A diversidade na família contemporânea

Família, por Tamar Matsafi

Família, por Tamar Matsafi

A Constituição Brasileira de 1988 define família como o resultado da união entre um homem e uma mulher.

Em 2011, o Supremo Tribunal Federal/STF reconheceu a união estável de pessoas do mesmo sexo, com direitos e deveres iguais aos das famílias formadas por homens e mulheres. A partir dessa decisão, casais homossexuais podem casar no cartório. Em 2013, O Conselho Nacional de Justiça/CNJ também deu legalidade ao casamento civil. As medidas provocaram fortes reações de grupos sociais que não aceitam a união de pessoas do mesmo sexo.

Diversidade, por Tamar Matsafi

Diversidade, por Tamar Matsafi

Surgiu, então, o polêmico Estatuto da Família, tentativa de definir o que realmente é uma família no Brasil e quem tem acesso a direitos como pensão, INSS, licença-maternidade. O projeto de lei, aprovado na Comissão de Constituição e Justiça, ainda precisa ser votado na Câmara e no Senado e sancionado pelo presidente, o que pode durar meses ou até anos.

De autoria do deputado evangélico Anderson Ferreira (PP-PE), o texto principal do Estatuto ratifica como família a união entre um homem e uma mulher, e seus filhos, excluindo os demais arranjos familiares, não apenas o homoafetivo. Além de discriminatório e preconceituoso, ignora direitos já conquistados como herança, guarda dos filhos e inclusão da parceria em planos de saúde. Há também o Estatuto das Famílias, quase parado, que atinge mulheres e seus filhos, homens e seus filhos, avós e seus netos e pessoas do mesmo sexo que adotam filhos abandonados por heterossexuais. Quem pensa que só os gays são prejudicados com esses projetos de lei está desinformado. Milhões de famílias serão prejudicadas e podem perder benefícios se os estatutos forem aprovados.

Vamos por partes.
A orientação sexual e amorosa das pessoas é uma questão pessoal, portanto não pode ser considerada ilegal. O casamento entre duas pessoas é um contrato civil e/ou religioso. O civil é o contrato legal e o religioso é baseado na fé e nos costumes da religião escolhida pelo casal. O Brasil é um país laico. E as leis devem tratar todo mundo da mesma maneira. Logo, não há motivo para impedir o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a formação libertária das famílias contemporâneas, inclusivas e sem preconceitos, como define o site Todas as Famílias (link http://todasasfamilias.com.br/): “Núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantêm entre si uma relação solidária”.

Não é mais possível negar a alteridade, a diferença, o estranho, a diversidade.
Dito isto, divido com os leitores deste blog o artigo de um amigo sobre o silêncio, a homossexualidade na velhice e o novo Estatuto da Família.

Família, por Tamar Matsafi

Família, por Tamar Matsafi

 

O Novo Estatuto da Família não passará!
Marco Aurélio Alves*

Em outubro de 2015, uma repórter de ZH pediu que eu intercedesse junto a integrantes da comunidade LGBT, frequentadores do Projeto Papo Reto, da ONG onde atuo, para que falassem sobre o lado positivo da vida gay após os 60 anos. Ninguém quis! A jornalista surpreendeu-se e fiquei refletindo sobre a razão do silêncio.
Viver a homossexualidade aos 60, 70 anos é difícil! Pessoas dessa faixa descobriram o sexo em uma época de repressão aguda. Carregam traumas intransponíveis e o medo da exposição, do deboche, da chacota, da piada perversa, dos dedos apontando.
Não sei se estão erradas na sua mudez, pois diariamente vejo ou sofro algum tipo de discriminação. Para alguns, o enfrentamento é a razão da vida. O grito vem com raiva, contra a impotência ou o abandono. Para outros, silenciar é a solução. Escondem-se em guetos, no humor cáustico, na quietude das casas bem decoradas, na própria solidão. Há os que buscam pequenos círculos de amigos para compartilhar sensibilidade e conhecimento. Reservados, não falam no assunto, seja no trabalho, na família ou nas redes sociais.
Tudo fica ainda mais difícil com a invisibilidade da velhice, quando são chamados de “museu, bengala, canteiro de rugas, bixa velha”. Como tempero para esse caldo já tão amargo, a hipocrisia do politicamente correto faz pensar que tudo vai bem, enquanto uma cortina de fumaça conservadora e cruel transforma o assunto em folclore ou business. Afinal, quem não tem um amigo gay para chamar de seu? Em qualquer idade é doloroso falar de humilhação, amores sem nome, tapa na cara para aprender a ser macho, paixões platônicas, roubo de quem prometia um prazeroso programa.
Mas, sim, avançamos! Esses atrevidos, bem humorados e maquiados, já abriram muitos caminhos e, de botina ou salto alto, afirmam: Não peço que me aceitem, mas exijo que me respeitem! Felizes os que vivem sua afetividade e sexualidade livres da aprovação de quem quer que seja e defendem o direito à palavra, ao amor, à vida plena. O vingativo estatuto da família conservadora, que quer retroceder 50 anos, não passará. Estamos juntos, não importa com que letra do LGBT cada um se identifique.

