Provocações do cotidiano

A criança aproxima-se. Fica me observando por alguns momentos e pergunta: Por que tu é tão pequena? Tento uma resposta e lá vem outra pergunta: Por que teu dedo é tão curto? Começo a responder, mas a menina insiste: Por que tua mão é tão gordinha? Joaquim, quatro anos e sete meses, sobrinho-neto que estava comigo, adianta-se e diz pausadamente: Porque ela é anã! Pensei: Simples assim. Ou não?
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Jovens aparentando 17 e 18 anos, três meninos e duas meninas, sobem a rua. Eu desço. Uma das meninas quando me vê cutuca a outra que cutuca o outro, e assim por diante. Resultado? Todos me olham e caem num riso disfarçado, indisfarçável. Pensei: Em que mundo vive essa juventude? O que sabe da vida?
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Reunidos, em pé, em um canto da Praça da Alfândega, em plena Feira do Livro, amigos e conhecidos conversam animadamente. Eu ali, tentando falar também. Dependendo da empolgação, a roda da conversa fecha ou abre. Eu ali, resistindo. Algumas cotoveladas ou bolsas, de leve, na cabeça. Nada que eu já não esteja acostumada. Não é fácil mesmo achar uma brecha e participar do papo de pessoas de um metro e sessenta, um metro e setenta, com os meus parcos um metro e dez. Não é fácil ser ouvida. Vou desanimando. Vou me calando. Desisto. E imediatamente lembro de um artigo do jornalista Luiz Antônio Araújo, publicado no jornal Zero Hora em 28 de julho de 2014, a que já me referi aqui neste blog. O artigo termina com a frase “Ser anão não é para qualquer um”. Pensei: Não é para qualquer um, mesmo! Assim como perceber o outro na sua condição não é para qualquer um. Mas sempre há um contraponto.
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Na rua, espero o ônibus. O motorista, distraído no fazer cotidiano, para longe da calçada. Fica mais difícil de subir, é óbvio, mas já estou acostumada e normalmente dou conta. Ao ver o meu esforço, um senhor aparentando uns 80 anos que está sentado no banco bem da frente, levanta-se e estende a mão para me ajudar. Mais: Ainda oferece o lugar para que eu sente. Agradeço, digo que posso ir em pé. Ele responde: Que nada, minha filha! Tu tens mais dificuldade para te segurar do que eu. Pensei: Ver o outro é fundamental.

Era uma vez uma ruazinha bucólica

Em uma rua, o retrato do abandono de uma cidade.

Foto de  José Walter de Castro Alves

Crédito das fotos: José Walter de Castro Alves

Quando vim para Porto Alegre no início dos anos 1970, a rua Xavier Ferreira, no bairro Auxiliadora, era harmoniosa, calma, com casas bem cuidadas e um único prédio – art decô, segundo um amigo – onde fomos morar.

Pouco depois, chegou o Zaffari da Bordini, que dá fundos para a Xavier Ferreira. Os caminhões que abasteciam o supermercado, muito bem vindo, começaram a transitar pela ruazinha. Civilizadamente, no início. O movimento foi aumentando. Os caminhões tornaram-se maiores, mais frequentes, menos civilizados. Estacionavam de qualquer jeito. A rua de paralelepípedos, tão bucólica, foi, aos poucos, se deteriorando. O que era pequeno ficou grande demais e já não cabia na rua tortuosa. Fizemos algumas denúncias para a EPTC/Empresa Pública de Transporte e Circulação, reuniões com gerentes do Zaffari e autoridades e fomos para os meios de comunicação. Aí, ficamos sabendo que a metragem de rua não permitia transporte pesado. Usamos o argumento exaustivamente, mas o poder econômico falou mais alto. Como sempre, nada de relevante aconteceu.

