Dores e delícias de ser o que se é

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Lelei e MarleneA proposta é compartilhar neste espaço ideias, experiências, sonhos e inquietações, no sentido de refletir coletivamente sobre questões relacionadas ao cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma diferença marcante. Diferença que exclui e provoca o preconceito, limite triste de uma sociedade linear, que não está preparada para perceber e aceitar o outro na sua dimensão. Encarar a exclusão é tarefa difícil porque todo ser humano busca o acolhimento. Há que se ter cuidado para não cair na vitimização e no paternalismo ou alimentar fetiches, heroísmos ou clichês. Há que se ter sabedoria para lidar com uma condição delicada que, às vezes, é jogada em uma espécie de limbo, onde permanece intocável pela dificuldade do enfrentamento. Em resumo, é fundamental evitar os estereótipos. Por isso, falar da diferença, encarando a fragilidade da condição humana, contrapor-se ao preconceito e saudar a diversidade, é desafio necessário e urgente.

É o que queremos aqui neste blog que nasceu de muitas conversas instigantes. Especialmente do estímulo da arquiteta Flavia Boni Licht, que provocou meu encontro com a jornalista Núbia Silveira, mais adiante com Carmen Crochemore, diretora executiva do portal Sul21 e, recentemente, com o editor Milton Ribeiro. E, claro, do apoio de amigos que acompanham tudo com entusiasmo.

O desejo de falar sobre o impacto da diferença e do quanto o convívio é duro muitas vezes já fazia parte das muitas conversas que Marlene, minha irmã, e eu tínhamos quase cotidianamente. Encarar uma vida a ser vivida com o nanismo, portanto cheia de limites, em uma época em que não se falava em inclusão e acessibilidade, foi desafiador desde a infância. Ainda é! E para mim é muito emocionante que este blog seja lançado justamente no dia 5 de abril de 2016, quando faz um ano da morte da Marlene.

Pensar a diferença de maneira ampla, a partir da perspectiva da acessibilidade e da inclusão, ampliou nossos horizontes. Quando Flavia me pediu para escrever algo sobre as dificuldades enfrentadas pelos anões no dia a dia, nosso interesse aumentou. A proposta desacomodava conceitos clássicos, enraizados, e apontava para uma sociedade como soma de diferenças e não de homens hipoteticamente iguais – tudo o que queríamos para potencializar um debate que já estava nas nossas vidas há muito tempo.

Para além da eliminação de barreiras físicas, acessibilidade é cidadania, direito social, independência, capacidade de olhar o outro e de acolher, “porque o olhar nunca termina de aprender a ver”, como escreveu a psicanalista Diana Corso em algum momento e anotei em um dos tantos blocos que carrego comigo.

O caminho é longo, mas estou na estrada. Sempre estive.

69 ideias sobre “Dores e delícias de ser o que se é

    • Olá, Vanderlei. Esse é um enfrentamento necessário. Adorei descobrir a página Respeite o Nanismo. Temos muito para trocar nesses espaços que estamos abrindo para a discussão da diferença, do preconceito, da inclusão, da acessibilidade, enfim, em busca de mais humanidade, respeito, tolerância.

    • Que bom, Karen. Muito obrigada. Quero mesmo que este espaço seja de troca e contribua pra pra refletirmos sobre a discriminação. Abraço.

  1. Parabéns Lelei!!! Espaço valioso para pensarmos as tantas e tantas questões que permeiam uma sociedade marcada por tantas diferenças e que se movimenta lentamente pela inclusão. Caminho que se abre só caminhando!!! Bjo!

  2. Me chamo Márcia, sou psicopedagoga e mãe de dois filhos maravilhosos, com habilidades, vontades e Síndrome de Asperger (TEA) e Síndrome de Down, ou seja, indivíduos com suas especificidades. Trabalho na Associação Amigo Down que presta um serviço de apoio levando informação e conhecimento sobre a Síndrome de Down, além do acolhimento aos pais e a sensibilização de profissionais e comunidade em geral.
    Adorei a ideia de um espaço para compartilhar experiências, sonhos e inquietações, a fim de pensar os caminhos ou des caminhos para entendermos nossa sociedade, que se propõe inclusiva.
    Com certeza o caminho é árduo e longo e também estou na estrada, procurando sempre caminhar em beleza.

    • Pensar junto, trocar experiências, abrir espaços, é fundamental, Márcia. Vamos compartilhar nossos sonhos e inquietações. Se quiseres escrever, contribuir com alguma informação pra este blog será muito bom. Abraço.

  3. E´importante que vc , com sua coragem , disposição e cultura , possa levar a todos as questões particulares da sua condição, que representa a condição de tantos outros , calados e limitados na oportunidade que vc tão bem esta´sabendo aproveitar. Minha admiração pela iniciativa e pelo apoio da Flavia Licht. Parabens!

    • O objetivo deste blog é bem esse, compartilhar experiências e, dentro do possível, abrir caminhos. E o apoio da Flávia é fundamental. Abraço.

  4. Lembro muito destas irmãs, aqui em São Francisco de Paula, inteligentíssimas, amáveis, queridas mesmo. Que bom que o mundo parece começar a aceitar a diversidade, e olhar o outro na Essência do ser, no coração mesmo, independente da aparência ou de suas escolhas. Só fiquei triste pela falta da Marlene, mas….a vida é assim , abraços. Lúcia Matilde Frezza Maganini

    • Que bom, Lucia! Marlene e eu pensávamos juntas sobre a nossa condição e tínhamos planos de escrever algo juntas. Então, resolvi encarar e escrever. Ela, de onde estiver, deve estar gostando. Abraço..

      • Nossa, minha querida, hoje que vi a tua resposta, mas hoje novamente “descobri”, é que tenho duas netas pequenas, uma de quase quatro anos e outra de 1 aninho, então ajudo bastante minha filha, que mora aqui e é psicóloga no Presídio Municipal. Embora as meninas estarem na creche, ajudo sempre. UM grande beijo e Paz eterna pra Marlene.

  5. Que gostoso ler, que confortante ver as palavras, matéria-prima da Marlene, fluindo por dentro de ti, Lelei. A materialidade do texto sedimenta as emoções, por isso, é tudo o que temos agora para trazê-la para junto de nós. E não é pouca coisa!! Parabéns pela sublimação amorosa, o (re) trabalho da saudade. Abraço no coração!!

  6. Que importante este espaço, sinto-me convocada por toda a vida a andar nesse caminho cheio de desafios e obstáculos, fazendo pontes para a inclusão das diferenças no nosso contexto social. “A ponte não é de concreto, não é de ferro. Não é de cimento. A ponte é até onde vai o meu pensamento” (LENINE, 1977).

    • É o que temos que fazer, Elaine, pontes, muitas pontes, pra que muitos possam pensar e enfrentar esses caminhos tão cheios de desafios e obstáculos. Um beijo.

  7. Parabéns Lelei.
    Como me sinto orgulhosa de você,minha amiga querida!
    Grande presente que todos que pensamos o humano,recebemos hoje com seu/ nosso blog.
    O começo de muitos pensares a respeito das diferenças e ao mesmo tempo das inclusões.
    Beijos e palmas.

  8. Texto fantástico, como todas as suas produções querida Lelei.
    Parabéns por mais essa iniciativa! Precisamos cada vez mais de momentos como este para que as pessoas entendam com maior profundidade diversas questões da diversidade!
    Eh falando que se esclarece e se dá a conhecer , eh escutando e lendo que se entende, eh provocando o diálogo que percebemos nossos papéis e as oportunidades de sermos pessoas melhores e contribuintes para um futuro mais consciente! Abraço

    • Obrigada, Deise. Tomara que realmente contribua para o maior entendimento da importância da diversidade. Esse é um dos desejos que me move. Um beijo.

  9. Lelei, querida colega, li na Coletiva sobre a tua coragem, que é uma das tuas características, que tivestes ao encarar mais esse desafio. É certo que vais vencer.

    Tenho duas histórias boas (quase piadas, mas verdadeiras) que acompanhei contigo na tua e minha carreira. Se quiseres posso te mandar hora dessas.

    • Querida, Jurema. Que bom! Quero sim as tuas histórias. Me manda. Este é um espaço para troca de experiências. Te aguardo. Um beijão.

