Rotas perigosas apontam para o caos

 

Como se não bastasse tudo o que estamos vivendo, agora querem nos proibir de ajudar as pessoas na rua. A dica é: dar emprego e não esmola. Não entendi a mensagem. Até porque não tenho condições de oferecer trabalho a quem me aborda pela cidade. Seria maravilhoso se eu pudesse! Então, se tenho dinheiro, dou. Se estiver próxima de um supermercado ou bar, compro algo que ajude a amenizar a fome da pessoa que me pede. O aumento da pobreza é um fato indiscutível. A miséria nunca foi tão cruel, pelo menos para meus olhos sensíveis, que já viram tanto. Não há como negar. E ninguém pode me impedir de tentar amenizar a fome de um ser humano como eu.

Não há como esconder o que está escancarado. E nenhuma maquiagem vai disfarçar o óbvio. A precarização do trabalho, da educação pública, da saúde e das políticas sociais é um fato. Teremos mais pobres, mais moradores de rua, mais papeleiros e mais indivíduos vulneráveis emocionalmente. Chamá-los simplesmente de vagabundos é negar a alteridade, é não ver o outro. O problema é muito mais grave e necessita de análise profunda, sem o banal viés classista ou político-partidário. A sociedade é responsável, sim. Somos todos responsáveis. E os políticos muito bem instalados e remunerados precisam ter respostas e soluções dignas para situações extremas como estas.

Afinal, é comum os governos oferecerem ajuda a empresários quando suas empresas estão falindo e precisam demitir funcionários para ter um respiro e recuperar perdas. A crise é palpável. O desemprego aumentou. Portanto, não sejamos hipócritas. Os discursos que taxam desempregados como preguiçosos é superficial, fascista. É claro que ninguém é santo nesta paróquia, nem no topo nem na base da pirâmide. Mas o fato concreto é que reformas como a trabalhista e da previdência atingem diretamente assalariados deste Brasil da delicadeza perdida. Como fica a autoestima de uma pessoa que, de repente, perde tudo? Não dá para esconder, muito menos ficar jogando a culpa, aleatoriamente, na população.

A maior prova de que o fascismo está na ordem dos dias foi dada recentemente, para quem quiser ver e ouvir, pelo agora ex-secretário da Cultura Roberto Alvim. Ao copiar no detalhe o discurso do ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels, em um vídeo para comunicar um projeto aos artistas brasileiros, Alvim ratificou o autoritarismo de um governo sem escrúpulos, inspirado no nazismo. E não há ingenuidade nesta ação pensada/copiada e colocada em prática.

Atitude sintomática, não? Especialmente vinda do secretário de um governo que autoriza e faz uso cotidiano da violência, de forma simbólica e real, através de ameaças e atos concretos. Basta lembrar o que acontece na Amazônia – o desmatamento em nome de quem só pensa em destruir para enriquecer, a morte de indígenas que defendem suas terras, o descaso com o aquecimento global. Segundo dados do Inpe/Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a área devastada na região chegou a 9.165,6 quilômetros quadrados, a maior devastação no bioma registrada nos últimos cinco anos.

E o que se espalha pelo resto do país, negando a multiplicidade cultural que nos constitui?

O recrudescimento do racismo, o assassinato de negros e mulheres, as ações contra a lei de acessibilidade e inclusão, os discursos que destilam ódio contra um educador como Paulo Freire, contra a comunidade LGBT ou contra a arte representada pela atriz Fernanda Montenegro. Alvim deixou muito claro na sua fala aprovada pelo presidente desta república usurpada que não há espaço para a diversidade no Brasil.

A triste série de absurdos que vamos vivendo cotidianamente aponta para o caos. E, como já escrevi aqui, estamos anestesiados. Onde se esconde a nossa capacidade de indignação? E nossas instituições o que fazem? E a classe política? Especialmente, os políticos de centro, centro esquerda e esquerda que não conseguem abrir mão de suas medíocres ambições pessoais e partidárias enquanto afundamos na lama fascista? Políticos sem grandeza suficiente para mobilizar a população e promover uma união avassaladora em nome da democracia que queremos. Só vejo este caminho, que me parece tão cristalino, para tirar o país desta rota assustadora.

