Leituras – entre a vida que se impõe e a vida possível

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A vida que se impõe

Djamila Ribeiro abre o livro Quem tem medo do feminismo negro? (Cia das Letras, 2018) com um instigante ensaio sobre a sua vida. Ao se referir à infância e à adolescência, deixa evidente o silenciamento que sempre sofreu pela cor e pela condição social. Silêncio que só rompeu quando, aos 18 anos, foi trabalhar na Casa de Cultura da Mulher Negra, organização não governamental que possibilitou que ela estudasse temas relacionados a gênero e raça e tomasse contato com escritoras que a fizeram ter orgulho das suas raízes, como as ativistas sociais norte-americanas bell hooks (Gloria Jean Watkins), Alice Walker e Toni Morrison e a escritora brasileira Conceição Evaristo. A relação com a militância teve início bem mais cedo, quando ainda era criança, por influência do pai, estivador, militante e comunista. Um homem culto, mesmo com pouco estudo formal.

A caminhada de Djamila foi contra o que seria natural na sua condição. Em 2012 graduou-se em Filosofia e em 2015 tornou-se mestre em Filosofia Política, com ênfase em Teoria Feminista pela Universidade Federal de São Paulo/Unifesp. Sua tese compara Simone de Beauvoir e Judith Butler ao feminismo negro. Filósofa, feminista, acadêmica e pesquisadora, Djamila hoje é conhecida no Brasil inteiro. Especialmente por seu ativismo e forte presença no ambiente digital, onde escreve sobre relações raciais e de gênero e feminismo. É colunista online da Carta Capital, Blogueiras Negras e Revista Azmina. Para ela, é fundamental apropriar-se da internet como ferramenta na militância das mulheres negras porque a “mídia hegemônica costuma invisibilizá-las”.

Ludmila foi secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania na cidade de São Paulo na gestão de Fernando Haddad. É presença marcante e requisitada em eventos internacionais que tratam das questões que defende. E se posiciona sempre, apesar dos riscos. Para ela, o assassinato chocante da vereadora Marielle Franco coloca em risco a vida das mulheres negras ativistas do Brasil, o que provoca medo, não desistência, nem covardia, porque não é possível cessar esta luta.

É autora também do livro O que é lugar de fala?(2017), que aborda a urgência pela quebra dos silêncios instituídos, trazendo para o conhecimento do público produções intelectuais de mulheres negras ao longo da nossa história. Escreveu ainda o prefácio de Mulheres, raça e classe, da filósofa negra e feminista Angela Davis. Sua escrita e publicações pontuam o movimento negro e o movimento feminista negro no Brasil. Coordena a edição da coleção Feminismos Plurais, da editora Letramento no Brasil, com títulos como O racismo recreativo, onde o autor Adilson Moreira, doutor em Direito pela Universidade de Harvard, discute os nomes pejorativos dado a negros no Brasil, sob o disfarce da “brincadeira”. Para Ludmila, “resistimos, porque não temos outra opção, mas não dá para negar que estamos vivendo um período muito preocupante em relação à nossa segurança”. Segundo ela, o Brasil é o país que mais mata ativistas de direitos humanos no mundo.

A vida possível

A vida possível, a partir de um ambiente na maioria das vezes hostil e com poucas perspectivas. Uma vida que nasce marcada, em um bairro de periferia, empobrecido, com uma sentença da mãe: Se a sorte não te sorrir até os 45 anos, só vai te restar o destino das pessoas medíocres – “Não, não abaixe a cabeça, não desvie o olhar para as pontas dos seus sapatos gastos. Não há do que se envergonhar, os simples são a maioria na Terra”.

Uma infância de perdas, traumas familiares, limitações sociais, lugares marcados. Não avance – “Você é só o filho do limpador de janelas, não devia ter esperado nada diferente”. Não há heróis, nem vilões. Não há esperança. Há o cotidiano em um ambiente de pobreza e limites já traçados – “Minha mãe e meu irmão, Tom, não se cansavam desse negócio de dividir a humanidade em duas partes incomensuravelmente díspares: uma grande maioria medíocre dominada por poucos privilegiados geniais”. Há a necessidade de sobreviver. Há vida real, que pulsa e aponta para o amadurecimento em meio a possível ascensão no submundo. É o que está dado.

Esta é a melancólica trajetória de Vico, que perde o pai e a mãe e vê o irmão ir embora, e seu encontro definitivo com o turco Farik no denso romance Cavalos e Armas (Pubblicato Editora, 2018) do jornalista e escritor Gustavo Machado. É uma história dura, feita de humanidade. Feita de gente que nasceu e vive no andar de baixo, onde toca a vida, do jeito possível – “Passar para o outro lado, passar para o outro andar. É uma ilusão. Sua mãe estava certa numa coisa apenas: dividir a vida em duas partes. Mas se você nasce em uma delas, nunca passa para a outra, por mais que tente, por mais que trabalhe. É como as coisas são”. Um romance comovente sobre a complexa condição humana.

Gustavo Machado também escreveu Sob o Céu de Agosto, já traduzido na Alemanha, e Marcha de Inverno.

Autor: Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

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