O cotidiano e o sonho que se distancia

Sempre ouvi dizer que quando um assunto vira tema de muitas conversas, discussões, artigos, encontros, enfim, é porque o seu conteúdo está em falta. Estamos, então, absurdamente carentes de respeito, direitos, liberdade. É sobre isso que falamos e escrevemos vertiginosamente. É o que lamentamos sem parar. É o que nos falta.

A diversidade humana segue espantando e a intolerância mostra suas garras afiadas nas situações mais cotidianas. Machuca. Fere. Os movimentos sociais, sempre tão estimulantes, são rechaçados e a força bruta dos governos se impõe com violência. Sem pudor.

Queremos a democracia e lutamos por igualdade e dignidade, em todas as esferas. Repudiamos todas as matrizes que alimentam o preconceito, ignoram nossa memória e roubam direitos básicos das pessoas. Nosso desejo genuíno e sensato é, ao mesmo tempo, incompatível com o Brasil de hoje.

Na estranha semana que passou, alguns acontecimentos deixaram evidente que ainda estamos longe do sonho de viver entre pessoas que respeitem outras pessoas e seu direito de ser quem são. E tristemente vemos o país se distanciando do mínimo de dignidade que uma nação precisa para acolher sua gente.

Memória da ditadura em risco

Mais uma ação nefasta do desgoverno federal é tema de reportagem do jornal Extra Classe online – http://www.extraclasse.org.br/edicoes/2017/08/nem-memoria-nem-verdade-nem-justica/. A prova de que Temer e seus aliados trabalham incessantemente por um Brasil sem rosto, uma educação sem memória e um povo subjugado porque quem não conhece sua história verdadeira é fácil de enganar/dominar.

A Comissão da Anistia, criada para ‘reparar moral e economicamente as vítimas de atos de exceção, arbítrio e violações aos direitos humanos cometidos entre 1946 e 1988’, corre sérios riscos, assim como as Comissões da Verdade, que trabalharam para recuperar essa memória. ‘Os anistiados não estão tendo suas portarias assinadas. Muitos estão com idade avançada, com doenças até de sequelas das torturas que sofreram, e não têm acesso à reparação. E outros não têm o processo apreciado porque a comissão não está funcionando’. A denúncia é feita por Moreira da Silva Filho, professor da Escola de Direito da PUCRS e do Pós-Graduação em Ciências Criminais. Antes da ruptura institucional em 2016, com a deposição da presidenta Dilma Rousseff, a Comissão estava também construindo políticas de memória’.

Homofobia em Porto Alegre

Celebração vira caso de polícia motivado por preconceito, na Associação Leopoldina Juvenil, bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Marcos Vinicio Beccon e o namorado Raul Weiss foram vítimas de discriminação em uma festa de formatura. As pessoas se divertiam, tudo parecia normal, até que um beijo entre os dois desestabilizou a frágil harmonia da celebração. A intolerância brotou de todos os lados. Não vou entrar nos detalhes do que aconteceu, mas a atitude é o retrato da covardia e do preconceito velado – “tudo bem ser gay, mas não aqui na minha festa”.

Comportamentos assim estão tão entranhados no inconsciente de todos nós que, às vezes, até soam como normais, mas não são! A presença de pessoas naturalmente livres, que não têm medo de assumir a sua condição, incomoda. Elas nos desafiam, especialmente se vivemos engavetados, de costas para a diversidade, consumindo sem críticas os discursos discriminatórios que já vêm prontos e tabelados. É necessário desmascarar a hipocrisia e desorganizar essa ordem social que alimenta o preconceito.

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Chico Buarque crucificado e endeusado

A pergunta é: Por que Francisco Buarque de Hollanda, conhecido como Chico Buarque, compositor, dramaturgo e escritor brasileiro, provoca tanto amor e tanto ódio? É tão difícil deixá-lo viver, amar, desamar, compor, descompor, escrever, ser politicamente correto ou incorreto? O que querem dele?

O recuo das águas mostra descaso com a natureza

O que dizer do lixo que ficou escancarado às margens do Guaíba com o recuo das águas? Definitivamente, temos discurso, mas não temos prática. Cobramos das autoridades, mas não participamos. Não cuidamos do mínimo necessário para a vida saudável que tanto queremos. Os governos são indigestos, sim. E a população – eu, tu, ele, nós, vós, eles – é hipócrita. Prega, cobra, mas nada faz. Até quando?

Arte e suavidade – Amaro Abreu e seu Habitat

Amaro Abreu está com a exposição “Habitat – II Parte”, que tem curadoria da Cristina Pozzobon, no Clube de Cultura (Ramiro Barcelos, 1853), até o dia 21 de agosto. Recomendo para quem não viu. E para quem já viu, digo que vale a pena ver de novo. Escrevi o texto de apresentação da mostra, que tem muito do texto que fiz para o livro. Amaro é um guri talentoso, tem uma sensibilidade incrível e faz um trabalho que me emociona muito.

Amaro

Arte e suavidade – Amaro Abreu e seu Habitat
O menino curioso, que poeticamente via peixinhos a nadar no lago dos profundos olhos azuis da Marlene, minha irmã, cresceu. De repente. Quando o reencontrei, parou na minha frente um menino-homem, expressão carinhosa muito comum no nordeste brasileiro para dizer, “a criança que você conheceu já não é mais a mesma”. Logo vi que não era, mas que guardava muito do universo lúdico de menino no entusiasmo, no jeito de olhar, de falar, no sorriso. A suavidade daquela infância que nunca nos abandona, especialmente quando nos revelamos através da arte.

Fomos conversando e descobri que o menino já se aventurou pelo mundo. Articulado, dono do seu nariz, criativo, cheio de ideias, levou seus olhos para outras paragens. Bisbilhotou, desenhou, pintou, grafitou. Foi rabiscando a vida diversa que pulsa em todo lugar com seus lápis, tintas, sonhos, sprays, nanquim, fantasias, aquarelas e desejos. Desvendou, compartilhou e deixou em muros e painéis as criaturas inusitadas que cria.

Amaro Abreu hoje é um artista urbano. Eu, que não o via há muito tempo, fiquei surpresa e encantada. Mais ainda quando ele me chamou para escrever sobre seu trabalho no livro Habitat, que lançou em 2016, convite que me deixou incrivelmente feliz. Por ser quem é. E porque das suas mãos nascem figuras que dizem muito da vida vertiginosa que levamos, das ilhas que formamos para nos proteger, da diferença e da fragilidade que desacomodam nossas certezas, da diversidade que nos constitui como sujeitos únicos, da liberdade que buscamos.

As criaturas que Amaro vai desenhando e espalhando por aí desconsertam, inquietam, alegram, preenchem, fazem rir, emocionam. Coloridas e disformes, delicadas e fortes, às vezes são incrivelmente líricas, pura suavidade, leveza, e nos convidam a bailar. Em outras, surgem como fortalezas que guardam tesouros humanos preciosos, provocando um pensar incessante. Fazem parte de um universo vasto e inquieto, fora da ordem, que sempre me fez refletir, falar e escrever, hoje quase que cotidianamente, na tentativa de entender os humanos e seu Habitat.

Que segredos guardam esses seres, ao mesmo tempo circenses e melancólicos, brutos e lúdicos, enraizados e soltos, nesse misto de tristeza e alegria? Saltitantes, à beira do abismo, amordaçados, à espreita, olhos arregalados, despedaçados e inteiros, genuínos na sua adorável imperfeição, o que querem dizer assim tão inconstantes?
Dizem de nós, seres fragmentados, assustados, urgentes, às vezes dilacerados, que somos. Humanos?

Dizem dos outros que nos habitam. Revelam nossas tantas faces, nossa polaridade, nossos sentimentos divididos diante do mundo multifacetado, encantador e cruel. Habitável?

Dizem das vidas paralelas que, estranhamente, tentamos equilibrar.

Dizem de nós, tão coletivos e tão solitários nessa caminhada em busca de um final feliz.

