Sobre Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

A poesia, a condição humana, a experiência que nos salva!

Tudo é tenso. Tudo treme. Tudo é ponto de interrogação. “A espera desespera”, escreve o poeta de “a vida das sobras”, Carlos Caramez. Não sabemos nada. O momento é de apreensão. A vida na ponta dos dedos. O coração aos pulos, com direito a um respiro/suspiro prolongado entre um baque e outro. Para não morrer da espera asfixiante. Essa é a condição. É o que nos sobra nos momentos cruciais.

E por falar em “a vida das sobras” (Editora Leitura XXI), o livro está nas livrarias de Porto Alegre. Recomendo! São poemas curtos, vigorosos e proféticos. Um alerta. Falam de uma geração que sonhou, se desesperou, lutou para voltar a sonhar e vê o sonho escapando pelas mãos. Há no tecido poético vozes de quem não desiste. O livro do jornalista e produtor cultural Carlos Caramez encerra a trilogia “poemas incuráveis”, formada por “Última Safra do Silêncio” (Mercado Aberto/1998 – Prêmio Açorianos de Literatura em 1999) e “Construção das Ruínas” (Leitura XXI). O site do poeta é https://www.carloscaramez.com/

a vida das sobras_____CarlosCaramez_Capa*
Diante da certeza de que “não há guarda-chuva contra o mundo”, como escreveu João Cabral de Melo Neto no poema dedicado a Carlos Drummond de Andrade, e da vulnerabilidade de todos nós, reafirmo: Sempre me comoveu e comove a condição humana. Hoje, com a maturidade, ainda mais. Diante do inexorável, aprendi que o que nos ampara é a solidariedade, o amor, a generosidade, o ver o outro na sua dimensão e a luta coletiva.
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Nos hospitais, de um modo geral, porteiros, auxiliares e pacientes me olham com um misto de pena, curiosidade, espanto e vários pontos de interrogação. São gentis. Não me dizem não. Minha figura, de alguma maneira, os comove. Se me comunico, peço alguma informação, aí tudo se transforma em admiração. E, claro, normalmente, liberam a pergunta que não quer calar, o que eu faço. Quando digo que sou jornalista o milagre se dá e os rostos se enchem de sorrisos. Jornalista? Não tenho dúvidas de que por trás dessas reações, às vezes tão absurdas, está uma grande incredulidade – como uma pessoa assim chegou nesse lugar?
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Em meio ao caos, o relato comovente da metamorfose de uma mãe aponta para a luminosidade. E nos salva! Com a palavra Flávia Berti Hoffmann, mãe de Bernardo, que tem nanismo.

Minha metamorfose sendo mãe!
“Eu já fui mãe que buscou os porquês quando soube que teria um filho com deficiência. Já fui mãe que sofreu por ter poucas informações sobre nanismo e por não saber como seria o futuro do Bernardo.
Sou mãe que quando saio na rua com meu filho, não passamos despercebidos, somos alvo de olhares curiosos e também carinhosos. Sou mãe que já escutou em alto e bom tom: “acho que ele tem um probleminha”
Já acreditei que o preconceito teria fim, hoje vejo que isso faz parte de alguns seres humanos, e esses, eu quero longe da minha vida.
Já me intitulei mãe especial, mãe abençoada, privilegiada e outras tantas.
Hoje sou inclusiva e informada, mas antes de tudo apenas MÃE!
Minha maior conquista? Não associar tudo que acontece, principalmente na vida do Bernardo, com a acondroplasia. Afinal de contas antes de qualquer rótulo, deficiência ou alteração genética, ele é uma criança.
Hoje posso dizer que, se tenho alguma missão na vida, é a missão de ser mãe e mostrar para ele que todos temos dificuldades, somos todos diferentes fisicamente, mas que o coração deve estar sempre cheio de sonhos e amor!”.

Bernardo*
Comunicação e Direitos Humanos
É estimulante também o convite que recebi da professora doutora Sarai Patricia Schmidt, do Curso de Comunicação da Feevale. Nesta segunda-feira, 22 de maio, às 19h30min, vou falar sobre Comunicação e Direitos Humanos para os alunos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da instituição.
Um debate necessário nesses tempos turbulentos. E, claro, um grande desafio. Comunicação e Direitos Humanos são universos que transitam por fronteiras muito vulneráveis. A pergunta é: Como tratar de temas como deficiência, acessibilidade, inclusão, preconceito, evitando cair no heroísmo, no fetiche, no sensacionalismo, no clichê, no estereótipo e na tão endeusada pela mídia superação?

 

“Laerte-se” e vá além, sem medo do avesso de todos nós

No dia 22 de abril foi lançado em São Paulo, no Reserva Cultural, o documentário “Laerte-se”, direção de Eliane Brum e de Lygia Barbosa da Silva, que também assinam o roteiro em parceria com Raphael Scire. A montagem é de Nani Garcia. A produção tem a assinatura de Lygia e Raphael. A realização é da Tru3Lab para a Netflix e a partir do dia 19 de maio estará disponível na Netflix para 190 países.

O filme revela um pouco mais dessa criatura libertária, ousada e inquietante chamada Laerte Coutinho, cartunista e chargista. Suas buscas, o feminino e tantas questões que dizem respeito à mulher que se insurgiu nessa caminhada, quando, aos 57 anos, Laerte assumiu sua transexualidade e passou a viver uma experiência inusitada.

