Recuar, virar, mexer – descortinar o avesso

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A solidão é minha, não é de mais ninguém! Assim como “a dor é minha só, não é de mais ninguém”, que ecoa nos meus ouvidos na voz de Marisa Monte. “Aos outros eu devolvo a dó, eu tenho a minha dor”. Ponto.

Quando se perde uma guerra, depois de algumas batalhas espinhosas, a recomendação é avaliar e, se necessário, recuar. Sinto que perdi e que é coerente no momento o recuo. Ao mesmo tempo, ao olhar pelo avesso, percebo que nada foi em vão. Sem dó. O que fiz foi por mim. Pelos meus valores e crenças, pelo que entendo por respeito, ética, solidariedade, amor, humanidade. Pelo que aprendi de um jeito muito natural com meus pais, avós, tios, amigos.

Pelo que aprendi vida afora, com a minha diferença. Não me encolhi diante do preconceito, mas soube me retirar em determinadas situações para evitar a exposição excessiva, às vezes cruel. E hoje poder falar com naturalidade sobre preconceito, invisibilidade social e inclusão no sentido de contribuir de forma efetiva para uma sociedade múltipla e libertária.

Se o aprendizado primeiro veio do ninho familiar, as asas ganharam ainda mais força na vida lá fora, no mundo do trabalho e nos tantos enfrentamentos. Na responsabilidade às vezes absurda, no cuidado que sempre tive com o outro, na maneira de levar a vida e de lidar com o conhecimento, o poder e o dinheiro. Nunca dei ousadia ao ter, mas ao ser. Desde sempre. Agora, com a maturidade, mais ainda.

Então, pronto!

"Travessias", por Tamar Matsafi
“Travessias”, por Tamar Matsafi

Dia desses, ao me sentir um Dom Quixote desesperado, uma visionária querendo mudar o mundo ao redor, parei para encarar os fantasmas que me atordoavam. E voltei alguns passos. Só assim para recuperar o fôlego e seguir acreditando que é possível, sim, mudar alguma coisa.

“Ande e olhe / Vire e mexa / Não se incomode / Com essa falta de assunto / Ande muito / Veja tudo / Não diga nada além / De dois minutos”, canta Gal Costa.

Andei, olhei, virei e mexi nas muitas linhas da vida, retas e curvas. Há tantos atalhos que podem nos levar por outros caminhos, formulando novas questões para não enferrujar, não acumular mágoas inúteis, não estagnar burramente. Ou, como disse o Diego Titello, há a possibilidade de olhar pelo avesso, considerar o contrário, o inusitado, para não cair no perigo da história única. “Ler o avesso do bordado é fundamental para entender os sentidos do desenho das linhas para além da superfície”.

Ler o avesso do avesso do avesso do avesso
A canção “Sampa”, que Caetano Veloso fez para São Paulo, cidade onde chegou muito jovem para impulsionar sua carreira, diz muito de tudo o que sinto.

“E quem vem de outro sonho feliz de cidade / Aprende depressa a chamar-te de realidade /Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso / Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas / Da força da grana que ergue e destrói coisas belas / Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas / Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços / Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva / Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba / Mais possível novo quilombo de Zumbi / E os Novos Baianos passeiam na tua garoa / E novos baianos te podem curtir numa boa.”

"O avesso", por Tamar Matsafi
“O avesso”, por Tamar Matsafi

Autor: Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

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