Não somos mais uma nação?

A notícia de que moradores do bairro Cabo Branco, de João Pessoa, querem proibir pessoas com deficiência de frequentar a praia para não tirar “a beleza de um bairro nobre da cidade” – é estarrecedora. Que elite prega tal segregação? A da raça pura do nazismo na Alemanha? A do fascismo de Mussolini na Itália? A dos escravocratas do Brasil colonial, que traziam negros da África para servi-los? A dos saudosos da ditadura que matou e torturou? A do poder econômico, achando que tudo pode porque detém o dinheiro que circula no país? Dinheiro que é fruto do trabalho da maioria da população, muitas vezes explorada. Dinheiro que é sonegado. Dinheiro que é desviado.

O que seria desta casta superior não fosse o suor de quem está na base da pirâmide?

Pelo que sei, as areias e o mar são públicos. “Não fazem diferença de classe social, cor, etnia, origem, gênero. Inclusive os animais são bem-vindos”, como afirmou a vereadora Helena Holanda (PP), uma das autoras do projeto “Praia Acessível”. Projeto que provocou a ira dos endinheirados, chiques, bem vestidos e mal educados frequentadores do local. A ação inclusiva leva para a praia aos sábados pessoas com deficiência para participar de atividades musicais e esportivas na orla. Os moradores incomodados, segundo a vereadora, pediram a retirada do projeto porque “não estaria trazendo um ‘quadro belo’ para a vizinhança”. Helena reagiu e afirmou que vai ampliar o programa, “com o aval da prefeitura de João Pessoa, e levar ao Ministério Público a denúncia de discriminação de moradores”.

O que seria um ‘quadro belo’ para tais pessoas?

É fato. O ambiente social e político da contemporaneidade naturalizou a barbárie. A classe dominante gargalha e consome, enquanto a Amazônia arde. A classe política se acovarda no parlamento, enquanto o Brasil é humilhado. E o governo segue desgovernando. A educação foi abandonada. A ciência e o conhecimento viraram crimes. A previdência social começou a ser destruída. E a produção artística, feita por vagabundos que não querem trabalhar, perdeu patrocínios e apoios.

O preconceito e todo tipo de discriminação recrudesceram no Brasil, e no mundo, neste ano de 2019. Minha experiência, minhas andanças pelas ruas, meus ouvidos atentos, minhas leituras e minha sensibilidade confirmam. Vivemos tempos nada gentis por aqui. Nada acolhedores. Nada empáticos. Tempos de soberba. Tempos de prepotência. Tempos de descaso com o outro. Estamos todos fora dos armários, desvairados, sem limites, nos engalfinhando de um jeito assustador.

É o que nos sobra quando a violência é autorizada e apoiada por quem detém o poder. E insuflada por seus asseclas.

Não somos mais uma nação. Na pátria amada Brasil de hoje mais vale a sordidez, o deboche, as conversinhas hipócritas e banais nas redes, as notícias falsas, a provocação, a polarização. Enquanto o fogo queima o pulmão do mundo e a fumaça se espalha, sufoca, escurece, o país se desumaniza e é manchete que nos envergonha no mundo inteiro. E seguimos nos debatendo. Até quando? Quem se importa?

Recomendo a leitura do texto de Tarso Genro no Sul21 –

https://www.sul21.com.br/colunas/tarso-genro/2019/08/bolsonaro-sai-da-animalidade-e-entra-na-historia/

E a última coluna assinada por Fernanda Young em O Globo –

https://oglobo.globo.com/cultura/em-sua-ultima-coluna-fernanda-young-sentencia-cafonice-detesta-arte-23903168?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar&fbclid=IwAR0zaV1C4cDQuMZDrL_TFYbYFURu53QfAOQ8Zrb5SavKoeWmiJPIsevRQ

Amaro Abreu na Bahia com Vida Paralela e Habitat

Retomo aqui uma história de 2016, quando encontrei, por acaso, Amaro Abreu no centro de Porto Alegre e paramos para um café. Ele contou que estava finalizando um livro e me convidou para escrever um texto. Fiquei surpresa, emocionada e feliz. O pedido vinha de um cara que conheci criança no início dos anos 1990. Já não era mais uma criança, claro, mas os olhos e o sorriso ainda guardavam o brilho da infância. Aquela infância que não abandona quem segue brincando através da arte.