Laerte - foto divulgação documentário

Laerte – foto divulgação documentário

Para Eliane, que conduz a entrevista no filme, o momento de mostrar para o mundo algo que se cria, neste caso uma criação coletiva, é, “ao mesmo tempo tão alegre, ao mesmo tempo tão frágil, ao mesmo tempo tão trêmulo.” E ela tem toda a razão! E esse momento que vem através da arte é singular, denso e tenso na sua amplitude. É revelador do avesso do avesso do avesso de todos nós.

Laerte Coutinho é tão surpreendente na sua busca que até virou verbo – Laertar-se

A sinopse do filme diz que “Laertar-se ao mesmo tempo que impele ao movimento, como um imperativo de vida, se volta para si, numa interrogação persistente. Mas aquela que retorna não é o mesmo que foi. E isso a cada volta. Ao acompanhar Laerte Coutinho em seu percurso de investigações sobre o que é ser uma mulher, o documentário também se faz ponto de interrogação. Ou apenas espaço de possíveis”.

No documentário, “Laerte conjuga um corpo no feminino, esquadrinha conceitos e preconceitos. Não busca identidade. O que conjura são desidentidades. Laerte é filho e filha, é vó e vô. É também pai, de três filhos, órfão de um. É ainda quem leva a filha ao altar como pai e como mulher. E quem, mesmo sem útero, gesta. Envia suas criaturas para confrontar a realidade na ficção dos quadrinhos como uma vanguarda de si. E, nas ruas, ficciona-se como personagem real”.

“Laerte, pessoa de todos os corpos e de nenhum, embaralha qualquer binarismo. Ao indagar sobre Laerte, este documentário escolhe vestir a nudez, aquela que vai além da pele que se habita”.

Depois do lançamento, a agenda que vem pela frente é motivo de alegria para Eliane “porque os documentários têm pouco ou nenhum espaço nos cinemas brasileiros”. Os dois documentários anteriores dela, “Uma História Severina” e “Gretchen Filme Estrada”, percorreram o mundo, mas muito pouco frequentaram as telas de cinema no Brasil. “E a gente faz um filme para que ele possa ser visto e debatido, para que ele produza algum movimento interno nas pessoas. Para que ele tenha sua própria aventura no mundo”.

Precisamos nos ver existindo – Abrindo frestas

Não há como não pensar nos invisíveis deste Brasil continental, país que tão pouco vê, cuida, dá importância e entende sua gente. Essa gente que trabalha duro e cria, com a sua labuta cotidiana, os alicerces para o crescimento de um país que não os considera. Não procuro respostas para esta constatação. Até porque quando chegam são vazias, protocolares, às vezes piedosas, cumpridoras da burocracia. Apenas. Penso pela necessidade de entender a razão de um existir absurdamente na contramão.

De repente, saltam da minha memória publicações e exposições instigantes, que li e vi, sobre essas vidas à margem e, ao mesmo tempo, no centro nevrálgico de tudo. São iniciativas que dão visibilidade e um lugar para pessoas comuns, juntando e tecendo fios da condição humana, sem caricatura, sem maquiagem, sem estereótipos. Estão aí! Para democratizar a comunicação, combater o preconceito, desacomodar olhares e a nossa, por momentos, distraída consciência crítica.

Frestas para a visibilidade necessária

Começo por “A vida que ninguém vê”, série de reportagens da jornalista Eliane Brum publicadas em 1999 no jornal Zero Hora. Ao se aventurar pelo avesso do jornalismo padrão que persegue o sensacionalismo, a fama, a superação, o escândalo e a tragédia, Eliane mergulhou com rara sensibilidade no dia a dia de pessoas esquecidas para revelar a singularidade de suas vidas invisíveis e tão ricas. A série conquistou, em 2006, o Prêmio Esso Regional e se transformou em livro, lançado pela Editora Arquipélago. Recomendação da autora no final: “Seja generoso. Arrisque. Ouse. Olhe”.

Em 2011, me deparei com “Passageiro do fim do dia”, do escritor Rubens Figueiredo, romance que fala de uma maioria invisível que povoa a periferia pobre das metrópoles, sujeita a tudo, especialmente à injustiça sistemática que gera violência, sonhos demolidos, desejos frustrados, esquecimento, massacres. Publicado pela Cia das Letras, foi considerado o melhor livro daquele ano.

Em 2012, acompanhei o lançamento de “Mulheres perdidas e achadas – histórias para acordar”, projeto editorial da Alice/Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação, organizado por Rosina Duarte e Maíra Brum Reick, com uma bela edição de arte de Rosana Pozzobon. São três pequenos livros, muito originais: um Folhetim, com histórias de prostitutas; um Almanaque, que traz a sabedoria de mulheres vividas do interior, “uma espécie de degustação da cultura feminina gaúcha”, e um Bloco de Cartas escritas por presidiárias com o nome de Pombo-Correio.

Em 2014, o livro e a exposição fotográfica “Arquipélago” de Cristiano Sant´Anna revelam o cotidiano da comunidade de pescadores de Arquipélago, bairro esquecido de Porto Alegre, formado por 16 ilhas. O trabalho deu visibilidade a um povo que vive de frente para o rio, enfrenta as cheias com naturalidade e pesca para viver. Com um formato ousado, o livro é uma edição da Pubblicato.

