O que somos? O que queremos?

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O que nos dá régua e compasso? O que nos insere na cultura e nos torna seres sociais, capazes de ver o outro, crescer no convívio com a diversidade, respeitar limites? Reconhecer, acolher, dividir, entender? O que nos joga fora dos trilhos?

O núcleo familiar é o ponto de partida. A boa convivência nesse núcleo torna natural a sua extensão saudável. Os amigos e a escola. O cotidiano dividido com professores e colegas. As brincadeiras, as trocas, o conhecimento, o aprendizado partilhado. As noções de limite expandidas na prática, de cara com o mundo, traduzidas no respeito pelo outro e pela diferença.

Depois vem o trabalho, a inserção social na vida adulta responsável, para muito além do núcleo inicial. O exercício da liberdade plena, as escolhas, os desafios, as parcerias, as conquistas, os sucessos, os embates, os fracassos, as trocas. E as novas famílias que vamos constituindo com amor, vida afora, independentemente das raízes biológicas.

Nesse círculo ampliado, que agrega as diversas famílias que alimentam nosso ser, construímos nosso estar no mundo com o equilíbrio necessário para abrir as asas, voar e ancorar aqui, lá, acolá. E voltar, se for o caso. É um ensaio contínuo porque nunca estamos prontos. Nessa trama, às vezes, perseguimos uma perfeição doentia, que nos torna arrogantes e predadores, porque esquecemos que só os seres imperfeitos, logo humanos, estão abertos para aprender, arriscar, errar e tentar sem medo novos voos.

Quero dizer, então, que me dá um cansaço danado ouvir os discursos políticos cheios de retórica, tão perfeitos e plenos de soluções mágicas, nesses tempos de um Brasil sem rosto, que massacra sua gente, especialmente os trabalhadores. Um Brasil que detona suas riquezas naturais em nome de uma economia imposta pelo capitalismo estrangeiro mais predatório e primário que já enfrentamos. Só se ouvem respostas prontas e acusações, sem autocrítica, sem dúvidas, sem diálogos consistentes. Nenhum questionamento mais profundo. Nenhum olhar verdadeiro para a miséria que o país vive hoje. A disputa toma o caminho mais fácil, centrada no bem e no mal, em uma via de apenas duas mãos, onde circulam unicamente mocinhos e bandidos.

Para quem falam os candidatos se somos tão múltiplos?

O bem e o mal

A falta de diversidade, de diálogo e de uma conversa franca assusta. Pois enquanto polarizamos e nos perdemos em discussões inúteis, a violência cola nas nossas ruas, portas e janelas. A intolerância absurda – se não está do meu lado, não me reverencia e não assina embaixo, é inimigo, mas se está comigo, me reverencia e assina embaixo, é dos meus – gera conflitos banais desnecessários. Antes de buscar informação, de procurar saber o que realmente acontece, acusamos, usando o pequeno podre poder que nos cabe. Dane-se qualquer sentido ético, reflexivo, humanista.

A engrenagem do bem e do mal é simplista e cruel. Ancorada no senso comum, tem uma lógica primária, que limita o entendimento da perplexidade que nos cerca. Fazemos parte de um denso coletivo capaz da maior generosidade e da maior maldade. Estamos sempre entre a cruz e a espada, tentando salvar a pele e buscando culpados. Perdemos a capacidade de olhar com olhos livres, não contaminados, para os males que nos afligem. Condenamos, redimimos, matamos e salvamos cotidianamente. Sem compromisso.

Somos feitos de infinitos sentimentos Podemos ser tudo em pouco tempo. Contraditórios, impulsivos e irresponsáveis. Objetivos, certeiros, parcimoniosos e responsáveis. Pesar e medir as atitudes. Agir planejadamente. Ou jogar tudo pelos ares. Somos o que podemos ser diante do imponderável. Mas desconhecer a nossa história política e compactuar com discursos escravagistas e preconceituosos é inaceitável.

Autor: Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

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