Que outro jeito? Eu vou!

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Uma crônica escrita em junho de 1987, que me parece muito atual.

Nem tudo estava tão certo naquela tarde fria aparentemente serena e azul. Qualquer coisa mexia e remexia por dentro, feito um bicho que se debate dentro de um vidro, numa última tentativa de liberdade. Feito um pé num sapato apertado. Um cisco no olho. Formigamento.

Andava de um lado para o outro. Estonteada. Perdeu a conta das vezes em que virou e revirou o disco, que nem ouvia, no aparelho de som. Roía e olhava as unhas. Nervosamente. Entre uma tentativa e outra de respirar forte. Na realidade, nada estava fora de lugar. As vinte e quatro horas do dia corriam normais. Precisas. Alterar o ritmo do relógio não seria mesmo uma solução. Que outro jeito?

Lavou o rosto mais uma vez. Examinou-se mais alguns segundos no espelho. Tanto cansaço. Na pele, nos olhos, na vida. Sacudiu a cabeça, os ombros, o pó. Passou um batom rápido. Pronto. Se tem que ser, que seja! Pegou a bolsa. Verificou se a casa estava bem fechada. Olhou o gás. Desligou o toca-disco e foi caminhando corredor afora em direção à porta da rua. Mas havia outras portas. Instintivamente, cantarolou baixinho a música “Gothan City”, de Jards Macalé e Capinam, mais dois malditos que ousavam desafiar o coro dos contentes, – “Cuidado, há um morcego na porta principal / Cuidado, há um abismo na portal principal”.

Para além das portas, cruzando a rua serena e azul, mexida e remexida, no centro do burburinho, mais parecia um ser em contramão. Ia, enquanto todos vinham. Ou paravam no meio do caminho. Instintivamente Lembrou o poema de Carlos Drummond de Andrade – “no meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra”. Seguia. E se debatia. Já não apenas interiormente. Agora tudo era muito visível. Cabeça, tronco e membros. Pernas ao infinito. Ação e reação. A certeza de que nada estava certo. Muito menos ela que esperneava exausta entre os braços cruzados, apontando para o morcego na porta principal.

A rua parecia não ter fim. E ela andava, repetindo como um mantra: Se tem que ser, que seja agora! O tempo esgotou. Instintivamente Repetiu inúmeras vezes os versos de “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso – “Eu vou / Por que não, por que não? / Por que não, por que não? Por que não, por que não?”. E foi!

Autor: Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

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