Foto do livo "Arquipélago", de Cristiano Sant'Anna

Foto do livo “Arquipélago”, de Cristiano Sant’Anna

No final de 2016, uma exposição chamada TODAS SÃO TODAS reuniu 30 fotos de 11 mulheres com deficiência, que posaram de corpo e alma para a lente da fotógrafa Daiane Peixoto. Iniciativa do Grupo Inclusivas, em parceria com o Coletivo Feminino Plural, a mostra busca instigar a reflexão sobre o lugar delegado a essas mulheres e contribuir para um novo olhar através do seu protagonismo. Estamos todas na torcida para que a exposição volte.

Um ano do blog – descobertas e uma pequena história

Há um ano escrevo neste blog que, intuitivamente, ganhou o nome de “Isso não é comum”. Há um ano percebo que essa escrita foi me colocando em contato com movimentos e coletivos engajados na luta por acessibilidade e inclusão. Grupos formados por pessoas absolutamente incomuns, éticas, generosas e guerreiras na sua busca por direitos sociais, voz, respeito, cidadania, reconhecimento, independência, acolhimento.

A proposta de falar sobre o impacto da diferença, e do quanto ser diferente pode machucar e afastar do convívio, era um desejo que Marlene, minha irmã, e eu estávamos concretizando quando ela nos deixou. Queríamos entender os limites que o nanismo nos impôs e os limites de tantas outras pessoas com dificuldades marcantes que geram preconceito, segregam e intimidam. Queríamos refletir sobre um assunto que nos inquietava e estava nas nossas vidas desde que nascemos. Queríamos ampliar a discussão. Não deu tempo! Passei, então, a escrever muito, uma maneira de não desistir, seguir conversando com ela, preencher um vazio insuportável, não sucumbir.

Assim encarei este blog e publiquei o primeiro texto no dia em que fez um ano da morte da Marlene – 5 de abril de 2016. E, quase sem perceber, fui abrindo portas. Passei a conviver com pessoas que, como eu, são diferentes e estigmatizadas cotidianamente. Ampliei meus relacionamentos, me fortaleci. Sensibilizei ainda mais o olhar para o outro e entendi que falar da diferença é encarar a fragilidade da condição humana. E se contrapor ao preconceito de qualquer natureza é saudar a diversidade tão necessária para uma vida libertária.

Há um ano escrevi: “O caminho é longo, mas estou na estrada. Sempre estive”. E continuo.

"Solidão suave", por Tamar Matsafi

“Solidão suave”, por Tamar Matsafi

Pequena história de como criar jeitos de viver com leveza

“Estou bem para enfrentar os olhares críticos do povo?”. Esta era a pergunta recorrente que nos fazíamos sempre que íamos sair para uma atividade que exigia de nós um pouco mais do que o cotidiano de enfrentamentos inevitáveis. Uma aula com turma nova. Uma coletiva de imprensa. Uma banca de mestrado ou doutorado. Um cliente novo. Uma palestra. A abertura de um evento. Um encontro de trabalho. Uma entrevista. Respondíamos uma para a outra: “Vai firme. Estás toda lorde”. E ríamos muito. Era uma forma de diluir a ansiedade e o medo, descontrair, tirar a importância. Tínhamos muitos códigos. Muitas frases simbólicas. Cumplicidade deliciosa de uma convivência que fica carinhosamente e amorosamente na memória.

É assim que tenho lembrado da Marlene ultimamente – espirituosa, com um humor incrível, forte e delicada, precisa e acolhedora nos conflitos, com um olhar absurdamente sensível para a condição do outro. Aprendemos juntas, no dia a dia, esse olhar que, provavelmente, foi a nossa salvação.

“Um sabiá, na palmeira, longe / Canta, canta pra ti / Ele bem sabe a dor da saudade / E canta, canta pra ti”.

Essa canção traduz o meu sentimento neste dia 5 de abril de 2017, dois anos da morte da Marlene. Ouvimos pela primeira vez no Theatro São Pedro, na voz de Celso Sim, em show do José Miguel Wisnik.

Aqui quem canta a versão de Arthur Nestrovski para “Serenata” é Lívia, sua filha, acompanhada por ele ao violão (https://www.youtube.com/watch?v=iQVTCp6x520). A música está no CD “Pós você e eu”, com os dois. No encarte, um texto bem humorado, muito bom, assinado pela irmã caçula de Lívia, Sofia, diz algo que me conforta muito: “A música ensina a transformar o tempo vazio em tempo interior”. A música salva.

A necessária busca pela inclusão – “Sons pra Bella”

O humor, às vezes, é tão sem graça

Sábado à tarde. Saio de casa pela Marquês do Pombal em direção à Quintino Bocaiúva. No estacionamento, ao lado da Panvel, quase na esquina das ruas, acontece um evento estilo Food Truck. Ao me aproximar, vejo uma pessoa usando pernas de pau enormes, na calçada, tentando animar quem chegava. Lá do alto, o personagem cola os olhos em mim. Acostumada com a piada óbvia, deduzi o que ele ia dizer: “Olhem, olhem, a minha noiva está chegando!”, gritou. Os poucos que estavam nas barracas mais próximas riram. Com o humor curto, mas elegante, respondi: “Não sou tua noiva, nem na brincadeira”. Os risos continuaram. Segui. Ele disse mais alguma coisa. Não ouvi. O humor, às vezes, é muito sem graça.

