O que somos e porque somos

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“Mas afinal, o que eu tenho? O que é isso que me faz ser quem eu sou? Uma coisa é certa: eu sou diferente e é essa diferença que me faz único. Eu não preciso ser consertado, eu não preciso ser igual a você”.

Os questionamentos e as reflexões trazidas pelo documentário Meu Nome É Daniel, dirigido e protagonizado por Daniel Gonçalves, 35 anos, deixam evidente o quanto o viés é a normalidade. As pessoas com deficiência enfrentam uma exigência de superação para serem devidamente aceitas e incorporadas em um meio social muitas vezes apático, que não vê a sua diferença. Ou que só percebe quando há um esforço de normalização.

O filme participou da sexta edição do Cine Caramelo (cinecaramelo.com.br) – Festival de Cinema Infanto-Juvenil que aborda questões relacionadas à acessibilidade e inclusão – em Porto Alegre, com a presença do diretor, homenageado no evento. Premiado no Festival Internacional de Cinema de Cartagena, na Colômbia, Meu Nome É Daniel está qualificado para disputar uma indicação ao Oscar. A previsão de estreia no circuito brasileiro é em agosto.

Ao mostrar a sua trajetória, a partir de uma deficiência rara, nunca diagnosticada, que afeta a coordenação motora, o diretor recusa o lugar-comum. Essa é a primeira vez, pelo menos no Brasil, que uma pessoa com deficiência faz um filme sobre sua vida. Na maioria das vezes, as pessoas com deficiência são retratadas por quem não tem uma deficiência. Para o diretor, “assumir esse lugar de fala é uma coisa muito importante”.

Segundo Daniel, o que me remete para muitos textos já publicados aqui neste blog, as pessoas com deficiência costumam ser representadas sob dois prismas. Ou como coitadas e incapazes ou, no outro extremo, como heroínas. Ao mitificar o personagem, diz o diretor, a sociedade comete um grande equívoco porque faz dele uma figura inalcançável. Por isso, procurou evitar esse tratamento no filme. Na cena em que tenta fritar um ovo, dispensou a música de fundo para não estimular uma emoção fácil. Na montagem, deixou de fora depoimentos de pessoas que não eram da família e que o tratavam como herói. “Minha vida não foi mais difícil do que a de uma pessoa sem deficiência. Acho que foi diferente. De certa forma, se todos tivessem acesso às coisas que eu tive, provavelmente também estariam no lugar em que eu estou ou, pelo menos, fora desse lugar invisível, onde normalmente as pessoas com deficiência estão”, ponderou.

Para a escritora gaúcha Lau Patrón, que participou de um bate-papo sobre inclusão com o diretor em Porto Alegre, as pessoas com deficiência aparecem muito pouco nas produções culturais – ainda mais se considerarmos que 24% da população brasileira tem algum tipo de deficiência. Lau é publicitária, mãe de João, sete anos, que tem a rara Síndrome Hemolítico Urêmica Atípica, e autora do livro “71 Leões” (Belas Letras, 2018), história sobre maternidade, dor e renascimento. Para ela, os filmes abusam dos clichês. “A pessoa vira o exemplo para os outros se sentirem bem com as próprias vidas. Mandam um vídeo no grupo do WhatsApp de uma menina, que não tem uma das pernas, correndo. E colocam: Se ela consegue, qual é a tua desculpa para não correr hoje?”. “Nossas vidas não podem ser instrumento para os outros se sentirem de bem com a vida deles. Isso é muito cruel”, diz Lau.

Segundo Lau, nem as mães de pessoas com deficiência escapam do lugar-comum nos roteiros. São normalmente retratadas como a “mãe guerreira”, que abdica de tudo. A expectativa é de que ela viva no sofrimento e, quando consegue sair dessa situação, acaba julgada, afirma a escritora. Daniel e Lau acreditam que o caminho para mudar esse cenário de estereótipos começa na concepção da obra e na formação da equipe, que deve priorizar a inclusão e a diversidade. “A gente precisa trazer essas pessoas para dentro, não tem mudança que não passe por isso. Diversidade é nossa força, não nossa fraqueza. Precisa ter diálogo para quebrar essa estúpida ideia do padrão que gera uma quantidade imensa de pessoas infelizes, que tentam se encaixar em caixinhas”.

Autor: Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

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