Precários e hipócritas

Vivemos em um país de terceiro mundo, escandalosamente injusto, sucateado por políticos, empresários e outras tantas inescrupulosas criaturas, com uma elite soberba, cruel, voraz e medíocre. Gente que tudo pode, tudo tem e tudo quer. Tentamos reagir, mas ainda nos submetemos. Por uns bons trocados fazemos valer a máxima “cada um tem seu preço”. E acabamos servindo a quem nos tira a dignidade. Criamos falsas ilusões cotidianamente. Aplaudimos e damos voz aos algozes.

Louvamos a supremacia das máquinas, da automação, da tecnologia que vai substituir o fazer humano, em um país miserável, de homens e mulheres desempregados ou em subempregos, crianças abandonadas e prostituídas, trabalho escravo. Admiramos os grandes centros urbanos nevrálgicos, que fazem girar o capital financeiro e insuflam as negociações milionárias. Ao mesmo tempo, lamentamos a periferia que sustenta a ostentação, é explorada e mergulha cada vez mais na pobreza.

Saudamos os bem-sucedidos, os espertos, os que estão no topo da pirâmide social e nos estendem a mão, benevolentes. E desprezamos a maioria que vive a dura vida real, mas é vista pelos olhos dos afortunados como gente que não deu certo, é preguiçosa, não gosta de trabalhar.

Enganamos o outro sempre que possível. Cometemos inúmeras infrações e pequenos delitos dia a dia, mas discursamos convictos pelo politicamente correto.
Sofremos de uma precariedade moral assustadora, mas não nos cansamos de falar no bem comum. E achamos que a razão sempre nos pertence.

Somos imperfeitos, mas temos a arrogância da perfeição.

Somos hipócritas.

 

A dificuldade de ver com olhos livres

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Um dos meus primeiros artigos sobre questões importantes para a vida de pessoas com nanismo falava sobre a difícil luta por inclusão e apontava para os tantos limites de uma sociedade minada de preconceitos. Foi em 2010, quando a palavra acessibilidade passou a ser muita usada, no sentido de alertar e sensibilizar a população, governos e instituições para o universo da deficiência física e mental. Para amenizar o que veio à tona, muitos projetos foram criados e a fala em defesa das pessoas com algum tipo de deficiência foi para as ruas. Além de ocupar palanques e tribunas, o assunto foi tema de amplas discussões em palestras, seminários, congressos, encontros e reportagens nos meios de comunicação.

O discurso em nome de quem precisava de acesso e inclusão estava na ordem do dia e apontava para muitas questões. Na época, tomei a palavra acessibilidade – difícil de dizer, difícil de escrever, difícil de entender, difícil de executar – para estimular a reflexão. O assunto, que perturbava olhares carregados daquela piedade mórbida que faz mal, colocava em discussão o direito a uma vida digna, menos complicada e mais humana. Direito de toda mulher, homem, criança, jovem e velho, não importa sua condição ou opção.

Como a importância desse debate é indiscutível, a mobilização foi grande. Muitos grupos se organizaram. As reivindicações aumentaram e algumas conquistas foram efetivadas, especialmente a autoestima de muita gente que se sentia discriminada. Mas é uma luta que não cessa. Precisamos estar sempre alertas. As adaptações físicas do meio, que a princípio pareciam fáceis de executar, ficaram, na sua maioria, no campo da promessa. Basta observar as instituições bancárias, de lucros homéricos e propagados aos quatro ventos. Não oferecem nem um mísero banquinho, no caso de pessoas com nanismo como eu, para um mínimo de independência. E quando solicitado, se espantam incrivelmente.

La Nana - Picasso, Paris, 1901

La Nana – Picasso, Paris, 1901

É por isso que repito, hoje com muito mais propriedade, que há algo vital a ser feito urgentemente para que a acessibilidade e a inclusão se tornem atitudes naturais: Educar para a diversidade que constitui cada um de nós como seres plurais e únicos. Educar para o respeito, a solidariedade e o acolhimento. Mostrar que a verdadeira riqueza humana está no encontro das diferenças, com suas múltiplas possibilidades e capacidades.

Por mais que tenhamos equipamentos urbanos acessíveis, rampas, calçadas, balcões, banheiros, elevadores e ônibus, campanhas pela inclusão, cotas, emprego, tudo ainda será precário se o preconceito, seja qual for – deficiência, cor da pele, opção sexual, classe social – persistir. Encarar as dificuldades cotidianas e a repercussão da diferença física, mental, monetária, religiosa, comportamental na sociedade em que vivemos nunca foi tarefa fácil. E hoje parece ainda mais cruel.