*Gestor do Instituto Brasileiro da Pessoa

Rompendo barreiras para uma sociedade solidária e inclusiva

É bom lembrar que alguns espaços culturais já promovem a inclusão. O Museu de Porto Alegre é um exemplo, bem como as sessões de cinema com audiodescrição. Agora, o portal de Acessibilidade da Faders/Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência e com Altas Habilidades no Rio Grande do Sul propõe uma consulta pública para avaliar o projeto da Lei Gaúcha de Acessibilidade e Inclusão. Quem quiser conferir pode acessar o link http://www.portaldeacessibilidade.rs.gov.br/servicos/36/3334.

É bom lembrar também que não basta só cumprir uma lei. É necessário saber o que propõe e por que foi criada. No bairro Moinhos de Vento, na calçada da rua Doutor Timóteo, entre a 24 de Outubro e a Tobias da Silva, está sendo feito um piso tátil que dá em um poste ou algo parecido. Imagino que quem teve a ideia, muito bem vinda, não sabia que piso tátil e uma indicação de “caminho livre”. Ou sabia e não se importou?

Por conta disso, reli o artigo “Acessibilidade e Cultura – Por que sim? Por que não?”, de Flavia Boni Licht, arquiteta que está sempre em busca de respostas para questões que envolvem inclusão. No artigo, que sintetizo aqui, ela fala de leis, cidades, patrimônio cultural, mudança de paradigmas. Já no início cita João Filgueiras Lima, também arquiteto, reconhecido pelos projetos desenvolvidos para a Rede Sarah de hospitais: “Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um”.

Leis são leis!                                                                                                                           A Constituição Brasileira de 1988 (artigo 5º/Capítulo 1) refere-se aos direitos e deveres individuais e coletivos dizendo: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Vigente no Brasil desde 2000, a lei federal 10.098, regulamentada em 2004, estabelece normas e critérios básicos para a promoção da acessibilidade mediante a supressão de barreiras e de obstáculos nas vias e espaços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma de edifícios, nos meios de transporte e de comunicação.

Desde 1948, depois de promulgada pela ONU, a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi assumida no Brasil.

A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada pela ONU em 2007 e promulgada no Brasil em 2009, fala em respeito pela dignidade e autonomia das pessoas, a não discriminação, a igualdade de oportunidades. Reconhece o direito à efetiva participação e inclusão na sociedade e o respeito pela diferença.

Ainda na década de 1990, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e a Câmara Municipal de Porto Alegre aprovaram leis que determinam o acesso e a circulação livre, segura e independente, para todas as pessoas nos espaços públicos.

Se levarmos em conta essas e tantas outras leis – estudadas, debatidas e aprovadas – a acessibilidade e os direitos essenciais dos indivíduos estariam dados de forma singela e definitiva. Deveriam ser naturais, mas não é bem assim! Nas questões de direitos humanos “não somos tão virtuosos como gostamos de nos acreditar ser”.

Chego lá, por Tamar Matsafi

Acessibilidade e espaços urbanos – um debate fértil                                               Assim Flávia iniciou em 2011 uma pesquisa para identificar as barreiras existentes nos espaços da cidade para pessoas com deficiência e visitou instituições públicas municipais e instituições com atividades públicas em edificações tombadas pelo município. Para ela, o acesso pleno à cultura, incluindo a participação na dinâmica da criação, seja como artista ou espectador, está entre os direitos humanos fundamentais. A iniciativa abriu um espaço fértil e favorável ao debate.