"Invasão", por Tamar Matsafi

“Invasão”, por Tamar Matsafi

Somam-se a essa vontade de fazer rir a qualquer custo outras piadinhas banais que ouço quase que cotidianamente. “Mulher chaveiro”. Mulher de bolso”. “Esqueceu de crescer”. “Sai do chão, criatura”. Nessa precariedade lamentável em que se transformou o Brasil, sinto que o preconceito recrudesceu. Ou ando muito sensível aos olhares e palavras que invadem minha privacidade. Mas, em meio a esses ruídos perturbadores, o vídeo de uma campanha com o objetivo de arrecadar dinheiro para uma menina que precisa de um novo aparelho auditivo restaurou minha emoção, minha esperança, minha força.

Nossa busca pela inclusão não pode cessar – Bella precisa ouvir novamente

Bella, arquivo pessoal

Bella, arquivo pessoal

A história de Isabella é contada pela mãe, a professora Tamires Roos, no vídeo https://www.youtube.com/watch?v=3P60m47FaQs&feature=youtu.be. A coragem para assumir publicamente que a família não tem condições financeiras se impôs quando ela e o pai sentiram a filha mais triste, retraída, solitária.

Isabella nasceu linda, saudável e tranquila. Aos quatro meses, a família percebeu que algo de estranho acontecia. Os choros eram intensos e já não se acalmava ouvindo a voz da mãe. Depois de muitos testes e análises indicando que tudo estava normal, o médico recomendou exames auditivos. Aí se revelou o problema. Diagnóstico: Surdez severa profunda. Aos dois anos, Isabella fez um implante coclear (instalação de eletrodos na cabeça). A cirurgia foi um sucesso. A menina começou a ouvir, falar, brincar e conviver com outras crianças, feliz.

Como a garantia do aparelho externo do ouvido não é vitalícia, sempre é necessário algum ajuste. A família, que não mede esforços para garantir uma vida saudável para Isabella, agora enfrenta dificuldades. O aparelho estragou definitivamente. A menina, hoje com 9 anos, necessita de um novo Nucleus 6, que custa R$ 39.600,00, mesmo sendo paciente do Sistema Único de Saúde/SUS. O governo não fornece o dispositivo espontaneamente. É preciso entrar com uma ação que pode demorar meses ou até anos. Os pais não têm condições financeiras e lutam para devolver os sons à vida de Isabella. A falta de audição já interfere no seu desenvolvimento, na aprendizagem, na comunicação, no emocional.

Vejam o vídeo, compartilhem, contribuam. As doações podem ser feitas no Banrisul, agência 0070, conta poupança 39.0929.360-6, em nome de Tamires Ross dos Santos – CPF 024.594.120-70.

Fragmentos do cotidiano de quem busca a inclusão

A inclusão pode ser simples assim
O menino parou e me olhou com os lindos olhinhos arregalados e curiosos. Olhou para a mãe, sério, e disse: “Tô achando essa pessoa muito estranha”. Parecia ter uns 5 anos. A mãe, delicadamente, falou: “Então, conversa com ela”. Perguntei: “O que tu estás achando estranho?”. Ele: “O tamanho”. Eu: “Somos quase do mesmo tamanho”. Ele: “Mas é diferente. Tu tá sozinha?”. Respondi que sim e completei: “É que eu sou uma adulta pequena”. Ele puxou a mãe pela mão e disse, aliviado: “Ela é uma adulta pequena, mamãe!”. A mãe, sábia, comentou: “Pois é! Vocês podem ser amigos. Dá um beijo nela”. Ele veio, sorrindo, me deu um beijo e um abraço. E se foi, me abanando. Encarar com naturalidade a fala da criança, responder e explicar afasta os fantasmas e aponta para a riqueza da diversidade humana.

"Incluídas", por Tamar Matsafi

“Incluídas”, por Tamar Matsafi

A inclusão pode ser complicada assim
A menina me olhou assustada, puxou a mãe pelo vestido, apontou o dedinho para mim e foi dizendo: “Olha, olha!”. A mãe não me olhou, deu um safanão na criança e foi saindo e falando rispidamente: “Onde está o respeito? Tu sabes que não se deve fazer isso”. Não tive tempo para dizer nada. E elas se foram. Fazer o quê? Fiquei pensando com os meus botões. A criança foi reprimida na sua espontaneidade. Não falar é abrir uma fresta para que o preconceito entre e vá se acomodando, quieto e perigosamente.

Nossa diferença é a nossa fortaleza
Lute como uma menina. Nesta quinta-feira, 16 de março de 2017, às 17h, na sede do Coletivo Feminino Plural (Andrade Neves, 159, sala 85, Centro Histórico de Porto Alegre), uma roda de conversa com jovens estudantes que participaram das ocupações das escolas em 2016 marca o lançamento do projeto “Mandala da Diversidade – Nossas Diferenças, Nossa Fortaleza”. O projeto busca dar visibilidade a jovens ativistas de 13 a 18 anos, aprofundando questões de gênero, etnia e raça, diversidade, mulheres com deficiência, sexualidade, comunicação e política. Informações pelo email pontodeculturafeminista@gmail.com. Cada vez mais, precisamos colocar esses temas nas nossas rodas de conversa.

