Fale, responda, liberte

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Depois de ouvir o depoimento da professora aposentada, Diva Guimarães, 77 anos, sobre desigualdade e o preconceito que enfrentou ao longo da vida por ser pobre e negra, o ator Lázaro Ramos falou emocionado: “A gente precisa fazer um pacto de investir em educação pública de qualidade. Não podem sucatear a educação brasileira. A escola pública tem que ser valorizada. O professor tem que ser valorizado”, sob o aplauso de uma tenda lotada, na 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty/RJ, em debate com o tema ‘A pele que habito’.

Diva se declarou “uma sobrevivente pela educação e pela mãe”, que definiu como uma guerreira. São momentos que lavam a alma da gente e acendem a esperança.

Os desiguais, os diferentes, os que não correspondem ao ideal de ‘ser humano’, estão se manifestando e se posicionando com firmeza. E quanto mais falam, mais o preconceito aparece. É difícil para os “normais” encarar a diversidade de vozes que assumem a sua condição, denunciam o preconceito e reivindicam o direito de ir e vir com liberdade e respeito. E quanto mais ouço, leio, falo, mais me convenço que a mudança está na educação, bem lá no início, na pureza da criança ainda não contaminada.

Simplicidade e verdade
Os caminhos de uma educação libertadora passam inevitavelmente pela simplicidade, jamais pelo extraordinário. Passam pelo afeto, pelo acolhimento, pelo diálogo, pela segurança, pela verdade. Precisamos de olhares que percebam as diferenças que nos rodeiam. Busquem a história de cada indivíduo, produzam vínculos, proporcionem a troca e a visibilidade, diluam os fantasmas, possibilitem o sonho, enfrentem o preconceito com atitude.

Nestes tempos permissivos, em que tudo pode ser dito e tudo pode ser feito, em que o bullying está no centro da cena, há que se dar limites para a insanidade humana, encarando toda a atitude que segrega, ofende, humilha, com a simplicidade do que é verdadeiro.

Quem disse que não é possível? Ver o outro para além de qualquer barreira, com sensibilidade e respeito, é transformador. Não podemos dar lugar ao desejo da invisibilidade como fuga das agressões preconceituosas. E responder naturalmente à curiosidade das crianças, sem alimentar espanto, medo ou o que seja, é o princípio da visibilidade que traz a cidadania. Afinal, de um jeito ou de outro, todos buscamos respostas para o que desconhecemos.

A seguir uma pequena história de quando enfrentei a rejeição, se é que posso chamar assim, pela primeira vez.

A criança precisa de respostas
Na primeira vez em que ouvi alguém gritar “olha uma anãzinha!”, eu ainda morava em Jaquirana, que na época pertencia ao município de São Francisco de Paula. Estava na fila para entrar na escola, lá pelos 6 anos. Não tive dúvidas! Dei meia volta e corri, aos prantos, para a casa dos meus avós maternos. Tudo era muito perto. Uma das tias, irmã mais nova da minha mãe, também não teve dúvidas! Pegou na minha mão e me levou de volta, direto para a sala do diretor da escola. Ele, sobrinho do meu avô materno, assim que ouviu o relato da tia, e certamente percebeu meus olhinhos assustados, foi mais um a não ter dúvidas! De mãos dadas comigo, passou nas salas de aula e me apresentou naturalmente aos alunos – “Essa é a nova coleguinha de vocês. Respeitem, sejam amigos”.

Um gesto. Uma atitude fora do protocolo. E o acolhimento estava dado. Hoje, chamamos esse comportamento de “inclusivo”. Na época, ninguém se dava conta do quanto de sensibilidade havia na atitude do diretor e do quanto uma ação assim pode ser vital na vida de uma criança diferente da média. Depois desse episódio simbólico, fui estudar na pequena cidade da longa avenida, que eu gostava tanto, São Chico. E, sem medo, fui para a escola sozinha no primeiro dia. E fiquei.

Novos enfrentamentos vieram. Alguns grosseiros, outros engraçados e ingênuos, muitos absolutamente preconceituosos. Mas estudar, aprender, relacionar-se para além dos quintais das casas familiares era um desejo inabalável. Internamente, sem entender bem aquele sentimento, alimentava o forte desejo de olhares sem julgamento. Até entender e olhar para esses olhares, sem receio. Segui experimentando a vida do jeito possível, à flor da pele, com meus tantos limites e outros tantos desejos.

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