Incertezas, inquietações, interrogações

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Pois então, 2020 é fato. Nada mudou, é certo. Mas a possibilidade de alterar alguns números, apenas dois, acendeu uma luzinha tímida de esperança na passagem de ano. Luz que se apagou logo ali adiante – no alvorecer do dia já cansado depois dos excessos e da euforia tradicional da festa.

Há algum tempo já não faço planos. E procuro não criar expectativas. Também já não priorizo a organização, mesmo carregando o rótulo de pessoa organizada. As surpresas da gangorra da vida, para o bem e para o mal, foram/são tantas que fui abrindo mão de coisas que acreditava serem importantes para seguir com mais leveza. Quando menos se espera, um acontecimento nos paralisa, angustia, enlouquece. Arranca as certezas mais banais. Rouba nossa tranquilidade.

O tempo é de incertezas, sob os mais diversos aspectos. Se entendêssemos minimamente a fragilidade da condição humana, não seríamos tão ingênuos nem tão prepotentes. Pelo contrário. Seríamos gentis, humildes, solidários, firmes. Exerceríamos verdadeiramente o que chamamos de humanidade. Mas essa delicadeza nos foi roubada pela rudeza dos dias.

O tempo é de inquietações. Algumas tão internas, carregadas do medo de perder e de uma emoção avassaladora. Outras, estruturadas na consciência do ser social e político que somos. O meu tempo, neste momento, é feito de indignação e tristeza. É muito difícil, para quem viveu e lutou nos ásperos anos da ditadura militar, o enfrentamento com a degradação moral que se impõe hoje no Brasil. Ver a ignorância ocupar o lugar da sabedoria. E, consequentemente, acompanhar a negação explícita da cultura, da arte, da educação, do conhecimento, conquistas que dão asas aos voos e nos fazem seres livres e críticos. É duro suportar a arrogância e a soberba do poder medíocre e corrosivo do Brasil atual pisoteando nossos sonhos.

O tempo é de muitas interrogações. O que leva algumas pessoas a sentir uma superioridade tão raivosa e cruel? O que leva quem está no comando a fazer a apologia da violência, autorizar a destruição do meio ambiente e a morte de quem reage e diz não? Por que insuflar o preconceito e retirar direitos de quem já vive praticamente com o mínimo?  Por que querem um povo subjugado, sem opinião e sem dignidade? O que está dado é o resultado de ambições desmedidas, excesso de poder, dinheiro em demasia, cargos e salários milionários que compactuam com a corrupção para manter privilégios, uma camada social que ainda almeja a casa grande para ser servida pela senzala.

O tempo é de discursos medíocres, discussões bizarras nas redes sociais e aplausos para a imbecilidade explícita, enquanto o mundo desaba sobre nossas cabeças. E seguimos anestesiados, apáticos diante de tanta insanidade.

Autor: Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

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