Ícaro desejou voar
“Ícaro” coloca em cena um cadeirante, Luciano Mallmann, que sofreu uma lesão na medula ao cair durante uma acrobacia aérea em tecido no Rio de Janeiro, em 2004. Entre o real e a ficção, a montagem nasceu da experiência do ator e de pessoas que conheceu depois que passou a usar cadeira de rodas. As histórias tratam de temas universais, resiliência, relacionamento entre pais e filhos, relações amorosas, suicídio, preconceito, gravidez e maternidade. “Se eu não fizer a minha história e simplesmente esperar alguém me chamar para um trabalho não faço quase nada. Já é difícil para quem tem todas as possibilidades ser chamado”, assinala Luciano, produtor, intérprete e autor dos textos. A direção é da atriz Liane Venturella. A iluminação de Fabrício Simões e a trilha sonora de Monica Tomasi sublinham cada cena da peça que está em cartaz no Instituto Goethe até 26 de março. “Ícaro” é, acima de tudo, um espetáculo sobre a condição humana. “Somos todos iguais, cadeirantes ou não, temos dificuldades em relacionamentos, medos etc. Espero contribuir com essa peça para o debate”.

Luciano Mallmann em Icaro, foto de Jonathan Heckler

Luciano Mallmann em Icaro, foto de Jonathan Heckler

Uma pessoa não pode ser definida pela sua deficiência
Ednilson Sacramento faz Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, na Universidade Federal da Bahia. Por uma dessas felizes coincidências, um e-mail dele me foi encaminhado por um amigo. Ednilson é cego, condição que o impulsionou a fazer o trabalho de conclusão de curso voltado para a linguagem. Mais especificamente, para o vocabulário usado quando o assunto é a pessoa com deficiência. As novas abordagens e nomenclaturas pertinentes, o que deve ou não ser usado, o peso de uma expressão, de uma palavra, para quem já é estigmatizado. Um trabalho necessário que, com certeza, será muito bem-vindo. Uma reflexão singular sobre um assunto pouco pensado. Estou aguardando ansiosa.

 

A possibilidade da reinvenção e do sonho, sem tragédias

No país do jeitinho, vamos, lamentavelmente, nos ajeitando. Assujeitando. O olhar enviesado para as pequenas dores latentes, físicas ou da alma. Parece que o importante é ir ultrapassando os obstáculos do cotidiano, em silêncio quase conformado, sem importunar ninguém.

Mas os abusos saltam e entram pelos olhos. Mesmo fechados. E, apesar do cansaço, reativamos a inquietação e a necessidade de não aceitar o que não nos pertence.

"A possibilidade da luz", por Tamar Matsafi

“A possibilidade da luz”, por Tamar Matsafi

A entrevista da professora e médica Izabel Maior, uma das pioneiras do movimento político das pessoas com deficiência no Brasil há mais de 30 anos, fez isso comigo. Mais uma vez, tive a certeza de que tudo anda muito devagar quando o assunto bate na cidadania, no direito de ir e vir e na independência possível. Mais uma vez, me dei conta de que é preciso atenção para não deixar o padrão de normalidade e o modelo de perfeição impostos colarem na gente e nos fazer, de uma forma ou de outra, alimentar a doença de uma sociedade que não vê o outro.

“Não vivemos no tempo das cavernas para eliminar pessoas com deficiência, mas essas pessoas ainda vivem segregadas”, enfatizou Izabel, a primeira pessoa com deficiência – uma lesão medular aos 22 anos – a comandar a Secretária Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência no Brasil (Fernando Henrique e Lula) . “O ser humano tem a capacidade de se reinventar, mas o desconhecimento do outro é um traço forte. Somos ainda muito resistentes a mudanças. Achamos que pessoas merecem rótulos, e muitos deles as inferiorizam”.

Izabel Maior - Divulgação Prêmio Claudia 2010

Izabel Maior – Divulgação Prêmio Claudia 2010

Ela falou sobre o tema “Deficiências e Diferenças”, no Café Filosófico da TV Cultura (https://www.youtube.com/watch?v=29JooQEOCvA – agosto de 2016), terceiro encontro da série “O valor das diferenças em um mundo compartilhado”, que teve a curadoria do psiquiatra e psicanalista Benilton Bezerra Júnior, doutor em Medicina Coletiva.

Se o Brasil tem hoje uma das legislações mais fortes em relação à pessoa com deficiência, deve-se, em grande parte, a luta incansável desta mulher, sua alma de ativista e seu olhar voltado para os mais vulneráveis entre os vulneráveis. Izabel Maior alia o conhecimento teórico de médica fisiatra, professora universitária com mestrado em Deficiência pela Universidade de Salamanca, na Espanha, e especialização em Bioética pela Universidade de Brasília ao saber técnico de gestora pública. Reconhecida pela Organização dos Estados Americanos/OEA, lançou em parceria com a Organização dos Estados Ibero-Americanos o filme-documentário “História do Movimento Político das Pessoas com Deficiência no Brasil”.

