Acessibilidade no Sarau Elétrico

A seguir, minhas leituras no Sarau Elétrico sobre Acessibilidade, na noite de 25 de setembro, conduzido por Kátia Suman e Diego Grando. E com a participação de Sidito Magnífico.

“Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim”. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” – Frases da canção Dom de Iludir de Caetano Veloso que funcionam como um desafio para mim.

“Ser anão não é para qualquer um”. Assim o jornalista Luiz Antônio Araujo termina artigo publicado no jornal Zero Hora em 28 de julho de 2014. Um belo texto! Ele lembra do primeiro anão que conheceu, ao escrever sobre notoriedade, preconceito, maus tratos e extermínio. Quando li, pensei na condição de tantas pessoas mundo afora que suportam algum tipo de discriminação pela condição física, mental, intelectual, social, de comportamento, gênero, raça ou cor. Não é para qualquer um, mesmo.

Falando especificamente dos anões, somos poucos, segundo as estatísticas, mas o impacto que provocamos é grande. Às vezes, assustador. Para o bem e para o mal. Dos mitos que correm por aí, muitos oriundos do universo das histórias infantis, passando pelo grotesco, pela chacota vulgar, pelo espanto e pela hipervalorização, vivemos entre opostos. E é neste universo contraditório, pouco acolhedor, que cavamos um lugar social, nem sempre cômodo, sem passaporte para uma vida natural.

Temos dificuldades. Muitas. A sociedade não está preparada para a singularidade, mesmo com as políticas de inclusão e acessibilidade. Necessárias, é claro, mas de pouco efeito se não entendidas e aplicadas com sensibilidade e exigência. A educação para a diferença precisa vir bem antes. O preconceito está entranhado na pele, no olhar, na atitude, nas situações sociais. Está no inconsciente coletivo. É inerente aos humanos.

Desde que o mundo é mundo, a diferença existe. Não somos iguais. Mesmo que a regra seja impor uma perfeição estabelecida pela ambição do homem, no sentido de eliminar tudo o que aponte para a possibilidade do imperfeito, ou seja, para a sua fragilidade. Mas é na diversidade que está a nossa grande riqueza.

O poder alimenta uma elite cruel, em busca de uma impossível “raça pura”. O desejo predominante é acabar com os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, que Araújo refere no artigo ao falar do nazismo. Assim se escravizou, exterminou, torturou, subjugou toda e qualquer pessoa, grupo ou raça que não contribuísse com o “aprimoramento da espécie humana”. Ainda vivemos sob esse eco. É assim que se discrimina. E é contra essa subjugação que lutamos.

Em relação aos anões é tão desolador que a palavra virou sinônimo do que é considerado indigno, torpe, pouco e é usada de forma pejorativa. É o caso de expressões como “salário com perna de anão” (referência ao salário considerado baixo), “anão moral” (usada por alguns políticos que querem ofender outros), “anão diplomático” (usado em discussões de políticas de relações exteriores). E, ainda, “anões do orçamento” (nome dado a um grupo de deputados do baixo clero no final dos anos 1980, início dos 90, envolvidos em fraudes com recursos do Orçamento da União, investigados por uma CPI, parlamentares sem repercussão nacional, ou seja, ‘anões do poder’).

Por conta disso, já ouvi e ouço muita piada infame. Sentenças que reverberam no ir e vir cotidiano e na autoestima, por mais preparada que eu esteja para encarar a afronta e a rejeição. Somam-se os olhares curiosos, os dedos apontando, a invasão de privacidade, perguntas indiscretas e perversas, o riso, o toque desrespeitoso, os que nos ignoram nas filas, nos balcões, nos bancos.

Mas, como tudo na vida tem o seu contrário, é impossível ignorar o ganho secundário através da admiração excessiva, do elogio fácil, do aplauso à inteligência e à coragem, muito frequentes, espécies de salvaguardas que podem ser perigosas, criar falsas ilusões e mascarar uma condição que precisa ser enfrentada sem adereços, a olho nu.