O mínimo de atenção para algumas falas da cúpula de Brasília já mostra porque a rota é perigosa. Certamente todos já ouviram as desastradas colocações do ministro da Educação, Abraham Weintraub. Ou do chanceler Ernesto Araújo. Ou a loucura explícita da ministra da Família, Mulher e Direitos Humanos, Damares Alves e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que parece nada entender da questão ambiental. E do ministro da Economia, Paulo Guedes, do ministro-chefe do Gabinete da Segurança Pública, general Augusto Heleno, entre outros.

O presidente já se referiu a torturadores como heróis ao elogiar Brilhante Ustra quando ainda era apenas um deputado que fazia manifestações histéricas e descontroladas no Parlamento. Já elogiou ditadores como Pinochet e Stroessner. Ofende grosseiramente quem lhe contesta, como fez com Maria do Rosário, com o presidente da França e faz quase todos os dias com a imprensa. Vê toda manifestação popular como terrorismo ou “coisa de comunista”. Já declarou que vai varrer do mapa os opositores políticos, expulsando-os do país, com o objetivo de fazer “uma limpeza nunca vista na história desse Brasil”. Chamou nordestinos de “Paraíba” e disse que todo cearense é “cabeçudo”. Já fez a apologia do trabalho infantil e faz pouco caso do trabalho escravo. No absurdo mais recente, diz que “esquerda não merece ser tratada como ‘pessoas normais’”. E não se cansa de fazer observações irresponsáveis sobre assuntos sérios nas suas indigestas redes sociais. Esperar o que do presidente de uma nação que se comporta assim? Não dá mais para fingir que nada está acontecendo. Ou, como canta Gonzaguinha, “não dá mais pra segurar, explode coração”.

Incertezas, inquietações, interrogações

 

Pois então, 2020 é fato. Nada mudou, é certo. Mas a possibilidade de alterar alguns números, apenas dois, acendeu uma luzinha tímida de esperança na passagem de ano. Luz que se apagou logo ali adiante – no alvorecer do dia já cansado depois dos excessos e da euforia tradicional da festa.

Há algum tempo já não faço planos. E procuro não criar expectativas. Também já não priorizo a organização, mesmo carregando o rótulo de pessoa organizada. As surpresas da gangorra da vida, para o bem e para o mal, foram/são tantas que fui abrindo mão de coisas que acreditava serem importantes para seguir com mais leveza. Quando menos se espera, um acontecimento nos paralisa, angustia, enlouquece. Arranca as certezas mais banais. Rouba nossa tranquilidade.

O tempo é de incertezas, sob os mais diversos aspectos. Se entendêssemos minimamente a fragilidade da condição humana, não seríamos tão ingênuos nem tão prepotentes. Pelo contrário. Seríamos gentis, humildes, solidários, firmes. Exerceríamos verdadeiramente o que chamamos de humanidade. Mas essa delicadeza nos foi roubada pela rudeza dos dias.

O tempo é de inquietações. Algumas tão internas, carregadas do medo de perder e de uma emoção avassaladora. Outras, estruturadas na consciência do ser social e político que somos. O meu tempo, neste momento, é feito de indignação e tristeza. É muito difícil, para quem viveu e lutou nos ásperos anos da ditadura militar, o enfrentamento com a degradação moral que se impõe hoje no Brasil. Ver a ignorância ocupar o lugar da sabedoria. E, consequentemente, acompanhar a negação explícita da cultura, da arte, da educação, do conhecimento, conquistas que dão asas aos voos e nos fazem seres livres e críticos. É duro suportar a arrogância e a soberba do poder medíocre e corrosivo do Brasil atual pisoteando nossos sonhos.

O tempo é de muitas interrogações. O que leva algumas pessoas a sentir uma superioridade tão raivosa e cruel? O que leva quem está no comando a fazer a apologia da violência, autorizar a destruição do meio ambiente e a morte de quem reage e diz não? Por que insuflar o preconceito e retirar direitos de quem já vive praticamente com o mínimo?  Por que querem um povo subjugado, sem opinião e sem dignidade? O que está dado é o resultado de ambições desmedidas, excesso de poder, dinheiro em demasia, cargos e salários milionários que compactuam com a corrupção para manter privilégios, uma camada social que ainda almeja a casa grande para ser servida pela senzala.

O tempo é de discursos medíocres, discussões bizarras nas redes sociais e aplausos para a imbecilidade explícita, enquanto o mundo desaba sobre nossas cabeças. E seguimos anestesiados, apáticos diante de tanta insanidade.

Ponto final no desabafo

 

“É árdua a luta contra o preconceito! Especialmente quando nos deparamos com o título da coluna de um articulista como Flávio Tavares. Está no jornal Zero Hora do último final de semana de 2019 (28 e 29 de dezembro), na página 21: ‘O ano ou um anão?’. A palavra anão não é sinônimo de algo torpe ou indigno. Não aceito o uso de uma condição física para expressar o que ele diz no artigo. E lamento que venha de um jornalista que eu respeito muito”. Este foi o desabafo que fiz no face em 28 de dezembro, depois de ler o texto do Flávio. Recebi inúmeras mensagens de apoio e ponderações.

A jornalista Marjori Michelin, com quem trabalhei no início das nossas vidas profissionais, ainda na TV Guaíba da família Caldas Júnior, sintetizou muito bem o que penso: “Lelei, querida, entre trocadilhos e “brincadeirinhas inocentes” vão se perpetuando absurdos, desinformações, ignorâncias, preconceitos e, vez por outra, canalhices. Falta de intenção não serve mais como desculpa, o gesto (palavra, aqui), diz tudo, explicita ideias e revela convicções ou, na melhor das hipóteses, revela o desinteresse e o descaso pela causa alheia, o que, por si só, já é bem desabonador”.

No dia 6 de janeiro de 2020, Flávio Tavares me enviou um e-mail: “Cara Lelei. Recebi de amigos, como o Francisco Marshall e a Jussara Porto, a cópia da tua avaliação em torno do meu artigo sobre o ano de 2019. Assim, por tudo o que és, pensas e ages, faço respeitosa observação sobre o que dizes. Em meu artigo, tentei apenas fazer um jogo de palavras em torno do aumentativo “ão” e aplicá-lo ao ano que passou. Não é feio ser anão e, assim, a palavra “anão” não é feia nem maldosa em si ou por si mesma. No caso do meu artigo, foi empregada apenas num jogo de palavras, significando algo pequeno num ano que não conseguiu levar adiante a punição do maior assalto público do Rio Grande, como é o caso da CEEE, até hoje em “segredo de justiça” e sem sentença. Enfim, não tentei acentuar nenhum dos torpes preconceitos ainda usuais, pois — como bem dizes no ‘face book’– “anão não é sinônimo de algo torpe e indigno”. Assim, no final do meu artigo de 29 de dezembro, ao escrever que resta saber “se 2019 foi um grande ano ou,apenas, um anão”, expressei apenas que foi um ano pequeno. Reitero meu respeitoso abraço por tudo o que és, pensas e ages, desejando-te um 2020 cheio de realizações”.

No dia 7, respondi: “Caro Flávio. Tenho muito respeito por ti e sou uma leitora dos teus artigos na ZH. Minha avaliação está ancorada em muitas piadas e observações que já ouvi, e ouço, nas ruas por conta do nanismo. Tenho como objetivo nos últimos anos reagir, fazer um contraponto, para que as pessoas fiquem atentas. Alguns usos de algumas palavras às vezes geram comentários muito desagradáveis. Tenho vários exemplos assinalados, desde a famosa expressão “anões do orçamento”. Na rua, em muitas ocasiões, fui chamada assim. Não é o caso do uso que fizeste. Escrevi até um artigo comentando, enviei para a ZH, mas não publicaram. Como estamos conversando sobre isso, o artigo segue abaixo. Agradeço muito o teu retorno. E que 2020 seja um bom ano pra todos nós! Abraço”.