Fale, responda, liberte

Depois de ouvir o depoimento da professora aposentada, Diva Guimarães, 77 anos, sobre desigualdade e o preconceito que enfrentou ao longo da vida por ser pobre e negra, o ator Lázaro Ramos falou emocionado: “A gente precisa fazer um pacto de investir em educação pública de qualidade. Não podem sucatear a educação brasileira. A escola pública tem que ser valorizada. O professor tem que ser valorizado”, sob o aplauso de uma tenda lotada, na 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty/RJ, em debate com o tema ‘A pele que habito’.

Diva se declarou “uma sobrevivente pela educação e pela mãe”, que definiu como uma guerreira. São momentos que lavam a alma da gente e acendem a esperança.

Os desiguais, os diferentes, os que não correspondem ao ideal de ‘ser humano’, estão se manifestando e se posicionando com firmeza. E quanto mais falam, mais o preconceito aparece. É difícil para os “normais” encarar a diversidade de vozes que assumem a sua condição, denunciam o preconceito e reivindicam o direito de ir e vir com liberdade e respeito. E quanto mais ouço, leio, falo, mais me convenço que a mudança está na educação, bem lá no início, na pureza da criança ainda não contaminada.

Simplicidade e verdade
Os caminhos de uma educação libertadora passam inevitavelmente pela simplicidade, jamais pelo extraordinário. Passam pelo afeto, pelo acolhimento, pelo diálogo, pela segurança, pela verdade. Precisamos de olhares que percebam as diferenças que nos rodeiam. Busquem a história de cada indivíduo, produzam vínculos, proporcionem a troca e a visibilidade, diluam os fantasmas, possibilitem o sonho, enfrentem o preconceito com atitude.

Nestes tempos permissivos, em que tudo pode ser dito e tudo pode ser feito, em que o bullying está no centro da cena, há que se dar limites para a insanidade humana, encarando toda a atitude que segrega, ofende, humilha, com a simplicidade do que é verdadeiro.

Quem disse que não é possível? Ver o outro para além de qualquer barreira, com sensibilidade e respeito, é transformador. Não podemos dar lugar ao desejo da invisibilidade como fuga das agressões preconceituosas. E responder naturalmente à curiosidade das crianças, sem alimentar espanto, medo ou o que seja, é o princípio da visibilidade que traz a cidadania. Afinal, de um jeito ou de outro, todos buscamos respostas para o que desconhecemos.

A seguir uma pequena história de quando enfrentei a rejeição, se é que posso chamar assim, pela primeira vez.

A criança precisa de respostas
Na primeira vez em que ouvi alguém gritar “olha uma anãzinha!”, eu ainda morava em Jaquirana, que na época pertencia ao município de São Francisco de Paula. Estava na fila para entrar na escola, lá pelos 6 anos. Não tive dúvidas! Dei meia volta e corri, aos prantos, para a casa dos meus avós maternos. Tudo era muito perto. Uma das tias, irmã mais nova da minha mãe, também não teve dúvidas! Pegou na minha mão e me levou de volta, direto para a sala do diretor da escola. Ele, sobrinho do meu avô materno, assim que ouviu o relato da tia, e certamente percebeu meus olhinhos assustados, foi mais um a não ter dúvidas! De mãos dadas comigo, passou nas salas de aula e me apresentou naturalmente aos alunos – “Essa é a nova coleguinha de vocês. Respeitem, sejam amigos”.

Um gesto. Uma atitude fora do protocolo. E o acolhimento estava dado. Hoje, chamamos esse comportamento de “inclusivo”. Na época, ninguém se dava conta do quanto de sensibilidade havia na atitude do diretor e do quanto uma ação assim pode ser vital na vida de uma criança diferente da média. Depois desse episódio simbólico, fui estudar na pequena cidade da longa avenida, que eu gostava tanto, São Chico. E, sem medo, fui para a escola sozinha no primeiro dia. E fiquei.

Novos enfrentamentos vieram. Alguns grosseiros, outros engraçados e ingênuos, muitos absolutamente preconceituosos. Mas estudar, aprender, relacionar-se para além dos quintais das casas familiares era um desejo inabalável. Internamente, sem entender bem aquele sentimento, alimentava o forte desejo de olhares sem julgamento. Até entender e olhar para esses olhares, sem receio. Segui experimentando a vida do jeito possível, à flor da pele, com meus tantos limites e outros tantos desejos.