Foi nos anos 1970 que alguns movimentos coletivos tomaram vulto e mudaram o conceito de deficiência, que deixou o campo puramente biomédico e ganhou contornos sociopolíticos, de direito à diferença. Izabel defende o lema “nada sobre nós, sem nós” e diz que “não é o limite individual que determina a deficiência, mas sim as barreiras existentes no meio”. A atitude preconceituosa das pessoas, a arquitetura, o transporte público, a comunicação, a falta de acesso a bens e serviços, entre outras questões, travam a autonomia verdadeira.

E, então, lá vem o jeitinho. E seguimos fazendo do jeito que dá.

Mais de 15% da população mundial têm algum grau de limitação funcional e boa parte dessa grande minoria ainda enfrenta discriminação, invisibilidade e está isolada da convivência social. Não por desejo delas, já que a funcionalidade das pessoas, em um mundo com recursos tecnológicos para compensar os limites, não impede a convivência. Em sua fala, a médica se referiu à desconstrução dos problemas relacionados ao estigma, “que leva a não aceitação do outro como ele é. Não respeitamos pessoas que não sejam exatamente iguais”.

“Mas iguais a quê?” – essa é a pergunta.

A pessoa com deficiência tem que provar o tempo todo que é capaz. “É o famoso ‘matar um leão por dia” e a mídia não é uma aliada efetiva nessa luta. “Segue falando ‘o deficiente’, por exemplo, e ainda investe no sensacionalismo: se não tem superação, não tem notícia”. Para a médica, o imperativo da superação cria um desequilíbrio. É a pessoa com deficiência que deve se adaptar à sociedade, e não o contrário.

O recado é: “Mude você se quiser ser norma”.

A sociedade só vai mudar quando admitir a discriminação, principalmente em relação a pessoas com deficiência, que fazem parte de outras minorias. “Eu, por exemplo, sou uma pessoa com deficiência, mulher, na terceira idade”, salientou Izabel. Sobre as cotas, ela foi enfática. Só existem porque existe discriminação, mas a maior barreira ainda é o mercado de trabalho. “Quando se fala em cota, não significa que a pessoa vai passar com qualquer nota. A entrevista (de emprego) ainda é a prova de que a discriminação existe. A lei de cotas é uma maneira de contornar isso”. Ela criticou também os resultados práticos da lei de inclusão. “É preciso fiscalizar a sua aplicação”.

Só vamos chegar ao desenvolvimento social que buscamos quando entendermos que cada um tem contribuições a dar, a partir da sua diferença, do seu jeito de ver o mundo, do seu saber e da sua maneira de colaborar para a qualidade de vida de todos. A luta dos cidadãos é a mesma. “É contra a discriminação, é contra o apartheid, é contra a falta de oportunidades, é contra a reiterada posição de discriminar parecendo que não está discriminando”.

“Ainda bem que os nossos sonhos permanecem”.

"Ver o outro", por Tamar Matsafi

“Ver o outro”, por Tamar Matsafi

Ordens são ordens! E ponto? E basta? É isso mesmo?

Ordens são ordens! E ponto? E basta? É isso mesmo?

Revendo “O dia em que Dorival encarou a guarda”

"O dia em que Dorival encarou a guarda", por ChristianLesage

“O dia em que Dorival encarou a guarda”, por ChristianLesage

Toda vez que me deparo com a intransigência e com pessoas que só se pautam pela burocracia, não são razoáveis e não conseguem ver a rigidez insensata das normas, salta da minha memória o genial curta-metragem “O dia em que Dorival encarou a guarda”, de Jorge Furtado e José Pedro Goulart. E, mais uma vez, me dou conta do enredo incrível do filme que escancara o autoritarismo burro e a violência desnecessária.

Há algo de muito atual nesta curta história
Adaptação de uma passagem do romance “O Amor de Pedro por João”, lançado em 1982 pelo escritor Tabajara Ruas, o curta é uma produção da Casa de Cinema de Porto Alegre (http://www.casacinepoa.com.br/. Fala sobre prisão, racismo, repressão, estupidez, mediocridade e outras tantas atitudes insanas, traduzidas pela frase “Ordens são ordens”. São 14 minutos frenéticos, que cruzam humor e violência em doses exatas, como escreveu o escritor Caio Fernando Abreu para O Estado de São Paulo, no dia 8 de agosto de 1986, ano do lançamento do filme.

Vi pela primeira vez no Festival de Cinema de Gramado. Desde então, virou filme de cabeceira, assunto de muitos debates e muitos encontros.

A história é absolutamente simples. Na prisão, o negro Dorival, em uma noite de muito calor, pede para tomar um banho. O pedido inusitado espanta e desencadeia uma rede de covardia, submissão, falta de discernimento e loucura dos carcereiros. A manifestação do desejo, apenas um banho, toma uma dimensão desproporcional. Do soldado ao cabo, passando pelo sargento e chegando ao tenente, autoridade máxima da carceragem, vai desvelando uma obediência cega, sem fundamento, covarde, e o medo do enfrentamento.