Avançando um pouco além do mais evidente e entrando em terreno menos concreto e mais espinhoso, é fato que temos dificuldade em reconhecer no diferente alguém com direitos iguais aos demais. Construímos, segundo Flávia, com requintes e detalhes, uma cultura excludente e nos esforçamos em mantê-la, da democracia ateniense, que sacrificava crianças nascidas com deficiência, até hoje.

Por que ignorar o diferente e suas necessidades? O sociólogo polonês Zygmunt Bauman afirma no livro “Confiança e Medo na Cidade” que “as diferenças nos incomodam e nos impedem de interagir, de atuar amistosamente e que, se quisermos compreender nossas diferenças, precisamos formular novas questões”.

O Conselho Internacional de Museus/ICOM expressa, no seu Código de Ética, que as instituições culturais têm o compromisso de abrir espaços, acervos, coleções e atividades a todos os públicos, agindo como interface da multiplicidade de percepções, gerando acesso para diversificadas sensibilidades e variados entendimentos, visando satisfazer uma das necessidades básicas do ser humano: o conhecimento do mundo.

É necessário, portanto, a construção de estratégias e metodologias, a utilização de equipamentos e produtos, o desenvolvimento de programas e projetos que possibilitem o acesso, a contemplação e a captação dos conteúdos expressos pela cultura de forma não discriminatória.

Por onde ir, por Tamar Matsafi

Por onde ir, por Tamar Matsafi

Perguntas infindáveis
Como os profissionais devem atender demandas diferenciadas, incorporando a acessibilidade às práticas cotidianas? Como um museu deve receber o público, contribuindo com o desenvolvimento das potencialidades funcionais, neutralizando e superando diferenças sensoriais, físicas e/ou cognitivas? Por que podemos tocar numa escultura colocada em praça pública? E por que isso é vedado nas obras expostas em museus? Quando e por que o toque deixou de ser incentivado e foi proibido? Por que delegamos majoritariamente ao olho toda a possibilidade de captar sensações? Por que, pelo papel hegemônico dado à visão, reprimimos o toque e, em menor escala, os demais sentidos?

Tendo como objetivo a inclusão de todos na construção e na vivência da cultura, não seria o caso de apostar na multissensorialidade ou – de forma mais poética, como fala o filósofo francês Gaston Bachelard – na polifonia dos sentidos? Afinal, como lembrou o arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa, o olho é o órgão da distância e da separação, enquanto o tato é o sentido da proximidade, intimidade e afeição. O olho analisa, controla e investiga, ao passo que o toque aproxima e acaricia.

É interessante repensar o que define a qualidade cultural de um bem e qual o limite da obra original, diz Flávia. Considerando a longevidade do monumento, qual o momento histórico a ser preservado? Quem tem o poder de tomar essa decisão? Se nossos bens não deixam de ser patrimônio quando se deterioram e se restauram, por que deixariam de ser quando tornados acessíveis a todos? O que e quem define a autenticidade de um bem?

Nos museus, os objetos exigem condições específicas e adequadas de catalogação, acondicionamento, manuseio, conservação, umidade, temperatura, luminosidade, limpeza e restauro. E as pessoas? São os seres humanos ou os objetos que têm necessidades? Colecionar, preservar e expor são um fim em si ou uma forma do museu desempenhar seu papel social, facilitando e estimulando a todos – independente de idade e de condição física – o acesso à cultura?

Em 1964, a Carta de Veneza dizia que a preservação será sempre favorecida por sua função útil à sociedade (desde que as alterações necessárias não desvirtuem o autêntico de cada bem). Em 1976, a Unesco, na 19ª Sessão, em Nairóbi, sobre a Salvaguarda dos Conjuntos Históricos e sua Função na Vida Contemporânea, estabelece, entre os princípios da Carta, a necessária e harmoniosa integração dos monumentos na vida coletiva da nossa época.

