Arte e suavidade – Amaro Abreu e seu Habitat

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Amaro Abreu está com a exposição “Habitat – II Parte”, que tem curadoria da Cristina Pozzobon, no Clube de Cultura (Ramiro Barcelos, 1853), até o dia 21 de agosto. Recomendo para quem não viu. E para quem já viu, digo que vale a pena ver de novo. Escrevi o texto de apresentação da mostra, que tem muito do texto que fiz para o livro. Amaro é um guri talentoso, tem uma sensibilidade incrível e faz um trabalho que me emociona muito.

Amaro

Arte e suavidade – Amaro Abreu e seu Habitat
O menino curioso, que poeticamente via peixinhos a nadar no lago dos profundos olhos azuis da Marlene, minha irmã, cresceu. De repente. Quando o reencontrei, parou na minha frente um menino-homem, expressão carinhosa muito comum no nordeste brasileiro para dizer, “a criança que você conheceu já não é mais a mesma”. Logo vi que não era, mas que guardava muito do universo lúdico de menino no entusiasmo, no jeito de olhar, de falar, no sorriso. A suavidade daquela infância que nunca nos abandona, especialmente quando nos revelamos através da arte.

Fomos conversando e descobri que o menino já se aventurou pelo mundo. Articulado, dono do seu nariz, criativo, cheio de ideias, levou seus olhos para outras paragens. Bisbilhotou, desenhou, pintou, grafitou. Foi rabiscando a vida diversa que pulsa em todo lugar com seus lápis, tintas, sonhos, sprays, nanquim, fantasias, aquarelas e desejos. Desvendou, compartilhou e deixou em muros e painéis as criaturas inusitadas que cria.

Amaro Abreu hoje é um artista urbano. Eu, que não o via há muito tempo, fiquei surpresa e encantada. Mais ainda quando ele me chamou para escrever sobre seu trabalho no livro Habitat, que lançou em 2016, convite que me deixou incrivelmente feliz. Por ser quem é. E porque das suas mãos nascem figuras que dizem muito da vida vertiginosa que levamos, das ilhas que formamos para nos proteger, da diferença e da fragilidade que desacomodam nossas certezas, da diversidade que nos constitui como sujeitos únicos, da liberdade que buscamos.

As criaturas que Amaro vai desenhando e espalhando por aí desconsertam, inquietam, alegram, preenchem, fazem rir, emocionam. Coloridas e disformes, delicadas e fortes, às vezes são incrivelmente líricas, pura suavidade, leveza, e nos convidam a bailar. Em outras, surgem como fortalezas que guardam tesouros humanos preciosos, provocando um pensar incessante. Fazem parte de um universo vasto e inquieto, fora da ordem, que sempre me fez refletir, falar e escrever, hoje quase que cotidianamente, na tentativa de entender os humanos e seu Habitat.

Que segredos guardam esses seres, ao mesmo tempo circenses e melancólicos, brutos e lúdicos, enraizados e soltos, nesse misto de tristeza e alegria? Saltitantes, à beira do abismo, amordaçados, à espreita, olhos arregalados, despedaçados e inteiros, genuínos na sua adorável imperfeição, o que querem dizer assim tão inconstantes?
Dizem de nós, seres fragmentados, assustados, urgentes, às vezes dilacerados, que somos. Humanos?

Dizem dos outros que nos habitam. Revelam nossas tantas faces, nossa polaridade, nossos sentimentos divididos diante do mundo multifacetado, encantador e cruel. Habitável?

Dizem das vidas paralelas que, estranhamente, tentamos equilibrar.

Dizem de nós, tão coletivos e tão solitários nessa caminhada em busca de um final feliz.

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