  10. Parabéns minha querida amiga. Tenho certeza que esse trabalho será de grande ajuda, reflexão e deleite para muitos. Inclusive para mim. É muito bom ter a oportunidade de acompanhar este seu olhar.

    • Obrigada, querida. É um desejo que eu alimentava com a Marlene e resolvi encarar. Escrever me acalma e quero contribuir com um entendimento maior do valor da diversidade. Beijo.

  11. Tenho a certeza que a melhor homenagem à nossa querida Marlene viria pelas palavras. Sempre as palavras, sua matéria-prima, com a qual ela criou um mundo de sensibilidade que compartilhava amorosamente com alunos e, principalmente contigo, Lelei, como está demonstrado aqui. Tu és herdeira desse amor, dessa inspiração, dessa luta!
    Parabéns pela garra, pela coragem, pela capacidade de se propor como sujeito-autora da tua história!!
    Marlene está orgulhosa!! 😉

  12. Lelei, não tivemos oportunidade de nos conhecermos, mas tinha a Marlene como uma grande amiga, a quem admirava e respeitava muito, pessoal e profissionalmente. Nossas mães se conheceram, pois conviveram em Jaquirana e eram parentes distantes.
    Sei bem do que você fala, pois tenho dois irmãos anões e sempre vivi com a sensação de impotência para lidar com o preconceito e, ao mesmo tempo, com a indiferença alheia em termos de acessibilidade, não só física como social e profissional.
    Grande abraço! Espero que ainda possamos nos conhecer pessoalmente.

  13. Sempre pensei que a Marlene era do tamanho do que ela sabia, via e, sobretudo, generosamente partilhava! Mas isso não me impedia de perceber as inúmeras dificuldades que ela enfrentava no cotidiano! Bela iniciativa, Lelei

    • Obrigada, Maria Helena. Marlene e eu sempre planejamos escrever juntas algo neste sentido. Se quiseres contribuir com algum relato, vou ficar bem feliz.

  14. Parabéns pela iniciativa, Lelei. Também sou uma pessoa de baixa estatura, embora não considerada anã. Tenho 1,49m e sei o quanto esta situação pode causar momentos constrangedores, situações de bullyng – sou de 1948, quando nem se usava o termo – e só muita fé em sua capacidade e muita força de vontade podem levar uma pessoa com tal característica a manter o prumo e ter algum sucesso na vida.

  15. querida Lelei, parabéns pela tua vivaz coragem em vir falar dos teus sentimentos. Para poucos e raros humanos, de qualquer tamanho. beijos e tudo de muito lindo para ti.

  16. querida Lelei, parabéns pela tua vivaz coragem em vir falar dos teus sentimentos. Para poucos e raros humanos, de qualquer tamanho. beijos e tudo de muito lindo para ti. senta em tua montanha, a que construíste. Podes usufruir da vida.

  17. Tenho grande admiração por vc como sempre tive pela Marlene. Me sinto pequena diante da enorme inteligência e sabedoria. Com carinho Loanda

  18. Sempre tive muita admiração por vc e a Marlene, sobretudo pela inteligência e sabedoria e zelo em tudo que fazes e que fizeram. Parabéns pela bela iniciativa muito sucesso. Bjs

  19. Lelei, parabéns pelo novo espaço de diálogo, que nos permite encontros mais frequentes! Um grande abraço. Fátima Pessoa -Universidade Federal do Pará.

  20. Lelei querida. ….parabéns pela iniciativa. E tbm pela tua força q inspira a todos q tem a oportunidade de conviver contigo. Abração

  21. Parabéns Lelei, fui tua colega de aula, não sei se tu lembras de mim, que bom ver-te levantar essa bandeira.bjs.

  22. Querida amiga, concordo com suas palavras: nada de vitimismo ou paternalismo ou heroismo!! Todos nos enfrentamos todos os dias nossa distancia daquilo que acha-se a “normalidade”. Falar sobre as diferenças, olhar as diferenças, reduz esta distancia, muda a nossa percepcao e deixa a gente mais consciente e com mais conhecimento. Saudade da Sabia dos sábios! Bjs mil!

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