Descobri que Amaro já havia desvendado um vasto mundo. Articulado, criativo, observador, levou seus olhos para outras paragens. Bisbilhotou, desenhou, pintou, grafitou. Rabiscou a vida diversa que pulsa em todo lugar com seus lápis, tintas, sonhos, sprays, emoções, nanquim, fantasias, aquarelas e desejos. Desvendou novos cenários. Compartilhou outros jeitos de viver e foi deixando em muros e painéis suas criaturas inusitadas.

Naquele encontro disse que havia lido alguns textos do meu blog e gostado muito. Quando me conectei com suas criações, entendi o que nos sintonizava. As criaturas que Amaro vai desenhando e espalhando por aí fazem parte de um universo vasto e inquieto.

Amaro Abreu é um artista urbano, grafiteiro, aquarelista. Está apresentando no Instituto Goethe, em Salvador/Bahia, a exposição “Vida Paralela” com o lançamento do livro “Habitat” (Libretos, Porto Alegre, 2016). A seguir, o texto que escrevi para o livro.

O Habitat de Amaro Abreu

Das mãos de Amaro Abreu nascem figuras que dizem muito da vida vertiginosa que levamos, das raízes que nos amparam, das ilhas que formamos para nos proteger, da diferença e da fragilidade que desacomodam nossas certezas, da diversidade que nos constitui como sujeitos únicos, das luzes e das sombras do cotidiano, da liberdade que buscamos.

As criaturas que Amaro vai desenhando e espalhando por aí desconsertam, inquietam, alegram, preenchem, fazem rir, emocionam. Coloridas e disformes, delicadas e fortes, às vezes são incrivelmente líricas, pura suavidade e leveza, e nos convidam a bailar. Em outras, surgem como fortalezas que guardam tesouros humanos preciosos, provocando um pensar incessante. Fazem parte de um vasto universo fora da ordem, que sempre me fez refletir, falar e escrever, hoje quase que cotidianamente, na tentativa de entender os humanos e seu Habitat.

Que segredos guardam esses seres do Habitat de Amaro, ao mesmo tempo circenses e melancólicos, brutos e lúdicos, enraizados e soltos, frágeis e fortes, nesse misto de tristeza e alegria? Saltitantes, voadores, lisérgicos, à beira do abismo, amordaçados, à espreita, olhos arregalados, despedaçados e inteiros, ingênuos e intrépidos, suaves, carnavalescos, genuínos na sua adorável imperfeição, o que querem dizer assim tão inconstantes?

Dizem de nós, seres fragmentados, assustados, urgentes, às vezes dilacerados, felizes e infelizes que somos. Humanos?

Dizem dos outros que nos habitam. Revelam nossas tantas faces, nossa polaridade, nossos sentimentos divididos diante do mundo multifacetado, encantador e cruel, que descobrimos, exploramos, construímos, destruímos, reconstruímos. Habitável?

Dizem da frágil condição humana e das vidas paralelas que, estranhamente, tentamos equilibrar.

Dizem de nós, tão coletivos e tão solitários nessa caminhada frenética em busca de um final feliz.

Ao trabalho, então!

O que me desencanta ainda mais nesses tempos obscuros, de desmonte do que é voltado para a dignidade humana, é perceber que mesmo algumas pessoas que se intitulam democratas não conseguem respeitar o trabalhador. Os discursos libertários em nome dos cidadãos ficam no plano teórico quando se trata de mostrar serviço a qualquer custo. É produção, renda, dinheiro, exploração, lucro, aparência. Já vi muito e sigo percebendo essa tamanha distorção. Na prática, trabalha-se hoje muito mais do que as horas estipuladas, se é que ainda se estipulam horário e função.

Aliás, os trabalhadores, nesta era insana de celulares e rede social que não têm limites, devem estar sempre disponíveis porque, inevitavelmente, serão convocados. A qualquer hora do dia ou da noite, feriados e finais de semana. Isto porque tudo, mesmo a ação mais banal e óbvia, corriqueira, precisa estar na rede. Todos precisam se mostrar. Para quem mesmo? Dane-se a vida pessoal, o ócio necessário para a criação, o afastamento saudável para renovar energias e olhares.

“A tecnologia nos fará trabalhar menos.” Quem foi mesmo que disse isso?

