Vai passar!

Vai passar. A expressão que virou mantra neste tempo sombrio e inquietante de pandemia me faz lembrar a canção de Chico Buarque de Holanda. Composta em meados dos anos 1980, período conturbado em que vislumbrávamos o fim da cruel ditadura militar instaurada no Brasil no fatídico 31 de março de 1964, a música fala da nossa história ainda tão recente. Uma história cravada de injustiças, contradições, tortura e morte. E que neste início de 2020, se mostra tão ou mais injusta e contraditória.

As terras deslumbrantes descobertas por Pedro Álvares Cabral viraram colônia de Portugal. E seus donatários, os privilegiados de sempre, seguindo o exemplo do colonizador/doador, passaram a capturar negros na África para transformá-los em escravos. Arrancados da terra mãe, eles foram jogados nas mãos de gente sem escrúpulos que, por ser branca e poderosa, achava que podia tudo. Gente obcecada por uma perfeição discriminatória e alimentada por uma ambição desmedida que, assim como destrói o meio ambiente, dissemina preconceito de toda ordem.

“Aqui sambaram nossos ancestrais”. Marginalizados em um lugar que só os via como seres para servir, os negros foram obrigados a abrir mão das suas origens e da cultura que os constituía para atender os desejos do senhor dono da terra. “Erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais”. Mas um dia perceberam que era possível subverter essa ordem. Entenderam que “tinham direito a uma alegria fugaz”. E fizeram dessa possibilidade uma grande luta pelo direito de ser e manter sua identidade.

Aos poucos, mesmo sem liberdade, retomaram suas vozes genuínas, seus cantos, seus tambores, suas danças, sua história, sua alegria. Excluídos das festas da casa grande, que abrigava, e abriga ainda hoje, a elite soberba, os escravos tomaram becos e ruelas com uma festa popular que acabou contagiando o país inteiro. E “que se chama carnaval”.

Mas a “terra brasilis” seguiu distraída – dominada por senhores sem escrúpulos, os donos do dinheiro – sem entender “que era subtraída em tenebrosas transações”. A elite econômica, desumana e sem freios, que se formou seguiu impávida a liturgia da escravidão, ancorada em discursos hipócritas. O que ficou escancarado em alguns momentos da pandemia do coronavírus. Ao atender aos apelos do presidente insano, alguns empresários manifestaram o desejo de ver seus empregados trabalhando, ignorando determinações dos governos dos estados e municípios.

Apesar das vozes da Organização Mundial da Saúde, de cientistas, pesquisadores e médicos, o poder financeiro tentou falar mais alto, mas recuou. E o poder político, nas mãos de indecisos, sem preparo para comandar um país que vive uma crise sem precedentes na história mundial, assinou embaixo. Para mudar de postura logo depois. Já não há dúvidas. Vivemos uma situação complexa, que exige discernimento, respeito e maturidade de todos os lados. Já não há espaço para brigas político-partidárias. Assim como também não há dúvidas de que estamos diante de um governo incapaz de olhar para a população. Em momento algum, o outro coube neste olhar.

O Brasil, os trabalhadores, as mulheres, a gente comum, o povo, nós todos estamos nas canções de Chico Buarque, compositor que tão bem fala da nossa história, dos tempos inocentes em que víamos a banda passar, passando pelo exílio e o sofrimento imposto pela ditadura militar, pelas diretas já, pela nossa jovem democracia, hoje tão sucateada – https://www.ouvirmusica.com.br/chico-buarque/77259/

E lá me vem outra canção, lembrada recentemente por Jorge Furtado – “Pessoa Nefasta”, de Gilberto Gil – “Tu, pessoa nefasta / Vê se afasta teu mal / Teu astral que se arrasta tão baixo no chão / Tu, pessoa nefasta / Tens a aura da besta / Essa alma bissexta, essa cara de cão”. Vai passar!

Estamos todos nus

“O Brasil está nu. E isso não é uma performance artística”, escreveu recentemente a jornalista e ativista Nanni Rios, proprietária da Livraria Baleia, em Porto Alegre. Estamos nus e desgovernados. Traduzindo: Sem governo! Despencando? Ladeira abaixo? É bem provável. O medo e a insegurança reverberam por todos os espaços, independente de classe social – abastados, médios e pobres. E ecoam especialmente entre os mais velhos, os já doentes, os mais pobres, os que vivem do trabalho informal, única fonte de renda da maioria da população. Assim como ainda reverbera o egoísmo absurdo daqueles que se jogaram nos supermercados e abarrotaram carrinhos com alimentos e produtos de limpeza. E a ganância de empresários desprovidos de empatia. Mas temos antídotos. E a solidariedade vai se manifestando de um jeito forte, acolhedor, comovente, a distância, como está prescristo – Fique em Casa. É necessário agir com rapidez e firmeza para evitar o caos. Por isso, muita atenção navegantes desta nau desorientada: Cuidem-se. Impossível confiar em um governo que consegue ser mais nefasto do que os regimes fascista e nazista, que contaminaram a Europa e o mundo no século XX.

