Lanceiros Negros – Por quê?

Compartilhe este texto:

Quando reivindico inclusão, acessibilidade e respeito às diferenças, reivindico justiça e humanidade. Tudo o que faltou na triste noite de 14 de junho de 2017, na esquina das ruas General Câmara e Andrade Neves, no centro de Porto Alegre, em ação truculenta da Brigada Militar, comandada por um governo que não inclui, não acolhe, não respeita a diversidade, não entende o que é ser humano. Ou, melhor, não sabe do Ser Humano. Famílias da comunidade Lanceiros Negros foram arrancadas de um prédio que pertence ao Estado de forma violenta, covarde e desnecessária em uma noite fria, véspera de um feriado.

Sem condições de escrever sobre esta história de abuso de poder, prepotência, brutalidade e hipocrisia, busquei alguns comentários de pessoas que respeito. Poderia ter sido diferente? É óbvio que sim, mas quando o poder perde a lucidez, sobra só violência.

O retrato do descaso com o ser humano
Liza Cenci, Grupo Inclusivass – Clima tenso de guerra, tiros, bombas ao descer na rua da ladeira. Chego em casa e está cheio de fumaça. 70 Famílias despejadas. Frio na alma. Tristeza. Retrocesso.

Luis Eduardo Gomes, jornalista Sul21 – O José Ivo não curtia que eles estavam ali no Centro. Invasores dizia a nota do governo do Estado. E então mobilizou sua cavalaria e mandou tirar todo mundo de lá. Para preservar o prédio, dizia a nota, enquanto a Brigada arrancava a porta com uma caminhonete e destruía tudo por onde passava, incluindo as pessoas, suas esperanças, suas pequenas posses, suas noites quentes.

Jussara De Azeredo Sá, advogada – Importante esclarecer para quem está muitíssimo mal informado e defendendo o governador nessa reintegração covarde que acontece agora no centro de Porto Alegre. O imóvel é do Estado. O Estado é que moveu ação de reintegração de posse. Portanto, o Sartori. Um imóvel que estava abandonado há mais de doze anos! Ao menos se informem antes de defender o indefensável. Ah, e pra quem, na falta de argumentos e sensibilidade diz que se trata de uma “ocupação política”: sim! É uma ocupação política. O direito à moradia é uma questão política. O descaso com a moradia é uma questão política. A decisão de despejar as pessoas sem uma política social que garanta o direito à moradia é uma decisão política. A cidadania é uma questão política. Viver é um ato político.

Lu Vilella, Livraria Bamboletras – E ainda fazem “campanha do agasalho”. Hipócritas. Fascistas. Desumanos. Monstros.

Fátima Ávila – Ocupação Lanceiros Negros abriga famílias que perderam suas casas, muitas por conta do tráfico ou por terem perdido seus empregos. Cumpre um papel importantíssimo de dar moradia e dignidade a essas pessoas, papel esse que deveria ser do estado. O estado se nega a cumprir com seu dever e ainda por cima manda desocupar com violência policial um prédio que estava abandonado, jogando 80 famílias na rua em uma noite fria. Tem crianças, tem mulheres grávidas, tem GENTE lá dentro. São super organizados e acolhem pessoas, muitas vezes, que vieram do interior e não têm onde dormir ou o que comer para que consigam se reerguer. Que vida queremos pra nossa cidade? Que vida essas pessoas vão ter? Quem coloca a cabeça no travesseiro no quentinho da sua casa e não se preocupa com essa gente tirada à força e jogada na rua? E aí vem me dizer que querem uma cidade sem violência? Imaginem o trauma dessas crianças? Pra onde vocês acham que eles vão correr? Somos todos responsáveis por essa situação.
Leandro Selistre, designer – Hoje, 15/06, é o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa. Ontem à noite vários idosos foram agredidos na absurda atuação da polícia e do estado na Ocupação Lanceiros Negros. A justiça que mandou desocupar o prédio vai punir com o mesmo rigor essa violência?

Carmem Cecília Magalhães, professora – Meu Deus! Que atitude funesta desse governo Sartori. Tirando vidas do abrigo de um lugar que chamavam de lar e as jogando no relento da noite fria! O que vai testar nesse prédio abandonado e sem vida? Pedra e cimento onde antes ouvíamos vozes de crianças e bebês! Grande “obra desse governo”, um prédio fantasma igual ao coração seco e de pedra do governador Sartori. Qualquer obra que seja feita neste local após essa cruel desocupação será marcada pelas lágrimas dos que foram expulsos. A História jamais vai esquecer essa amaldiçoada ação desse governador. Ele será para sempre lembrado pelas lágrimas e pelo choro das crianças e bebês assustados e despachados na noite fria.

