Tristicidade

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Leandro Selister "Tristicidade, viaduto da Borges de Medeiros"
Leandro Selister “Tristicidade, viaduto da Borges de Medeiros”

O olhar agudo de Leandro Selister escancara o abandono e o mal-estar de um porto que esqueceu a alegria e largou sua gente ao deus-dará. E quem anda de olhos, sensibilidade e peito aberto pelos becos e esquinas de Porto Alegre hoje não tem como não ver e sofrer com a miséria e a precariedade que proliferam assustadoramente, estampadas em cada canto. É abandono e mal-estar, como mostra o artista visual no projeto Tristicidade – cartografias do abandono e da (in)visibilidade.

O que fizemos, pergunta ele?

Em dezembro deste ano a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos.

Pouco antes, teremos eleições gerais no Brasil.

O que faremos com o nosso voto?

Como viver impunemente diante do desemprego, da fome, de pessoas que andam por aí e se alimentam nas latas de lixo, dormem nas calçadas, das ruas sujas e esburacadas, de uma cidade desamparada? Esses e tantos outros questionamentos inquietantes levaram Leandro Selister a registrar em fotografia a triste realidade da capital gaúcha, que se agrava assustadoramente, e não é apenas nossa, mas do Brasil e do mundo.

Tristicidade é uma denúncia, um alerta para que as pessoas despertem, pressionem os governos para juntos pensar em alternativas. Mostra o que não queremos ver e fazemos de conta que não é da nossa conta. Mas é! Somos todos responsáveis, sim. Vivemos em uma comunidade e olhar para o outro é fundamental.

"Tristicidade", de Leandro Selister
“Tristicidade”, de Leandro Selister

Para dar vazão a essa angústia, Leandro Selister criou uma palavra – definindo-a como um verbete de dicionário: “Tristicidade. 1. Qualidade ou estado de desilusão em relação aos acontecimentos do cotidiano; abandono, mal-estar”. O projeto começou em janeiro deste ano a partir de uma conta específica criada no Instagram, @tristicidade, onde as imagens estão sendo compartilhadas. A partir da exposição INSULARES, o projeto convidou as pessoas a participarem também com registros próprios de sua visão da cidade a partir desse tema.

O desdobramento do projeto levou o artista para um quarto de hotel no Centro Histórico da cidade, em um sábado do início de abril. Ali ele ficou 24 horas fotografando o que via pelas ruas. Em uma entrevista para o site de Roger Lerina, que publicou em primeira mão uma galeria com as fotos captadas nessa jornada pela miséria urbana porto-alegrense, ele desabafou : “Foi uma das experiências mais tristes da minha vida. Imagina o que eu senti ficando 24 horas acordado, percorrendo as ruas da cidade e registrando a fome, a miséria, pessoas drogadas, dormindo no chão, comendo em latas de lixo, famílias de ambulantes com crianças pequenas, homens, mulheres, crianças…  É um quadro desesperador e que precisa ser revertido, senão as pessoas vão morrer e nós vamos assistir a isso tudo. É impossível viver em um mundo assim. Chegamos ao fundo do poço mesmo.”

O movimento tem na sua essência o desejo de mostrar aos governantes que o mundo não é bem aquele que eles estão noticiando. E que não é esse o mundo que queremos!

Leandro Selister "Tristicidade, viaduto da Borges de Medeiros"
Leandro Selister “Tristicidade, viaduto da Borges de Medeiros”

Participe do projeto postando no Instagram como está a tua cidade utilizando a hashtag #tristicidade. #tristicidade #declaraçãouniversaldosdireitoshumanos #MUAC

Autor: Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

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