Os discursos, tão sociais e politicamente corretos, foram esquecidos. A empresa, o executivo, o chefe ou quem quer que seja, precisa garantir poder e status. Tu serás acionado, sim, nas vinte e quatro horas disponíveis porque a ansiedade pela ansiedade de quem te banca, empresários, patrões, chefias, e a tua própria, já não reconhece outra forma de gerir um negócio, de trabalhar.

Poucos conseguem admitir que, em muitos casos, o que poderia ser feito hoje pode ficar para amanhã. Nada vai se perder. Reside aí uma grande dificuldade de ver o subjetivo que há em qualquer ação de trabalho, uma questão humana por excelência. E volto à nossa incapacidade de olhar para o outro, de sair do burocrático, da norma, e reinventar o fazer cotidiano.

Ao trabalho, então! Mesmo com os salários vergonhosamente atrasados e reduzidos, o que não importa. Afinal, os governos – pobres governos! – têm sérios problemas. E por conta desses problemas, sempre os mesmos, conseguem passar quatro anos se lamentando, de um jeito heroico, claro – “estamos fazendo o possível para colocar as contas em dia”.

Definitivamente, não entendo por que os políticos ainda se dispõem a concorrer para um cargo público. É muito sacrifício, minha gente! Mas certamente seus salários polpudos não atrasam. Está certo. Vereadores, deputados, senadores e seus comparsas precisam ser bem remunerados para justificar tanta dedicação!

Um grito preso na garganta

Os anos 1980 ficaram conhecidos como a década perdida. Saímos de uma ditadura cruel, que perseguiu, censurou, torturou e matou sem piedade, e mergulhamos em uma “abertura lenta, gradual e irrestrita” proposta pelo ditador Ernesto Geisel. Panos quentes no passado autoritário. Melhor não falar. Melhor, ainda, negar. Mas uma grande pressão popular gerou o movimento Diretas Já e o que se conseguiu foi uma esfarrapada eleição indireta, com Tancredo Neves na linha de frente, que adoeceu e não chegou a assumir. Morreu em 21 de abril de 1985. Seu vice José Sarney, que sempre estava ao lado do poder, não importava de onde viesse, articulando e negociando, assumiu a presidência. Dívida externa infinita, inflação altíssima, economia conturbada. E vieram os planos para salvar o país – Cruzado, Bresser, Verão. Até que apareceu o milagroso Caçador de Marajás, Fernando Collor de Melo, capa da Revista Veja. O discurso, moralista e salvador, prometia colocar ordem na casa. E como gostamos de acreditar no conto da carochinha, elegemos o senhor da caça. Deu no que deu!

É mais ou menos desta época a crônica que segue.

Um grito preso na garganta

A noite avança inquietante. Talvez porque seja domingo e as ruas estão quase desertas. Faz frio e a cidade se recolheu cedo. Nem os bêbados cruzam na sua confusão de pernas em busca de um porto seguro. Nem os contumazes frequentadores dos bares da madrugada, em busca de um papo para disfarçar a solidão.

A noite avança misteriosa. Quase sinistra no silêncio pesado das suas esquinas vazias. Os poucos sinais de vida despontam de algumas janelas iluminadas e da minha respiração tensa, que nunca senti tão forte. Caminho espreitando os tantos espaços em minha volta. Medrosamente. É um tempo de guerra, fria, surda, contida, dolorosa. E tenho um grito preso na garganta, que esperava se diluísse com os novos tempos. Mas não! Segue preso e quase me sufoca.

E lá vem a lembrança de uma canção, de Caetano Veloso, mais uma – “eu tenho um beijo preso na garganta / eu tenho um jeito de quem não se espanta / eu tenho corações fora do peito”.

A esperança alimentou em mim a certeza de mudança, mas os novos tempos chegaram velhos e corrompidos. Aninharam-se na mesma cama do poder prostituído e se encolheram diante do desafio de jogar o jogo da verdade e recomeçar fora dos alicerces que sustentavam a corrupção e a mediocridade.

A noite avança escura e triste. E eu caminho apreensiva, como se um batalhão de fantasmas me perseguisse. Não os adoráveis fantasmas da fantasia infantil. Os fantasmas da vida real, que impediram a mudança. E agora querem impedir que se questione, se fale, se diga não. Querem nos calar, instalados solidamente na farsa que insistem em chamar de democracia.

A noite avança inexoravelmente. E a manhã que não chega nunca!