Ser. E ser.

Mesmo com uma tristeza mais funda que a de hábito e um cansaço maior que o normal, sou tomada pelo impertinente espírito natalino e uma emoção forte me sacode. Pelo ser, não pelo ter, sinto vontade de presentear e falar palavras bonitas aos amigos. Mergulhada no silêncio do espaço de trabalho, olho para a vida que pulsa ao redor com um afeto oceânico.

Os dias do ano de 2017 foram difíceis, pelos motivos mais diversos. Das questões pessoais às questões que passam pela sordidez política que me afeta inevitavelmente, tanto no privado como no público, nas relações sociais e de trabalho. Mas sinto que as dificuldades que encarei, algumas ainda em processo de assimilação, me fizeram rever a vida, me ver, me re-conhecer e ver o outro de forma mais aguda. Um pouco atordoada e inquieta, vou percebendo as muitas delícias que a simplicidade do cotidiano oferece. E me bastam.

Uma música, um livro, um filme, uma noite de lua cheia, um encontro casual, um entardecer colorido, um trabalho bem feito, um café e uma boa conversa, uma viagem, uma palavra acolhedora, uma boa risada, a presença das crianças, a voz de um amigo/a. São esses singelos acontecimentos que me fortalecem ou, no mínimo, me deixam menos áspera, quando vem o amargo. Porque vem. Faz parte.

Neste longo ano que termina, minha vida navegou por mares já navegados, mas com ondas de intensidade inusitadas. Foi agoniada, feliz, apreensiva, inteira, incerta, solitária, dura, insegura, emocionada. De desafios instigantes, alegrias, decepções e esperanças. Plena de novos afetos e amigos de fé, esse combustível necessário para os embates diários.

Fecha-se mais um ciclo, que a gente mesmo determina. Uma forma inteligente de driblar o tempo, suspender tudo por alguns momentos, aliviar as tensões, respirar profundamente. Refazer as energias. Olhar fundo no fundo de nós mesmos e descobrir que, apesar dos tsunamis, estamos inteiros. E prontos para recomeçar, com o melhor que há em nossos corações.

É um tempo em que penso com muita emoção na família e nos amigos, parceiros imbatíveis.

Quero todos por perto. Mas quero, especialmente, que vivam em harmonia, eliminando tudo o que não vibre com ética e respeito. Quero que deixem espaço para o novo, para o outro e para o fluir de uma energia luminosa, forte, ativa. Quero que brinquem muito com as crianças e absorvam sua sabedoria genuína. Quero que cada um viva amorosamente a dor e a delícia de ser quem é. Mesmo com os temporais previstos para 2018, aposto na possibilidade de uma vida mais amena, sem tantos julgamentos, tantos mandamentos, tantas certezas a nos prender, sem o olhar que condena e contamina. Aposto no ser que somos.

Lelei

Foi e é possível – Minha experiência na TVE

1987. Pedro Simon é eleito governador do Rio Grande do Sul. O jornalista e publicitário Alfredo Fedrizzi assume a presidência da TVE. Eu o conhecia pouco. Sabia que era um dos diretores da agência Escala e que tinha trabalhado na RBSTV. Vez que outra a gente se encontrava em eventos culturais, seminários, lançamentos de livros, filmes, palestras.

Minha vontade de trabalhar na TVE era grande, inspirada por Jorge Furtado, pela ousadia do programa “Quizumba”, Eduardo Peninha Bueno, Zé Pedro Goulart, o programa “Pra começo de conversa”, Ana Luiza Azevedo e tantos outros. Fui falar com o Fedrizzi. Alguns anos antes, quando o jornalista Luiz Figueredo, meu amigo e comprade, era diretor de programação, eu já havia tentado. Ele foi gentil, mas não tinha vaga. Recolhi o desejo e segui trabalhando onde estava.

Desengavetei o desejo e, como o Figueredo, Fedrizzi foi gentil, me ouviu, quis saber da minha experiência em TV, não me perguntou sobre partido político. Estava iniciando a gestão e não sabia se teria como me contratar. Na saída encontrei Tânia Carvalho, com quem já havia trabalhado e virou uma grande amiga. Expliquei a ela porque estava ali. Por coincidência, o novo diretor de programação Luiz Eduardo Crescente passava pelo corredor e Tânia me apresentou a ele. Conversamos um pouco e me fui para o Correio do Povo, onde trabalhava.

No final de julho de 1987, Fedrizzi me convidou para chefiar os setores de Divulgação, Chamadas, Arte e Cenografia. Eu, que nunca quis ser chefe de nada, seria responsável pelas equipes de divulgação da programação, interna e externamente, de criação de vinhetas e gravação e edição de chamadas e pelos cenários. Argumentei, disse que só queria ser produtora, que não tinha vocação para chefia. Em vão. Assumi. Enfrentei alguns boicotes no início, tive muita ansiedade, quis desistir, mas, com o apoio de gente boa que trabalhava muito bem, fui ganhando experiência e segurança.

Formamos uma equipe cheia de garra, que se somava às equipes da produção e do jornalismo. Foram 4 anos de ações e invenções incríveis, realizadas com profissionalismo e entusiasmo. Conteúdo, qualidade técnica e intercâmbios faziam parte dos projetos. Tínhamos total apoio da presidência e da direção, sempre presentes, tanto para criticar, como para conversar, trocar ideias e aplaudir. Muitos programas locais foram criados – Palcos da Vida, Menor questão Maior, Radar, Pandorga, para citar alguns. A TVE fez parcerias com a TV Cultura de São Paulo e passou a exibir programas como Roda Viva, Metrópolis e Jornal da Cultura. Da TVE Rio, exibia o Sem Censura. As discussões que envolviam o trabalho eram acaloradas. E quase ninguém se omitia.

Nesse período, 1989, foi fundada a FM Cultura, muito festejada por todo mundo. Sob a direção da jornalista Liana Milanez, a rádio virou referência para as artes no Rio Grande do Sul, especialmente a música.

Essa movimentação fez parte do sonho de profissionais que queriam abrir cada vez mais espaços para a informação, a arte e a cultura do meio em que viviam, transformando a TVE e a FM Cultura em emissoras que refletissem, com talento, ousadia, liberdade e crítica, a produção local e nacional.

Foi e é possível
Por isso, não dá para entender o desmonte desses verdadeiros patrimônios públicos pelo governo Sartori e a tortura psicológica a que submete os funcionários da TV e da rádio (tortura sofrida também por trabalhadores de outras fundações em processo de extinção), ameaçados por demissão na véspera do Natal.

TVE3