Quando médicos especialistas da área de infectologia no mundo inteiro pediam que as pessoas evitassem aglomerações, o governo brasileiro minimizou. Espaços culturais fecharam. Artistas cancelaram apresentações. Shoppings restringiram a entrada de pessoas. Voos foram cancelados. Mesmo assim, contrariando todas as normas, o presidente desdenhou, tratando o caso como histeria. E ainda foi para as ruas, com a sua irresponsabilidade e arrogância, tão peculiares, apertar a mão de eleitores, tão sem noção quanto ele.

Quando as vozes consequentes do país provaram que não havia paranoia nem exagero nas medidas urgentes que precisavam ser tomadas, as vozes do governo continuaram desconsiderando a possibilidade de pandemia. E o presidente pontuou com uma declaração estapafúrdia: “Se eu resolvi apertar a mão do povo, é um direito meu, eu vim do povo. Uma maneira de mostrar que estou junto com eles na alegria e na tristeza. Se me contaminei, a responsabilidade é minha”. Responsabilidade? Não! Insanidade, sim. É óbvio que, se já estava contaminado, deve ter contaminado muita gente. Mas a soberba fala mais alto.

“Burrice mata”, escreveu o cineasta Jorge Furtado. E o panelaço veio. É real. O mundo está contaminado. E o governo, que assim como está não está, nunca se sabe, foi obrigado a mudar o tom do discurso. Cinicamente mostrou preocupação com o avanço da doença, sem dar o exemplo necessário de um chefe de estado.  Caiu a ficha? Não! Precisamos de medidas para conter o que vem por aí. Mas como confiar em quem não tem a mínima coerência, só tem olhos para a elite econômica, empresários e banqueiros, e brinca com a dor dos menos favorecidos? Como confiar em quem tem um filho desgovernado, cheio de razão e sem noção de diplomacia, que culpa a China por tudo?

O contágio, a partir dos cálculos estatísticos feitos até agora, vai aumentar muito ainda, o que certamente provocará pane no sistema de saúde se não forem tomadas medidas drásticas para contenção. Não há mais como negar. Está no ar. Está nas ruas. Está nas esquinas. Está nas nossas portas. Precisamos ficar isolados em nossas residências para evitar a propagação. Estamos vulneráveis, emocionalmente frágeis, e temos muitos exemplos no passado para rever e não repetir.

Logo, precisamos de uma Nação firme e bem posicionada, com uma estrutura forte na área da saúde para dar conta do que vem e proteger a população. Até o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckimin, que é médico, deixou o período sabático e declarou: “Temos que revalorizar a política”, perplexo diante do péssimo exemplo do presidente, “com atitudes que desdenham de orientações mundiais, deseducam, prestam um desserviço”.

Como escreveu o ator e diretor de teatro Zé Adão Barbosa, precisamos de “um Estado que olhe para os trabalhadores informais, sem salário fixo, sem condições de trabalhar em casa, que não terão como manter seu sustento, e também para os artistas que vivem de seus espetáculos e de suas aulas sem outras fontes de renda, muitos sem casa própria. E a luz? E a internet? E o telefone? E a comida na mesa? Quem paga por isso sem trabalhar? Felizes dos que poderão ficar em casa sem prejudicar sua vida econômica e familiar. Por isso, juntamente com as indicações de cuidados e prevenções, pensemos em uma maneira de sermos solidários para com os que terão as vidas mais devastadas neste momento caótico”.

E a população das vilas abandonadas, sem saneamento básico, sem recursos, sem nada? E a população de rua, sem guarida? Cuidem-se navegantes desta nau desgovernada!