Para além do que é material, todo indivíduo precisa ser acolhido. Precisamos encarar essa incapacidade de ver o outro em todas as esferas da sociedade, tão sem escrúpulos. Não há nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo: ver com olhos livres – Oswald de Andrade. Poucos conseguem!

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bufão D. Sebastião de Morra, de Velázquez

Nanismo e a novela global

O que dizer de Estela, a personagem com nanismo da novela do horário nobre da TV Globo, interpretada pela atriz Juliana Caldas? Um equívoco? Procuro acompanhar sua história, mas, lamentavelmente, não me diz nada. Assim como não diz para muitas outras pessoas que, como eu, lutam contra o preconceito e batalham por inclusão e acessibilidade. Não pertencemos ao mesmo universo. E se perde uma oportunidade preciosa para discutir questões vitais do cotidiano de quem é discriminado.

A pergunta que fica é: o autor Walcyr Carrasco se perdeu ou queria isso mesmo?

A trama poderia ter muitos outros olhares para a personagem. Olhares mais densos, críticos e realistas. Para além de uma mãe megera e de uma jovem mimada e maltratada ao mesmo tempo. Para além do dinheiro que pode mascarar ou esconder a filha “monstrenga” e indesejada. Por que não tratar da rotina de uma pessoa com nanismo mostrando que tem vontade própria, toma conta da sua vida, trabalha, enfrenta inúmeros obstáculos, a discriminação, sofre, mas busca ajuda, tenta se entender e entender a reação do outro? Por que não aprofundar o tema retratando uma pessoa com deficiência que combate o preconceito, busca por seus direitos e amplia uma luta que é de tanta gente?

Estela vive fora do mundo real. Não se dedica a nada. Não estuda. Não sai. Não anda pelas ruas. Não tem amigos. Não se relaciona com ninguém de forma natural. Não reivindica. Não é crítica. Estela parece não ter vida interior. Não deseja. Não sonha. Não pensa. Não fala abertamente. Já mostrou em várias cenas dificuldade de lidar com o seu tamanho, mas não questiona este sentimento. E só acorda para a sua condição, vez que outra, quando a inconveniente cuidadora, se é que se pode chamar assim, faz um alerta. Em seguida, volta à sonolência.

Estela parece não se importar com o cotidiano, o que é inverossímil, pois já viveu sozinha na Europa. Quem sabe tinha por lá uma babá que supria tudo. Os possíveis romances que aparecem para ela na novela deveriam ser consequência de uma vida livre e natural e não o foco mal desenhado da sua história. Há tanto para mostrar sobre o dia a dia das pessoas com nanismo. E o que se vê na tela é uma jovem sem a mínima reflexão, que vive em uma bolha.

pedrojulianaeanderson

Foto divulgação

De um modo geral as pessoas com nanismo não se perdem em “mimimis”. Não acumulam recalques, não se importam se ganham “ursinhos”, miniaturas ou salto alto. Especialmente nos dias de hoje, criam grupos e promovem encontros para discutir questões importantes, como o preconceito e o reconhecimento de suas reivindicações. Lutam por dignidade e independência, o que passa necessariamente por respeito, inclusão e equipamentos urbanos adequados, fundamentais na vida de qualquer pessoa. Não é o que se vê em “O outro lado do paraíso”, que reduz a quase nada o universo de Estela.

A novela tem muitos outros equívocos, como o tratamento que dá aos gays e aos negros, e é feita de clichês lamentáveis, mas fico por aqui.

 

2017 – ano da palavra, da escrita e da leitura que salvam o meu cotidiano

Zé Walter, amigo querido e parceiro de trabalho, e eu revisamos e fizemos a coordenação editorial do livro de poesia “a vida das sobras” (Editora Leitura XXI), do jornalista Carlos Eduardo Caramez, com arte e design gráfico de Cristina Pozzobon, lançado no outono. Poemas imprescindíveis em tempos de desmanche. Falam de uma geração que sonhou, se desesperou, lutou para voltar a sonhar, e vê a desesperança minar o sonho. Falam das sobras, do que aí está a nos dilacerar num “país sem pátria”. É preciso resistir, mesmo com o pouco que sobrou. E a resistência está na coragem de dar vida às sobras.

“tudo o que eu tenho / é meu corpo / o que faço / é minha vida / nada é mais veloz / que a minha pressa”.
“Preciso firmar meu ponto / nunca ficar pronto”.