"O dia em que Dorival encarou a guarda. Ator João Acaiabe", por Christian Lesage

“O dia em que Dorival encarou a guarda. Ator João Acaiabe”, por Christian Lesage

A transgressão e a coragem de Dorival, que enfrenta a incapacidade da guarda e questiona a falta de argumento de quem lhe nega um banho, provoca a convocação de um bando de soldados para enfrentá-lo. Encurralados, eles só conseguem responder a partir do que recebem: autoritarismo e violência. Dorival é agredido ferozmente e fica jogado no chão da cela, sangrando.

É nesse momento que a ordem é maravilhosamente subvertida. O sargento, negro como Dorival, leva-o para o chuveiro. A água cai sobre ele como uma bênção. Ele sorri apaziguado. O instante, redentor, ganha ainda mais emoção e poesia quando o sargento acende um cigarro e coloca na boca do preso. A humanidade de um gesto fora da ordem salta aos olhos de todos nós e restabelece a esperança.

O filme
Direção: Jorge Furtado e José Pedro Goulart
Roteiro: Giba Assis Brasil, José Pedro Goulart, Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo
Direção de Fotografia: Christian Lesage
Direção de Arte: Fiapo Barth
Música: Augusto Licks
Direção de Produção: Gisele Hiltl e Henrique de Freitas Lima
Montagem: Giba Assis Brasil
Assistente de Direção: Ana Luiza Azevedo

Elenco Principal
João Acaiabe (Dorival)
Pedro Santos (Soldado)
Zé Adão Barbosa (Cabo)
Sirmar Antunes (Sargento)
Luiz Strassburger (Tenente)

Prêmios
– 1º Prêmio Iecine (Governo do Estado/RS), 1985-86: Apoio à produção.
– 14º Festival do Cinema Brasileiro, Gramado, 1986 – Melhor Curta Nacional (dividido no Júri Oficial, sozinho no Júri Popular e no Prêmio da Crítica), Melhor Ator de Curta (João Acaiabe) e mais 4 prêmios regionais (Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Montagem).
– Troféu Scalp 1986: Destaque do ano em cinema.
– 21º Festival de Cinema Ibero americano, Huelva, Espanha, 1986: Melhor Curta Metragem de Ficção.
– 8º Festival Internacional do Novo Cinema Latino americano, Havana, Cuba, 1986: Melhor Curta de Ficção.
– Exibido na mostra “Os 10 Melhores curtas brasileiros da década de 80”, no Cineclube Estação Botafogo, Rio de Janeiro, 1990.

 

Outros fragmentos de um mesmo cotidiano. Da série Acessibilidade para quê?

“Se não nos movermos, o mundo encolherá para além do imaginável. Não só no lá distante. Mas aqui. (Tudo agora é um grande aqui.)” – Jornalista Eliane Brum, na coluna desta semana para o El País, O que o velho Araweté pensa dos brancos enquanto seu mundo é destruído?, onde fala sobre o impacto da construção da hidrelétrica de Belo Monte e o extermínio cultural de povos indígenas, agravado com a extração de ouro pela empresa canadense Belo Sun.

"Mover-se", por Tamar Matsafi

“Mover-se”, por Tamar Matsafi

Precisamos nos mover para que a nossa capacidade de luta e a nossa esperança de uma vida digna na aldeia que habitamos não encolham. Por isso, insisto nas questões que se referem à acessibilidade e à inclusão e busco entendimento e respostas.

Aqui, pequenas histórias da vida cotidiana, como ela é, um jeito de mostrar concretamente o porquê da inquietude que me acompanha. Movimento necessário para sair do limbo onde insistem em nos jogar.

*Lojas Renner, rede gaúcha referência em roupas e acessórios.
Para mim, quase um deserto. Entro. Ninguém olha. Ninguém vê. Vasculho um pouco. Alcanço em alguns produtos apenas. Então, logo pergunto para um e outro atendente sobre tamanhos etc e tal. “Podes ver para mim?” Respostas monossilábicas. Nenhuma sugestão. Não se dão conta, mesmo que o meu tamanho grite “tenho dificuldades de encontrar roupa”, que na pergunta que faço está embutido um pedido de ajuda. E já saem para arrumar prateleiras, o que, me parece, é o que fazem o tempo todo. Por esses e outros dissabores, deixei de frequentar as lojas do centro de Porto Alegre e do Shopping Iguatemi.

O “sirva-se você mesma e vá para o caixa pagar”, explícito na atitude, não me serve. Assim como não me servem o Self Made Man ou o We Can. Necessito da interação, não apenas pelos meus 1m10cm de estatura. Gosto de parceria, de um olhar, de um sorriso, de uma gentileza, de um “posso te ajudar?”. Fazer o quê!

No dia 6 de fevereiro, voltei à loja, no Shopping Total. Tratamento ainda mais impessoal. A sensação que ficou é que as pessoas que estão ali para atender o público, todas muito jovens, são orientadas para não sorrir, não perguntar “quer uma ajuda”, não interagir de forma alguma. Que dirá perceber que estão diante de um ser humano com necessidades especiais. Continuam monossilábicas e parecem fazer de tudo para não serem solicitadas.

Quase robôs! Assim como alguns atendentes de bancos, de laboratórios de exames, de repartições públicas e privadas. Virou norma agora? Que orientação esses profissionais recebem? O atendimento deixou de ser a alma do negócio? A tal qualidade total tão apregoada pelo marketing das empresas desandou ou é isso mesmo?

