Ausência e ressignificação no país da delicadeza perdida

No dia 5 de abril de 2015, um domingo de Páscoa, Marlene, minha irmã, com nanismo como eu, levantou asas rumo ao infinito. No dia 5 de abril de 2016 escrevi meu primeiro texto para este blog, com um título, inspirado em uma canção de Caetano Veloso, que diz muito sobre nós duas – “Dores e delícias de ser o que se é”. No dia 21 de abril de 2019, mais um domingo de Páscoa, faço aniversário. E este é meu post de número 100. As datas marcam, assim como a ausência e a saudade, que ainda trazem vestígios profundos de tristeza e fragilidade, mas também de coragem, alegria e ressignificação.

É certo que nesses quatro anos agucei minha sensibilidade e meu olhar para a condição humana, inexoravelmente complexa. Hoje entendo muito mais sobre os efeitos de perdas, afetos, respeito, cuidado com o outro e acolhimento. Entendo de parcerias e de amor, o que tenho da família, dos amigos e das crianças incríveis que me cercam, me sacodem e me renovam.

É certo que aprendo cotidianamente. Leio, ouço, observo, falo e escrevo muito. Compartilho uma vastidão de sentimentos. Recuso a radicalização. Choro. O ano de 2019 chegou sem dó, nem piedade e está exigindo muito de quem lutou, sonhou e acreditou que seria possível mudar o mundo, como eu. A esperança, às vezes, escapa pelas minhas mãos. O descaso explícito com os trabalhadores e com os aposentados, que perdem direitos a cada amanhecer, dói. Assim como dói a miséria das pessoas que andam pelas ruas arrastando suas vidas sem perspectiva, algumas refugiadas na loucura.

É fato que ando na contramão. Sempre andei. Mas o mundo ao redor mudou muito. Ficou intolerante, perverso e violento. É inegável o rastro fascista e exterminador que se espalha pelo país para nos amedrontar. É inegável a autorização da barbárie quando o chefe maior posa com gestos de arma. É inegável o desmonte da educação e o desconhecimento das condições de vida das famílias de baixa renda quando a proposta é que as crianças fiquem em casa em vez de ir para a escola. É inegável o fazer e o desfazer, a ordem e a contra ordem, o fascínio absurdo pelas manifestações irresponsáveis nas redes sociais. É inegável que os neoliberais têm muito medo da democracia, do pensamento libertário, de um povo que priorize a dignidade. O bem estar social não lhes interessa porque ainda acham que estão na casa grande e precisam da senzala.

Sobre o medo de um futuro que parecia tão nebuloso, Marlene e eu falamos muito em nossas conversas entre fevereiro e março de 2015, que em nenhum momento imaginei que seriam nossas últimas reflexões partilhadas. Conversávamos sobre tudo. Queríamos entender por que a diversidade de pensamento e comportamento era tão recusada – as tantas vozes dissonantes que buscavam pluralidade, igualdade de direitos, inclusão, acessibilidade, educação plena, cidadania. Nossos pressentimentos não eram bons, mas jamais pensamos em um Brasil que poderia chicotear e matar. E não acolher sua gente.

Hoje, nesses dias sombrios no país da delicadeza perdida, penso que efetivamente necessitamos sair das bolhas que nos sufocam e isolam. Recusar a polarização, as provocações e os discursos de ódio. Não entrar no jogo imposto pelo inimigo para nos dividir e fragilizar e, sim, buscar a união. Para além da banca de negociações medíocre e do toma lá, dá cá da política praticada hoje no Brasil em todas as esferas, é fundamental respeitar as divergências e lutar por um bem maior, a dignidade de cada um de nós.

Não é pesadelo. É realidade

Não, não é um pesadelo. É o que é. Sem panos quentes. Na dura realidade de um país mergulhado no ódio, a insensatez dos inescrupulosos não dá trégua. A violência está autorizada, com passaporte carimbado por quem comanda a nação. Perdemos o sono. E está difícil sonhar.

Estamos em alerta. Acordados e de olhos arregalados diante das atitudes torpes, irresponsáveis, mesquinhas e machistas, que se tornaram cotidianas no país. Atitudes que humilham, ofendem, roubam nossos direitos e nos intimidam, sem o mínimo resquício de humanidade e respeito. O feminicídio aumenta. Pessoas com deficiência rejeitadas e ameaçadas de perder a lei que as protegem. A população LGBT condenada pelo conservadorismo estúpido. Os negros e os índios hostilizados. A educação, que considero um dos principais compromissos de um governo responsável, sem régua e compasso, ao sabor da ineficiência dos gestores.

A escancarada apologia da tortura e a supressão de direitos básicos mostram a cara de um Brasil que desconheço e que me assusta ao carregar uma brutal negação das conquistas de todos nós – a diversidade, as lutas das minorias, a democracia. O objetivo é empurrar toda pessoa que pense diferente ou apresente alguma diferença (física, mental, intelectual, racial, de comportamento) para a invisibilidade, o esquecimento, a não participação. Para uma espécie de limbo onde as vozes são apagadas. A amarga discriminação imposta deriva da construção de um país e de uma ideia de normalidade sem fundamento algum.

Tempos sombrios

A realidade é cruel e não dá trégua. No Planalto Central, um Congresso formado por uma maioria inescrupulosa, que se vende com facilidade, decide os destinos do país com apetite voraz. Todos voltados para seus umbigos ambiciosos. Bilhões escorrem por mãos desprezíveis, passam por vias sórdidas e recheiam os bolsos de políticos de carreira e de empresários de plantão, prontos para garantir o lucro acima de qualquer coisa e não perder nada. Tudo é negociado. O poder, os cargos, as regalias, o silêncio, os apoios, as conveniências. Enquanto isso, trabalhadores e aposentados são o alvo do momento, apontados como os responsáveis pela crise da previdência social. Não se fala da sonegação secular das grandes empresas. A solução? Encolher direitos trabalhistas, salários e gastos sociais, penalizando ainda mais os que já têm muito pouco. Mas os políticos e a elite empresarial garantem que tudo é feito por uma causa nobre: Alinhar os descaminhos do Brasil e apoiar um governo que, ironicamente, não poupa esforços para privilegiar os militares e faz agrados para manter o judiciário sob sua guarda. O povo? Que vá trabalhar!

Tempos de desencanto

Quando comecei a escrever neste blog – com a proposta de refletir sobre inclusão, acessibilidade, preconceito, direitos humanos e os limites de uma sociedade despreparada para acolher a diferença – jamais pensei que teria pela frente tempos tão difíceis. Hoje, diante do desmonte que aí está e diante de um governo que acha que a Lei de Acessibilidade e Inclusão é uma bobagem, falar sobre estas questões se tornou ainda mais necessário. É fundamental reagir.

Tempos de não deixar passar

Reafirmo que, quando falo de acessibilidade e inclusão, falo de cidadania, respeito, direitos sociais básicos, independência, liberdade, acolhimento. Ao rotular ou desprezar as diferenças, o governo anula a singularidade que torna os indivíduos únicos. Anula a criatividade. Anula a democracia. Anula o humano. Enquanto os defensores dessa casta violenta, que se julga acima de qualquer suspeita, insistirem em jogar para as margens os que veem como imperfeitos, nossos caminhos permanecerão minados pela intolerância. Por isso, mais do que nunca, vivemos tempos de resistência, de mostrar o que somos e a que viemos. É a soma das nossas tantas imperfeições que nos faz humanos, inquietos, lutadores, criativos e utópicos.

Não queremos apenas atrapalhar o trânsito. Queremos parar o trânsito para que nos olhem como pessoas com direito à vida plena. Queremos autoridades que efetivamente nos representem, nos reconheçam e respeitem nossos sentimentos. Um governo que vê nos 80 tiros disparados pelo Exército contra o carro de uma família a caminho de um chá de bebê apenas um “lamentável incidente” não me representa. Que seres são esses que não se abalam com tamanha tragédia e seguem a brincar de fazer e desfazer pelas redes sociais, submissos aos caprichos do país mais poderoso, mais cruel e mais invasivo do planeta?

Tempo de Saudade

Dia desses me peguei cantando “Só cai quem voa”, do Nico Nicolaiewsky, canção que gosto demais. Marlene Teixeira, minha irmã, e eu ouvíamos muito, antes e depois da morte do Nico. Senti uma saudade louca dos dois e redescobri o texto abaixo, que escrevi em abril de 2014.

 “Sou poeta analfabeto, sou maluco, sou profeta, sou palhaço e sou cantor”

Conheci Nico Nicolaiewsky nos anos 1970. Éramos um bando de jovens inquietos, movidos pela arte, e viramos “tietes” de um grupo formado por Chaminé, Sílvio Marques, Gata, depois Pezão, e Nico. Piano, baixo, violão, bateria, às vezes acordeon. Chamava-se “Saracura”. Músicos, compositores, cantores, eles criavam e recriavam canções, levando para o palco talento, inventividade, alegria, o que nos encantava. Não perdíamos nenhum show. Claudio Levitan escreveu na época: “A música do Saracura são sons que vagueiam no cotidiano”. A banda foi considerada a melhor do ano de 1979!

Reservado, parecendo tímido, Nico se transformava no palco. Era o seu lugar! Aos poucos, percebemos que estávamos diante de um grande artista que, ao piano ou com o acordeon, sempre trazia uma novidade, emocionava e fazia rir com sua interpretação teatralizada das canções. “O Ébrio”, de Vicente Celestino, era uma delas, assim como o “Tango da Mãe”, do Levitan. Aí, em um dado instante, a banda se desfez. Lamentamos, vivemos a tristeza necessária e cada um seguiu seu caminho.

Não demorou muito, talvez em meados dos anos 1980, redescobrimos Nico em um pequeno show, quase um esquete, absolutamente sensacional, em um micropalco, no bar do IAB, ao lado de Claudio Levitan e Hique Gomes. Chamava-se “Tangos e Tragédias”. Criavam e reinventavam canções através de interpretações incríveis, líricas, irônicas, românticas, nostálgicas. Do cômico ao trágico, cada apresentação mostrava muito mais do que excelência musical. Naquele espaço minúsculo estavam artistas genuínos que pareciam ter saído do teatro de rua, do meio dos trovadores, da commedia dell’arte, do circo, das serestas, das bandas de interior, dos filmes de Chaplin, misturados ao novo. Como artesãos, teciam as mambembices maravilhosas do mundo da arte, especialmente da música, transitando entre o popular, o erudito, o cafona ou brega, o teatro, o cinema, a ópera, a dança, com leveza e paixão.

Engraçados e sérios, Nico e Hique sabiam como prender o público por todos os lados – pela qualidade da música que faziam, pelas performances inesperadas, pelo figurino, pela maquiagem, pela postura, ora sisuda, ora meio clown, ora meio seresteira, ora operística, um tanto românticos, outro tanto irônicos, singelos e grandiosos, com uma cumplicidade e um jeito de quem definitivamente estava ali para brincar, levando a arte que faziam com muita seriedade e prazer.

Tangos e Tragédias virou um fenômeno jamais visto no Rio Grande do Sul. Atravessou fronteiras. Em Porto Alegre, a consagrada temporada de janeiro no Theatro São Pedro era um frescor no verão escaldante da cidade. Mas eles jamais se entregaram ao sucesso fácil. Intrépidos e irreverentes, sempre garimpavam uma novidade para o espetáculo e, paralelamente, dedicavam-se a projetos artísticos individuais.

Foi assim que depois de três discos solo, em meio a apresentações Brasil afora, Nico mais uma vez nos surpreendeu com o show “Música de Camelô”. Revelou por inteiro sua alma de cantor-poeta-artista popular, capaz de criar, sem preconceitos. “Sensível, emotivo e poético, forte e rápido ao transfigurar a realidade numa gargalhada, com um riso que acariciava nossa dor e nos transportava para a vida”, na bela definição de Claudio Levitan.  (Lelei – 16 de abril de 2014)

Nico nos deixou em 7 de fevereiro de 2014, dia de uma profunda tristeza em que Marlene e eu revisitamos as suas criações e cantamos muito.

Marlene partiu em 5 de abril de 2015, dia em que fiquei dilacerada, sem chão. Mas a arte está aí para nos salvar, nos fazer tirar os pés do chão, voar, cair, levantar, voar – “Pois só cai quem voa / só quem tira os pés do chão”.