Mas é carnaval!

Sempre fui carnavalesca. Do salão da Sociedade Cruzeiro em São Francisco de Paula, à Praça Castro Alves em Salvador/Bahia, ao som das marchinhas de bandas do interior ou dos trios elétricos na cidade grande.

Quem sabe ainda teremos a chance, como escreveu e cantou Vinícius de Moraes, de “viver e brincar outros carnavais / com a beleza / dos velhos carnavais / que marchas tão lindas / e o povo cantando / seu canto de paz”. Não sou saudosista, mas adoraria tomar as ruas com um canto de paz, celebrando a vida em um país digno, que respeita sua gente.

A seguir boas lembranças de muitos carnavais.

Conheci o carnaval baiano, ápice do ciclo de festas que caracterizam o verão, nos anos 1970/1980. Lá passei os melhores carnavais da minha vida, encantada com a maior e mais popular festa de rua brasileira. Transbordando de euforia e molhados de suor e cerveja, todos brincavam espontaneamente ao som dos trios, afoxés, blocos e cordões.

Folia definida pelo sociólogo baiano Antônio Risério como “um baile imenso, colorido, feérico e frenético”, que se espalha pelos becos, praças, avenidas, orla e contagia até a mais empedernida das criaturas. Do Largo do Pelourinho, passando pelo Terreiro de Jesus, Praças da Sé, Castro Alves e Municipal, Avenida Sete de Setembro, até o Farol da Barra são mais de 15 quilômetros de chão totalmente tomado por uma massa enlouquecida. Um roteiro carnavalesco por onde cruzam os tipos mais incríveis, levados pela magia e pelo calor humano que tomam conta da cidade nesta época. Todos pulam, cantam, dançam, vivem o carnaval na sua plenitude, noite e dia, como se não houvesse amanhã.

Salvador foi descoberta pelo turismo na década de 1970 e se transformou num atraente polo no verão. Turistas, curiosos e curtidores, hippies e viajantes do Brasil e do mundo, chegavam lá a procura do paraíso perdido à beira mar ou de uma sonhada “capital do prazer”, onde tudo fosse permitido. Uma invasão que mudou a fisionomia da cidade. A anarquia, o delírio, a catarse geral provocada pelo carnaval, constituem a essência desta busca desenfreada.

Foi na Praça Castro Alves que vi, senti e participei intensamente do carnaval de rua de Salvador. Lá se juntavam artistas, intelectuais, turistas, comerciantes, homossexuais, mulheres, homens, velhos e jovens. Tipos física e socialmente diferentes que brincavam juntos como se sempre tivesse sido assim.

“A Praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião”, canta Caetano Veloso, que define como poucos o espírito do carnaval baiano. Um espetáculo de rara beleza plástica e humana, pelo qual ninguém passa impunemente. Para Gilberto Gil, o carnaval é uma manifestação séria e complexa, “um espaço muito curto para a transfiguração, para a loucura, para a reconciliação total com a carne, que é ignorada o ano todo”. Há uma explosão total de vida. E todos os vícios e virtudes do ser humano fluem naturalmente. Afinal, tudo é permitido.

Além da conotação de festa popular e de prazer, o carnaval da Bahia, especialmente em Salvador, é uma vitoriosa afirmação cultural dos negros. São eles os responsáveis pela essência do carnaval. Proibidos de frequentar os salões do branco, pela condição de escravos, os negros dançavam e cantavam na rua, na tentativa de manter viva sua origem africana. Com graça, magia, sensualidade e muita pulsação, eles passavam noites inteiras entregues a rituais típicos das regiões de onde vinham.

E é nas ruas que pulsa a alma do carnaval baiano. E nas ruas estão os negros com seus blocos afros, o som ijexá, a percussão, o batuque, os metais dos afoxés, mostrando a autenticidade da sua arte, inteira e envolvente, apesar de todo tipo de repressão a que foi submetida. É uma exibição rica em originalidade, beleza e força, que flui através de uma coreografia harmoniosa. E todos são convidados a dançar.

Participação é a característica fundamental desta festa colorida, cheia de ritmo, que os negros levaram para as ruas e que hoje é de todo mundo. Com ou sem dinheiro. Com ou sem fantasia. O luxo, a pompa e a riqueza também podem fazer parte, mas não são características essenciais. O que importa são as pessoas que se deixam levar ruas afora, integrando-se deliberadamente no mais autêntico e democrático salão de baile do país.

Os antropólogos afirmam que o carnaval é o momento em que esquecemos a seriedade. É um espaço ritualístico onde as diferenças culturais, sociais e comportamentais se dissolvem. Pobres, ricos, homossexuais, machos, fêmeas, todos se irmanam na avenida. Em um país como o Brasil, onde uma minoria concentra poder e dinheiro e a maioria se debate na miséria, está cada vez mais difícil ignorar as diferenças. Mas no carnaval que brinquei nos anos 1970/1980 ainda era possível a ilusão de que somos todos irmãos. Que se dane a política, a crise, a desgraça cotidiana. Quem está na rua quer se entorpecer um pouco. E são milhares e milhares de pessoas que suspendem delirantemente o cotidiano para perder-se de alegria e liberdade. E volto à música de Caetano Veloso – “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. E o povo está vivo e faz a festa com brilho nos olhos. “Amanhã há de ser outro dia”, cantou Chico Buarque.

Nestas duas décadas, o carnaval de Salvador contava com a presença de homossexuais que vinham de todas as partes e aproveitavam a loucura geral para liberar sua opção sexual, tão reprimida e condenada pela sociedade. No início, a manifestação era disfarçada e eles saíam às ruas mascarados, dando um toque especial aos dias de folia. Aos poucos, foram conquistando espaço e já não precisavam se esconder. Tornaram-se comuns os desfiles das “bichas” na Praça Castro Alves. A escadaria era a passarela. Ali faziam o espetáculo, exibindo-se, tirando a roupa, mostrando em tom irônico que eram homens que desejavam homens e queriam manifestar seus sentimentos livremente.

