A vida que surge a todo instante – Trabalho e diferença

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Trabalho, por Tamar Matsafi

Quando falo de diversidade, inclusão, diferença, falo de um universo humano muito vasto e muito rico que vou desvendando aos poucos. E que contou com a colaboração da Marlene e dos estudos que fazia sobre discurso e linguagem e, mais recentemente, sobre a interlocução entre linguagem, psicanálise e ergologia. Por conta disso, no Dia do Trabalho retomei alguns artigos da Marlene e do filósofo francês Yves Schwartz, um pensador da subjetividade no trabalho, que refletem sobre a complexidade embutida no fazer cotidiano, o que está muito próximo do que proponho neste blog. Minha escrita de hoje é inspirada nessas leituras.

Não há na atividade de trabalho uma simples execução de algo, por mais mecânico que seja. Há a convocação de um indivíduo único, com capacidades bem mais amplas, ou não, do que as enumeradas ou exigidas pela tarefa que executa. Há singularidade. E a cada tarefa, cria-se uma nova situação que nenhuma racionalidade anterior é capaz de dar conta. Na perspectiva ergológica de Schwartz, por exemplo, o homem na atividade de trabalho coloca em marcha um saber pessoal que vem da sua história, da soma da experiência familiar, social, cultural e profissional. Há sempre um dado subjetivo indissociável a ser considerado.

Logo, é impossível pensar o exercício profissional sem levar em conta o trabalhador e sua subjetividade, suas escolhas, suas ideias, seus conhecimentos práticos, seus valores, seus dramas interiores. Mesmo que normas gerais regulem o agir social e sejam essenciais à sobrevivência humana, elas não dissipam a maneira com que cada um dá conta do seu saber. Sempre teremos pontos de fuga, oriundos de um conhecimento não explícito. Até porque ser determinado unicamente pelas normas, pelas imposições do meio exterior, não é viver. Ao contrário, é algo patológico, nocivo à saúde.

Há sempre um saber-fazer (norma) e um saber-agir (renormalização) que interagem e se somam na atividade de trabalho. Há que se olhar para o sujeito, então, sob o pressuposto de que aspectos subjetivos são aí inevitavelmente mobilizados. Embora as ações humanas sejam pautadas pela regularidade, o sujeito, ao agir, mobiliza escolhas particulares, promovendo uma negociação entre o que está instituído e o que é da ordem do inesperado. A vida é sempre tentativa de criar, de ser. As normas são conquistas da sociedade, mas se olhadas como “um fim em si”, apresentam o risco de desconsiderar “a vida que surge a todo instante”.

Segundo Yves Schwartz, “a saúde começa com a tentativa de redesenhar parcialmente o meio em se vive”. Ao perceber o trabalho a partir de uma perspectiva humana, evita-se a coisificação das pessoas porque são elas com o seu talento, a sua vivência e a sua sabedoria que fazem a diferença. O fazer só, repetida e mecanicamente, não é a definição do que dá certo.

 

Autor: Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

4 comentários em “A vida que surge a todo instante – Trabalho e diferença”

  1. Muito lindo ler, lembrar, querer saber mais. Singularidade e trabalho, subjetividade: a única forma de ser do SER. Bem lembrado!! Voltaremos ao tema, tantas vezes quanto for necessário. E os estudos de Marlene Teixeira nos guiarão, como sempre o fizeram.

  2. Que lindeza! Que desafio! Que coragem!
    Te conheci através da amiga psicanalista Rita Ortiz e de seu lindo companheiro Fred Ortiz. Em minha casa, conversamos, bebericando, comemos e nos entrelaçamos. Indepentes dos centímetros que aparentemente nos diferenciava, não houve sobras. Tudo coube! Assim os viventes deveriam desfrutar a vida. Com o olhar aguçado para o que falta, como aquilo que nos estrutura. Após compreender e descartar o que tange a esse corpo, que têm como destino o fracasso, desde a mais tenra percepção de si em relação ao outro,
    vão-se buscar o ideal, tido como belo e é tão “profundo” o mergulho neste vazio que o universo “reconhece” lhe ofertando, em lugar da vida, uma flor de Narciso.
    Bjos querida e a luta contínua!

  3. Lelei, teu blog tua escrita tuas reflexões são excelentes! precisamos de ações como essas que propõe. precisamos melhorar o mundo, fazer cada um a sua parte no sentido de enxergar o outro com respeito com humanidade com amor mesmo. certamente vc contribui muito com isso por meio desse blog. muito obrigada!

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