A poesia que fala da diversidade, hoje e ontem, fala de resistência, fala de nós

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Antes, um convite
Abre nesta segunda-feira, 5 de dezembro, às 18h, no saguão da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, a exposição fotográfica TODAS SÃO TODAS. A iniciativa é do Grupo Inclusivas, formado por mulheres com deficiência. A mostra reúne 30 fotos de 11 mulheres, que pousaram de corpo e alma para a lente da fotógrafa Daiane Peixoto. EM cartaz até o dia 9 de dezembro. No próximo texto vou falar especificamente sobre este assunto.

Flores que persistem

Mariana Baierle é jornalista, professora e consultora em audiodescrição e acessibilidade. Tem deficiência visual parcial (baixa visão) desde que nasceu. A profissão, mas especialmente nossa diferença, a busca incessante por inclusão, justiça, direitos humanos, cidadania, educação e cultura e a sensibilidade de Mariana nos aproximaram. Ela tem o blog Três gotinhas – http://tresgotinhas.com.br/. Ali vai espalhando delicadas gotas sobre o que pensa. “Pequenas reflexões, comentários, observações sobre o mundo e reivindicações”. Ali estão crônicas e poemas que escreve. Busquei o poema abaixo que diz muito desse tempo e da nossa resistência.

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A flor no caminho

Uma flor no asfalto
Uma flor na brita
Uma flor desfacelada no fogo
E transformada em cinza
(…)
No caminho não há apenas
pedras e flores mortas
Há uma flor que persiste,
que sobrevive no concreto
e em meio à brutalidade
(…)
Há uma flor que resiste, espalhando
beleza e perfume no cenário cinza
Fagulhas de esperança
Labaredas de amor
No corpo, na mente, n’alma
(…)
Água que alimenta a flor
Água que apaga o fogo
O momento é de água e fogo
Precisamos respirar para prosseguir
(…)
Esperança e fatalismo
Idealismo e circunstância
Louvores e sanções
Sonho e apocalipse

Poesia teimosa e viva

Nei Duclós é jornalista. Formou-se em História pela Universidade de São Paulo. Nasceu em Uruguaiana. Morou e trabalhou em Porto Alegre. Vive em Florianópolis há muitos anos. É autor de 20 livros, entre impressos e e-books, poesia e prosa.

Foi em 1972 que Nei abriu seu baú de poesia para lançar, três anos depois, “Outubro” com 83 poemas selecionados com Caio Fernando Abreu, Cláudio Levitan, Ida Lobato e Juarez Fonseca. O livro foi lançado pela Editora A Nação, em coedição com o Instituto Estadual do Livro, que tinha na direção a professora Lygia Averbuck, sensível, sintonizada com grandes pensadores. Não sei se essa turma, na época, se deu conta que “Outubro” vinha para ficar. Quarenta anos depois, em outubro deste ano, a obra ganha a segunda edição e se mostra tão vigorosa e atual quanto naqueles tempos conhecidos como “anos de chumbo”.

outubro_nei-duclos

Levitan, que criou a capa e as ilustrações, diz que o livro “tem algo de manifesto sem ser panfletário. Tem a jovialidade de uma geração que acreditava nas mudanças, acreditava num homem novo dentro do velho homem, um homem que fosse além da mediocridade, que não se rendesse à desilusão, ao medo, à preguiça. Um homem que ressignificasse as pequenas coisas, como criança que descobre a maravilha do mundo pela gentileza, pela suavidade, pela atenção, como quem reconstrói o mundo pela descoberta das palavras”.

Juarez Fonseca afirma que “Outubro é tão vigoroso, tão marcante, que mesmo sendo uma espécie de manifesto geracional atravessou incólume esses 40 anos. Pode ser lido hoje com igual deslumbramento”. Foi assim que li e reli esta segunda edição e o poema abaixo, que diz de uma geração libertária que ousou sonhar muito.

Carta ao companheiro exilado

Aqui, o sol obstinado
ainda banha a folhagem
a chuva nos visita
e deixa o arco-íris quando parte

As cores da saudade
abriram a palma
da nossa mão pálida
e a vontade de buscar-te
soltou-se como um raio

Descobrimos que era muito tarde

Agora, que a madrugada se acaba
e o sol nos dá na cara
não sabemos o que fazer
com essa ressaca

Batem nas portas
e revistam roupas e pacotes
estamos na praia do naufrágio

Domar vieram boiando coisas mortas
entre elas
nossos sonhos e emboscadas

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