O Zaffari cresceu sem o mínimo cuidado com o entorno. Além de detonadas, a rua e a calçada começaram a ganhar mais lixo. Alguns moradores foram embora. Algumas casas ficaram abandonadas. E os alagamentos tornaram-se cada vez mais frequentes. Até que na esquina com a Mata Bacelar começou a construção do sonhado Conduto Álvaro Chaves.

Segundo a Wikipédia, “O Conduto Álvaro Chaves-Goethe é uma grande obra de engenharia que teve início em 2005 e término em 2008, com a finalidade de reverter o problema crônico de alagamentos devido à má drenagem da Avenida Goethe, rua Álvaro Chaves e regiões próximas, e que se intensificam com o asfaltamento das ruas, diminuindo a infiltração da água e aumentando o seu escoamento superficial”.

Acompanhamos tudo de perto: plantas do projeto, visitas dos técnicos e autoridades, uso do projeto na campanha política. Eleições. E assim que a obra começou sentimos que teríamos inúmeros embates. A construtora acumulava lixo e mais lixo na calçada, apesar dos protestos. E a primavera daquele ano veio com temporais intensos nos finais de tarde.

Crônica da tragédia anunciada
Na manhã do dia 5 de novembro de 2005, ao sair de casa para trabalhar, vi muito lixo obstruindo as bocas de lobo da rua. Fui até a obra pedir que tirassem. O engenheiro que lá estava me olhou com deboche. Insisti, argumentei, mas ele não se deu ao trabalho de responder.

O Resultado? No final do dia caiu uma chuva torrencial. A água, sem evasão diante do concreto e do lixo, invadiu furiosamente casas e apartamentos. Alguns moradores perderam tudo. E naquele fatídico anoitecer ninguém do governo municipal apareceu. Abandono total.

Passamos a noite e o dia seguinte limpando tudo. Só no final da tarde do dia após o temporal apareceu uma engenheira da prefeitura, completamente perdida. Os responsáveis pela obra também chegaram e nos chamaram de escandalosas. Descaso absurdo. Os moradores mais atingidos trataram de reformar suas casas e resolver suas vidas. O Conduto passou por várias vistorias e reformas. Mas ninguém assumiu nada. Até hoje.

A rua continua com casas bem cuidadas. Outras foram vendidas e os terrenos estão tomados pelo mato. O leito da rua de paralelepípedos está cheio de emendas de asfalto e os bueiros e bocas de lobo estão destruídos, sujos e entupidos. A calçada? Nem pensar em passar ali de cadeira de rodas, bengala, carrinho de bebê, bicicleta, enfim. O único órgão do governo que atende os moradores com presteza é o DMAE. Até porque deve saber que os esgotos, que a gente não vê, estão misturados e, às vezes, transbordam e deixam um cheiro insuportável. Os moradores continuam guerreiros e reivindicam seus direitos cotidianamente para recuperar a ruazinha linda.

Falam tanto em parceria público-privada. Será que é isso? O Zaffari tomou conta da Xavier Ferreira. Além de quintal abandonado, é o estacionamento dos caminhões. Dane-se a população! Para o privado tudo. Para o público, nada. Acho que entendi a tal parceria.
clixo na rua

É preciso remar contra a corrente

Na escuridão desses tempos, busco brechas luminosas para respirar. E me abastecer.

O texto de Mia Couto, enviado pela amiga Flavia Boni Licht, chegou como um presente, enchendo de luz o cotidiano. A escrita, lúcida e simples do escritor, dá voz ao que penso, apontando alguns equívocos da educação que vemos brotar hoje.

Para Mia, há muita preocupação com o fato dos jovens entrarem para a universidade com um fraco desempenho acadêmico, enquanto a preocupação maior deveria ser com o crescer sem referências morais. Há um discurso pelo empreendedorismo e pela liderança, como se toda uma geração estivesse destinada à vida política ou empresarial. Mas não há, segundo ele, interesse em preparar os filhos para serem simplesmente boas pessoas, bons cidadãos do seu país, bons cidadãos do mundo. E fazerem suas opções!

