Retalhos do Cotidiano

Vozes Plurais

*Neste março de 2018, tão simbólico em relação ao Brasil atual, o canal Vozes Plurais Radioweb traz a voz de ativistas em diversas áreas: mulheres negras, mulheres com deficiência, mulheres na educação e na cultura, mulheres agricultoras, mulheres que lutam por políticas públicas, mulheres LGBT. Gravadas em uma rádio móvel construída no Polo Marista de Formação Tecnológica do Cesmar/RS, as entrevistas valorizam e dão espaço às pautas feministas e a algumas mulheres que trabalham todos os meses do ano pela vida das mulheres. Cada programa tem a produção atenta, dedicada e sensível de Clara Glock e Camila Silva para o Coletivo Feminino Plural. Em poucos minutos, muito conhecimento, muita informação e diversidade vão para o ar. Participei e recomendo muito. O conteúdo está no site: http://femininoplural.org.br/…/proje…/vozes-plurais-radioweb. O projeto tem o apoio do Jornal Extra Classe do Sinpro/RS. As gravações estão sendo divulgadas também no site: http://www.extraclasse.org.br/…/mes-8m-as-vozes-das-ativis…/

Lelei Teixeira e a luta das mulheres com nanismo.

Parte1 1
https://soundcloud.com/…/lelei-teixeira-e-a-luta-das-mulher…

Parte 2
https://soundcloud.com/…/lelei-teixeira-e-a-luta-das-mulher…

Parte 3
https://soundcloud.com/…/lelei-teixeira-e-a-luta-das-mulher…

A voz

*Mas nem só de iniciativas sensíveis e plurais vivemos no Brasil atual. É piegas e apelativo o tom da TV Globo ao convocar a população para dizer, em um vídeo feito no celular, que país quer no futuro. O país caindo aos pedaços, transfigurado, e as pessoas chamadas para se manifestar, de preferência tendo como cenário um lugar bonito da sua cidade. Uma rede de televisão que alcança os confins do país precisa desta encenação? Já não sabe?  Definitivamente, não precisamos de selfies para mostrar ou dizer que o que aí está é o que não queremos. Está escancarado. Só não vê quem não quer.

Por quê?

*Pé na faixa de segurança. Vou. O motorista para e me olha com ar contrariado. O carro cheio de jovens rapazes. Todos caem numa gargalhada desrespeitosa que ecoa rua afora. Nos meus ouvidos muito mais.

Franqueza

*“Tu é pequeninha e velhinha”. Comentário de uma criança na saída da minha terapia. Ainda bem! Crianças são francas e naturais. E eu estava no lugar certo para ouvir o que já sei.

Emergência pediátrica

*Mães, pais, avós, crianças de todas as idades. Choro. Olhares assustados. Risos. Susto. Alívio. Tensão. Respiração ofegante. Relaxamento. Nunca achei fácil a maternidade e a paternidade. Médicos e enfermeiras num vai e vem vertiginoso. É duro lidar dia a dia com a dor, o sofrimento, o limite humano. É um rasga coração intermitente.

Pergunta no ar

*Nesses tempos tão carregados de violência, uma pergunta está no ar: Somos naturalmente agressivos ou as circunstâncias nos tornam assim?

A arte e as artimanhas que nos salvam

Já escrevi em algum momento que o jeito é esticar o olhar para além dos nossos umbigos, botões, janelas, esquinas, ruas, cidades em busca de luz, horizontes limpos, esperança. Não desanimar. Organizar o delírio. Dar um trato na ansiedade. Buscar um equilíbrio razoável entre o caos e uma possível ordem que faça sentido. E lá vem a arte mais uma vez a me socorrer.

O mineiro Murilo Mendes, nascido em 1901, resume, com a simplicidade da poesia, o que é o cotidiano político, aqui, lá, acolá, em “Linhas Paralelas”:

Um presidente resolve

Construir uma boa escola

Numa vila bem distante.

Mas ninguém vai nessa escola:

Não tem estradas pra lá.

Depois ele resolveu

Construir uma estrada boa

Numa outra vila do Estado.

Ninguém se muda pra lá.

Porque lá não tem escola.

A sabedoria desses singelos versos é o retrato da política que não serve. A política do desconhecimento e do descaso.