O jornalista Rafael Guimaraens questionou a atuação política e a vida pública de um presidente que já homenageou assassinos como Pinochet, Stroessner e Brilhante Ustra. Que já declarou que a ditadura deveria ter matado mais 20 mil e que tortura é cascata. Que quer distribuir armas à população. Que propõe acabar com os redutores de velocidade no trânsito. Que quer acabar com o Mais Médicos. Que estimula a violência em todos os níveis com suas falas racistas, machistas e homofóbicas que estimulam o assassinato de jovens negros, da comunidade LGBT e o feminicídio. E agora, diante de uma das maiores crises que o mundo já enfrentou, coloca-se ao lado do poder econômico mais voraz, lança medida que beneficia os empresários e vira as costas para o povo trabalhador.

O que pensar e dizer diante de tanto desrespeito pelo outro? Penso e digo que a irresponsabilidade diante da pandemia do coronavirus é crime, que temos um presidente de comportamento psicopata, vulgar, fixado em enviar recadinhos pela rede social, que só olha para os seus milicianos, despreza quem não lhe faz a corte e agora deu para se elogiar.

E me pergunto: Diante do quadro político trágico que aí está o que vamos fazer? O que vai fazer o Congresso Nacional? O que pensam os deputados? Teremos condições de eleger pessoas honestas? Qual a responsabilidade de quem sonha com lideranças sérias? Precisamos radicalizar? E a esquerda o que propõe? Seremos atropelados mais uma vez?

A situação que está posta é grave. A turbulência está só começando. Questões econômicas, sociais e trabalhistas preocupantes estão emergindo e vão explodir. Trabalhadores de carteira assinada, que estão trabalhando de casa e cuidando dos filhos porque não tem escola, já estão assoberbados, cumprindo uma carga horária desumana. Não há limite e poucos empregadores se dão conta que o regime é de escravidão. Onde está a conscientização dos que discursam pelo respeito ao trabalhador? Será que a pandemia veio para fazer o mundo repensar prioridades, lideranças, destino? E para fazer com que cada um de nós reflita sobre a maneira como nos relacionamos com quem presta serviço, seja quem for? A escravidão acabou mesmo? Infelizmente, não. E o Brasil está cheio de tristes exemplos.

Pois agora estamos todos enjaulados e certamente este pode ser um bom momento para pensar, repensar e questionar nossas relações – pessoais, profissionais, políticas. É possível estabelecer parâmetros cristalinos e humanitários voltados verdadeiramente para o respeito e a responsabilidade social? Tenho muitas dúvidas, mas a minha luta é esta.

Estamos todos nus

“O Brasil está nu. E isso não é uma performance artística”, escreveu recentemente a jornalista Nanni Rios, proprietária da Livraria Baleia, em Porto Alegre. Estamos nus e desgovernados. Traduzindo: sem governo! Despencando? Ladeira abaixo? É possível. O medo e a insegurança reverberam por todos os espaços, independente de classe social – abastados, médios, remediados, pobres. E ecoam especialmente entre os mais velhos, os já doentes e os que vivem do trabalho informal cotidiano, única fonte de renda da maioria da população. Assim como ainda reverbera o egoísmo absurdo daqueles que se jogaram nos supermercados e abarrotaram carrinhos com alimentos e produtos de limpeza. Mas temos antídotos. E a solidariedade vai se manifestando de um jeito forte, acolhedor, comovente, a distância, como está prescrito. É necessário agir com rapidez e firmeza para evitar o caos.

Quando médicos especialistas da área de infectologia no mundo inteiro pediam que as pessoas evitassem aglomerações, o governo brasileiro minimizou. Espaços culturais fecharam. Artistas cancelaram apresentações. Shoppings restringiram a entrada de pessoas. Voos foram cancelados. Mesmo assim, contrariando todas as normas, o presidente desdenhou, tratando o caso como histeria. E ainda foi para as ruas, com a sua irresponsabilidade e arrogância, tão peculiares, apertar a mão de eleitores, tão sem noção quanto ele.

Quando as vozes consequentes do país provaram que não havia paranoia nem exagero, as vozes do governo continuaram desconsiderando a possibilidade de pandemia. E o presidente pontuou com uma declaração estapafúrdia: “Se eu resolvi apertar a mão do povo, é um direito meu, eu vim do povo. Uma maneira de mostrar que estou junto com eles na alegria e na tristeza. Se me contaminei, a responsabilidade é minha”. Responsabilidade? Não! Insanidade? sim! É óbvio que, se já estava contaminado, poderia contaminar muita gente.