E segue: “Escrevi uma vez que a maior desgraça de um país pobre é que, em vez de produzir riqueza, vai produzindo ricos. Poderia hoje acrescentar que outro problema das nações pobres é que, em vez de produzirem conhecimento, produzem doutores (até eu agora já fui promovido). Em vez de promover pesquisa, emitem diplomas. Outra desgraça de uma nação pobre é o modelo único de sucesso que vendem às novas gerações e que está bem patente nos vídeo clips que passam na nossa televisão: um jovem rico e de maus modos, rodeado de carros de luxo e de meninas fáceis, um jovem que pensa que é americano, um jovem que odeia os pobres porque eles lhes fazem lembrar a sua própria origem”.

E conclui: “É preciso remar contra toda essa corrente. É preciso mostrar que vale a pena ser honesto. É preciso criar histórias em que o vencedor não é o mais poderoso. Histórias em que quem foi escolhido não foi o mais arrogante, mas o mais tolerante, aquele que mais escuta os outros.”

É preciso cultivar o conhecimento, a convivência e a reflexão

Ao tomar contato com o trabalho da Nova Acrópole, organização internacional de caráter filosófico, cultural e social, sem fins lucrativos, que completa 60 anos no mundo e 30 anos em Porto Alegre, fiquei surpresa e me senti instigada. Totalmente mantida por voluntários, a instituição orienta-se pela Filosofia, Cultura e Voluntariado, e sua atuação é pontuada pela independência de interesses políticos, religiosos ou financeiros. Há um comprometimento com a educação humanista em todos os cursos que oferece, nas atividades culturais e artísticas e nas ações sociais e ambientais. É um espaço singular de ação, reflexão e convivência.

O movimento, fundado em 1957, tem forte presença em mais de 60 países, com mais de 400 sedes, sempre cultivando o conhecimento individual e coletivo e a qualidade de vida a partir de uma visão universal voltada para a transformação. Além de Porto Alegre, a Nova Acrópole está presente em Caxias do Sul, Gravataí, São Leopoldo, Santa Maria, Santa Cruz do Sul e Alegrete. Os associados voluntários participam de todas as atividades educacionais e culturais, que priorizam a ética, a filosofia à maneira clássica, a sociopolítica, filosofia da história, arte, cultura e voluntariado. As aulas, expositivas e práticas, estimulam, ao mesmo tempo, a reflexão e o uso do conhecimento no dia a dia para a construção de uma vida melhor.

É preciso que as palavras tenham mais força que as metralhadoras

“O homem morre em todos aqueles que se calam”. A frase é de Wole Soyinka, dramaturgo, poeta, ensaísta e professor nigeriano, primeiro africano Nobel de Literatura, uma das atrações da Feira do Livro de Porto Alegre neste ano. É um guerreiro incansável, como Ogum, “sua divindade companheira”. A Escola de Poesia, que tem a obra do dramaturgo como referência em seus estudos, desenvolveu um projeto para homenagear sua passagem pela cidade – Escola de Poesia & Wole Soyinka – Para que as palavras tenham mais força que as metralhadoras. O ponto alto é o lançamento do documentário Wole Soyinka – A forja de Ogum, no dia 18 de novembro, às 17h, na Tenda de Pasárgada, na Praça da Alfândega.

Soyinka em desenho de Emanuele de Quadros.

Soyinka em desenho de Emanuele de Quadros

O documentário mostra um pouco da vida e da obra de Soyinka e conta com a participação de artistas e integrantes da comunidade local que se articulam, de algum modo, com a ancestralidade africana, como o grupo musical Alabê Ôni, o grupo teatral Pretagô, e seu diretor Thiago Pirajira, o Africanamente Ponto de Cultura e Escola de Capoeira Angola, e seu Contramestre Guto, o poeta Ronald Augusto, o escritor Jeferson Tenório, o pintor Paulo Montiel, os escultores Jonas e Marcos, a Iyalorixá Sandrali de Oxum, a Iyalorixá Bete Omidewa, a artista visual Manuzita, a poeta e psicanalista Lúcia Bins Ely e a psicanalista e poeta argentina Marcela Villavella.