Em 1990, o arquiteto Antonio Cravotto, representando a Comissão do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Uruguai no 2º Seminário Ibero-americano de Promotores e Formadores em Acessibilidade ao Meio Físico, declarou: “Em termos práticos, os bens patrimoniais só podem ser salvaguardados se usados apropriadamente no presente. Para tanto, esses bens serão necessariamente afetados por modificações espaciais e estruturais; incorporação de elementos, dispositivos, sistemas e redes técnicas; inclusão de equipamentos e de sinalização. Essas intervenções não possuem justificativa nem melhor nem diferente das originadas pela eliminação das barreiras para pessoas com deficiência”.

Mudando paradigmas
Ou os bens patrimoniais se adaptam às exigências contemporâneas, ou vão perder o significado, pela impossibilidade do uso. A afirmação pode ferir muitos ouvidos, mas por si só, a transformação de uma residência num museu já pressupõe inúmeras adequações, permitidas, aceitas e festejadas. Porém, muitas vezes, as adaptações dos espaços para atender aos requisitos da acessibilidade são feitas para se livrar do problema. Aí, dificilmente se tem boas soluções.

Nas praças públicas dos centros históricos observa-se a mesma situação. Aceitamos eliminar ou substituir árvores e arbustos, inserir novos quiosques, bancos e lixeiras, mudar o desenho dos canteiros, trocar antigas placas de sinalização. Mas, pelo viés da acessibilidade, quando muito, se aceita o rebaixamento do meio fio. Nem pensar em macular as calçadas de pedra portuguesa com piso tátil para que pessoas cegas ou com baixa visão aproveitem o espaço com autonomia. Ou em estudar alternativas melhores para pisos pouco confortáveis aos usuários de cadeiras de rodas.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/Iphan, em 2003, também tratou do tema. As soluções adotadas para a eliminação, redução ou superação de barreiras na promoção da acessibilidade devem compatibilizar-se com a sua preservação e, em cada caso, assegurar condições de acesso, de trânsito, de orientação e de comunicação, facilitando a utilização desses bens e a compreensão de seus acervos para todo o público.

Será possível respeitar o passado de uma edificação, desrespeitando os direitos das pessoas? Selecionar, com nossa visão de restauro, quem pode ou não desfrutar de um patrimônio de todos é correto? Será que não deveríamos pensar primeiro nas necessidades dos seres humanos e depois nas dos edifícios? Para Flávia é preciso desconstruir conhecimentos e práticas para pesquisar e descobrir novas e boas soluções. O trabalho não é fácil nem rápido, mas, sem dúvida, o momento é de questionar e buscar a transformação para, efetivamente, caminhar na direção de uma sociedade inclusiva.

Será que não seremos todos iguais na diversidade, se a infraestrutura for adequada, se a tolerância desafiar os padrões, se o respeito romper com os programas e projetos tradicionais, se a solidariedade voltar a ser considerada como um valor por todos nós? Talvez seja essa uma utopia, mas, voltando às palavras do professor Cravotto, não será a utopia, corretamente entendida, a determinar a acertada direção de um avanço social?

Atravessando os fantasmas

O Projeto TODAS SÃO TODAS do Grupo Inclusivas, em parceria com a ONG Coletivo Feminino Plural e com o apoio do Fundo Fale sem Medo, promove nos dias 15 e 16 de julho, no City Hotel, o Curso de Capacitação sobre a Inclusão de Mulheres com Deficiência nas Políticas de Enfrentamento à Violência Doméstica e demais políticas. Em pauta, os direitos das mulheres com deficiência, que deveriam estar assegurados em todas as políticas públicas. Sem políticas públicas voltadas às suas especificidades, as mulheres com deficiência ficam sujeitas à invisibilidade na sociedade e no Estado, o que faz com que sejam excluídas do acesso aos direitos humanos e à cidadania. Informações no blog todassaotodas.blogspot.com.

Ao receber o convite pensei na importância da fala para dar visibilidade às pessoas com alguma deficiência. A palavra pode dizer mais ou dizer menos, mas diz. Produz sentidos que não se acabam e não se detêm. E se a fala não é ‘satisfatória’, a palavra ‘justa’ sempre vai insistir em se dizer. E é para encontrá-la que não podemos nos calar. O silêncio consente.
A ação das Inclusivas inspirou a minha escrita sobre a dificuldade em falar do nanismo que eu e minha irmã Marlene tínhamos, lá bem no início. Será que procurávamos a palavra justa?

Fale. Falemos, sempre!