Jorge Correa, jornalista – Quando uma estrutura de tijolos e argamassa vale mais do que homens, mulheres e crianças, a civilização faliu. Cadê a humanidade?

Nina de Oliveira, jornalista – Quando a boate Kiss ardeu em Santa Maria/RS, naquele janeiro de 2013, levando mais de 200 almas, Cezar Schirmer era o prefeito da cidade e se eximiu de responsabilidades. Atualmente é o secretário de segurança do RS e, junto com o governador Sartori, autorizou o despejo de famílias, com suas crianças e velhos, da Ocupação Lanceiros Negros,usando de toda a força desnecessária da Brigada Militar, para mandar para a noite gelada os desvalidos. Os que vivem à margem desta sociedade desumana e desigual.
Para isto servem estes cidadãos. Para agir da maneira mais torpe, cruel e covarde. São gânsters. Andam em bando espalhando o terror. Ainda levaram preso o deputado do PT, da Comissão de Direitos Humanos, da Assembleia Legislativa, Jeferson Fernandes. Isto precisa ser denunciado. Todos precisam saber.

Daniel Soares, jornalista – Não é preciso dizer mais nada. Sartori e sua corja são criminosos. Comando da BM é capacho de um governador que atrasa salários, fecha escolas, quer vender patrimônio e ainda mantém um secretário de Segurança que afirma que a insegurança é imaginária.

Marco Weissheimer, jornalista – Chegando em casa agora da cobertura da ação de despejo da Ocupação Lanceiros Negros. Truculência é apenas uma das palavras para descrever o que aconteceu, entre ilegalidades flagrantes, como a ausência do Conselho Tutelar em uma ação contra famílias com crianças, cujo “crime” foi lutar por um teto para morar. Outra foi a notável falta de preparo e profissionalismo de integrantes da Brigada Militar, que abusaram da truculência e do desrespeito para com as famílias que estavam sendo despejadas do local onde viviam há um ano e sete meses. Para não falar da truculência com jornalistas que cobriam a operação. Mas não são necessários adjetivos. O melhor retrato sobre o que aconteceu é uma descrição sobre o que aconteceu na noite desta quarta-feira, no centro de Porto Alegre. Ao final do espetáculo de truculência e falta de compromisso social, os principais derrotados não foram os moradores da Lanceiros Negros, mas sim o governador José Ivo Sartori, o Judiciário e a Brigada Militar. Uma nota especial para a coragem do deputado Jeferson Fernandes, alvo de jatos de spray pimenta jogados à queima roupa em seu rosto e, especialmente, das famílias que resistiram e ousaram construir, no centro de Porto Alegre, uma alternativa de vida. Honraram o sentido do nome que escolheram para batizar esse espaço.

Dinorah Araújo, jornalista e atriz – Por que a Brigada Militar destruiu a biblioteca da Ocupação Lanceiros Negros? Destruir bibliotecas é uma ação usual dos governos autoritários, das ditaduras. Então, o que é o atual governo do RS?
Carlos Badia, músico – Programa Esfera Pública na Rádio Guaíba de POA sobre a questão da desocupação no prédio dos Lanceiros Negros está sendo extremamente esclarecedor. Rádio Guaíba dando show de jornalismo. Nenhum representante do governo do PMDB, mesmo convidado, se dignou a ir. Deve ser vergonha, pois como se está comprovando agora, a ação do governo através da brigada esteve repleta de equívocos jurídicos, que serão judicialmente investigados em profundidade a partir de agora.Sem falar na violência que foi injustificada, como se vê agora. Os índios que moravam na ocupação não puderam entrar no prédio hoje para pegar seus materiais de trabalho para vender no centro. Um equívoco atrás do outro. O governo do estado está sendo omisso nesse caso. Deveria dar uma satisfação à sociedade.

Adriana Franciosi, fotógrafa – Vergonha do Estado do Rio Grande do Sul. Ontem o governo Sartori, amparado pela decisão de uma juíza, que por sinal recebe auxílio moradia de 5 mil reais. desalojou 70 famílias com crianças na madrugada fria. A brigada Militar com sua truculência habitual contra pessoas de baixa renda, e até mesmo contra jornalistas, tirou as pessoas de um prédio no centro, o qual por 12 anos o Estado abandonou. E pior o governo Sartori, PMDB, faz isso sem ter um mísero plano para onde levar essas famílias.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *