Dor e Indignação

 

“Justiça para as vítimas”. “Punição aos responsáveis”. Essa é a promessa de empresários da Vale, do governo e das autoridades a cada manifestação e a cada entrevista sobre uma das maiores e mais tristes tragédias que vivemos desde sexta-feira, 25 de janeiro de 2019, pouco depois do meio-dia.

Só que no Brasil não é assim!

Tragédias anunciadas, como a de Brumadinho, três anos depois de Mariana, escancaram a assustadora irresponsabilidade, indigência e oportunismo das relações políticas e empresariais. Não temos voz. Temos algozes. Vivemos em constante vulnerabilidade social. A lama que mata seres humanos, animais e o meio ambiente em Minas Gerais é movida pela soberba, pela ganância, pelos negócios escusos e pelo cinismo de quem detém o poder, de quem compactua e de quem só vê e só deseja o lucro, a qualquer custo – governos, políticos e empresários.

É assustadora a voracidade que conduz o comportamento desses senhores – um protegendo o outro para ganhar mais e mais. E de uma forma ou de outra, todos ganham muito, em detrimento do bem estar e da segurança de comunidades inteiras que trabalham para sustentar suas famílias. O fosso de negociatas é sem tamanho, em nome de licenças muito bem pagas e privilégios de toda ordem. Não há a mínima preocupação e respeito pelo outro.

Os governos não se comprometem com as camadas mais pobres da sociedade. É assustadora a frieza de quem conduz o negócio e de seus comparsas, sem olhar para os males que provocam. Mais assustador ainda é o apoio que lideranças políticas dão a esses atos ilícitos, em troca de votos e, claro, muito dinheiro para garantir seus podres poderes. Já são eleitos para isso, é certo!

Respeito, autorização, fiscalização, ética, transparência são palavras não gratas para tais senhores, e seus asseclas, que insistem em manter a casa grande e a senzala. Ninguém ouve as pessoas sensatas, os técnicos, as organizações da sociedade civil que alertam para os perigos. E agora ficamos sabendo que foram muitos os alertas sobre os perigos. Mas só foram ouvidas as cartas marcadas. É triste. É desolador. Dói muito olhar para este Brasil que abandona sua gente, suas origens, suas florestas maravilhosas, ricas em flora e fauna, conhecidas como o pulmão do mundo, em nome do lucro excessivo de tão poucos.

O que fazer com a nossa indignação?

Cartilha Escola para todos! Nanismo

Lançamento dia 27 de janeiro, 21h, na 46ª Feira do Livro Da Universidade Federal do Rio Grande (Furg)

Criada a partir da experiência de famílias e pessoas que vivem o nanismo no dia a dia, a Cartilha Escola para Todos! Nanismo vai ser lançada neste domingo, 27 de janeiro, às 21h, na Feira do Livro de Rio Grande, onde pode ser adquirida até o dia 3 de fevereiro pelo valor de R$ 8,00. Com o objetivo de contribuir para uma sociedade inclusiva e justa, a publicação mostra que o respeito às diferenças é fundamental para que cada um viva bem e em harmonia com a sua singularidade. E trabalhar a conscientização na escola, de forma simples e lúdica, a partir do cotidiano de uma criança com nanismo, é o caminho natural, saudável e efetivo para o entendimento de que todos são diferentes de alguma maneira.  A cartilha foi apresentada em uma audiência pública para a Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, representantes do MEC e do senador Romário Faria, em junho de 2018, com o apoio do senador Paulo Paim. A proposta é que os municípios conheçam o projeto, abracem a ideia e distribuam nas suas escolas.

Vélvit Ferreira Severo, designer gráfica de Rio Grande/RS, mãe de Théo Severo Huckembeck, está na linha de frente do projeto e diz que “felicidade é o nome deste momento”. Ela contou com a contribuição de um grupo muito especial para chegar até aqui – Flávia Berti Hoffmann, proprietária de uma editora de livros em Caxias do Sul, mãe de Bernardo. Kênia Maria Rio, presidente da Associação de Nanismo do Estado do Rio Janeiro/ANAERJ. Liana Hones, representante do Nanismo em Santa Catarina. Djarlles Pierote. Somos Todos Gigantes. Lilian e Vanderlei Link, de Pelotas/RS. Familiares e amigos. Pessoas que convivem cotidianamente com o nanismo, ou porque têm ou porque os filhos têm ou porque conhecem muitas pessoas que têm. Gente guerreira que, há mais de dois anos, se juntou para criar a Cartilha Escola para todos! Nanismo. Gente de luz, que faz a sua parte, neste Brasil desgovernado, onde os trabalhadores e as pessoas de bem perdem direitos a cada minuto.

Conheça este projeto e leve para seu município.

Escola para todos: Nanismo
Cartilhananismo@gmail.com
WhatsApp 53 99124.6632

#escolaparatodosnanismo
#feiradolivrofurg
#nanismo

Em 15 de abril de 2018, publiquei um texto sobre a Cartilha no meu blog. A seguir um trecho: É preciso esclarecer, informar e falar sem medo para espantar o preconceito, que está no adulto e não na criança. Vélvit Ferreira Severo, idealizadora da cartilha, diz que “as crianças são puras e veem ao mundo de forma leve e singular”. Abordar o assunto dessa maneira torna mais fácil a compreensão da necessidade do respeito às diversidades. São muitas as iniciativas que rondam esse universo. Vélvit, que atua em várias frentes, acredita que “espalhar conhecimento, acabar com a discriminação e, com isso, tornar a vida melhor para todos, tem que partir do respeito à diferença”. O projeto defende a aprovação de uma Lei Nacional de Inclusão da Cartilha nas Escolas para conscientizar, multiplicar e fazer com que as pessoas vejam o mundo de outra maneira.