Ano e Anão. Que paralelismo é este?

Se o desejo é mudar, vamos pensar sobre o preconceito que temos internalizado e se manifesta na fala, na escrita, nas atitudes cotidianas. O que nos leva a dar um sentido pejorativo à uma palavra para criticar um fato, uma pessoa, inferiorizar alguém, fazer uma piada? Quem tem uma deficiência, se é que podemos chamar assim, é alvo de muitos comentários indignos. Tomo a palavra anão, muito usada de forma grotesca e indevida, para seguir meu raciocínio. O jornalista e articulista Flávio Tavares, que respeito muito, em recente artigo publicado no jornal Zero Hora, onde critica lamentáveis episódios ainda não resolvidos envolvendo a CEEE, colocou como título da coluna “O Ano ou o Anão”.

Sob o ponto de vista da ética, do humanismo, da liberdade e da diversidade, 2019 realmente não foi um grande ano. Pelo contrário, foi péssimo, mas não vejo sentido algum em classificá-lo como um ano anão. É desolador perceber, mais uma vez, que o nanismo ainda é visto de forma pejorativa, como sinônimo do que é indigno, torpe, pouco. E são muitos os usos indigestos. É o caso das expressões “salário com perna de anão” (referência ao salário considerado baixo), “anão moral” (usada por Ciro Gomes ao se referir a Michel Temer, ‘traidor e parceiro íntimo de tudo que não presta, à frente deste capítulo do golpe de estado em marcha no Brasil’, e seu sócio Eduardo Cunha), “anão diplomático” (porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, ao reagir às críticas do Itamaraty que condenou o uso desproporcional da força militar por Israel na faixa de Gaza, em julho de 2014). E, ainda, “anões do orçamento” (nome dado a um grupo de deputados no final dos anos 1980, início dos 1990, envolvidos em fraudes com recursos do Orçamento da União, investigados por uma CPI). Parlamentares sem repercussão nacional, ou seja, ‘anões do poder’.

O uso preconceituoso de algumas palavras está tão entranhado no inconsciente de todos nós que até parece normal. É o que sofrem as pessoas que têm alguma deficiência, e também negros, índios, a comunidade LGBT e tantos outros grupos. A presença desses seres “imperfeitos”, carimbados e pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores, incomoda muito. Eles são a certeza de que a perfeição, assim como a tal “raça pura”, não existe. Mas os discursos já vêm prontos e embalados para serem assimilados sem crítica. Portanto, é nossa obrigação desmanchar os pacotes e desorganizar a ordem social imposta, que alimenta o preconceito. Sabemos da importância dessa discussão. É fundamental que venha e provoque reflexão.

Por mais que nós, pessoas com nanismo, tenhamos rampas, calçadas adequadas, balcões mais baixos, banheiros adaptados, elevadores e ônibus acessíveis, campanhas pela inclusão e emprego, tudo ainda é precário e continuará sendo se o preconceito que carregamos, e está na palavra, não for combatido. Precisamos de respeito, acolhimento e de uma educação para a diversidade que nos constitui como seres plurais e únicos. Mostrar que a grande riqueza humana está no encontro das diferenças, com suas múltiplas possibilidades e capacidades, é vital. A pior barreira é o preconceito, fruto de uma sociedade prepotente, hierarquizada, maniqueísta, que segrega e humilha quem não corresponde a um padrão de normalidade sem sentido. Em nome de quê?

Lelei Teixeira

leleigira@gmail.com

   Porto Alegre, 30 de janeiro de 2019