Pouco depois, Cris me convidou para escrever, em parceria com Rosina Duarte, a história dos 50 anos da escola de educação infantil Pato. Foram vários meses de um trabalho que me emocionou e me ensinou muito sobre a infância. Conheci professoras acolhedoras, intensas, apaixonadas pelo que fazem e famílias maravilhosas, humanistas. O resultado está no livro encantador chamado “Pato – Escola de Educação Infantil – 50 Anos de História”, lançado em outubro.

Também em outubro o jornalista e amigo de longa data, José Antônio Silva, lança “Vagar em Macau”, poemas que resistem e testemunham uma geração que “teve sua juventude debaixo do mau tempo das ditaduras latino-americanas da década de setenta”, como diz Ricardo Silvestrin na apresentação.

“És sábia / – e, reconheço, podes ser doce – / Irmã Tristeza. / Mas vai! / Não conseguimos / continuar respirando / por muito tempo / em tua companhia”.

O professor e escritor Jorge Du Barbosa, que conheço há muito tempo, me chamou para escrever o prefácio do seu livro “Contos Irregulares” (Editora Somar), lançado na 63ª Feira do Livro de Porto Alegre. O convite me surpreendeu e emocionou. A escrita de Jorge é urgente e questionadora. Como definiu bem Armindo Trevisan, Jorge é um poeta ‘nervoso e impaciente’, que nos arranca do comodismo.

“Há que se ler respirando muito e profundamente porque nos seus Contos Irregulares estamos todos nós, que por sermos tão humanos somos tão imprevisíveis”.

Além dos textos semanais deste blog, fui convidada para escrever dois artigos para o jornal Zero Hora.

E as leituras?

Começo com um livro que ganhei de presente de amigos baianos e que traz um pouco do que fui e do que sou – “Anos 70 Bahia” (Editora Currupio), de Luiz Afonso e Sérgio Siqueira. Escrito com paixão por 200 pessoas, começou como uma brincadeira na rede e fala de um tempo em que a Bahia era o imaginário do mundo, um tempo incrível, de muitas descobertas.

“Que lugar é este? Aqui há muita coisa legal, mas o melhor são os baianos. Sem saber, sabem de tudo, sabem de tudo sem saber” – Armando Visuetti (pág.229).

Quero deixar registrada a minha emoção ao ler o “Jogo da Memória”, da amiga Maria Rosa Fontebasso, mais um lançamento da Feira do Livro deste ano. Um romance atual, que viaja com leveza e profundidade pela busca das raízes e, ao mesmo tempo, está vinculado à realidade da personagem que conduz a história.

“…momentos de cansaço da estupidez do mundo a crescer mais que sua genialidade, e de minha insuficiência em interferir para qualquer ínfima mudança” (pag. 12).

“…e nossos olhos escancaravam o gosto de viver à revelia de preocupações cotidianas e da consciência de um mundo lá fora virando pelo avesso” (pag. 22).

“Ganhar e perder, um aprendizado difícil e necessário” (pág. 49).

Ainda na Feira do Livro encontrei a querida Claudia Tajes, em uma sessão de autógrafos concorrida de “Dez (quase) Amores + 10” (Belas Letras). Maria Ana está de volta e, apesar dos mais de 40 anos, segue buscando o que julga ser merecimento.

E para fechar o ano, “Sílabas Ciladas” (Editora InVerso), de Carlos Badia. Surpresa total. Sei que ele escreve bem, mas os poemas deste livro são lindos, intensos, urgentes. Transbordam o tempo todo e, como o autor mesmo diz, nascem de uma “necessidade vital”. Viramos cúmplices ao ler, o que Lúcio Carvalho define muito bem no prefácio: “É um livro que procura o leitor, deseja falar-lhe. Instigar-lhe”.

“Se a vida é corda bamba, / Quero o equilibrar. / Se a Vida é Mar, / Quero o navegar. / Se a vida é fogo, / Quero arder em sua Luz. / Se a vida é voo, / Quero o flutuar. / Se a vida é turva, / Quero o iluminar. / Se a vida é Dor, / Quero me curar. / Se a vida é querar, / Quero. / Ávida”.

“Aprender é ofício / Qual ensandecido pensaria diferente, / já que viver é sem garantias? / Seria tolo em nós não sermos infinitamente aprendizes”.

Que 2018 me faça escrever ainda mais e ler, ler, ler, ler, ler! Aprender, ensinar, multiplicar, aprender…