Mais ou menos assim

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Foto: Criança na janela, por Tamar Matsafi

A solidão do excluído, por Tamar Matsafi

A solidão do excluído, por Tamar Matsafi

Historicamente, a sociedade sempre reservou um lugar para aqueles que fogem dos padrões sobre os quais está estruturada. Nesse lugar estão hipoteticamente protegidos, não desafiam a ordem e não desacomodam conceitos e pré-conceitos.

Ninguém se espanta, por exemplo, ao ver o negro como porteiro, operário ou empregada doméstica. O homossexual como cabeleireiro, costureiro, fazendo o gênero pitoresco, de humor fino/ferino também não surpreende. Bem como o anão, visto como figura grotesca ou mágica, alvo de chacota, divertindo as pessoas, parece tão normal! Tudo certo com a mulher comandando um fogão, mas daí a dirigir os destinos do país…

Da mesma forma, ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma outra diferença,física, intelectual ou mental. É o caso de crianças com síndrome de Down e autismo que têm matrícula negada   em   escolas   regulares.   Muitos   jovens   que   procuram   emprego   são   barrados   na   primeira entrevista porque sua diferença vira obstáculo, mesmo que não seja.

É o que cabe aos diferentes nesse latifúndio da dita normalidade. E isso não pode ser comum!

Ao ignorar, excluir ou rotular as diferenças toma-se o caminho mais fácil e mais curto para a anulação do humano, da cidadania, do caráter criativo e inusitado dos indivíduos que estão no encontro de suas múltiplas   possibilidades   e   capacidades.   E   é   nesse   não   querer   ver   que   reside   o   perigo   para   o acirramento da intolerância em todos os níveis.

Não reagir e assim responder a um discurso já dado não desafia nenhuma norma, logo não inquieta ninguém e não muda nada.

O espanto necessário surge no momento em que as margens desse latifúndio são extrapoladas.

É quando a diferença fala mais alto e a sociedade obriga-se a lidar com o que não sabe, não quer saber e não quer ver. Já não está mais diante do estereótipo, mas da pessoa real, de carne e osso, com sentimentos, contradições e a sua diferença. A desordem aparece, desarticulando a frágil perfeição da ordem social. Então começa a mudança.

Cabe,  portanto,   a  nós,   com  a   nossa  diferença,   seguir  subvertendo   a  ordem.   Recusar  os   lugares determinados. Não se acomodar no papel de coitados, vítimas ou heróis em busca da superação. Só assim construiremos relações mais humanas, agregadoras, libertárias, fundamentais para a eliminação do   preconceito.   É   vital  fazer   com   que   a   sociedade   entenda   as   múltiplas   possibilidades   que   as diferenças trazem, fora dos discursos instituídos, ultrapassados e redutores.

Não somos nem coitados, nem vítimas, nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com os nossos limites, os nossos sonhos e as nossas aptidões. A frase de uma canção de Caetano Veloso,“Dom de Iludir”, define bem esse sentimento: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Porque, então, não falar abertamente do que somos, com nossos medos, preconceitos, vontade de mudar e viver livres, leves e soltos?

7 ideias sobre “Mais ou menos assim

  1. Textos como estes vêm para iluminar a escuridão que assola a sociedade no que tange o tema da inclusão e diversidade. Trabalho, convivo e estudo essa temática há mais de 10 anos e ainda me assobro com a falta de conhecimento das pessoas, o medo de lidar com a diferença e mesmo a falta de querer aprender e entender sobre o assunto. O óbvio precisa ser dito e durante essa minha trajetória, colhi subsídios suficientes para afirmar que a limitação é sempre dada, ou melhor, determinada pelo outro. Determinada por aquele que se coloca distante, “fora”, no lugar de juiz que avalia as competências e habilidades da pessoas à sua frente.
    Realmente temos muito o que caminhar, muitos paradigmas para quebrar, muitos conceitos para co-construir no verdadeiro processo de evolução da sociedade. Sigamos em frente com a crença de que um dia chegaremos lá que, cá para nós, não sei bem aonde será!

  2. Parabéns, Lelei, por enfrentares este desafio que é escrever uma coluna semanal. Mas, como disseste, com leveza. Abraço.

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