Estamos todos nus

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“O Brasil está nu. E isso não é uma performance artística”, escreveu recentemente a jornalista Nanni Rios, proprietária da Livraria Baleia, em Porto Alegre. Estamos nus e desgovernados. Traduzindo: sem governo! Despencando? Ladeira abaixo? É possível. O medo e a insegurança reverberam por todos os espaços, independente de classe social – abastados, médios, remediados, pobres. E ecoam especialmente entre os mais velhos, os já doentes e os que vivem do trabalho informal cotidiano, única fonte de renda da maioria da população. Assim como ainda reverbera o egoísmo absurdo daqueles que se jogaram nos supermercados e abarrotaram carrinhos com alimentos e produtos de limpeza. Mas temos antídotos. E a solidariedade vai se manifestando de um jeito forte, acolhedor, comovente, a distância, como está prescrito. É necessário agir com rapidez e firmeza para evitar o caos.

Quando médicos especialistas da área de infectologia no mundo inteiro pediam que as pessoas evitassem aglomerações, o governo brasileiro minimizou. Espaços culturais fecharam. Artistas cancelaram apresentações. Shoppings restringiram a entrada de pessoas. Voos foram cancelados. Mesmo assim, contrariando todas as normas, o presidente desdenhou, tratando o caso como histeria. E ainda foi para as ruas, com a sua irresponsabilidade e arrogância, tão peculiares, apertar a mão de eleitores, tão sem noção quanto ele.

Quando as vozes consequentes do país provaram que não havia paranoia nem exagero, as vozes do governo continuaram desconsiderando a possibilidade de pandemia. E o presidente pontuou com uma declaração estapafúrdia: “Se eu resolvi apertar a mão do povo, é um direito meu, eu vim do povo. Uma maneira de mostrar que estou junto com eles na alegria e na tristeza. Se me contaminei, a responsabilidade é minha”. Responsabilidade? Não! Insanidade? sim! É óbvio que, se já estava contaminado, poderia contaminar muita gente.

“Burrice mata”, escreveu o cineasta Jorge Furtado. O panelaço veio. É real. O mundo está contaminado. E o governo, que assim como está não está, nunca se sabe, foi obrigado a mudar o tom do discurso. Agora é de quem sempre se preocupou com o avanço da doença. Caiu a ficha. Mexam-se. Precisamos de medidas para conter o que vem por aí. Mas como confiar em quem não tem a mínima coerência e brinca com a dor alheia? Como confiar em quem tem um filho desgovernado, cheio de razão e sem noção de diplomacia, que culpa a China por tudo?

O contágio, a partir dos cálculos estatísticos feitos até agora, vai aumentar muito ainda, o que certamente provocará pane no sistema de saúde se não forem tomadas medidas drásticas para contenção. Não há mais como negar. Está no ar. Está nas ruas. Está nas esquinas. Está nas nossas portas. Precisamos ficar isolados em nossas residências para evitar a propagação. Estamos vulneráveis, frágeis, e temos muitos exemplos no passado para rever e não repetir. Logo, precisamos de uma Nação firme e bem posicionada, com uma estrutura forte na área da saúde para dar conta do que vem e proteger a população. Até o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckimin, que é médico, deixou o período sabático e declarou: “Temos que revalorizar a política”, perplexo diante do péssimo exemplo do presidente, “com atitudes que desdenham de orientações mundiais, deseducam, prestam um desserviço”.

Como escreveu o ator e diretor de teatro Zé Adão Barbosa, precisamos de “um Estado que olhe para os trabalhadores informais, sem salário fixo, sem condições de trabalhar em casa, que não terão como manter seu sustento, e também para os artistas que vivem de seus espetáculos e de suas aulas sem outras fontes de renda, muitos sem casa própria. E a luz? E a internet? E o telefone? E a comida na mesa? Quem paga por isso sem trabalhar? Felizes dos que poderão ficar em casa sem prejudicar sua vida econômica e familiar. Por isso, juntamente com as indicações de cuidados e prevenções, pensemos em uma maneira de sermos solidários para com os que terão as vidas mais devastadas neste momento caótico”.

E a população das vilas abandonadas, sem saneamento básico, sem nada? E a população de rua?

O jornalista Rafael Guimaraens questionou a atuação política e a vida pública de um presidente que já homenageou assassinos como Pinochet, Stroessner e Brilhante Ustra. Que já declarou que a ditadura deveria ter matado mais 20 mil e que tortura é cascata. Que quer distribuir armas à população e propõe acabar com os redutores de velocidade no trânsito. Que quer acabar com o Mais Médicos, estimula a violência em todos os níveis e manifesta posições racistas, machistas e homofóbicas, estimulando o assassinato de jovens negros, da comunidade LGBT e o feminicídio. E acrescento: que já minimizou as políticas de acessibilidade e inclusão, quando ainda era deputado.

O que pensar e dizer diante de tanto desrespeito pelo outro? Penso e digo que temos um presidente de comportamento psicopata, fixado em enviar recadinhos pela rede social, que só olha para os seus milicianos, despreza quem não lhe faz a corte e agora deu para se autoelogiar.

E me pergunto: Diante do quadro político que aí está, temos condições de eleger pessoas honestas? Qual a responsabilidade de quem sonha com lideranças sérias? Precisamos radicalizar? E a esquerda o que propõe? Seremos atropelados mais uma vez?

A situação é preocupante. A turbulência está só começando. Questões econômicas, sociais e trabalhistas graves estão emergindo e vão explodir. Trabalhadores de carteira assinada, que hoje trabalham de casa e cuidam dos filhos porque não tem escola, já estão assoberbados, cumprindo uma carga horária mais do que absurda. Não há limite e poucos empregadores se dão conta que o regime é de escravidão. Onde está a conscientização dos que discursam pelo respeito ao trabalhador? Será que a pandemia veio também para fazer o mundo repensar prioridades, lideranças, condutas? E para fazer com que cada um de nós reflita sobre a maneira como nos relacionamos com quem presta serviço, seja ele qual for? A escravidão acabou mesmo? Pelo visto, não. E o Brasil está cheio de tristes exemplos.

Pois agora estamos todos enjaulados e certamente este é um momento raro para pensar, repensar e questionar nossas relações pessoais, profissionais e  políticas. É possível estabelecer parâmetros cristalinos e humanitários voltados verdadeiramente para o respeito e a responsabilidade social? Tenho muitas dúvidas, mas a minha luta é esta. Sempre foi.

Autor: Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

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