Entre risos, espanto, agressão e afirmação, os gays se fizeram respeitar. Sem máscara, sem medo e sem bloqueios tomaram conta da Praça, das ruas, abraçando, beijando, amando ao som dos afoxés. Nos cinco dias de catarse coletiva, tudo parecia natural. O carnaval era terreno livre para o bem de todos.  E foi assim que comecei a entender a riqueza das diferenças. Salve o carnaval baiano!

Nossa insanidade cotidiana

 

Um país em que o governo brinca ironicamente de fazer “arminha” com os dedos é responsável, sim, pelo aumento da violência. Ao tratar com naturalidade o uso de armas por uma população que vive situações absurdamente desiguais – se olharmos para a base e para o topo da cruel pirâmide social – as autoridades máximas da nação viram as costas para os já abandonados, amedrontados, acuados. Portanto, vulneráveis, suscetíveis a atitudes por impulso. Ou para uma população que já não se choca com nada porque a barbárie, além de ocupar os noticiários de jornais, rádios e TVs, sem o mínimo contraponto, está na porta das suas casas. Está nas calçadas, nas ruas e vielas por onde andam e brincam seus filhos inocentes e sem proteção.

Soma-se a esta triste realidade, a loucura das redes sociais que julgam, condenam, destilam ódio e futilidades o tempo todo. Um tiro a mais, um tiro a menos, parece não fazer a mínima diferença nesse contexto de frases feitas, piadas indigestas, ofensas, preocupado apenas com o número e com a performance dos seguidores, onde as vozes da vaidade, do poder e da casa grande falam mais alto.

Um contexto que as canções de Chico Buarque sempre apontaram. Como “Gota d´água” – “E qualquer desatenção, faça não / pode ser a gota d´água”.  Ou como “Construção” – “Agonizou no meio do passeio público / Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. E como “Deus lhe pague” – “Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir / Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir / Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair / Deus lhe pague”. E muito, muito mais! Basta pesquisar a obra deste compositor e cantor popular.

Assim vivem e morrem todos os dias no Brasil milhares de pessoas, vítimas do descaso, do abuso, da bala perdida, do tráfico de drogas.

É o mesmo país que já não se espanta com a morte de indígenas na Floresta Amazônica, o pulmão do mundo tão cobiçado pelo grande capital que só tem olhos para o lucro. Um lucro que vem acompanhado de excesso de poder, ambição, concentração de renda, acúmulo, injustiça e destruição. Danem-se as vítimas de incêndios criminosos, das chuvas avassaladoras que levam tudo e do inegável aquecimento global, essa invenção dos comunistas, segundo alguns dos “ilustres” pensadores da “nova” política brasileira.

Do alto da sua irresponsabilidade, o presidente diz que os “indígenas estão evoluindo e se tornando seres humanos iguais a nós”. Nós, quem? Uma clara demonstração de ignorância histórica, descaso e desconhecimento do papel relevante dos povos indígenas na nossa cultura e na preservação do meio ambiente. O presidente, que nada entende destas questões e nem quer entender, chegou a afirmar que “se puder, confino ambientalistas na Amazônia”, ao defender a regulamentação da mineração e exploração de energia em terras indígenas.

Coincidentemente é também o país que não reage e não combate com veemência o assassinato de negros, pobres, homossexuais, pessoas diferentes de um modo geral, e de mulheres que, pelas estatísticas, cresceu muito nos últimos anos. É aqui que ouvimos, mais uma vez, um presidente declarar de forma absurdamente preconceituosa que “uma pessoa com HIV, além de ser um problema sério para ela, é uma despesa para todos no Brasil”. Afirmação que reforça a indigesta campanha de abstinência propagada pela nossa religiosa e tresloucada ministra da família, que não vou nomear.

É ainda o país de um presidente que debocha dos trabalhadores que estão desempregos e diz, cinicamente, que temos muitos privilégios e que, por isso, vai lançar o programa “minha primeira empresa” para quem reclama que não tem emprego.

Quem suporta tanto deboche?

Nada acontece por acaso. A banalização da violência não é um fato isolado e não se restringe aos morros cariocas, às favelas, à periferia dos grandes conglomerados urbanos. Ela está no cotidiano de cada um de nós inundado pela falta de perspectivas, pela vulnerabilidade do trabalho, pela miséria estampada nas ruas, pela morte de inocentes vítimas de balas perdidas ou não, pelos incêndios criminosos, pela discriminação racial, sexual, cultural, pelo preconceito de toda ordem.

A população que vive nas ruas em São Paulo, por exemplo, aumentou 53% em 4 anos. Hoje são 24 mil, 11,7 mil dormindo em abrigos e 12,6 jogadas nas calçadas ou sob os viadutos. E a Igreja Universal do Reino de Deus segue coagindo e seduzindo as pessoas com problemas financeiros e emocionais, que acabam doando o muito ou o pouco que têm para sair de crises. E acabam ficando sem nada, nas mãos de pastores e pastoras que fazem fortunas com a dor do outro.

Neste caldeirão dominado pela insanidade as questões vitais do país são expostas e discutidas irresponsavelmente nas redes pelo governo, seus seguidores e opositores. É um bate boca sem fim, onde um ofende o outro e nada mais. Desaprendemos tanto no ano que passou! Já não nos sobra tempo para refletir sobre a condição humana, reagir e provocar alguma mudança. E onde estão mesmo os eleitos que discursavam sobre respeito e dignidade?