Conexões – saindo do armário

O Nanismo é pouco estudado e pesquisado. Há um grande desconhecimento sobre a deficiência, se é que podemos chamar assim, e suas consequências. Essa negação explícita possivelmente tem suas raízes no preconceito que gera desinteresse e falta de seriedade em relação ao assunto, desde a antiguidade. Somos ainda motivo de riso e piada, mesmo nos meios mais bem informados e ditos politizados. Fazemos parte de um imaginário popular que nos vê ora como figuras mágicas e cheias de poderes, ora como seres à margem, que vieram para divertir a “plebe rude”.

Por isso, é muito estimulante perceber que nos últimos anos há uma busca por outros olhares. As pessoas com nanismo não são mais escondidas pelas famílias e nem se escondem mais. Em agosto de 2016 participei de um debate durante a XX Semana da Pessoa com Deficiência, promovida pelo Tribunal de Justiça do RS, e falei sobre essas questões. No mesmo ano, em novembro, fui convidada pela FADERS, órgão estadual de política pública de acessibilidade e inclusão, para falar no I Encontro Estadual sobre Nanismo. Paralelamente, fiz algumas palestras em escolas e instituições e escrevo muito sobre a minha experiência.

Nesse período, foi criado o Dia Estadual da Pessoa com Nanismo, 25 de outubro. E também o Dia Nacional de Combate ao Preconceito contra as Pessoas com Nanismo. Particularmente, tenho muitas dúvidas em relação a essas datas. Especialmente pelo lamentável uso político-partidário de um assunto muito sério, que requer atitude, não discurso. Enfim, aposto que gerem acessibilidade e esqueçam a exigência da superação!

Recentemente, realizou-se no Rio de Janeiro o 2º Congresso Brasileiro de Pessoas com Nanismo que, por tudo o que li, vi e pelas pessoas envolvidas, foi um encontro de debates pertinentes, alegria e sucesso. E na próxima novela do horário nobre por excelência da TV, a Globo apresenta uma atriz com nanismo, que vai viver uma personagem real.

congresso

Esses movimentos todos tornam a causa mais conhecida pela sociedade, além de estimular a inclusão e a troca de experiências. A participação ativa das famílias e de profissionais da área médica, entre outros, na discussão sobre saúde, políticas públicas adequadas e preconceito é essencial para a qualidade de vida de quem luta cotidianamente para ultrapassar barreiras sociais, culturais, científicas, e, sobretudo, barreiras reais da discriminação.

Saindo do armário

Literalmente, estamos saindo do armário, expressão muito usada pelos homossexuais há bem mais tempo, ao expor nossos problemas e buscar alternativas, fazendo o que é possível por respeito e dignidade.

Eu pensava sobre isso quando comecei a ler “Pai, Pai” (Alfaguara), livro do jornalista, escritor, tradutor e ativista LGBT, João Silvério Trevisan, lançado em Porto Alegre, na Livraria Baleia, no dia 14 de outubro – com direito a ver “Lampião da Esquina”, documentário de Lívia Perez que conta a história do jornal voltado para o movimento homossexual no Brasil no final dos anos 1970, além de uma conversa boa com o autor, os amigos, mais o autógrafo.

Pois não é que encontro muitos pontos de conexão na leitura!

Foi a partir de uma depressão aos 70 anos que Trevisan olhou para a sua história, viu as marcas profundas deixadas pelo pai – um homem ausente, violento e infeliz – e começou a escrever. Um mergulho radical em situações difíceis da sua vida, como as que se referem à sexualidade. Pouco antes de completar 73 anos, em junho de 2017, ele finaliza o livro. Um dos criadores do jornal “Lampião da esquina” e do “Grupo Somos”, Trevisan praticamente retrata uma geração libertária, que sofreu todo tipo de violência e preconceito.