Pensar a diferença de maneira ampla, a partir da perspectiva da acessibilidade e da inclusão, ampliou meus horizontes. Caminhada que teve a participação da arquiteta Flavia Boni Licht quando ela pediu que minha irmã e eu escrevêssemos sobre as dificuldades cotidianas enfrentadas por pessoas com nanismo para uma aula na faculdade. Uma proposta instigante que nos fez desacomodar conceitos clássicos, enraizados, e apontar para uma sociedade como soma de diferenças e não de homens hipoteticamente iguais. Para além da eliminação de barreiras físicas, acessibilidade é cidadania, direito social, independência, capacidade de olhar o outro e de acolher. Por isso, aceitei o desafio do portal Sul21 e passei a escrever regularmente sobre essas questões no blog Isso não é comum.

Refletir coletivamente sobre o cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma deficiência, se é que podemos chamar assim, é cada vez mais necessário. A diferença exclui porque a sociedade, historicamente, sempre reservou um lugar para aqueles que fugiam dos padrões sobre os quais está estruturada. Nesse lugar não desafiam a ordem e não desacomodam conceitos e pré-conceitos.

Ninguém se espanta, por exemplo, ao ver o negro trabalhando como porteiro, operário ou empregada doméstica. O homossexual como cabeleireiro, costureiro, fazendo o gênero pitoresco, de humor fino/ferino também não surpreende. Assim como o anão, visto como figura grotesca ou mágica, alvo de chacota, divertindo as pessoas, parece tão normal!

Da mesma forma, ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma outra diferença, física, intelectual ou mental. Pessoas cegas, pessoas que andam em cadeiras de roda, crianças com Síndrome de Down e Autismo que têm matrícula negada em escolas regulares. Muitos jovens que procuram emprego são barrados na primeira entrevista porque sua diferença vira obstáculo. Não estamos preparados para perceber e aceitar o outro na sua dimensão. E cada vez mais esse despreparo fica evidente

É o que nos cabe nesse latifúndio da dita normalidade. Ao ignorar, excluir ou rotular as diferenças toma-se o caminho mais fácil e mais curto para a anulação do humano, do caráter criativo e inusitado das pessoas que está no encontro de suas múltiplas possibilidades e capacidades. Se não reagirmos aos discursos já dados, não desafiaremos nenhuma norma e não mudaremos nada.

Encarar a exclusão é tudo de ruim que ela provoca é tarefa urgente. O espanto necessário só vai surgir no momento em que as margens desse latifúndio que segrega forem extrapoladas. Mas há que se ter sabedoria! Às vezes, somos jogados em uma espécie de limbo. Viramos seres invisíveis pela dificuldade do enfrentamento. E há que se ter cuidado para não cair na vitimização, no paternalismo ou alimentar fetiches, heroísmos e clichês. Há que se evitar os estereótipos e o discurso da superação. Não precisamos matar um leão por dia. Precisamos viver naturalmente com a nossa deficiência, falar sobre a diferença, encarar uma fragilidade que é da condição humana, contrapor-se ao preconceito e saudar a diversidade.

Cabe, portanto, a nós, com a nossa diferença, seguir subvertendo a ordem. Recusar os lugares determinados. É vital fazer com que a sociedade entenda as múltiplas possibilidades que as diferenças trazem, fora dos discursos instituídos, ultrapassados e redutores. Só assim construiremos relações mais humanas, agregadoras, libertárias, fundamentais para a eliminação do preconceito.

Não somos coitados, nem vítimas, nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com nossos limites, sonhos, aptidões, a nossa singularidade. Por que, então, não falar abertamente do que somos? Seres tão humanos quanto qualquer outro, com vontade de viver livres, leves e soltos. Volto a Caetano Veloso: “De perto ninguém é normal” – Vaca Profana.

Para encerrar, uma frase do escritor e jornalista russo Vassili Grossman, do livro Vida e destino, um épico moderno que faz uma análise das forças que mergulharam o mundo na Segunda Guerra Mundial: “Em mais de um milhão de isbás (habitação característica dos camponeses do Norte da Europa e da Ásia, mais particularmente da Rússia, construída geralmente com madeira de pinheiro) russas de aldeia, não há, nem pode haver, duas que sejam exatamente iguais. Tudo o que vive é único. É impensável que sejam idênticas duas pessoas ou duas roseiras… Onde tentam, à força, fazer desaparecer suas singularidades e peculiaridades, a vida se extingue”.

