Nanismo, mídia e preconceito

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"I Encontro Estadual-sobre Nanismo"
“I Encontro Estadual-sobre Nanismo”

Mídia e Preconceito. Esse foi um dos temas do I Encontro Estadual sobre Nanismo, promovido pela Faders, que aconteceu em Porto Alegre no dia 3 de novembro. Participei ao lado de Amanda Sobuki, advogada com nanismo e do jornalista Manoel Soares. Saí com a certeza de que lançamos uma semente. Foi estimulante, foi produtivo, inquietou e emocionou. A seguir, um resumo da minha fala.

Somos poucos, mas o impacto que provocamos é grande, às vezes, assustador.

Desde a antiguidade, marcados pelo estigma de garantir a diversão de outros, pelo grotesco, pela fantasia e pelos tantos mitos que correm por aí, chamamos a atenção. Da chacota vulgar à admiração, da hipervalorização à rejeição, vivemos entre opostos. E neste universo contraditório e pouco acolhedor, cavamos nosso lugar social.

Portanto, é vital romper com os espaços constituídos e cômodos, montados pelos discursos já dados sobre a nossa condição. Só quando a sociedade encarar a possibilidade da imperfeição, que não quer ver, é que a diferença será assimilada e percebida de outra maneira. O confronto é necessário para desorganizar a frágil ordem social e mostrar a vulnerabilidade da perfeição.

Cabe a nós, com a nossa diferença, recusar os papéis que nos são atribuídos, como o do bufão, da vítima ou do herói. É importante também prestar atenção no ganho secundário, que vem através da admiração excessiva, do elogio fácil, do aplauso à inteligência e à coragem, espécie de salvaguarda que pode mascarar uma condição que precisa ser enfrentada a olho nu.

A mídia, o estereótipo e o nanismo.

A mídia, formadora de opinião para o bem e para o mal, tem um papel muito importante neste sentido: mostrar a vida como ela é, tratar de questões que envolvem a deficiência e o preconceito com naturalidade e verdade, denunciar, apontar leis que preservam os direitos das pessoas com dificuldade, não alimentar mitos, nem transformar as pessoas diferentes em vítimas, super-homem ou mulher-maravilha, guerreiros a serem admirados.

Precisamos estar atentos aos efeitos do discurso dos meios de comunicação sobre a nossa condição. É necessário mostrar, instigar, fazer pensar, evitando o sensacionalismo e o desgastado discurso da superação, que não contribuem em nada para causa nenhuma.

Os anões são quase invisíveis e pouco lembrados pela sociedade, pelos governos e pela mídia como cidadãos e trabalhadores. É claro que temos boas reportagens. No dia 1º de novembro, o programa de Fátima Bernardes na TV Globo, veiculou uma entrevista com pessoas anãs, por conta do Primeiro Congresso Brasileiro sobre o Nanismo, na medida, sem apelos ou sensacionalismo. Mas esse tratamento não é comum. Em programas de rádio e TV, os comentários muitas vezes são cruéis e carregados de preconceito.

Por uma dessas falhas de memória, que Freud deve explicar, esqueci as datas, mas vale registrar. Comunicadores do programa Manhattan Connection, veiculado pelo GNT na época, fizeram comentários absolutamente infelizes e preconceituosos sobre os anões, o que acontece frequentemente com os apresentadores do programa Pretinho Básico, da Rádio Atlântida. Só tratam do estereótipo, sem contraponto.

É o comportamento típico de profissionais que precisam ser interessantes o tempo todo para manter a audiência, fazendo humor a qualquer custo. Pela fala desses comunicadores, que buscam a gargalhada fácil, não é delegado ao anão um comportamento humano. Sem pensar ou questionar, ironizam grosseiramente a condição de vida dos anões, demonstrando farta ignorância sobre a diferença e a deficiência.

A palavra anão é também sinônimo do que é considerado indigno, torpe, pouco. É o caso das expressões “salário com perna de anão”, “anão moral”, “anão diplomático”, “anões do orçamento”, “anões do poder”, que ratificam o preconceito. Somam-se aos olhares curiosos, aos dedos apontando, à invasão de privacidade, às perguntas indiscretas e perversas, ao riso, ao toque desrespeitoso, aos que nos ignoram nas filas e nos balcões.

Cabe a nós, saltar fora. Só assim construiremos relações mais humanas e agregadoras, fundamentais para a eliminação do preconceito.

Para finalizar, relembro uma afirmação do jornalista Luiz Antônio Araujo no ótimo artigo publicado no jornal Zero Hora do dia 28 de julho de 2014, sobre notoriedade, preconceito, maus tratos e extermínio: “Ser anão não é para qualquer um”. Segundo Araújo, o poder, aliado à necessidade da perfeição, sempre alimentou uma elite cruel, em busca de uma impossível “raça pura”. O desejo predominante é acabar com os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, escreve ele ao falar do nazismo. Assim se escravizou, exterminou, torturou, subjugou toda e qualquer pessoa, grupo ou raça que não contribuísse com o “aprimoramento da espécie humana”. Assim se discrimina.

Ainda vivemos sob esse eco. E é contra essa subjugação que lutamos.

Autor: Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

2 comentários em “Nanismo, mídia e preconceito”

  1. Só aplausos, Lelei, pelo conteúdo e pela qualidade do teu artigo. A luta contra qualquer preconceito deveria ser a luta de todos nós. Parabéns!

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