Tempo de aliviar tensões

Sensibilidade, fluidez, procura, entrega, dúvida, aprendizagem, sabedoria, troca e emoção. Os desejos que me movem neste momento obscuro e de tanto ódio que vivemos no Brasil são plenos dessa humanidade avassaladora e diversa, tão ameaçada no nosso cotidiano. Humanidade transgressora, rebelde no que tem de genuína e despojada. Como o café com mistura na casa da avó, cheio de boas histórias e lembranças, que nos faziam rir e chorar espontaneamente. Ou como o amigo que encontramos de repente e nos faz esquecer da pressa maldita que nos levava para não sei onde, em nome de não sei bem o quê. Ou como o pastel estalando de novinho saboreado no boteco solitário de uma beira de estrada. Rebelde porque não se submete, mas sabe ser leve.

Sei que é tempo de aliviar as tensões de um ano muito difícil para viver os rituais de passagem, tão necessários. Respirando profundamente entre familiares, amigos, conhecidos. No lugar do café com mistura ou do pastel, um brinde com espumante, ou com a bebida preferida, e um salgadinho gostoso, um pedaço de peru ou de pernil, para triscar. O importante mesmo é não acumular ódios, nem mágoas. É seguir olhando para o outro com afeto, entre risos, abraços, lágrimas e brincadeiras, com a certeza de que é possível a harmonia na diversidade.

Mais ou menos como os embates dos poetas com a palavra, que a Marlene, minha irmã, tanto estudava e definiu tão bem. “Os poetas sempre souberam da rebeldia da palavra, de sua ‘resistência’ em colocar-se sob o domínio daquele que a utiliza: ela diz mais ou diz menos, diz outra coisa; ela não cessa de produzir sentidos através do tempo, sentidos esses nunca acabados, jamais detidos. Se, de um lado, não se pode realizar uma fala ‘satisfatória’, de outro lado, a palavra ‘justa’ insiste em se dizer e é para encontrá-la que seguimos falando”.

Sabemos da nossa rebeldia, mas precisamos seguir procurando a palavra que nos tire dessa polaridade que não leva a lugar nenhum. Precisamos buscar algo que nos coloque novamente em sintonia para divergir, se for o caso, como seres civilizados que somos.

A psicanalista Diana Corso escreveu algo que me tocou muito nos últimos dias. “Reavaliar-se demanda uma escuta fina e destravada de si mesmo, só assim para descobrir o que estamos querendo de forma enviesada, inconfessa, canhota. Somos estranhos ao que expulsamos da nossa consciência, por isso mudar dá tanto medo”.

E a jornalista Adriana Martorano em suas reflexões de final de ano escreveu: “Reconhecer a importância de alguém na sua vida afetiva, profissional, familiar, ENQUANTO essa pessoa ainda está contigo: um aprendizado que muitos insistem em não ter”.

Que os tempos sejam de ver o outro!

 

 

 

Pão e Direitos Humanos

Comecei a falar e a escrever sobre acessibilidade e inclusão no blog Isso não é comum para suportar uma dor avassaladora. Acabei atravessando fantasmas e fronteiras internas e externas jamais imaginadas. E, naturalmente, fui dando voz a uma série de outras questões, vitais para a dignidade humana, que me inquietavam e ainda me inquietam muito. De certa maneira, preenchi um grande vazio ao falar de temas que poucos falavam e ao perceber que minha escrita ecoava e ecoa de um jeito surpreendente. Assim como ecoam tantas vozes plurais Brasil afora.