Por isso, a importância de acompanhar e participar da administração pública no país, no estado, no município, na cidade, na vila, no bairro, no entorno das nossas residências, na rua em que vivemos. É nosso direito e dever conhecer os projetos e ações dos governos. A reforma de uma praça, a limpeza de ruas e de bueiros, a canalização de um córrego, a chegada do asfalto, a melhoria dos serviços, as mudanças na educação e na saúde, a reutilização dos espaços públicos, a acessibilidade, a urbanização.

"Ao ar livre", por Tamar Matsafi
“Ao ar livre”, por Tamar Matsafi

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, escreveu Fernando Pessoa. Mas a política praticada hoje no Brasil não tem alma. É mais predatória do que civilizadora. Mais escusa do que ética. Mais econômica do que social. Mais burocrática do que libertária. Mais pessoal do que coletiva. Simplesmente acomoda os seus eleitos no poder para não abrir mão dos privilégios. E lá em 1968, Hélio Oiticica, em carta para Lygia Clark, já percebia isso: “Quando há real inovação, a sabotagem sempre impera”. O comentário diz muito dessa geleia geral que vivemos.

O ano é de eleições e copa do mundo. Hora do voto.

“Dessa hora tenho medo”, diz uma canção de José Miguel Wisnik. O momento é delicado e o jogo cruel e egoísta. Estamos mesmo interessados em investigar as ações ou omissões que geram a degradação da vida, a desigualdade, a miséria, a violência, o medo? Ainda sonhamos em construir uma nova política, voltada para o bem comum, sem privilégios? Ou estamos mergulhados na superficialidade da pequena política eleitoreira?

Mas essa é a hora de manifestar o desejo de uma política contemporânea, feita por homens de bem. Uma política que não tenha medo do pensamento crítico, do aprendizado múltiplo, da diversidade, da memória, da arte, da liberdade, do nosso corpo e do nosso espírito, da criatividade. Uma política que não nos tire direitos legítimos para nos matar aos pouquinhos.

O social, a acessibilidade e a inclusão no cotidiano da cidade

O discurso social, que hoje tem um viés voltado para a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar o preconceito enfrentado por pessoas que têm uma deficiência ou um comportamento considerado “incomum”, corre sérios riscos de ser ofuscado pela onda obscurantista que se instalou no país. Em um mundo feito por e para pessoas “normais”, contaminado agora pelo conservadorismo, não podemos dar trégua aos olhares discriminatórios que rechaçam os direitos humanos.

Reivindicar políticas públicas que priorizem a inclusão e o respeito aos direitos e às limitações cotidianas de quem é jogado na miséria, tem uma deficiência ou um jeito de viver diverso da maioria são atitudes muito bem vindas sempre. Se forem impulsionadas de forma coletiva, sem violência, em sintonia com a administração municipal, as comunidades e o empresariado, melhor ainda.

Falar em acessibilidade no cotidiano das cidades é falar de forma ampla, com o foco no bem viver de todas as pessoas, como diz a arquiteta Flavia Boni Licht. Para ela, acessibilidade é “pensar, edificar e adequar espaços e equipamentos para a diversidade humana. Em algum momento da vida, uma parcela significativa da população tem sua mobilidade reduzida: idosos, gestantes, crianças, mães que carregam bebês no colo e/ou carrinhos, pessoas em processo de reabilitação, vítimas leves de acidentes de trânsito e/ou de trabalho”.

Falar em inclusão e direitos humanos é falar de uma grande camada da população que vive à margem, rechaçada por políticas econômicas que as desconhecem, as empurram para a margem e as tratam como desqualificadas. Famílias pobres que são retiradas de qualquer jeito dos espaços urbanos que ocupam porque nada mais lhes restou e ali onde vivem vai se erguer um enorme empreendimento. Famílias que têm suas casas invadidas e filhos revistados pela polícia em paradas de ônibus, a caminho da escola, como se fossem bandidos.

Desconheço projetos sociais e de revitalização do espaço urbano voltados para a criação de ambientes acolhedores, seguros e integradores para quem vive nas periferias da cidade. Se existem, onde estão? Engavetados por conta de governos descomprometidos com o fazer coletivo, engolidos pela burocracia, pela falta de verba e pela voracidade das grandes empreiteiras?

Mas as barreiras, que impedem inúmeras vezes a paz de uma comunidade, estão aí para quem quiser ver, de toda a forma e qualidade. Não está contente? Vai lá e tira. Passa por cima. Pagando bem, por que não?

Há contradições? Claro que há! Ninguém é santo nesta paróquia. Mas há, especialmente, abuso de poder porque é inquestionável a força do dinheiro que compra tudo.