Wole Soyinka – A forja de Ogum foi produzido pela Escola de Poesia em coprodução com o Coletivo Catarse. Concepção, roteiro e direção da poeta Eliane Marques (Prêmio Açorianos de Literatura/2016) e do poeta e tradutor Adriano Migliavacca, estudioso da obra do nigeriano. Apoio de Gustavo Türck (documentarista e produtor audiovisual), Billy Valdez (operação de câmera) e Marcelo Cougo (operação de áudio). Documentação de Lúcia Bins Ely e Anelore Schumann. Pesquisa de imagens de Priscila Pasko.

Nesta época em que a arte está sendo tão abandonada pelos governos, é estimulante o que diz Soyinka: “O meu horizonte sobre a humanidade é ampliado pela leitura dos escritores de poemas, por ver um quadro, ouvir alguma música, alguma ópera, e isso não tem nada a ver com a volátil condição humana, ou luta, ou algo assim. Isso me enriquece como ser humano”.

 

Vestígios de uma manhã de sábado

Saio cedo de casa. O tempo é ameno e impreciso. Muitas nuvens. Eventualmente, alguns raios de sol. O contato com a vida que pulsa nas ruas na manhã de sábado é duro.

Na Félix da Cunha, entre a Praça Maurício Cardoso e a Padre Chagas, dois rapazes e uma moça, provavelmente ainda saindo da noite, caminham desvairados. Chutam o que veem pela frente de um jeito raivoso. A rua quase vazia. Param. Olham. Seguem. Inquietos e agressivos. Apreensiva, desacerelo o passo. Ao passar em frente ao lindo conjunto de casas tombadas, eles abordam uma mulher que abre as portas de um café. Ela conversa firme. Eles seguem, gesticulando agressivos. Tomo mais distância. Deixo que sumam. E vou. Com medo!

Ao chegar na rua Padre Chagas, estranho o silêncio. Alguns limpam as calçadas marcadas pelas festas noturnas. Outros, recolhem o lixo, farto. Um jovem sentado em um pequeno muro ainda bebe. E fala. Sozinho.

Na esquina da Florêncio Ygartua com a 24 de Outubro, dois catadores de lixo dormem placidamente, bem próximos à marquise de uma loja, protegidos por suas carroças abarrotadas. Vencidos. Entregues.

Mais adiante, um rapaz passa por mim dizendo coisas desconexas, olhos muito arregalados. Ao me ver, para, um tanto espantado. Fico apreensiva, mas ele ri e diz: “Cuidado tia, crianças não andam sozinhas nesta hora”. E segue, falando e gesticulando ruidosamente.

Do outro lado da rua, mais uma criatura fala sozinha.

Faço as unhas.

Ao voltar, encontro os catadores bem acordados, sentados na entrada da loja onde se abrigavam, comendo pão. Eles me cumprimentam animadamente. Mais um dia de buscas pelo lixo começa.

A manhã ainda tem pouco movimento. Mas a miséria humana já está nas ruas, exposta cruelmente.

Impossível não pensar nas tantas malas e caixas de dinheiro desviado que circulam por esse Brasil, nos deputados tão bem pagos para salvar Temer das denúncias e na descarada miséria moral em que nos fizeram mergulhar. Enquanto isso, a miséria física, da pobreza extrema, da indigência que degrada, humilha, dói no corpo e na alma e enlouquece, aumenta assustadoramente.

Em casa, uma canção de José Miguel Wisnik, músico, compositor e ensaísta, professor de Literatura, mestre, doutor, um artista brasileiro que admiro muito, me sacode: “Se meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar”. Há que se aprender e lutar cotidianamente contra a miséria moral que nos agride e faz crescer a miséria de gente como a gente.