Era uma vez uma ruazinha bucólica

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Em uma rua, o retrato do abandono de uma cidade.

Foto de  José Walter de Castro Alves

Crédito das fotos: José Walter de Castro Alves

Quando vim para Porto Alegre no início dos anos 1970, a rua Xavier Ferreira, no bairro Auxiliadora, era harmoniosa, calma, com casas bem cuidadas e um único prédio – art decô, segundo um amigo – onde fomos morar.

Pouco depois, chegou o Zaffari da Bordini, que dá fundos para a Xavier Ferreira. Os caminhões que abasteciam o supermercado, muito bem vindo, começaram a transitar pela ruazinha. Civilizadamente, no início. O movimento foi aumentando. Os caminhões tornaram-se maiores, mais frequentes, menos civilizados. Estacionavam de qualquer jeito. A rua de paralelepípedos, tão bucólica, foi, aos poucos, se deteriorando. O que era pequeno ficou grande demais e já não cabia na rua tortuosa. Fizemos algumas denúncias para a EPTC/Empresa Pública de Transporte e Circulação, reuniões com gerentes do Zaffari e autoridades e fomos para os meios de comunicação. Aí, ficamos sabendo que a metragem de rua não permitia transporte pesado. Usamos o argumento exaustivamente, mas o poder econômico falou mais alto. Como sempre, nada de relevante aconteceu.

O Zaffari cresceu sem o mínimo cuidado com o entorno. Além de detonadas, a rua e a calçada começaram a ganhar mais lixo. Alguns moradores foram embora. Algumas casas ficaram abandonadas. E os alagamentos tornaram-se cada vez mais frequentes. Até que na esquina com a Mata Bacelar começou a construção do sonhado Conduto Álvaro Chaves.

Segundo a Wikipédia, “O Conduto Álvaro Chaves-Goethe é uma grande obra de engenharia que teve início em 2005 e término em 2008, com a finalidade de reverter o problema crônico de alagamentos devido à má drenagem da Avenida Goethe, rua Álvaro Chaves e regiões próximas, e que se intensificam com o asfaltamento das ruas, diminuindo a infiltração da água e aumentando o seu escoamento superficial”.

Acompanhamos tudo de perto: plantas do projeto, visitas dos técnicos e autoridades, uso do projeto na campanha política. Eleições. E assim que a obra começou sentimos que teríamos inúmeros embates. A construtora acumulava lixo e mais lixo na calçada, apesar dos protestos. E a primavera daquele ano veio com temporais intensos nos finais de tarde.

Crônica da tragédia anunciada
Na manhã do dia 5 de novembro de 2005, ao sair de casa para trabalhar, vi muito lixo obstruindo as bocas de lobo da rua. Fui até a obra pedir que tirassem. O engenheiro que lá estava me olhou com deboche. Insisti, argumentei, mas ele não se deu ao trabalho de responder.

O Resultado? No final do dia caiu uma chuva torrencial. A água, sem evasão diante do concreto e do lixo, invadiu furiosamente casas e apartamentos. Alguns moradores perderam tudo. E naquele fatídico anoitecer ninguém do governo municipal apareceu. Abandono total.

Passamos a noite e o dia seguinte limpando tudo. Só no final da tarde do dia após o temporal apareceu uma engenheira da prefeitura, completamente perdida. Os responsáveis pela obra também chegaram e nos chamaram de escandalosas. Descaso absurdo. Os moradores mais atingidos trataram de reformar suas casas e resolver suas vidas. O Conduto passou por várias vistorias e reformas. Mas ninguém assumiu nada. Até hoje.

A rua continua com casas bem cuidadas. Outras foram vendidas e os terrenos estão tomados pelo mato. O leito da rua de paralelepípedos está cheio de emendas de asfalto e os bueiros e bocas de lobo estão destruídos, sujos e entupidos. A calçada? Nem pensar em passar ali de cadeira de rodas, bengala, carrinho de bebê, bicicleta, enfim. O único órgão do governo que atende os moradores com presteza é o DMAE. Até porque deve saber que os esgotos, que a gente não vê, estão misturados e, às vezes, transbordam e deixam um cheiro insuportável. Os moradores continuam guerreiros e reivindicam seus direitos cotidianamente para recuperar a ruazinha linda.

Falam tanto em parceria público-privada. Será que é isso? O Zaffari tomou conta da Xavier Ferreira. Além de quintal abandonado, é o estacionamento dos caminhões. Dane-se a população! Para o privado tudo. Para o público, nada. Acho que entendi a tal parceria.
clixo na rua

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