“As violências que a criança sofre dificilmente são superadas sem que fiquem cicatrizes que se abrem”, confessa. E acrescenta: “A criança é de uma delicadeza assustadora”. O livro, segundo ele, mostra o processo da descoberta do perdão: “Como nasce a ideia do perdão numa selva de dores, mágoas e ressentimentos”.

Em um dado momento, escreve: “Quando pequeno, eu me comovia até as lágrimas diante de uma pessoa com deficiência física. Demorei a entender que eu não chorava por ela, mas por mim. O fato é que eu me identificava com aquela falha, falta ou incompletude”.

paipai

Pois é! Inevitavelmente, de um jeito ou de outro, nós humanos somos seres em falta! Se todos entendessem que a falta nos constitui, a vida seria bem melhor!

 

Oásis – uma homenagem às crianças

Temos oásis incrivelmente verdejantes e cheios de frutos em meio à secura deste deserto ético e moral que tenta minar a nossa crença no presente e no futuro. Oásis que iluminam o cotidiano e nos fazem acreditar que é possível fazer diferente. Um destes oásis passa pela educação infantil, fundamental para a formação de pessoas que contribuam efetivamente para a construção de um mundo melhor.

Conto aqui um pouco do oásis que encontrei em 2017.
A jornalista Cristina Pozzobon, com quem já fiz algumas boas aventuras na área editorial, me ligou e perguntou: Topas fazer o livro do Pato, uma escola infantil que faz 50 anos, com a Rosina (Duarte)? Imediatamente saltou da minha memória a escola onde estudaram os filhos de amigos muito queridos, desses para a vida toda: Custódio (Luiz Antônio Bolcato Custódio), arquiteto e Teresa (Maria Teresa Chaves Custódio), professora, pais da Bianca e do Miguel. A resposta foi sim, sem pestanejar. Não resisti e liguei em seguida para a família Custódio. Queria confirmar se a memória não me traía e contar a boa nova. Qual não foi a minha surpresa: Teresa começou a falar e chorou. De emoção, literalmente!

Que escola é essa? Fiquei ruminando. Até ser convocada para a primeira reunião com as fundadoras. Cheguei atrasada e a conversa corria solta e animada. A tarde voou e saí renovada, mais jovem do que nunca. E assim foi sucessivamente ao longo dos meses. E assim entendi o choro da minha amiga.

Ouvir Beth (Elizabeth Mariani) e Marcia (Marcia Palmira Sacco), as fundadoras do Pato, foi mágico pra mim nesse momento da vida. E ouvir Laura, Patrícia e Mônica confirmava a magia, sublinhada depois pelos depoimentos que fomos colhendo, Rosina e eu. Depoimentos que começaram em uma grande e catártica reunião na escola com muitos pais e ex-alunos que falaram emocionados e com muita alegria sobre o Pato. Depois, tive encontros incríveis em busca de mais depoimentos. Com a psicanalista Lucrécia Zavaschi, a psiquiatra e pediatra Geraldina Viçosa, a família Cohen com sua sacola de preciosidades, a família Loss que me esperava inteira na volta de uma mesa, Marta Saldanha, uma das fundadoras, e tantos outros que chegaram por e-mail, como o dos Grassi, por telefone, pelo whats, como o de Ana Flávia Baldisserotto. Tudo à flor da pele!

Foram sete meses de muito trabalho, muito afeto, muita adrenalina, muitas entrevistas, muita parceria, muita busca e muita ansiedade. Escritos e escritos. Revisões. Ajustes. Outras revisões. Mais escritos. Encontros com a Cris para seleção de fotos e para ver a proposta gráfica. Depoimentos de última hora. Uma enorme responsabilidade! Até o ponto final, que não é final, porque a história não se acaba. E tanta experiência, convicção, dedicação não cabem inteiros nessas amorosas 151 páginas.