“Burrice mata”, escreveu o cineasta Jorge Furtado. O panelaço veio. É real. O mundo está contaminado. E o governo, que assim como está não está, nunca se sabe, foi obrigado a mudar o tom do discurso. Agora é de quem sempre se preocupou com o avanço da doença. Caiu a ficha. Mexam-se. Precisamos de medidas para conter o que vem por aí. Mas como confiar em quem não tem a mínima coerência e brinca com a dor alheia? Como confiar em quem tem um filho desgovernado, cheio de razão e sem noção de diplomacia, que culpa a China por tudo?

O contágio, a partir dos cálculos estatísticos feitos até agora, vai aumentar muito ainda, o que certamente provocará pane no sistema de saúde se não forem tomadas medidas drásticas para contenção. Não há mais como negar. Está no ar. Está nas ruas. Está nas esquinas. Está nas nossas portas. Precisamos ficar isolados em nossas residências para evitar a propagação. Estamos vulneráveis, frágeis, e temos muitos exemplos no passado para rever e não repetir. Logo, precisamos de uma Nação firme e bem posicionada, com uma estrutura forte na área da saúde para dar conta do que vem e proteger a população. Até o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckimin, que é médico, deixou o período sabático e declarou: “Temos que revalorizar a política”, perplexo diante do péssimo exemplo do presidente, “com atitudes que desdenham de orientações mundiais, deseducam, prestam um desserviço”.

Como escreveu o ator e diretor de teatro Zé Adão Barbosa, precisamos de “um Estado que olhe para os trabalhadores informais, sem salário fixo, sem condições de trabalhar em casa, que não terão como manter seu sustento, e também para os artistas que vivem de seus espetáculos e de suas aulas sem outras fontes de renda, muitos sem casa própria. E a luz? E a internet? E o telefone? E a comida na mesa? Quem paga por isso sem trabalhar? Felizes dos que poderão ficar em casa sem prejudicar sua vida econômica e familiar. Por isso, juntamente com as indicações de cuidados e prevenções, pensemos em uma maneira de sermos solidários para com os que terão as vidas mais devastadas neste momento caótico”.

E a população das vilas abandonadas, sem saneamento básico, sem nada? E a população de rua?

O jornalista Rafael Guimaraens questionou a atuação política e a vida pública de um presidente que já homenageou assassinos como Pinochet, Stroessner e Brilhante Ustra. Que já declarou que a ditadura deveria ter matado mais 20 mil e que tortura é cascata. Que quer distribuir armas à população e propõe acabar com os redutores de velocidade no trânsito. Que quer acabar com o Mais Médicos, estimula a violência em todos os níveis e manifesta posições racistas, machistas e homofóbicas, estimulando o assassinato de jovens negros, da comunidade LGBT e o feminicídio. E acrescento: que já minimizou as políticas de acessibilidade e inclusão, quando ainda era deputado.

O que pensar e dizer diante de tanto desrespeito pelo outro? Penso e digo que temos um presidente de comportamento psicopata, fixado em enviar recadinhos pela rede social, que só olha para os seus milicianos, despreza quem não lhe faz a corte e agora deu para se autoelogiar.

E me pergunto: Diante do quadro político que aí está, temos condições de eleger pessoas honestas? Qual a responsabilidade de quem sonha com lideranças sérias? Precisamos radicalizar? E a esquerda o que propõe? Seremos atropelados mais uma vez?

A situação é preocupante. A turbulência está só começando. Questões econômicas, sociais e trabalhistas graves estão emergindo e vão explodir. Trabalhadores de carteira assinada, que hoje trabalham de casa e cuidam dos filhos porque não tem escola, já estão assoberbados, cumprindo uma carga horária mais do que absurda. Não há limite e poucos empregadores se dão conta que o regime é de escravidão. Onde está a conscientização dos que discursam pelo respeito ao trabalhador? Será que a pandemia veio também para fazer o mundo repensar prioridades, lideranças, condutas? E para fazer com que cada um de nós reflita sobre a maneira como nos relacionamos com quem presta serviço, seja ele qual for? A escravidão acabou mesmo? Pelo visto, não. E o Brasil está cheio de tristes exemplos.

Pois agora estamos todos enjaulados e certamente este é um momento raro para pensar, repensar e questionar nossas relações pessoais, profissionais e  políticas. É possível estabelecer parâmetros cristalinos e humanitários voltados verdadeiramente para o respeito e a responsabilidade social? Tenho muitas dúvidas, mas a minha luta é esta. Sempre foi.

