Nanismo é uma condição física, não moral

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Nanismo é uma condição física. Está relacionado à altura de um indivíduo, bem menor que a média, o que a genética e a medicina explicam muito bem. Portanto, não é um adjetivo. Muito menos uma palavra para depreciar ou julgar comportamentos, falas, posicionamentos ou uma expressão para acusar alguém por atitude mesquinha, medíocre, vulgar. Logo, não serve para definir a falta de moral que domina o Brasil. Não sou dada a radicalismos, nem apegada ao politicamente correto, mas às vezes alguns usos da palavra incomodam muito. Ora! Falta de moral não tem nada a ver com nanismo. Pode relacionar-se à falta de caráter, de limites, de respeito, enfim. Ao nanismo, não!

E mais uma vez reafirmo: Nada sobre nós sem nós!

Minha amiga Carla Abreu escreveu em um texto maravilhoso que “a pessoa com deficiência tem uma forma de viver diversa da padronizada, com demandas e enfrentamentos diferentes, mas nós não somos nem piores e nem melhores que outras pessoas, nem coitados e nem super-heróis, apenas pessoas que têm um modo de estar no mundo que, em algumas situações, é diferente da maioria”.

Aos desavisados, que desconhecem a força da palavra, recomendo darem uma olhadinha na incrível Cartilha Escola para Todos! Nanismo, que tem como objetivo primeiro uma sociedade inclusiva e justa e já está disponível para as escolas e instituições que tiverem interesse. A primeira edição, criada por um grupo liderado pela designer Vélvit Ferreira Severo, de Rio Grande/RS, mostra que o respeito às diferenças é fundamental para que cada um viva bem e em harmonia com a sua singularidade. Trabalhar a conscientização na escola, de forma simples e lúdica, a partir do cotidiano de uma criança com nanismo, é o caminho natural, saudável e efetivo para o entendimento de que todos são diferentes de alguma maneira.

Não podemos deixar que a palavra se transforme em sinônimo do que é considerado indigno, torpe, pouco e seja usada de forma pejorativa. Já escrevi sobre o assunto outras vezes, mas nunca é demais voltar ao tema quando depreciam a nossa condição de um jeito tão irresponsável. É o caso também de expressões como “salário com perna de anão” (referência ao salário considerado baixo), “anão moral” (Ciro Gomes ao se referir a Michel Temer, que chamou também de ‘traidor e parceiro íntimo de tudo que não presta”), “anão diplomático” (porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, ao reagir às críticas do Itamaraty que condenou o uso desproporcional da força militar por Israel na faixa de Gaza, em julho de 2014). E, ainda, a lamentável expressão “anões do orçamento” (nome dado a um grupo de deputados no final dos anos 1980, início dos 90, envolvidos em fraudes com recursos do Orçamento da União, investigados por uma CPI, parlamentares sem repercussão nacional, ou seja, ‘anões do poder’).

E tem muito mais, mas fico por aqui. Já está de bom tamanho a minha indignação.

Autor: Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

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