Exposição fotográfica dá visibilidade a mulheres com deficiência

Precisamos sair dos guetos e dos discursos prontos em busca de olhares sensíveis e não contaminados pelo preconceito, para que não roubem nossa beleza

Temos pouco tempo. Só até esta sexta-feira, 9 de dezembro, é possível conferir no Memorial do Legislativo (rua Duque de Caxias, 1029), a exposição fotográfica TODAS SÃO TODAS. A mostra busca o reconhecimento da presença das mulheres com deficiência na sociedade. Vem para provocar a reflexão sobre o lugar delegado a elas e construir um novo olhar através do seu protagonismo. Lá estão, em 30 fotos, 11 mulheres que pousaram de corpo e alma para a fotógrafa Daiane Peixoto.

Na foto, Luciana Silveira Alberton, portadora de síndrome de Down, pelas lentes da fotógrafa Daiane Peixoto

Na foto, Luciana Silveira Alberton, portadora de síndrome de Down, pelas lentes da fotógrafa Daiane Peixoto

A iniciativa é do Grupo Inclusivass, formado por mulheres com deficiência. O projeto TODAS SÃO TODAS tem como objetivo incorporar a perspectiva e as necessidades específicas das mulheres com deficiência às políticas existentes de enfrentamento à violência doméstica e às demais políticas públicas para as mulheres.

Para a realização da mostra, que integra as atividades dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, o Inclusivass contou com a parceria da organização não-governamental Coletivo Feminino Plural. Teve ainda o apoio do Fundo Fale Sem Medo (Instituto Avon/Fundo ELAS), Campanha HeforShe, Frente Parlamentar dos Homens pelo Fim da Violência Contra a Mulher da Assembleia Legislativa do RS e Laboratório Viacolor.

No Brasil, há mais de 25 milhões de mulheres com deficiência, segundo dados do IBGE de 2010. No entanto, para o governo e para a sociedade, estas mulheres são invisíveis. Diariamente, driblam barreiras em todas as áreas: comunicação, saúde, educação, mobilidade, emprego, segurança, cultura, lazer, renda. Saiba mais sobre o projeto em www.inclusivass.blogspot.com.br ou www.todassaotodas.blogspot.com.br

Mudar esta realidade é uma das nossas tantas lutas. E esta exposição ainda vai percorrer muitos lugares.

Na foto, Josiane França, portadora de deficiência visual pelas lentes da fotógrafa Daiane Peixoto

Na foto, Josiane França, portadora de deficiência visual pelas lentes da fotógrafa Daiane Peixoto

Na foto, Ewelin Canizares, portadora de polineuropatia, pelas lentes da fotógrafa Daiane Peixoto

Na foto, Ewelin Canizares, portadora de polineuropatia, pelas lentes da fotógrafa Daiane Peixoto

Assino o texto de apresentação que está no folder da mostra e segue abaixo.

A beleza não pode ser roubada
Esta é uma exposição que nasce de trajetórias diversas, lutas, trabalhos e sonhos de mulheres diferentes pela sua deficiência e pelo enfrentamento de um cotidiano cheio de limites que a sociedade potencializa ao insistir em não vê-las. Ou vê-las a partir de rótulos criados para disfarçar o estigma. As fotografias da mostra concretizam um desejo que, na contramão do enquadramento, busca um olhar sensível, não contaminado, que as perceba por inteiro.

A adequação a uma vida restrita, quase invisível, como ela se mostra para quem tem uma diferença, nunca bastou para essas mulheres, que não querem ficar presas à imagem de vítimas ou heroínas, em eterna superação. Querem ser admiradas, sim, mas não para compensar a sua condição. O que as move transita por outras vias – atravessar o fantasma do preconceito que intimida e exclui e experimentar o que aí está do jeito possível, à flor da pele, com intensidade e paixão. Apesar dos tantos limites que o dia a dia impõe. Querem revelar o feminino que os olhares ao redor, muitas vezes prolongamentos dos seus próprios olhares, insistem em não ver.

“Que olhar é esse que de dentro de mim me espia? Que olhar é esse que me afasta de mim?”

E são tantos os olhares a inquietar, desafiar, sufocar, amedrontar, sem ver.

Desvendar esse cotidiano invasivo que as faz estranhas é não deixar que essa invisibilidade esconda as mulheres que são. Tão múltiplas e, ao mesmo tempo, tão iguais a todas as outras na sua subjetividade. Maduras, profissionais, recolhidas, inseguras, curiosas, inquietas, destemidas, tímidas, livres, apaixonadas, mães, amantes.

Em nome da diversidade desejada, Carol, Cris, Denise, Ewelin, Fernanda, Josiane, Lelei, Lisa, Luciana, Regina e Vitória abrem asas para um caminho libertário que as tire da imposição das normas e das leis e dê a elas a visibilidade negada. Provavelmente não sabem muito bem como vai se desenhar essa jornada, mas sabem que é latente e que pulsa forte na vida de toda mulher que busca inclusão, acessibilidade, respeito e independência.

No simbolismo das fotos, elas se autorizam efetivamente a sair dos guetos e dos discursos prontos para serem vistas com a sua deficiência e para que não roubem a sua beleza.

Foto de Daiane Peixoto

Foto de Daiane Peixoto

O que não quer calar e registro aqui para não engasgar!
– A exposição não foi realizada no saguão da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul porque a “casa do povo” estava fechada. Mais que isso, estava toda gradeada. A “casa do povo” fechada, com seus eleitos lá dentro, com medo do povo! É, no mínimo, esquizofrênico, não é?

– Essa exposição tem que estar onde o povo está! Como diz a canção de Milton Nascimento, “Nos Bailes da Vida” – “Todo artista tem que ir aonde o povo está”.

2 ideias sobre “Exposição fotográfica dá visibilidade a mulheres com deficiência

  1. Como tudo o que você escreve,mais uma vez me emocionei.
    Bato palmas e peço bis sempre a você,Lelei.
    Quanto se perde em não se querer ver o que nos mobiliza

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