pato

Pato – uma criança de 50 anos, o livro que conta um pouquinho desta escola que fez e faz a diferença na educação infantil, ficou pronto. Vê-lo assim acabado, todo bonito, cheio de lindas histórias e muita delicadeza, tão lúdico, é uma emoção indescritível. Emoção que, talvez, só eu, neste momento louco da minha vida, possa entender.
É um horizonte claro, cristalino. É um rasgo enorme de esperança, simplicidade e muito amor nestes tempos incertos e sombrios. Há quem trabalhe com afeto. Há quem priorize a criança. Há quem acredite na educação e tenha convicção de que é na infância que se afaga a essência do adulto que somos. Há muita luz nesse caminho.
Só tenho a agradecer por essa jornada. Conhecer as fundadoras e a equipe da escola e suas histórias me fizeram uma “patinha”. Simples assim!

Fragmentos da violência que nos cerca

Como se constrói a mínima estrutura para uma vida digna nestes tristes tempos em que tudo vira violência?

A política ordenada pelo mercado financeiro é violenta. Aponta cruelmente para uma população ainda mais pobre e desamparada. Os impostos e as taxas de juros são violentos. Pagamos pelo que não temos e pelo que nos tiram a cada dia. A mudança das relações de trabalho que vem por aí, com negociações acima da lei, é violenta. Como não haverá mediação do Estado, nem uma justiça especial, as ofertas serão adulteradas e indignas, e o trabalhador vai aceitar porque não terá outra condição. O parcelamento dos salários é violento. Impossível não pensar no dano moral, para além do dano material, das pessoas que honram seus compromissos, pagam suas contas em dia e, de repente, passam a receber aos poucos. E o que dizer da violência da corrupção e do poder nefasto que emanam do planalto central do país? A vida real está tão violenta que abre espaço para o fanatismo, para a intolerância, para o aumento da desigualdade e de todo tipo de destempero ou desespero.

“O que estamos fazendo uns com os outros?”
Essa é uma das perguntas da filósofa Márcia Tiburi diante da normalização de um discurso e de um comportamento violentos, que viraram norma no meio social em que vivemos. O que imaginávamos já ter superado cresce “por todos os lados, à direita e à esquerda, a partir de todos os credos”. Tudo o que foge de uma normalidade sem sentido, que nos é imposta, é foco de ódio – classes sociais, raças, etnias, religiões, opções sexuais e por aí afora. “A mais básica abertura a uma conversa se torna inviável quando os indivíduos estão fechados em seus pequenos universos”, diz Márcia. Desaprendemos a falar e a ouvir. Já não entendemos que somos capazes de constituir um cenário ético-político diferente e que podemos “tentar intensamente o diálogo que está tão esquecido e faz muita falta entre nós”.

"Tempos líquidos", de Tamar Matsafi

“Tempos líquidos”, de Tamar Matsafi

Esse vazio de autoridade, que torna o poder tão vulnerável e gera essa incapacidade de agir em conjunto, é um convite ao recrudescimento da violência. “Há algo assustador no ódio contemporâneo”, completa Márcia. Mas quem são mesmo os nossos inimigos nesse mundo tão fragmentado? O que fazer com esse medo, essa insegurança, essa ansiedade que nos invade e contamina como praga? Por que não conseguimos ver outras possibilidades? Vivemos a liquidez da vida, que escorre frágil entre nossos dedos, como falou o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman?

Perdemos a identidade? Já não pertencemos a nada?
Subjugados pelo mundo digital que nos dá visibilidade, mas nos esconde e nos acovarda, temos opinião sobre tudo. Provocamos, atacamos sem conhecimento de causa, e acabamos mergulhados em uma viagem egocêntrica e superficial. Essa exacerbação do individualismo é muito violenta. Já não analisamos, não escutamos, não paramos, não olhamos para o outro. E esse não olhar, que desconhece os limites necessários para a vida compartilhada e para a inserção dos indivíduos na cultura, nos transforma em presas fáceis da violência.