Comunicação e direitos humanos – uma conversa olho no olho com alunos do Jornalismo e de Publicidade e Propaganda da Feevale

Compartilhe este texto:

No dia 22 de maio vivi um momento raro de alegria e realização pessoal e profissional. Fui convidada para falar com os alunos do Curso de Comunicação (Jornalismo e Publicidade e Propaganda) da Universidade Feevale, a partir do tema Comunicação e Direitos Humanos.

Encontro alunos Comunicação_ Feevale

Que papel exerce a mídia nesses tempos em que a cultura do sucesso é exaltada e a sociedade insiste em dividir as pessoas em vencidos e vencedores? Qual a relação entre a cultura midiática e o aumento do bullyng? Por que a mídia insiste na superação quando se refere às pessoas com deficiência, aos negros, aos marginalizados de um modo geral, quando ocupam um lugar que a sociedade entende como lugar da “normalidade”? Estas foram algumas das questões que orientaram a minha conversa olho no olho com alunos atentos, que fizeram muitas perguntas. Neste dia, tomei contato com um trabalho sensível, humano, questionador e contemporâneo desenvolvido pelo grupo de professores em parceria com os estudantes.

Me senti em casa. Além da recepção carinhosa e acolhedora, um auditório lotado, de olhares atentos e instigantes. Saí reabastecida, com a certeza de que é possível mudar, formular outras questões e incluir esta discussão na formação dos nossos jovens.

Mais uma vez, agradeço à professora doutora do Curso de Jornalismo Sarai Schmidt e à equipe linda, ativa e apaixonada que trabalha com ela e os demais professores.

Encontro com alunos da Comunicação Feevale_Só alegria

A seguir um pouco da minha fala
É muito bom compartilhar experiências e inquietações que cercam a vida de pessoas que, como eu, têm uma dificuldade marcante. E é um desafio estimulante falar sobre Comunicação e Direitos Humanos, universos que transitam por fronteiras muito vulneráveis nesses tempos em que o debate reflexivo perde espaço para a polarização raivosa.

A pergunta é: Como tratar de temas como deficiência, acessibilidade, inclusão e preconceito, evitando cair no heroísmo, no fetiche, no sensacionalismo, no clichê, na vitimização, no paternalismo, no estereótipo, no constrangimento e na superação tão endeusada pela sociedade e reforçada pela mídia?

Para começo de conversa, é preciso entender que inclusão não é concessão, como são percebidos os direitos das minorias efetivados sob o viés do benefício e da bondade. Os espaços de representatividade e de legitimação da diferença são ainda pontuais e frágeis.

Portanto, falar sobre o assunto e encarar a repercussão da diferença na sociedade em que vivemos são tarefas necessárias. Contraditoriamente, me parece que quanto mais falamos em diversidade e conquistas sociais, mais cresce a intolerância, o que escancara o despreparo de todos nós para o convívio com a diferença.

A sociedade reserva um lugar para quem foge dos padrões de normalidade sobre os quais o mundo está estruturado. E, sem nos darmos conta, reforçamos esse lugar sem questionar. Ninguém se espanta ao ver o negro como porteiro, operário, empregada doméstica, porque este é o espaço que lhe cabe. Assim como ninguém se admira ao ver o homossexual como costureiro, cabeleireiro, fazendo o gênero pitoresco, irônico, com humor fino, ferino. O anão divertindo as pessoas, dando cambalhotas, sendo alvo de chacota, ou como figura mágica, também não espanta. É o que lhe cabe no latifúndio da perfeição. Portanto, vê-los respondendo ao discurso já dado sobre eles, que a mídia reproduz porque dá ibope e atrai público, não espanta ninguém. É perfeitamente natural e chega a ser condição para que sejam incluídos.

O espanto surge quando rompem esses espaços. Aí a diferença assume outras proporções e a sociedade se defronta com o que não quer ver e, de certa forma, rejeita. Rejeição explicitada pelo preconceito diante da pessoa real, de carne e osso, com sentimentos, paixões, contradições e a sua DIFERENÇA.

É nesse confronto que as pessoas que fogem do padrão por opção sexual, religiosa, de raça, cor, ou por algum tipo de deficiência, física, mental, intelectual, surdez, dificuldade de visão, uso de cadeiras de roda, enfim, instauram a desordem e desorganizam a frágil organização da sociedade.

E aí somos assoberbados pelo discurso da superação
A pessoa com deficiência tem que provar o tempo todo que é capaz. “É o famoso ‘matar um leão por dia”. E a mídia só contribui para isso. Segue falando ‘o deficiente’, por exemplo, e investe no sensacionalismo. Se não tem superação, não tem notícia. É a pessoa com deficiência que deve se adaptar à sociedade, e não o contrário.

Só vamos chegar ao desenvolvimento social que buscamos quando entendermos que cada um tem contribuições a dar, a partir do seu jeito de ser e de ver o mundo, do seu saber e da sua maneira de colaborar para a qualidade de vida de todos. SEM SUPERAÇÃO! A luta dos cidadãos é a mesma. Contra a discriminação, contra o apartheid, contra a falta de oportunidades, contra a reiterada posição de discriminar parecendo que não está discriminando.

A importância de pensar o papel dos meios de comunicação
A mídia é formadora de opinião, portanto tem uma responsabilidade fundamental neste sentido: mostrar a vida como ela é, tratar de questões que envolvem a deficiência e o preconceito com naturalidade e verdade, denunciar, apontar leis que preservam os direitos das pessoas com deficiência, sem alimentar mitos, nem transformar os deficientes em vítimas, heróis ou guerreiros a serem admirados.

Precisamos estar atentos aos efeitos do discurso dos meios de comunicação sobre a diferença. É importante instigar, fazer pensar, mas evitar o sensacionalismo, que não contribui em nada para causa nenhuma. Precisamos de mais civilidade, mais humanidade e mais sabedoria ao falar da deficiência, seja ela qual for.

O tratamento dado aos anões pela mídia, especialmente no rádio e na televisão, é abusivo, para não dizer cruel. Comunicadores de programas como Manhattan Connection e Pretinho Básico, da Rádio Atlântida, já fizeram comentários absurdos, infelizes e preconceituosos sobre os anões. E vou me poupar de falar aqui de programas de auditório como o de Rodrigo Faro, Ratinho e Faustão, que prestam um desserviço para a causa. Só tratam do estereótipo, sem nenhum contraponto. Pelo discurso desses comunicadores, quase nazista, não é delegado ao anão um comportamento humano.

Como todo comunicador, que precisa ser interessante, chamar a atenção, preencher um espaço, garantir a audiência para o bem ou para o mal, sem pensar ou questionar, eles ironizam grosseiramente a condição de vida dos anões, demonstrando farta ignorância sobre a diferença e a deficiência.

O que é possível fazer? Não deixar passar. Denunciar sempre. Criticar. Não se submeter. Formular novas questões. Tarefa para jovens como vocês que em breve estarão no mercado de trabalho.

Para encerrar, lembro duas frases de canções de Caetano Veloso, que podem funcionar como uma bússola nessa jornada: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” e “De perto ninguém é normal”.

Não somos nem vítimas nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com a nossa dificuldade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *