Pensando e repensando a cidade

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– Em tempo de eleições, o espaço urbano deve estar no centro das reflexões –

 

Com a missão de colocar em pauta algumas ideias, opiniões e interpretações, sugerimos aos que querem legislar e governar a cidade um olhar mais agudo e analítico para o ambiente urbano, sob o ponto de vista da inclusão e da acessibilidade, no sentido de repensá-lo em sintonia com as demais inquietações que mobilizam os moradores.

Porto Alegre e o Guaíba

O meio ambiente urbano, a qualidade de vida dos homens e o perfil das cidades na contemporaneidade são temas que ocupam o cotidiano das populações devido ao tamanho do descontrole e da desumanização que enfrentamos hoje nas ruas. Afinal, a quem pertence o espaço público? Quem são seus inventores e atores? As metrópoles são atualmente um bom lugar para se estar? É possível humanizá-las e transformá-las em espaços criativos, de compartilhamento, colaboração, acolhimento, celebração da arte de bem viver?

Vivemos em cidades cheias de conflitos criados por nós, habitantes, pelo poder público e pelo poder econômico, relacionados ao tratamento que damos aos lugares que ocupamos, muitas vezes desleixado, arbitrário, desordenado, sem critérios e sem respeito. É bom que se tenha consciência de que a responsabilidade é de cada um – do cidadão que joga lixo na rua, do empresário que constrói “mastodontes” por pura ganância, sem observar o entorno e a natureza, e de governos que vendem a alma ao dinheiro fácil, não fiscalizam e não fazem o que realmente precisa ser feito.

É evidente que os espaços precisam ser valorizados, requalificados e que é fundamental multiplicar essa discussão, difundindo a ideia de que para viver na cidade não precisamos de “mastodontes de janelas pequenas”, grudados uns nos outros, que desrespeitam as regras mínimas da natureza e da convivência saudável.

É evidente que as cidades podem crescer sem afogar seus centros históricos, sem se tornar impermeáveis, cinzas e insensíveis, sem abrir mão da inclusão, da brisa, da paisagem arborizada, dos horizontes amplos, das cores, da humanização.

É evidente que precisamos urgentemente de planejamento efetivo, uso honesto das verbas públicas, maior comprometimento das autoridades e do poder econômico, mais agilidade e menos burocracia, mais criação e menos ambição.

É evidente que a arte pode minimizar o impacto provocado pela dura paisagem concreta e que as cidades são de quem nelas vive.

Algumas ideias para o bom espaço público
Para o designer visual Vitor Mesquita, idealizador do projeto URBE, cuja revista conquistou o Prêmio Açorianos de Artes Visuais (Especial do Júri, 2013) e, por duas vezes, o Prêmio Abrigraf de Excelência Gráfica (2012 e 2913), a reflexão sobre o espaço urbano, no sentido de torná-lo mais criativo e convidativo ao convívio, está cada vez mais latente. “Cidade criativa é cidade compartilhada de dentro para fora. Fazer parte dessa transformação e experimentação é o que está no atual cotidiano das pessoas”.

Vitor destaca que os cidadãos estão preocupados com a sua cidade, com a revitalização de áreas deterioradas, com a ocupação de espaços. Prova disso é que o tema domina desde os noticiários do horário nobre e redes sociais até reuniões de moradores de bairros. “A palavra é pertencimento e o verbo é compartilhar.”

Nessa direção, o arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl, um estudioso das cidades e da vida das pessoas nos grandes centros, referência mundial em desenho urbano e espaços públicos, levantou 12 critérios para o Bom Espaço Público. Dizem respeito a todos nós e, claro, aos governos e aos empresários que, na maioria das vezes, ignoram o público – o urbano e o humano – e exercem o poder em nome do lucro e do benefício de muito poucos. E se os gestores urbanos procurassem ouvir o que diz Gehl e adaptassem algumas de suas ideias aos espaços sob sua responsabilidade?

1 – Proteção contra o tráfego
2 – Segurança nos espaços públicos
3 – Proteção contra experiências sensoriais desagradáveis
4 – Espaços para caminhar
5 – Espaços de permanência
6 – Lugares para sentar
7 – Possibilidade de observar
8 – Oportunidade de conversar
9 – Locais para se exercitar
10 – Escala humana
11 – Possibilidade de aproveitar o clima
12 – Boa experiência sensorial

Jan Gehl dá ainda cinco conselhos para cidades habitáveis, saudáveis, seguras e sustentáveis.

1. Parar de construir cidades pensando em “facilitar a vida dos automóveis”.
2. Fazer dos espaços públicos o foco dos projetos urbanos.
3. Projetar experiências multisensoriais.
4. Fazer com que o transporte público seja para todos.
5. Proibir o uso de automóveis.

Autor: Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

5 comentários em “Pensando e repensando a cidade”

  1. Excelente texto… uma boa reflexão indicando pontos que suscitam novas ideias… determinante será a sensibilidade dos nossos governantes… que se passe a governar pelo homem e para o bem do homem e não para ganhar dinheiro…

  2. Na nossa cidade falta um “Planejamento Estratégico” no qual a população seja ouvida. Que cidade queremos? Infelizmente para respondermos a pergunta temos que esclarecer de forma transparente o que pensa a Administração Pública (Executivo e Legislativo) e os empresários da construção civil de POA. É uma parceria que domina e decide a nossa qualidade de vida e o nosso desenvolvimento econômico.

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