As sombras que escurecem nosso tempo

Compartilhe este texto:

“O Escuro do Nosso Tempo”. Esse é o nome de um seminário promovido pela Associação Psicanalítica de Porto Alegre, que tem a coordenação dos psicanalistas Lúcia Serrano e Robson Pereira e do crítico de cinema, filósofo, economista e psicanalista Enéas de Souza.

Faço essa referência porque esse título sempre me interessou. É instigante, sugestivo e, na minha percepção, diz muito do momento que vivemos na nossa aldeia, hoje tão precária. Vejo muita desesperança e o aprofundamento da descrença e da escuridão, provocados pela intolerância, a radicalização e o desrespeito que dominam as relações políticas e, consequentemente, pessoais. Faço inúmeras perguntas, para as quais são mínimas as respostas.

Proponho um olhar específico para o nosso quintal, com o foco na campanha para prefeito. Vamos observar e pensar sobre o que está em jogo nesta reta final. Violência, perseguições, ameaças, acusações, vingança, invasões. Qualquer que seja o motivo – se é que um dia saberemos – que provocou tiroteios em frente à sede de um partido, vistorias, incêndio em um departamento da prefeitura e uma morte brutal, já ultrapassamos, e muito, todos os limites do suportável.

"Tempo, tempo, tempo", por Tamar Matsafi
“Tempo, tempo, tempo”, por Tamar Matsafi

“E qualquer desatenção, faça, não! Pode ser a gota d´água” – Chico Buarque, compositor e escritor.

Dá para chamar esse desvario de campanha política? Abandonamos o SER e mergulhamos absurdamente na escuridão do TER, com o que há de mais deplorável sob o ponto de vista humano, que se alimenta do revanchismo, do autoritário e do jogo do poder pelo poder. E enquanto a disputa toma essa proporção assustadora, seguem as promessas vãs e as falas falsamente redentoras. Como se todos fôssemos idiotas, à margem de tudo.

Onde está a autoridade? Quem vai ocupar esse lugar tão desejado, que deveria ser reservado aos que vêm para revolucionar a prática política? Quem vai sentar na cadeira vazia de valores e restaurar a dignidade? Quem vai trabalhar pelo bem comum? Quem vai apresentar e discutir projetos viáveis com as comunidades? Quem vai nos devolver o direito de ir e vir com segurança, saúde e leveza? Quem vai tornar a cidade mais acolhedora e inclusiva? Quem vai garantir educação e arte libertárias para crianças e jovens? Quem realmente vai governar para a população e não para um círculo restrito e mesquinho, respondendo a interesses políticos e financeiros duvidosos e usurpadores?

“É preciso olhar nos olhos da tragédia para dominá-la” – Oduvaldo Vianna Filho, autor e ator de teatro.

Quem vai olhar? Quem vai nos tirar dessa ordem obsoleta e provocar a necessária suspensão no cotidiano doído dos que sempre perdem? Quem vai nos devolver a possibilidade da utopia? Quem vai caminhar no contrafluxo do conservadorismo? Quem será capaz de torcer a curva da vida e apontar outros caminhos?

Quem?
Diariamente somos engolidos pelo espanto e pela burocratização da vida, que contamina nossa energia e controla nosso já escasso e desgastado tempo. Esse miserável tempo cartão ponto, que impõe uma infinidade de normas, minimiza talentos, escraviza e rouba a criatividade. Necessitamos de atos corajosos, generosos e lúcidos, contra a corrente da hipocrisia, da acomodação e do fazer sem compromisso.

A democracia é prática difícil. Gera incertezas. Escancara limites. Aponta para um universo de possibilidades. Descortina problemas complexos que dependem de muitas variáveis, de discernimento e da vontade de mudar. Encoraja o debate público de ideias. Estimula a humildade e o respeito pelas diferenças. Exige que se abra mão de verdades cristalizadas, de privilégios, das máscaras e do saber arrogante. Pede outros saberes que se descobrem no cotidiano, fora dos gabinetes e dos discursos prontos. O saber da vivência nas ruas, nos locais de trabalho, nos espaços públicos. O saber de quem olha, respeita e compartilha a vida com o outro. Até chegar ao saber maior, que é ver o outro por inteiro e trabalhar coletivamente.

"O que nos une", por Tamar Matsafi
“O que nos une”, por Tamar Matsafi

Só quem consegue sair da sua bolha egoísta e ver o outro “com os olhos livres”, fora desse grotesco podium de competições insanas e do poder a qualquer custo, é capaz de governar para uma comunidade de cidadãos diversos, carentes de respeito, melhores condições de vida, igualdade de direitos, identidade, autoestima.

Quem?

Autor: Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

2 comentários em “As sombras que escurecem nosso tempo”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *