O bom espaço público

Ao pensar e repensar a cidade, sob o ponto de vista da qualidade de vida, da solidariedade, da segurança, da limpeza, da beleza, da inclusão e da acessibilidade, entre tantos outros aspectos, me inquieta também a maneira como tratamos o espaço urbano. Nem sempre agimos em sintonia com nossas críticas e nossos desejos. É grande o descontrole e a desumanização que percebo nas ruas, o que se soma ao evidente e cruel descaso dos governos.

Espaço urbano, por Tamar Matsafi
“Espaço urbano”, por Tamar Matsafi

Basta prestar atenção no lixo. As pessoas querem se ver livre do seu, como se não lhes pertencesse e pudesse, simplesmente, ser jogado em qualquer lugar. Não importa onde.

Basta prestar atenção na disputa dos motoristas por vagas para estacionar. A procura é desesperada. Se não encontram, colocam na calçada, sem o mínimo respeito pelos pedestres – mães com filhos nos carrinhos, pessoas em cadeira de rodas, cegos, idosos com dificuldade de andar, de bengala ou muletas. Não interessa.

Basta prestar atenção nas sinaleiras. O motorista que ultrapassa com sinal fechado, assim como o pedestre que atravessa a rua perigosamente. E um e outro reclamam grosseira e ruidosamente.

Basta prestar atenção no transporte público. Quando o ônibus para, é um entrar desvairado como se fossem perder a hora. Ninguém olha para ninguém. Dane-se quem tem uma dificuldade.

Basta prestar atenção nos parques, praças e ruas depois de uma festa popular. A sujeira que fica é chocante. Pouquíssimos entendem que os espaços são públicos e que também somos responsáveis por mantê-los limpos. Quem acompanhou um pouco do pós-carnaval na cidade viu o caos. Basta prestar atenção nos “mastodontes” que estão sendo construídos, revestidos de vidros espelhados, sem respeitar o entorno e a natureza, resultado de negócios entre empresários sagazes e governos que vendem a alma ao dinheiro fácil. Sem fiscalização.

clixo na rua
“Lixo na rua”, por José Walter de Castro Alves

Quem para e pensa que a humanização da cidade pode começar por nós? Transformá-la em espaço criativo, de compartilhamento, colaboração, acolhimento, celebração da arte de bem viver também é tarefa nossa.

As cidades são cheias de conflitos criados pelo poder público, pelo poder econômico, pela ganância humana. E são conflitos relacionados ao tratamento dado aos lugares que ocupamos, muitas vezes desleixado, arbitrário, desordenado, sem critérios e sem respeito. É bom ter consciência de que a responsabilidade é coletiva. Naturalmente, o exemplo deveria partir dos governos, mas a maioria assume sem projetos viáveis, ignora o que é público e só se queixa da falta de verba. Os empresários, por sua vez, só visam o lucro fácil. Acabam todos olhando para o próprio umbigo, exercendo o poder em benefício de muito poucos.

É evidente que os espaços precisam ser valorizados, requalificados e que é fundamental multiplicar essa discussão, difundindo a ideia de que para viver na cidade não precisamos de prédios enormes, grudados uns nos outros, que desrespeitam as regras mínimas da natureza e da convivência saudável.

É evidente que as cidades podem crescer sem destruir seus centros históricos e sua memória, sem se tornar impermeáveis, cinzas e insensíveis, sem abrir mão da inclusão, da brisa, da paisagem arborizada, dos horizontes amplos, das cores, da humanização.

É evidente que precisamos urgentemente de planejamento efetivo, uso honesto das verbas públicas, maior comprometimento das autoridades e do poder econômico, mais agilidade e menos burocracia, mais criação e menos ambição.

É evidente que a arte pode minimizar o impacto provocado pela dura paisagem concreta.

É evidente que as cidades são de quem nelas vive.

Lembro aqui o que diz meu amigo Vitor Mesquita, Pubblicato, idealizador do projeto URBE: “Cidade criativa é cidade compartilhada de dentro para fora. Fazer parte dessa transformação e experimentação é o que está no atual cotidiano das pessoas. A palavra é pertencimento e o verbo é compartilhar”.

 

A cidade que habitamos

Acabou o carnaval. As férias estão terminando. O cotidiano volta a pulsar intensamente. E 2018 chega na precária capital gaúcha.

“A cidade é para quem vive nela ou para quem vive dela?” Esta pergunta do ator e diretor Amir Haddad, do grupo teatral Tá na Rua, precisa ser ouvida e pensada na dimensão da sua pertinência.

Durante a campanha eleitoral para prefeito e vereadores, ensaiei aqui neste espaço uma conversa sobre a cidade, suas condições, possibilidades, futuro. Ingenuamente, alimentava a esperança de contribuir para que os eleitos, ao assumir a grande responsabilidade de administrar um município, dando voz aos cidadãos que nele vivem, fizessem a diferença. O que me movia nessa romântica tentativa era o desejo de participar. Pensava em uma troca permanente para melhorar o espaço urbano. Pensava em uma cidade mais inclusiva, leve, acessível, saudável, segura, generosa, limpa, bonita.

Hoje, ao andar por Porto Alegre, a esperança foge. Dói perceber o descaso de quem governa e o abandono da cidade que habitamos. Por isso, publico novamente o recado que escrevi na época inspirada no poema “O Mapa” de Mario Quintana, o escritor das nossas ruas e esquinas.

Olhe o mapa da cidade como se examinasse a anatomia de um corpo.

Do seu corpo.

Dos corpos de milhares de indivíduos que cruzam as ruas cotidianamente.

Trabalhadores. Estudantes. Aposentados. Desempregados. Jovens. Crianças. Loucos.

Lindos, elegantes, saudáveis, alegres, confiantes.

Curvados, dilacerados, abandonados, desesperados, desencantados.

De todos os tipos. De todas as raças. De todas as cores. De todas as crenças.

De toda a forma e qualidade.

Anônimos? Não! Seres humanos.

Examine esse mapa com atenção, desprendimento, carinho, generosidade.

Que anatomia é essa? Que tecido a envolve?

Que sonhos, esperanças, pesadelos e doenças estão impregnados na pele desse corpo urbano?

Procure entender como tratar esse corpo que pulsa incessante por uma vida digna.

“Há tanta esquina esquisita”, diz o poeta.

“Tanta nuança de paredes”.

Tantas buscas, desejos, dores, alegrias, desistências, conquistas, fracassos.

Há tanta miséria, tanta violência, tanta opulência, tanto desperdício na cidade de longos e muitos já cansados andares.

Há beleza, justiça, bondade, vontade de acertar.

Mas há tanta injustiça, tanta precariedade, tanto abuso de poder, tanto descaso.

São muitas as vozes sufocadas na cidade onde construímos nossas vidas.

A cidade que escolhemos? Ou a cidade que nos restou?

São muitas e vitais as questões nessa concretude urbana.

O corpo dessa cidade precisa de quê? E os corpos que por ela andam?