Raízes, memória, história

 

O processo cultural que nos faz pertencer, criar identidade e voar

O projeto “Memórias de São Francisco de Paula” chega para estimular a comunidade a se apropriar da sua história, trocar experiências e promover a difusão do patrimônio que nos dá raízes. Valorizar espaços que mostram a diversidade que nos constitui é valorizar a pluralidade, a convivência e o diálogo permanente e crítico entre a tradição e o contemporâneo. É entender o processo cultural que nos faz pertencer e criar identidade e, ao mesmo tempo, nos dá asas para voar. Colocar no centro da cena os saberes e fazeres gerados pela cultura patrimonial material e imaterial, para que infinitos olhares possam ver e aprender, é o combustível que impulsiona o conhecimento e abre fronteiras para uma educação libertária.

Com essa perspectiva – a ampliação do olhar – o projeto do município serrano vai promover rodas de memória em três dos principais patrimônios culturais de São Francisco de Paula, momento em que as pessoas vão falar das suas emoções e vivências na interação com esses lugares. Tudo começa no dia 14 de março, em uma velha e imponente casa de madeira com mais de 70 anos – o Hotel do Campo, no distrito de Cazuza Ferreira. No dia 18 de abril, a roda será no Hotel Cavalinho Branco, no Lago São Bernardo e, em 30 de maio, no auditório da Escola Estadual José de Alencar, em São Francisco de Paula. É a história contada por quem viveu e vive a riqueza cultural de cada lugar.

As rodas de memória serão registradas em vídeo e áudio e, posteriormente, em livro. O objetivo é possibilitar que um número muito maior de pessoas e de escolas possam acompanhar o andamento do projeto e transformá-lo em conteúdo para os alunos na sala de aula. São momentos para escutar, participar, entender e expandir.

Integrado à imensidão dos campos, ao verde das matas e à imponência das araucárias, “o ouro branco” do passado, São Francisco de Paula, ou São Chico como a cidade é carinhosamente chamada, está mergulhada em uma natureza exuberante que possibilita paz, recolhimento, reflexão. Ou bons encontros e boas conversas ao sabor do churrasco e do carreteiro. Além de longas caminhadas em volta do lago ou mato à dentro para desvendar as inúmeras cachoeiras da região. Ou, ainda, se aventurar em cavalgadas campo afora.

Para a Roda de Memória em Cazuza Ferreira no dia 14 de março, sábado, às 15h, foram convidadas quatro pessoas que vão dividir com o público experiências, estudos e relações afetivas com o local. A mediação será da professora de História e doutoranda Cláudia Duarte. São elas:

Grasiela Picoloto de Barros, formada pela Universidade de Caxias do Sul, onde apresentou como trabalho final o texto “As Metamorfoses do Hotel Avenida”, em dezembro de 2001, para graduar-se em Licenciatura Plena em História.

Iró Beatriz Basso Gomes, filha mais velha de Antonio Machado Basso (dono do hotel e cinema), trabalhadora dos Correios e Telégrafos, que sempre viveu em Cazuza Ferreira, ajudando o pai nas atividades do cinema.

Elmo Rossi, amigo próximo de Antonio Machado Basso, um frequentador assíduo das sessões de cinema do Serrano.

Batista Bossle, autor dos livros Dicionário do Cavalo, Dicionário Gaúcho Brasileiro e Cazuza Ferreira tem História para Contar. Mantém o site www.gauchadas.com.br e o blog www.familiabossle.blogspot.com.br

Como viver com leveza na falta

Nestes tempos sombrios que nos absorvem por todos os lados, do pessoal ao profissional, passando pela questão política, busco jeitos de viver com leveza em meio às dores que me assaltam a qualquer hora. Sem pedir licença. Os caminhos, muitos, desdobram-se à minha frente, mas estou com dificuldades de achar o rumo nesta encruzilhada. Às vezes, entre a agitação e as cobranças que eu mesma me faço, produzo incessantemente. Em outras, paraliso. Ou viro um ponto de interrogação. Ou sou tomada por uma emoção tão grande, radicalmente humana, que se transforma em reflexão e acabam em lágrimas – “E qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d´água”. Mas estou na estrada. Sempre estive. E continuo. Aos solavancos.

