Um ano do blog – descobertas e uma pequena história

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Há um ano escrevo neste blog que, intuitivamente, ganhou o nome de “Isso não é comum”. Há um ano percebo que essa escrita foi me colocando em contato com movimentos e coletivos engajados na luta por acessibilidade e inclusão. Grupos formados por pessoas absolutamente incomuns, éticas, generosas e guerreiras na sua busca por direitos sociais, voz, respeito, cidadania, reconhecimento, independência, acolhimento.

A proposta de falar sobre o impacto da diferença, e do quanto ser diferente pode machucar e afastar do convívio, era um desejo que Marlene, minha irmã, e eu estávamos concretizando quando ela nos deixou. Queríamos entender os limites que o nanismo nos impôs e os limites de tantas outras pessoas com dificuldades marcantes que geram preconceito, segregam e intimidam. Queríamos refletir sobre um assunto que nos inquietava e estava nas nossas vidas desde que nascemos. Queríamos ampliar a discussão. Não deu tempo! Passei, então, a escrever muito, uma maneira de não desistir, seguir conversando com ela, preencher um vazio insuportável, não sucumbir.

Assim encarei este blog e publiquei o primeiro texto no dia em que fez um ano da morte da Marlene – 5 de abril de 2016. E, quase sem perceber, fui abrindo portas. Passei a conviver com pessoas que, como eu, são diferentes e estigmatizadas cotidianamente. Ampliei meus relacionamentos, me fortaleci. Sensibilizei ainda mais o olhar para o outro e entendi que falar da diferença é encarar a fragilidade da condição humana. E se contrapor ao preconceito de qualquer natureza é saudar a diversidade tão necessária para uma vida libertária.

Há um ano escrevi: “O caminho é longo, mas estou na estrada. Sempre estive”. E continuo.

"Solidão suave", por Tamar Matsafi

“Solidão suave”, por Tamar Matsafi

Pequena história de como criar jeitos de viver com leveza

“Estou bem para enfrentar os olhares críticos do povo?”. Esta era a pergunta recorrente que nos fazíamos sempre que íamos sair para uma atividade que exigia de nós um pouco mais do que o cotidiano de enfrentamentos inevitáveis. Uma aula com turma nova. Uma coletiva de imprensa. Uma banca de mestrado ou doutorado. Um cliente novo. Uma palestra. A abertura de um evento. Um encontro de trabalho. Uma entrevista. Respondíamos uma para a outra: “Vai firme. Estás toda lorde”. E ríamos muito. Era uma forma de diluir a ansiedade e o medo, descontrair, tirar a importância. Tínhamos muitos códigos. Muitas frases simbólicas. Cumplicidade deliciosa de uma convivência que fica carinhosamente e amorosamente na memória.

É assim que tenho lembrado da Marlene ultimamente – espirituosa, com um humor incrível, forte e delicada, precisa e acolhedora nos conflitos, com um olhar absurdamente sensível para a condição do outro. Aprendemos juntas, no dia a dia, esse olhar que, provavelmente, foi a nossa salvação.

“Um sabiá, na palmeira, longe / Canta, canta pra ti / Ele bem sabe a dor da saudade / E canta, canta pra ti”.

Essa canção traduz o meu sentimento neste dia 5 de abril de 2017, dois anos da morte da Marlene. Ouvimos pela primeira vez no Theatro São Pedro, na voz de Celso Sim, em show do José Miguel Wisnik.

Aqui quem canta a versão de Arthur Nestrovski para “Serenata” é Lívia, sua filha, acompanhada por ele ao violão (https://www.youtube.com/watch?v=iQVTCp6x520). A música está no CD “Pós você e eu”, com os dois. No encarte, um texto bem humorado, muito bom, assinado pela irmã caçula de Lívia, Sofia, diz algo que me conforta muito: “A música ensina a transformar o tempo vazio em tempo interior”. A música salva.

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