Tive certeza dessas vozes e desses ecos ao participar do Seminário Inclusão: Direito das Pessoas com Deficiência, no Rio de Janeiro, em 23 de novembro, organizado pela Práxis Sistêmica, em parceria com a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CDPD) da OAB/RJ e com a Escola da AGU. Ao lado de pessoas cegas e com baixa visão, jovens com autismo, pais e mães de crianças diferentes, falei, mais uma vez, sobre esse tema tão necessário e especial para todos nós que buscamos a diversidade. Foi uma jornada emocionante, de muitas trocas, aprendizagem, respeito, afeto, empatia, que fez diferença no meu cotidiano. Conheci pessoas incríveis, que lutam com lucidez e leveza. E tive esclarecimentos precisos e preciosos sobre os direitos da pessoa com deficiência, agora tão vulneráveis, correndo o risco de serem banidos pelo governo eleito, que pode acabar com tudo o que já se conquistou.

“A grandeza da existência humana é poder trabalhar com a pluralidade, é poder compreender nas diferenças o conjunto da igualdade humana”, escreveu alguém que desconheço, mas quem vai assumir ministérios e cargos no Brasil 2019 parece não entender ou não se interessa mesmo pela diversidade, seja ela qual for.

Em novembro, li também a reportagem da jornalista Clara Clock sobre inclusão no Jornal Extra Classe. Poucos, na mídia, trataram o assunto com tanta seriedade e reflexão. Ali estão colocadas, sem sensacionalismo ou vitimismo, as informações necessárias sobre a questão da deficiência e da inserção no mercado de trabalho. Quero destacar um depoimento que está na matéria e é esclarecedor, o de Paulo Fernando Soares, que foi perdendo paulatinamente a visão ao descobrir, aos 16 anos, um tumor no nervo ótico. Aos 20 anos estava cego. E na seleção para um estágio em Psicologia surpreendeu a supervisora, que achou que ele não daria conta do serviço. “Entre todos os candidatos, só eu consegui responder as perguntas e fui selecionado”, diz ele na matéria. E seguiu comentando: “A gente tem que estar sempre provando que é capaz”. “Deveríamos falar de diversidade desde o ensino básico, sensibilizando e conscientizando que as pessoas com deficiência não são um problema”.

Portanto, é fundamental lutarmos pelos nossos direitos e enfrentarmos os posicionamentos e discursos retrógrados. E é fundamental insistirmos no “Nada sobre nós, sem nós”. Não falem por nós. Não façam por nós. Não decidam por nós. Não nos olhem com olhos contaminados, como se fôssemos incapazes. Antes de tudo, exerçam a alteridade. Coloquem-se no nosso lugar. Perguntem. Ouçam o que temos a dizer. Não nos proíbam de fazer. E respeitem o nosso jeito. Nossas vidas, a sua e a nossa, vão ficar melhores, mais fáceis, mais verdadeiras, mais solidárias.

Podemos dividir nossas tristezas e alegrias, possibilidades e impossibilidades, fracassos e sucessos, sonhos e decepções e seremos inteiros nas nossas interações. Sem mágoas ou ressentimentos. Nossa humanidade é maior do que qualquer atitude excludente. A diversidade que experimentaremos juntos abrirá muitos caminhos. Novas configurações. Novos paradigmas. Outros padrões. A hierarquia radicalmente vertical não se sustenta. Precisamos da horizontalidade, do movimento, da rebeldia, dos vários lados que nos formam. Precisamos dar voz aos tantos que somos. Ninguém fica por muito tempo em um lugar autoritário. São tantos e tão ricos os caminhos que podemos trilhar e os que certamente poderemos abrir como seres libertários que somos.  Não podemos desistir.

Em 2018 participei como palestrante em sete eventos, voltados para qualidade de vida, responsabilidade social e sustentabilidade, inclusão e acessibilidade, discriminação e direitos das pessoas com deficiência, comunicação, desigualdades e políticas públicas, direitos humanos. Um velho ditado diz que quando se fala muito em pão é porque o pão está em falta. Pois está! Pão e direitos, fundamentais para a sobrevivência e a dignidade humanas.

O fazer político – busco respostas!

É tão bom quando a gente encontra eco na fala do outro e se vê fazendo parte de uma tribo com desejos comuns – democracia e direitos humanos, sob o signo da diversidade. É o que eu gostaria de viver na aldeia que habito. E vivi no dia 29 de setembro, momento que vai para a história mundial, liderado pelas mulheres. Um eco sinalizando mudanças, transformando pessoas e o modo de fazer política.