Com a Marlene, minha irmã, sempre tive algumas estratégias para encarar o cotidiano de enfrentamentos inevitáveis, muitos bem difíceis. Em algumas situações ríamos muito. “Estou bem para enfrentar os olhares críticos do povo?”. Esta era uma pergunta clássica, sempre que uma ou outra precisava encarar uma atividade que exigia mais do que o cotidiano banal de olhares invasivos: Uma aula com turma nova. Uma coletiva de imprensa. Uma banca de mestrado ou doutorado. Um cliente novo. Uma palestra. A abertura de um evento. Um encontro de trabalho. Uma entrevista. E a resposta vinha firme: “Estás toda lorde, vai!”. Era uma forma de diluir a ansiedade e o medo, descontrair, tirar a importância. Tínhamos códigos e frases simbólicas, além de uma cumplicidade deliciosa que ficou amorosamente na memória.

É com esse espírito que procuro assimilar a partida do meu amigo José Walter de Castro Alves, o Zé, no dia 12 de fevereiro de 2020, para o infinito que desconhecemos, por mais que tenhamos crenças e fé. O buraco que se abriu é enorme. E preciso me entender neste redemoinho. Espirituoso, crítico, revisor de texto preciso, firme e delicado nas suas ponderações, acolhedor, com um olhar absurdamente sério para as questões de trabalho, mas com um humor implacável nas suas observações, Zé deixa um vazio, da colocação de uma simples vírgula até uma conversa densa sobre religião, política ou um papo trivial.

Desde que nos conhecemos, discutimos muito, no bom sentido, é claro. E sei que aprendi com ele um olhar mais abrangente e pausado, que foi a nossa salvação em alguns momentos de trabalho, contando sempre com as observações e imitações implacáveis da Kixi Dalzotto. Zé era fã incondicional do humor da parceira, que chamávamos de “Inezinha” quando ela, por pura diversão, se comportava como uma “socialite”. Ríamos muito. E nos divertíamos com o uso de expressões como “é um diferencial da empresa”, “iniciativa única” ou “iniciativa ímpar”, entre tantos outros jargões, típicos da publicidade e do marketing que, inevitavelmente, usávamos no material enviado para os meios de comunicação. Enfim, tarefas de assessores de imprensa que somos.

Zé era músico, tocava violão muito bem e deixou canções lindas que fez para os netos Flora e Joaquim, para os filhos do Cassiano, meu sobrinho, e da Cláudia – Arthur, Eduardo e Laura, para as filhas dos sobrinhos Gonçalo/Magrão – a Bia, e do Gustavo/Guga – a Gabi. E “Bambuzais” que ele compôs em Bagé quando andou por lá trabalhando em uma campanha política, música que me emocionou desde a primeira vez que ouvi e hoje ainda mais.

E por falar em música, o trecho de uma canção chamada “Serenata”, na voz de Celso Sim, traduziu o meu sentimento dois anos depois da morte da Marlene – “Um sabiá, na palmeira, longe / Canta, canta pra ti / Ele bem sabe a dor da saudade / E canta, canta pra ti”. Ouvimos juntas pela primeira vez no Theatro São Pedro, em show do José Miguel Wisnik. Essa mesma canção traduz hoje o meu sentimento em relação ao Zé. No link abaixo a versão de Arthur Nestrovski para a música, na voz de Lívia, sua filha, acompanhada por ele ao violão – https://www.youtube.com/watch?v=iQVTCp6x520. Integra o repertório do CD “Pós você e eu”, com os dois. No encarte, um texto muito bom e bem humorado, assinado pela irmã caçula de Lívia, Sofia, diz algo que já me confortou e conforta agora: “A música ensina a transformar o tempo vazio em tempo interior”.

A música salva. Assim como a escrita me salvou ao me colocar em contato com movimentos e coletivos engajados na luta por acessibilidade e inclusão. Textos que fiz e que Zé sempre revisou, entre tantos outros, na busca por direitos sociais, voz, equilíbrio, respeito, cidadania, reconhecimento, independência, acolhimento, que sempre dividi e discuti com ele.

Assim, percebo agora que aprendemos juntos a falar, a entender os nossos tantos limites e ampliamos a discussão sobre o nosso estar no mundo. “Existirmos, a que será que se destina?” A pergunta do compositor Caetano Veloso na canção “Cajuína” sempre esteve no nosso horizonte. E está no ar. Por isso hoje, mais uma vez, confirmo que existir é perguntar, é questionar, é não fugir dos sentimentos, não se acomodar, é buscar forças e preencher os vazios que vão se acumulando. É viver o luto. É resistir, apesar da dor, abrir portas, ampliar os relacionamentos. O nosso estar no mundo é feito assim, até o ponto final. Fundamental, então, é sensibilizar ainda mais o olhar para o outro e entender que a falta que nos fragiliza é da condição humana.