Reflexos do baile neoliberal em Porto Alegre e Paris

Pelo olhar fotográfico do jornalista José Walter de Castro Alves, em Porto Alegre, e da arquiteta Flavia Boni Licht, em Paris.

“Dormindo na rua – Porto Alegre”, por José Walter de Castro Alves
“Dormindo na rua – Paris, 2019”, por Flavia Boni Licht

E pelas palavras da produtora cultural Valência Lousada, em 21 de janeiro de 2019 – “Palavras ausentes no vocabulário do atual governo: cidadania, políticas públicas, educação, igualdade, cultura, ética, miscigenação, trabalhadores, liberdade, desenvolvimento, proteção ambiental. E palavras que andam pálidas de exaustão: disciplina, armas, Deus, militarização, vagabundo, corrupção, bandido, doutrinação, agronegócio, cidadão de bem, isso daí”.

“Dormindo na rua – Porto Alegre”, por José Walter de Castro Alves
“Ruas de Paris – 2019”, de Flavia Boni Litcht

E da cantora Cida Moreira, também em 21 de janeiro de 2019 – “Tenho evitado falar do momento político, por todas as razões, a começar por respeito a mim mesma, sendo fiel às minhas decisões. Mas hoje não consegui deixar de pensar que estamos de muitas formas desesperados com o que estamos vendo acontecer. É um limbo tenebroso onde as poucas esperanças afundam dia a dia. É a fala de uma brasileira comum, mas consciente. Não me vitimizo, mas não tenho como dizer o que tem sido viver estes dias horrendos, piorados por este calor infernal que maltrata a todos. As ruas estão cheias de brasileiros maltratados e tristes. A visão cotidiana disso tudo apequena meu coração e a minha vida. Um teatro pobre, falido, mentiroso, que deixa nossa bandeira aviltada e com escarro de um cretino que não merece ter nas mãos um símbolo fundamental do nosso país e de nós todos”.

“Dormindo na rua – Porto Alegre”, por José Walter de Castro Alves
“Ruas de Paris 2019”, por Flavia Boni Licht

Constatações

Em alguns momentos, a solidão bate inexoravelmente. A independência, tão batalhada e conquistada, não é o suficiente. Precisamos do outro. Ao mesmo tempo, não queremos ser um peso para quem nos cerca ou nos cuida. Neste sentido, a convivência com a tia de 91 anos, que me criou, foi muito emocionante no final do ano. Impossível não pensar na fragilidade da condição humana. Impossível não concluir que, venha o que vier, é fundamental a convivência, a troca, o diálogo, a boa conversa, a solidariedade.

É urgente voltar a acreditar que é possível, apesar do enorme vazio e da desesperança que me cercaram em 2018 e permanecem neste início de 2019.

Fiquei especialmente à flor da pele com as chegadas e partidas, os finais e os recomeços. O velho e pesado ano de 2018 foi para a história política e social do país com todas as suas idiossincrasias, injustiças e antagonismos, deixando rastros vorazes e inquietantes. O jovem e já desgastado 2019 sinaliza tempos nada amenos. Ficamos mais intolerantes, raivosos, violentos, cheios de um ódio autorizado que se disseminou feito praga. A cultura, “que nos define e nos salva da mediocridade”, como escreveu Cláudia Laitano no artigo “A Arte Contra-Ataca” (ZH DOC, 29 e 30 de dezembro de 2018), é desprezada. Nunca imaginei ser possível acreditar mais nas armas do que na arte e na educação, o que me assusta muito. O horizonte é turvo e sombrio.

Conquistas como as que se referem às questões de gênero estão ameaçadas. A flexibilização dos papéis tradicionais, com as novas formações familiares que dão mais verdade e transparência às relações humanas, provoca medo em quem detém o poder. Melhor viver na hipocrisia do que conhecemos como “tradição, família e propriedade”, um dos bordões da ditadura militar brasileira, do que apostar na riqueza da diversidade.

Estamos mais vulneráveis, é certo.  Resta-nos, agora, a resistência. Com a arte sempre. Com ética. Com argumentos. Sem barganhas. Sem toma lá, dá cá. Com justiça. Com dignidade.

Enquanto isso…

Falo tanto em acessibilidade, mas nunca me referi aos ônibus de linha.

Falo tanto em inclusão, mas nunca mencionei o tratamento recebido em rodoviárias e nos ônibus de um modo geral.

Falo tanto em alteridade, mas nunca comentei a ausência de um olhar acolhedor nestes espaços.

Nas estações rodoviárias é um salve-se quem puder. Parece que todo mundo está a um passo de perder a viagem. No interior dos ônibus, acesso zero. Nem a tradicional perguntinha: Precisas de ajuda?

É duro reconhecer, mas tudo ainda é primário e a precariedade do cotidiano é grande.