: Se tem que ser, que seja agora! O tempo esgotou. Instintivamente Repetiu inúmeras vezes os versos de “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso – “Eu vou / Por que não, por que não? / Por que não, por que não? Por que não, por que não?”. E foi!

Entre dores e delícias

Há dias de desencanto, bem difíceis, em que olhamos sem filtro para a miséria física e moral que nos cerca e ficamos especialmente vulneráveis – “e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d´água”.

Há dias em que não entendemos o movimento do mundo ao redor e só desejamos um pouco de paz de espírito – “a gente se sente como quem partiu ou morreu, a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu”.

Há dias e noites em que os noticiários da tradicional e conservadora mídia brasileira estampam um jogo político tão sórdido, na voz de parlamentares tão mesquinhos, que o desejo que nos pega profundamente é o de ir embora – o que não seria uma solução. Mas o que mais assusta, em se tratando de meios de comunicação e formadores de opinião, é a ausência de uma análise profunda dos fatos, a partir de vários pontos de vista.  O viés é um só, pesado e medido.

Há dias em que a pergunta que não quer calar é: O que fazem vereadores, deputados e senadores eleitos pelo povo? A minha resposta, lamentavelmente, é “vivem muito bem, obrigado, com polpudos salários, inúmeros assessores e incontáveis visitas às bases eleitorais”. E ainda nos envergonham com projetos absurdos. Temos o deputado que sugere incluir doce de leite na merenda escolar. Ou a solicitação insana do senador em prisão domiciliar querendo passar férias no Caribe. É o vale-tudo que reina absoluto na ilha da fantasia no Planalto Central do país e suas subsidiárias.

Há dias em que o melhor é não pensar e cantar bem alto e em bom tom para todos ouvirem – “vai passar”.

Há dias em que os ombros não suportam as dores da alma, mas essa dor pode ser muito particular, relacionada à sensibilidade e à vivência de cada indivíduo – “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Sei da minha!

Há dias em que não encontramos consolo. Mesmo assim, a vida segue no seu ritmo. Não paramos.

Mas, de repente, encontramos no meio do caminho um pequeno café, quase escondido. Os olhares dos proprietários, mãe e filho, são acolhedores. Há respeito. Há dignidade. Há alegria.

Então, ali sento para almoçar com calma e tomo um expressinho de sobremesa. Tudo muito devagar. As nuvens escuras vão se dissipando. O início da tarde já não parece tão sombrio. E o céu vai ficando cada vez mais azul.

Leio uma entrevista do escritor angolano José Eduardo Agualusa em que ele diz: “Em tempos de construção de muros, os livros são nossas pontes”. Leio outra entrevista, essa do israelense David Grossman, falando sobre a capacidade da literatura de expandir nosso universo interno: “Abra um livro para compreender seus inimigos”.

Pequenos gestos e leituras me mostram que a humanidade não vai sucumbir. A vida cotidiana é feita desses tantos retalhos que aquecem a alma, trazem conhecimento, alimentam o espírito e espalham confiança.

Então, sigo.

Observação – Citação das canções “Gota d´água”, “Roda Viva” e “Vai passar” de Chico Buarque e “Dom de Iludir”, de Caetano Veloso.