Mas hoje vivo sob o signo da incerteza e do medo em relação ao futuro da minha cidade, do meu estado e do meu país, em relação ao ir e vir cotidiano de pessoas que ousam pensar diferente. Especialmente neste momento em que o ódio e o repúdio à diversidade tomam conta dos discursos de quem vai governar o país.

O que os candidatos que entraram na reta final das campanhas políticas óbvias, com discursos ultrapassados e cheios de clichês, disseram concretamente sobre diversidade? Sobre uma educação inclusiva, capaz de acolher todas as diferenças, físicas, mentais, intelectuais, comportamentais e sociais? Sobre as crianças e jovens abandonados? Sobre a marginalidade, o preconceito e a criminalidade, que só aumentam? Sobre esse momento delicado que enfrentamos no Brasil?

Temos instituições, empresas, associações de bairros, comunidades organizadas e comunidades inteiras à deriva, enclausuradas, ameaçadas, jogadas às traças. E temos um Executivo, um Judiciário e um Legislativo, muito bem pagos, envolvidos em denúncias de corrupção, sem respostas para nossos anseios e sofrimentos, que só fazem defender-se usando a força que detêm.

Enquanto isso, os podres poderes se agigantam e ferem, inexoravelmente, a ética, os sonhos e a confiança de cada um de nós.  Egos inflados e ocos mergulham nas picuinhas político-partidárias e a mesquinharia domina os debates. Ou os embates!

O que sempre me inquietou, e hoje me inquieta ainda mais, é a dificuldade que os políticos de plantão e os postulantes a qualquer cargo (porque infelizmente é um cargo!), de vereador a presidente, têm de conversar e agir em nome de uma causa maior, que envolva a vida, o bem estar e os direitos dos cidadãos.

Quem está no poder, pelo partido X, e perde as eleições para o partido Y, transforma-se em vilão, enquanto o vencedor assume com sua vara mágica de solução para qualquer problema. Um e outro só conseguem cumprir os encontros protocolares de passagem do cetro. O resto são farpas! Estabelecem uma relação de mão única, primária, e subestimam os eleitores, o que é inadmissível em um século tecnológico, de comunicação avassaladora, onde tudo se vê e tudo se sabe.

Aquele que assume, com o bolso cheio de soluções, não dá conta do que prometeu, mas não se responsabiliza. A culpa é sempre do outro. E a ladainha segue até o final do mandato. A cena se repete de quatro em quatro anos, de partido para partido, de candidato para candidato e, assim, indefinidamente. Muito poucos abrem mão da possibilidade de se candidatar várias vezes ou dos cargos já conquistados. Por quê?

Apesar dos discursos queixosos, que apontam para o caos, querem o poder. Alguma grande vantagem certamente todos têm!

É impossível que uns só acertem e outros só errem e que um governo, por mais equivocado e ruim, não contabilize nenhum acerto. Por que não reconhecer os méritos? Por que não dar continuidade às ações que tiveram bons resultados na administração anterior? Por que não somar? Por que essa voracidade em destruir o outro e o que ele fez? Por que só governar com e para os seus? Por que não uma coalizão ética?

Por que ninguém tem coragem de mudar, de fazer diferente, de romper com as velhas formas corruptas? Por que a maioria que se candidata não sabe exatamente a que veio? Por que são tão poucos hoje os líderes que surgem da militância estudantil, social e política? Por que inventar candidatos, buscando comunicadores populares que dominam os microfones, mas nada entendem do fazer político e da questão social? O que realmente mobiliza partidos, candidatos, eleitores e políticos?

Não tenho respostas, mas lamentavelmente tenho algumas certezas: São bem poucos os que têm ideais humanistas e pensam no bem comum ao assumir uma candidatura ou qualquer cargo político.