2017 – ano da palavra, da escrita e da leitura que salvam o meu cotidiano

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Zé Walter, amigo querido e parceiro de trabalho, e eu revisamos e fizemos a coordenação editorial do livro de poesia “a vida das sobras” (Editora Leitura XXI), do jornalista Carlos Eduardo Caramez, com arte e design gráfico de Cristina Pozzobon, lançado no outono. Poemas imprescindíveis em tempos de desmanche. Falam de uma geração que sonhou, se desesperou, lutou para voltar a sonhar, e vê a desesperança minar o sonho. Falam das sobras, do que aí está a nos dilacerar num “país sem pátria”. É preciso resistir, mesmo com o pouco que sobrou. E a resistência está na coragem de dar vida às sobras.

“tudo o que eu tenho / é meu corpo / o que faço / é minha vida / nada é mais veloz / que a minha pressa”.
“Preciso firmar meu ponto / nunca ficar pronto”.

Pouco depois, Cris me convidou para escrever, em parceria com Rosina Duarte, a história dos 50 anos da escola de educação infantil Pato. Foram vários meses de um trabalho que me emocionou e me ensinou muito sobre a infância. Conheci professoras acolhedoras, intensas, apaixonadas pelo que fazem e famílias maravilhosas, humanistas. O resultado está no livro encantador chamado “Pato – Escola de Educação Infantil – 50 Anos de História”, lançado em outubro.

Também em outubro o jornalista e amigo de longa data, José Antônio Silva, lança “Vagar em Macau”, poemas que resistem e testemunham uma geração que “teve sua juventude debaixo do mau tempo das ditaduras latino-americanas da década de setenta”, como diz Ricardo Silvestrin na apresentação.

“És sábia / – e, reconheço, podes ser doce – / Irmã Tristeza. / Mas vai! / Não conseguimos / continuar respirando / por muito tempo / em tua companhia”.

O professor e escritor Jorge Du Barbosa, que conheço há muito tempo, me chamou para escrever o prefácio do seu livro “Contos Irregulares” (Editora Somar), lançado na 63ª Feira do Livro de Porto Alegre. O convite me surpreendeu e emocionou. A escrita de Jorge é urgente e questionadora. Como definiu bem Armindo Trevisan, Jorge é um poeta ‘nervoso e impaciente’, que nos arranca do comodismo.

“Há que se ler respirando muito e profundamente porque nos seus Contos Irregulares estamos todos nós, que por sermos tão humanos somos tão imprevisíveis”.

Além dos textos semanais deste blog, fui convidada para escrever dois artigos para o jornal Zero Hora.

E as leituras?

Começo com um livro que ganhei de presente de amigos baianos e que traz um pouco do que fui e do que sou – “Anos 70 Bahia” (Editora Currupio), de Luiz Afonso e Sérgio Siqueira. Escrito com paixão por 200 pessoas, começou como uma brincadeira na rede e fala de um tempo em que a Bahia era o imaginário do mundo, um tempo incrível, de muitas descobertas.

“Que lugar é este? Aqui há muita coisa legal, mas o melhor são os baianos. Sem saber, sabem de tudo, sabem de tudo sem saber” – Armando Visuetti (pág.229).

Quero deixar registrada a minha emoção ao ler o “Jogo da Memória”, da amiga Maria Rosa Fontebasso, mais um lançamento da Feira do Livro deste ano. Um romance atual, que viaja com leveza e profundidade pela busca das raízes e, ao mesmo tempo, está vinculado à realidade da personagem que conduz a história.

“…momentos de cansaço da estupidez do mundo a crescer mais que sua genialidade, e de minha insuficiência em interferir para qualquer ínfima mudança” (pag. 12).

“…e nossos olhos escancaravam o gosto de viver à revelia de preocupações cotidianas e da consciência de um mundo lá fora virando pelo avesso” (pag. 22).

“Ganhar e perder, um aprendizado difícil e necessário” (pág. 49).

Ainda na Feira do Livro encontrei a querida Claudia Tajes, em uma sessão de autógrafos concorrida de “Dez (quase) Amores + 10” (Belas Letras). Maria Ana está de volta e, apesar dos mais de 40 anos, segue buscando o que julga ser merecimento.

E para fechar o ano, “Sílabas Ciladas” (Editora InVerso), de Carlos Badia. Surpresa total. Sei que ele escreve bem, mas os poemas deste livro são lindos, intensos, urgentes. Transbordam o tempo todo e, como o autor mesmo diz, nascem de uma “necessidade vital”. Viramos cúmplices ao ler, o que Lúcio Carvalho define muito bem no prefácio: “É um livro que procura o leitor, deseja falar-lhe. Instigar-lhe”.

“Se a vida é corda bamba, / Quero o equilibrar. / Se a Vida é Mar, / Quero o navegar. / Se a vida é fogo, / Quero arder em sua Luz. / Se a vida é voo, / Quero o flutuar. / Se a vida é turva, / Quero o iluminar. / Se a vida é Dor, / Quero me curar. / Se a vida é querar, / Quero. / Ávida”.

“Aprender é ofício / Qual ensandecido pensaria diferente, / já que viver é sem garantias? / Seria tolo em nós não sermos infinitamente aprendizes”.

Que 2018 me faça escrever ainda mais e ler, ler, ler, ler, ler! Aprender, ensinar, multiplicar, aprender…

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