Por que não falar, por Tamar Matsafi

Por que não falar, por Tamar Matsafi

A negação do nanismo na fala foi significativa no nosso cotidiano. Sabíamos desde a infância. E sabíamos que todos sabiam, mas não foi um assunto conversado na nossa adolescência e juventude. Simplesmente, deixamos de lado. Não falávamos sobre o que sentíamos com os colegas de escola e nem com os amigos. Na família, só o estritamente necessário. Era como se tudo fosse muito natural – e era! – mas havia sofrimento naquele silêncio.

Quando saímos do ninho e começamos a trabalhar, nos enfrentamos com o tamanho da nossa diferença. Sentíamos necessidade de nos posicionar. Havia no ar uma convocação, mas alguma coisa não deixava fluir. Falávamos de tudo, menos do nanismo, assunto urgente. Aquele silêncio cheio de medo, às vezes constrangedor, de uma defesa indefensável, queria esconder algo já explícito. Estava no nosso corpo e nos tantos limites que o pequeno corpo impunha. Mais assumíamos uma vida por nossa conta e risco, mais as dificuldades apareciam. Mais entrávamos no mercado de trabalho, mais provocávamos admiração, espanto, observações, questionamentos. Mais caíamos no mundo, mais a fala se fazia fundamental.

E foi assim, diante do inadiável, que atravessamos o fantasma. A palavra é anã e pode morder, mas a condição estava dada desde o começo. Os espelhos estavam por todos os lados e os olhos viam, mesmo que não quiséssemos. E falar certamente amenizaria o olhar porque a fala organiza, afasta os mistérios, encara as impossibilidades, entende as dificuldades, admite as qualidades, absorve as críticas, medos, angústias e ansiedades para o enfrentamento de um viver pleno, dentro do que é possível.

Ao falar, nos vimos por inteiro, com dor, mas sem piedade. Liberadas, não paramos mais de pensar, dizer, questionar. Inicialmente, muito entre nós. Depois, com os amigos, no trabalho, entre conhecidos. Até encararmos o público, com medo, mas com leveza.

Primeira entrevista
Nos anos 1980, fomos convidadas para participar do Guaíba Feminina, da TV Guaíba da família Caldas Júnior, que ousou criar uma TV com programação local. Seria a exposição total – corpo e voz. Um susto, mas aceitamos.

Além da entrevista ao vivo, no estúdio, a produção fez imagens nossas, em casa, para mostrar como fazíamos para dar conta do dia a dia. E nós preocupadas com o que iriam perguntar. Como responder? O que realmente pensávamos sobre a nossa dificuldade física? Em que sentido nos limitava e inquietava?

O raciocínio foi prático. Nosso cotidiano não era diferente da rotina de pessoas consideradas normais – “Trabalhamos, nos sustentamos, mantemos a casa, lavamos louça, fazemos comida, pegamos ônibus, vamos ao supermercado, teatro, cinema, bares, visitamos amigos, enfim, tudo isso com uma dificuldade: a de nos adaptarmos a um mundo que não foi feito para nós”.

Em casa, procurávamos adaptar o que era possível. Na rua, isso era impraticável. “Ônibus, balcões de bancos, orelhões, lancherias, porteiros eletrônicos, campainhas, botões de luz, elevadores, tudo era alto”. Dependíamos da boa vontade e da solidariedade das pessoas, o que nem sempre era fácil. Não queríamos paternalismo e sim humanidade. Não queríamos ser tratadas como criaturas especiais e sim nos integrarmos.

E seguimos falando do preconceito escamoteado no Brasil da época e ainda hoje. Não apenas com os anões, mas com todas as pessoas que têm uma diferença. No nosso caso, o preconceito, de uma forma ou de outra, se manifestava, conforme comentamos na entrevista. “As pessoas têm dificuldade de abstrair a questão da altura. É muito difícil entender uma cabeça adulta perfeitamente instalada num tamanho de criança de 4, 5, 6 anos”.

“Ou te mimam demais ou ficam tensas, sem saber exatamente que atitude tomar. Ou te tratam formalmente ou te julgam excessivamente inteligente ou te ignoram. Mas o comportamento mais comum é não levar a gente a sério. Enfrentamos muito isso, especialmente quando queríamos abrir crediário em alguma loja, por exemplo. O olhar das atendentes é uma história a parte. Sempre causava espanto o fato de termos uma profissão. São raras as pessoas que te deixam à vontade, têm naturalidade para falar contigo e respeitam as tuas dificuldades. Às vezes, até por te tratar bem demais as pessoas demonstram preconceito”.

Lembramos filmes como O Tambor e O Homem Elefante, emblemáticos na época.

“É impossível passar despercebida. Toda vez que saímos na rua, chamamos atenção e estamos sujeitas a todo tipo de reação. Pela admiração ou pela rejeição, as pessoas acabam te colocando no centro da cena. E a curiosidade, às vezes cruel, pode se traduzir em riso, ironia, piedade, carinho, agressão, deboche. Tradicionalmente o anão é visto como figura engraçada, grotesca e, em alguns casos, maldita. Ouve-se piada de todo tipo, de bom e de péssimo gosto”.

Foi assim que falamos publicamente pela primeira vez!

A entrevista teve muita repercussão, boa e ruim. Um vereador logo saiu pedindo orelhões para anões, até nos procurou para apoiá-lo, e as piadas foram infames. Carlos Nobre, que escrevia no jornal Zero Hora, não perdeu a oportunidade de fazer humor. Disse que ia dar o maior arranca-rabo na Câmara, pois se um vereador queria orelhão, outro certamente iria sugerir que anão tem é que levar um banquinho pra subir e telefonar.

E disse mais: “O anão, quando casa com uma anã, se completa”. Até a Branca de Neve, sensibilizada, enviou um telegrama agradecendo a preocupação do vereador com seus companheiros.

Fomos muito procuradas por conta disso, mas não entramos em nenhuma provocação. Aceitamos alguns convites e recusamos outros tantos.

Hoje, mais experiente e madura, não tenho dúvidas de que a fala nos salvou. Percebo que sempre tentamos levar essa discussão adiante, não isoladamente. A necessidade de vincular nossa batalha à luta das minorias, tornando públicas nossas questões no sentido de buscar coletivamente uma sociedade mais justa, só cresceu. Falar é necessário por muitas razões, especialmente para dialogar, participar e levar adiante o desejo de um mundo sem preconceitos.

Como é difícil ser diferente! Fragmentos

Pelo direito à diferença, por Tamar Matsafi

Pelo direito à diferença, por Tamar Matsafi

* “Quero a diferença, o encanto, o inusitado. A diversidade está em pauta, em todos os sentidos. Me incomoda o discurso de vítima que, às vezes, circula. O mundo culposo e ascético é ruim” – Fernanda Torres, atriz (Fevereiro de 2016).

* Ser diferente é correr perigo – reflexão da cantora Fernanda Takai sobre a diferença. A partir de gravação de videoclipe, em madrugada na capital paulista, cantando uma canção que dizia: “a gente se acostuma com tudo”. Com maquiagem e figurino que remetiam ao personagem Edward Mãos de Tesoura, versão moderna e mais sentimental de Frankenstein, ela estava irreconhecível. A publicação é de 18 de dezembro de 2015.

“Comecei a caminhar lentamente, enquanto as cenas eram captadas. A cada minuto alguém passava de carro ou a pé e gritava alguma coisa como: “olha a loucona!”, “bicha”, “sai, macumba!”, “que ser é esse, meu pai?”, sempre em tom de escárnio ou reprovação. Detalhe: quando percebiam que era uma gravação, trocavam um pouco a postura ofensiva por um “quem é?”, “é da televisão?”. Continuamos a andar, cruzamos a Avenida Paulista e uns fãs passantes me descobriram por trás daquela personagem.

Enquanto ia cantando e descendo a rua em direção à parte mais barra-pesada do lugar, ficava pensando como é difícil ser diferente nesse mundo. Seja pela roupa, o corpo, algum tipo de comportamento menos usual e nem por isso errado. Ser diferente é atrair olhares e pensamentos que a gente sente como espinhos. Mas o pior eu ainda ia sentir de verdade naquela madrugada.

O diretor queria gravar umas cenas num clube noturno que costuma lotar todas as noites. Logo chegamos ao lugar, que fica exatamente na área mais recheada de saunas, casas de espetáculos eróticos e hotéis de alta rotatividade. Ou seja, supus que haveria umas tantas pessoas também diferentes e que ali eu não chamaria atenção. Errado. Os mesmos comentários surgiram como farpas. Eu também não era daquela turma.