"Perplexidade", por Tamar Matsafi

“Perplexidade”, por Tamar Matsafi

*Mercado Público de Porto Alegre, onde pulsa freneticamente o coração da cidade.
Adoro o entra e sai. O burburinho. As bancas. O café. A padaria. As histórias. As vidas que cruzam cotidianamente por ali. A diversidade. Mas definitivamente não é um lugar para mim. Se estou sozinha, então, melhor nem tentar. Não alcanço em nada. E as pessoas tomam conta dos balcões como se fossem perder a última oportunidade de compra se fizerem uma gentileza. Não dão espaço. Não dão trégua. Salve-se quem puder! Quando, por ventura, consigo acessar um atendente, sou muito bem tratada em qualquer uma das bancas. Mas até conseguir são muitos empurrões, muitas admirações, muita mão na cabeça e as inevitáveis, para não dizer lamentáveis, observações: “Ah, pensei que fosse uma criança”. “Que engraçadinha!”. Haja paciência.

*E volto ao transporte público.
Na Praça 15, ônibus para o bairro. Fila enorme. As pessoas se empurrando, como se o ônibus fosse fugir e deixá-las ali plantadas para sempre. Resisto à pressa, aos apertos e aos comentários desagradáveis até entrar, sentar e observar, calmamente.

E a saga continua. Linha 10, carro número 6480, bairro Auxiliadora rumo ao centro, mais ou menos 11h15min. Uma senhora de muleta tenta entrar. Larga a muleta para se segurar. Quem ajuda? Uma senhora bem mais velha que também necessita de cuidado. O motorista olha. A cobradora, sorridente, também olha. E pede agilidade – “um passinho mais a frente, por favor”.

Relaxo e me pergunto: De onde vem esta ansiedade toda, este medo de perder o lugar, esta insistência em não ver o outro? Perdemos mesmo a delicadeza? É urgente evitar o encolhimento humano.

 

Por mais atitude

Na busca de respostas para infinitas perguntas que envolvem acessibilidade e inclusão, entendi que precisamos de ações concretas. Atitude! “Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um”, escreveu o arquiteto João Filgueiras Lima. Normas, regras, estatutos e tudo o que aparece como necessário para tornar a vida mais fácil, na maioria das vezes, fica no discurso ou no papel. A começar pela Constituição Brasileira que diz no artigo 5º, Capítulo 1, que trata dos direitos e deveres individuais e coletivos: todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Somos?

E por aí vamos.

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada pela ONU em 2007, ratificada pelo Congresso brasileiro e promulgada pelo presidente da República em 2009, fala em respeito pela dignidade, autonomia e independência das pessoas, a não discriminação e a igualdade de oportunidades, o direito à plena e efetiva participação e inclusão na sociedade e o respeito pela diferença. Temos?

Acessibilidade para quê?

Acessibilidade para quê?

Vigente no país desde 2000, a Lei federal 10.098 (regulamentada, em 2004, pelo Decreto 5.296) estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade, suprimindo barreiras e obstáculos nas vias e espaços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma de edifícios, nos meios de transporte e de comunicação. Onde?

Na década de 1990, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e a Câmara Municipal de Porto Alegre aprovaram leis que determinam o acesso e a circulação livre, segura e independente a todas as pessoas nos espaços públicos. Como?

Partindo do cumprimento do que cito acima, a acessibilidade estaria dada, de forma singela e efetiva. Engano. É evidente que quase nada funciona na prática e que nas questões que envolvem direitos humanos a sociedade não é tão magnânima quanto faz parecer que é.

Desconhecemos as leis e o significado real de palavras como acessibilidade e inclusão. Não nos ocupamos desses assuntos no cotidiano. Não buscamos informações concretas sobre Braile, Libras, audiodescrição, piso tátil, só para ficar em alguns exemplos.

Como chegar lá?

Como chegar lá?

Como avançar, então?

É fundamental divulgar e trabalhar as questões relacionadas aos direitos das pessoas com deficiência nas repartições, públicas e privadas. Sensibilizar os profissionais que fazem o atendimento nesses lugares. Mexer na infraestrutura física para tornar os espaços adequados e facilitar o acesso. Precisamos estar de olhos e ouvidos bem atentos.

Um banco pode ajudar

Um banco pode ajudar

Sempre me pergunto nos meus inúmeros embates internos com os bancos: O que deve custar para uma instituição financeira um balcão ou um caixa eletrônico mais baixo? Imagino que só com os juros que dois ou três clientes comuns, assalariados, pagam no ano, dá e ainda sobra.

O que deve custar um balcão adaptado para uma repartição pública, um laboratório de exames médicos ou qualquer outra organização que lida com uma gama de indivíduos? Para um hotel, que recebe pessoas de todo tipo, ter móveis mais adequados? Para um projeto contemporâneo de engenharia ou arquitetura pensar na diversidade humana? Vamos fazer essas contas e apresentar aos executivos dos serviços públicos e privados.

Vamos formular novas questões, como sugere o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que morreu em 9 de janeiro deste ano, no livro “Confiança e Medo na Cidade”: “As diferenças nos incomodam e nos impedem de interagir, de atuar amistosamente e que, se quisermos compreender nossas diferenças, precisamos formular novas questões”.