Vamos falar sobre preconceito? – Pela diversidade, pela tolerância, pelas diferenças todas que nos desafiam, nos fazem melhores, nos tornam livres e múltiplos.

Compartilhe este texto:

No dia 13 de junho, no Santander Cultural, participei de um encontro com estudantes de segundo grau que integram o programa Cidadania e Talento.com do CIEE-RS, módulo Comunicação. Falei e respondi muitas perguntas da garotada durante uma hora e meia. Mais uma vez, saí estimulada. Jovens atentos e curiosos acompanharam e participaram da conversa. A proposta que fiz foi falar de preconceito a partir da minha condição, ampliando para outros segmentos.

A seguir um pouco do que dividi com esse público especial

Conversa_Foto CIEE-RS

Se o nosso desejo é provocar a mudança, precisamos pensar coletivamente sobre o preconceito que nos ronda. Está em nós. Que sentimento hostil e grosseiro é esse que intimida, maltrata, humilha, vira piada, agressão, bullying? O que nos leva a rejeitar uma pessoa? É fundamental questionar os motivos que nos fazem discriminar e afastar alguém de um convívio que deveria ser natural. Quem tem uma deficiência física, mental, emocional, intelectual, por dificuldades auditivas ou de visão, é ignorada e, muitas vezes, jogada na solidão.

Lamentamos as barreiras físicas que encontramos no cotidiano, mas a pior barreira é o preconceito, fruto de uma sociedade prepotente, maniqueísta, que segrega e humilha quem não corresponde a um padrão de normalidade sem sentido. Uma sociedade hierarquizada, dividida em categorias absurdas, alimentada por uma elite cruel. Em nome de quê?

Esse comportamento está tão entranhado no inconsciente de todos nós que, às vezes, até parece normal. É o que sofrem as pessoas chamadas de deficientes, mas também os negros, os índios, a comunidade LGBT e tantos outros grupos. A presença desses seres “imperfeitos” e pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores, incomoda muito. Eles são a certeza de que a perfeição, assim como a tal “raça pura”, não existe.

Como os discursos já vêm prontos e embalados para serem assimilados sem crítica, é nossa obrigação desmanchar os pacotes e desorganizar a ordem social imposta, que alimenta o preconceito.

Meus pais tiveram duas filhas com nanismo. Contavam que o comentário que ouviam de muita gente era: “Não vão se criar”. Morando no interior, numa época de informação mínima, procuraram um médico. “Suas filhas têm nanismo”, foi o diagnóstico, seguido de uma observação, “o que não interfere no desenvolvimento intelectual”. Fomos para vida. Escola, faculdade, trabalho. Para espanto de muitos, nos criamos. Dificuldades? Fora do núcleo familiar, muitas! Especialmente na rua. Olhares curiosos, risos, dedos apontando, piadas, invasão da privacidade, perguntas indiscretas, brincadeiras indelicadas, toques desrespeitosos.

Comentários do tipo “isso é tamanho de gente”, “levanta do chão”, “não sabia que alguém como você se divertia”. Até já me deram parabéns por eu estar em um show com amigos. Como se para pessoas como eu isso não fosse permitido!

Avançamos muito pouco nas questões de acolhimento da diferença, da mais banal a mais complexa. É desolador perceber que, em pleno século XXI, sejamos ainda incapazes de ver e aceitar o outro naturalmente, sem pré-julgamentos.

Necessitamos de olhares livres, não contaminados, para ir e vir com dignidade

Insisto sempre em dizer que o preconceito não se resolve apenas com leis, normas e equipamentos. Necessitamos de olhares sensíveis e humanos. Olhares que reconheçam e acolham a diferença. As instituições (públicas, privadas ou independentes), incapazes de sair do convencional, se enredam em normas na tentativa de facilitar um cotidiano que desconhecem. Desperdiçam a maravilhosa chance de conviver e aprender com uma pessoa diferente, ouvindo dela o que ela precisa. E, por acomodação, perdem a possibilidade de entender a diversidade, inventar, reinventar, facilitar, mudar, quebrar rotinas.

Para além da condição física e intelectual, da profissão, da eliminação de barreiras físicas, acessibilidade é direito social. Inclusão é cidadania. Acolher não é favor. É perceber o que o outro precisa. É se abrir para outras capacidades. É estar atento para entender os limites, orientar e exigir. Acredito que educar para a diferença que constitui os indivíduos ainda é o melhor caminho, em casa e na escola.

Procurem olhar para quem é diferente. Não fujam desse enfrentamento. Falem sobre a diferença. Ouçam o que essa pessoa tem a dizer. Este é o recado que quero deixar para jovens como vocês, que logo vão estar no mercado de trabalho, constituir família, ter filhos. Ninguém é coitado, vítima, herói. Nem mais, nem menos. Temos comportamentos diversos, limites, sonhos, aptidões, convicções, direitos. É nosso dever lutar pela cidadania, livres das amarras do preconceito.

Com estudantes do Programa_Foto CIEE-RS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *