O que faz a diferença quando o filho é estrangeiro

“Todo filho é, de certa maneira, estrangeiro para seus pais”. “Mas alguns são mais estrangeiros do que outros”. Essas são palavras do publicitário Gustavo Mini em uma corajosa e afetiva palestra, em setembro de 2015, sobre a sua relação com o filho, que tem Síndrome de Prader Willi. Na época, vi/ouvi várias vezes a apresentação do Mini, que está no youtube – https://www.youtube.com/watch?v=cgr3nHhpRJA. Sua fala, serena, mas contundente, ao mesmo tempo me encantava e inquietava.

Por alguma razão, voltei a ver/ouvir o Mini nesta semana, algumas vezes. Passado um tempo e somado ao que leio, vejo, ouço e me dou conta escrevendo no blog e participando de ações voltadas para acessibilidade e inclusão, sinto o encanto desmontar a inquietude. Assim como Mini buscou e encontrou na cultura pop uma maneira comovente de entender e reduzir a distância que se interpôs entre ele e o filho, a partir do diagnóstico médico, fazendo conexões surpreendentes, eu busquei na arte um jeito de me entender e viver entre as pessoas ditas “normais”, com a minha diferença. Às vezes, absurdamente estrangeira! E fico imaginando que meus pais, depois de ouvir do médico que minha irmã e eu tínhamos nanismo, o que não afetaria nosso desenvolvimento intelectual, apostaram na educação para tornar nossas vidas menos estranhas e mais leves e nos fazer independentes.

As dificuldades, físicas, mentais, intelectuais, cognitivas, qualquer que sejam, nos fazem estrangeiros, sim! Sempre há uma grande expectativa em relação ao filho que vai nascer. Filhos são pautados pela perfeição, especialmente nesses tempos contemporâneos, tão competitivos. Ao falar sobre a busca de caminhos para chegar ao filho, Mini mostra com naturalidade o quanto a diferença exige dos pais, das crianças, das famílias, sempre perseguindo algo que reduza as distâncias e aproxime.

“Me ajuda a olhar!”

"Pai me ajuda a olhar", por Tamar Matsafi

“Pai me ajuda a olhar”, por Tamar Matsafi

Diante do inexorável, é fundamental olhar, admitir, assimilar, quebrar tabus, abrir portas, construir pontes e estabelecer as conexões necessárias para as trocas possíveis e uma vida com o mínimo de preconceito e o máximo de inclusão, tranquilidade e conforto.

A não adequação, que perturba a ordem, exclui, inibe e acirra o preconceito, ao mesmo tempo rompe com o determinismo e as verdades absolutas. Ao produzir a dúvida, abre um universo de possibilidades, estimula o conhecimento, impulsiona a criatividade, aponta para a riqueza da diversidade e do inusitado e promove novos olhares. Restaura a utopia que nos faz caminhar firmes no contrafluxo, em direção à luz.

Essa é a grande batalha, não só dos pais que têm filhos diferentes, mas dos filhos que precisam entender o movimento dos pais, encarar o mundo lá fora e conviver com as limitações humanas diante de alguém que, definitivamente, não corresponde ao sonhado/planejado ou à vida como gostaríamos que fosse. São alguns dos muitos desafios de pais que precisam descobrir um meio de se comunicar com seus filhos estrangeiros, filhos esses que, por sua vez, precisam dessa conexão para viver.

Como a pequena história contada pelo escritor Eduardo Galeano, em “O Livro dos Abraços”, sobre o menino Diego, levado pelo pai para conhecer o mar. Foi uma longa caminhada. “E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: – Me ajuda a olhar!”.

3 ideias sobre “O que faz a diferença quando o filho é estrangeiro

  1. Lindo seu post, Lelei. Como sempre, cheia de candura falando de assuntos que para outros são áridos ou difíceis. Você está ensinando muita gente a olhar. Abraços.

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