O que dizem de nós os seres do Habitat de Amaro Abreu

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A vida pulsa para além das eleições, das promessas vãs, da indigência dos partidos e da política, do cotidiano difícil, dos nossos desejos de acessibilidade, inclusão, mudança. A vida pulsa na criação de quem ousa. Meu texto é sobre o livro de Amaro Abreu, Habitat, que será lançado no dia 15 de outubro, a partir das 16h, na Livraria Bamboletras, em Porto Alegre.

habitat_capaO menino curioso, que conheci pequenininho no início dos anos 1990, cresceu. Quando o reencontrei, parou na minha frente um menino-homem, expressão carinhosa muito comum na Bahia para dizer, “a criança que você conheceu já não é mais a mesma”. Logo vi que não era, mas guardava muito do universo lúdico no jeito de olhar, de falar, no sorriso. A suavidade daquela infância que não nos abandona, especialmente quando nos revelamos através da arte.

Amaro Abreu por Amaro Abreu
Amaro Abreu por Amaro Abreu

Fomos conversando e descobri que o menino, hoje com 27 anos, já se aventurou pelo mundo. Articulado, criativo, observador, cheio de ideias, levou seus olhos para outras paragens. Bisbilhotou, desenhou, pintou, grafitou. Foi rabiscando a vida diversa que pulsa em todo lugar com seus lápis, tintas, sonhos, sprays, emoções, nanquim, fantasias, aquarelas e desejos. Desvendou novos cenários, compartilhou outros jeitos de viver e foi deixando em muros e painéis as criaturas inusitadas que cria.

Amaro Abreu é um artista urbano, grafiteiro, aquarelista. Eu, que não o via há muito tempo, fiquei surpresa e encantada. Mais ainda quando ele me chamou para escrever sobre o seu trabalho no livro “Habitat”, um convite que me deixou incrivelmente feliz. Por ser quem é e pelos motivos que o levaram a me convidar. Amaro me falou que havia lido alguns textos do meu blog e gostado muito. Algo nos sintonizava. Quando me conectei com suas criações entendi. É que das suas mãos nascem figuras que dizem muito da diversidade que nos constitui como sujeitos únicos, da diferença e da fragilidade que desacomodam nossas certezas, da vida vertiginosa que levamos e da liberdade que queremos.

Habitat, de Amaro Abreu
Habitat, de Amaro Abreu

As criaturas que Amaro vai desenhando e espalhando por aí desconsertam, inquietam, alegram, preenchem, fazem rir, emocionam. Coloridas e disformes, delicadas e fortes, às vezes são incrivelmente líricas, pura suavidade, leveza, e nos convidam a bailar. Em outras, surgem como fortalezas que guardam tesouros humanos preciosos, provocando um pensar incessante. Fazem parte de um universo vasto e inquieto, fora da ordem, que sempre me fez refletir, falar e escrever, hoje quase que cotidianamente, na tentativa de entender os humanos e seu “Habitat”.

Que segredos guardam essas figuras circenses, melancólicas, lúdicas, enraizadas, soltas, misto de tristeza e alegria, em um universo de paisagens oníricas? Saltitantes, à beira do abismo, amordaçadas, à espreita, olhos arregalados, despedaçadas e inteiras, genuínas na sua adorável imperfeição, querem dizer o que assim tão inconstantes?
Dizem de nós, seres fragmentados, assustados, urgentes, às vezes dilacerados, que somos. Humanos? Dizem dos outros que nos habitam. Revelam nossas tantas faces, nossos sentimentos divididos diante do mundo multifacetado, encantador e cruel, que criamos. Habitável? Dizem das vidas paralelas que, estranhamente, tentamos equilibrar. Dizem de nós, tão coletivos e tão solitários nessa caminhada em busca de um final feliz.

Autor: Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

4 comentários em “O que dizem de nós os seres do Habitat de Amaro Abreu”

  1. Ai que lindo Lelei!! Que encanto de texto!! Nas palavras macias ,amenizamos o duro de contactar com tantas distâncias desnecessárias!! Felicidades para esse artista que sutiliza o sentir tão delicada-mente!! Abraço!!

  2. Lindo Lelei,seu texto e os desenhos de Amaro.
    Tudo a ver.Grande par vocês formam.
    Tomara que você tenha comprado um livro dêle pra mim.
    Beijos pros dois,
    Ritinha

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