Conseguimos autorização pra entrar com a câmera na boate. Já no corredor de acesso, pressentindo a hostilidade, disse que era melhor a gente ir embora que as pessoas estavam me olhando feio demais. Me davam empurrõezinhos e se viravam resmungando qualquer coisa. O som era altíssimo e a iluminação precária. Quando começamos a gravar umas cenas em que eu apenas ficava na pista enquanto todos dançavam. Alguém deliberadamente agarrou meus cabelos e me puxou com força. Estava escuro, lotado, e as pessoas pareciam todas iguais. Digo, vestiam-se do mesmo modo. Não consegui ter certeza de quem foi. Justamente nessa hora a câmera foi desligada para ser ajustada à quantidade de luz e ninguém da pequena equipe que estava lá comigo conseguiu ver o ataque.

Imediatamente pedi pra irmos embora porque agressão física é o tipo de coisa que me faz perder a graça. Ou a gente parte pra cima ou foge. Eu fugi e fiquei com muita vontade de chorar. Nem tanto pela dor, mas pela constatação de que ser diferente é correr perigo. Não ser de uma determinada turma nos torna automaticamente alvos de um bocado de gente bruta e disposta a nos colocar no devido lugar pelas palavras e pelos atos ignorantes. Minha filha tem um livrinho, que é um dos mais vendidos mundo afora, que se chama Tudo bem ser diferente. Não, Nina. Ainda não está tudo bem e pelo jeito nunca vai estar.”

Ações – A luta cotidiana por respeito e reconhecimento

Tamanho é documento, por Tamar Matsafi

Tamanho é documento, por Tamar Matsafi

*Respeite o Nanismo – A seguir, trecho de texto de Carla Abreu, anã. Li no face Respeito o Nanismo, que tem o objetivo de divulgar informações, trocar experiências e ampliar conhecimentos sobre o Nanismo na Região Sul do Brasil (https://www.facebook.com/respeiteonanismo/).

“Por vezes, a sociedade através de muita violência quer dizer a nós que não merecemos aquele lugar, que não merecemos os nossos sonhos, que o sonho que realizamos e os outros tantos que nós queremos realizar não pertencem a nós. Muitas vezes, ela nos violenta dizendo que não podemos ou não temos habilidade de sermos quem quisermos ser, pelo simples fato de, na sua esquizofrenia, não aceitar que a diversidade é algo intrínseco à natureza.”

*Grandes Cidadãos – Os desafios das pessoas com nanismo. Série que mostra com naturalidade o cotidiano dos anões em 4 episódios: Nanismo, Obstáculos, Família e Preconceito. Canal Rede Brasil no youtube.

Tamanho é documento (2), por Tamar Matsafi

Tamanho é documento (2), por Tamar Matsafi

*Queria ser Penélope Cruz em tamanho mini – Verônica Ned, atriz e cantora, filha caçula do cantor Nelson Ned (1947-2014), anã como ele e os outros dois irmãos. Verônica produz, em parceria com a plataforma Benfeitoria, a websérie Fale com Veca, inspirada no filme Fale com Ela, de Pedro Almodóvar. Em 10 capítulos, a série conta histórias sobre os traumas da família, preconceito e sonhos da atriz que quer fazer um filme com o cineasta espanhol. https://www.facebook.com/falecomveca/

“Para a gente tudo é alto, grande, duro, pesado, longo, comprido, distaaaaaante pra caramba”, declarou ela em um vídeo sobre o projeto. “Mas isso não quer dizer que a gente não vai conseguir chegar lá. Porque a gente é menos”. Verônica contou, no lançamento do projeto em 2015, que já recusou papéis que faziam chacota de sua altura.

“Tipo fazer assistente de palco vestida num biquíni de lantejoula. Não é minha pegada.”
Não é só o preconceito que precisa driblar. No dia a dia, até apertar o botão do elevador é um desafio físico a ser superado, afirmou. “Tirar dinheiro no caixa também não é fácil. Para isso, tenho banquinho no carro. E também uso uma almofadinha (para sentar no banco do automóvel) e um patinete, se for distante, umas cinco quadras.”