Tudo dói!

“Tudo é singular / Dói / Tudo dói” – Canção “Tudo dói”, de Caetano Veloso.
Vivemos um tempo de censura, sim! E o mais grave, no meu entender, tempo de uma implacável autocensura. Não vou falar, não vou publicar, não vou comentar, não vou correr o risco de desafiar o coro dos contentes. Até porque as redes sociais, onde todo mundo pousa e julga, usam e abusam das interpretações grosseiras e medíocres, transformando tudo num debate insano e sem sentido. Aqueles que ousam manifestar um pensamento libertário através das artes visuais, do teatro, do cinema, da dança, das manifestações públicas, são muitas vezes interceptados ou condenados por um tribunal sem rosto. Um tribunal impulsionado pelo autoritarismo e pelo desrespeito aos direitos individuais dos cidadãos. O cenário que está posto é de desconforto, desconhecimento, ignorância, mesquinharia, preconceito, medo.

O nu artístico é crime. A infância abandonada nas ruas, não. Prega-se a necessidade de proteger as crianças dos movimentos e ações culturais que mostram a diversidade. Da fome, das balas perdidas, do machismo, do assédio, do estupro, não.

Quando a tua sensibilidade está à flor da pele, não há como não ver a dureza da vida. Quando olhar para o outro é um movimento inerente ao teu estar no mundo, não há como não desesperar. Quando a miséria física, social, moral e política é jogada na tua cara assim que colocas o pé na rua, não há como não chorar. Quando a fome fala mais alto e as crianças perdem a inocência em busca de qualquer guarida, é porque perdemos o mínimo sentido de humanidade. Quando a realidade se torna insuportável, a dor não cessa. Tudo dói!

Por José Walter de Castro Alves

Quando a meritocracia vira discurso, assinamos embaixo do “não tenho nada a ver com isso, eu consegui” e proclamamos uma razoável isenção. Não temos qualquer compromisso. O subemprego e o desemprego crescem. A miséria está escrachada nas esquinas. Mas certamente este é um movimento de vagabundos, de quem não quer trabalhar. E lá vamos nós para os refúgios confortáveis. Não temos nada a ver com isso. Somos únicos e tudo o que temos é fruto da educação que tivemos e da nossa bárbara competência. Como se a vida e o fazer cotidiano de cada um não estivessem indiscutivelmente ligados. Posso trabalhar em paz porque alguém faz a minha comida, cuida da minha casa, lava a minha roupa, atende meus filhos, cuida dos meus velhos. Tenho lazer garantido porque o meu salário permite. Saio de férias quando quero porque sou o meu patrão e tenho quem me ampare no trabalho.

Então é bom lembrar que tijolo por tijolo desta construção é resultado de muitas cabeças, braços e pernas que deveriam andar em harmonia, respeitando direitos e deveres. Mas há uma inegável herança escravocrata correndo pelas nossas veias. Há uma indisfarçável necessidade de súditos e um clamor pela perfeição. Não suportamos o que nos aponta para o imperfeito.

Há uma necessidade absurda de proteger o que determinamos ser nosso, alimentada pelo discurso do esforço que fizemos para chegar aonde chegamos. Como se essa caminhada não tivesse anteparos a cada passo, a cada pedra no caminho, a cada trajeto percorrido, a cada conquista feita.

Por que excluímos com tanta facilidade? Por que penalizamos aqueles que consideramos inferiores a nós? Por que temos tanta dificuldade de olhar para as pessoas com deficiência com olhos livres, reconhecendo suas capacidades? Por que ainda não entendemos que não somos ninguém sem o outro? Por que nos é tão difícil o pensamento coletivo?

Mais uma vez, a arte a me socorrer!

“Eis o que eu aprendi / nesses vales / onde se afundam os poentes: / afinal tudo são luzes / e a gente se acende é nos outros. / A vida é um fogo, / nós somos suas breves incandescências” – Mia Couto no livro “Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra”.