Sobre Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

A cidade que habitamos

Acabou o carnaval. As férias estão terminando. O cotidiano volta a pulsar intensamente. E 2018 chega na precária capital gaúcha.

“A cidade é para quem vive nela ou para quem vive dela?” Esta pergunta do ator e diretor Amir Haddad, do grupo teatral Tá na Rua, precisa ser ouvida e pensada na dimensão da sua pertinência.

Durante a campanha eleitoral para prefeito e vereadores, ensaiei aqui neste espaço uma conversa sobre a cidade, suas condições, possibilidades, futuro. Ingenuamente, alimentava a esperança de contribuir para que os eleitos, ao assumir a grande responsabilidade de administrar um município, dando voz aos cidadãos que nele vivem, fizessem a diferença. O que me movia nessa romântica tentativa era o desejo de participar. Pensava em uma troca permanente para melhorar o espaço urbano. Pensava em uma cidade mais inclusiva, leve, acessível, saudável, segura, generosa, limpa, bonita.

Hoje, ao andar por Porto Alegre, a esperança foge. Dói perceber o descaso de quem governa e o abandono da cidade que habitamos. Por isso, publico novamente o recado que escrevi na época inspirada no poema “O Mapa” de Mario Quintana, o escritor das nossas ruas e esquinas.

Olhe o mapa da cidade como se examinasse a anatomia de um corpo.

Do seu corpo.

Dos corpos de milhares de indivíduos que cruzam as ruas cotidianamente.

Trabalhadores. Estudantes. Aposentados. Desempregados. Jovens. Crianças. Loucos.

Lindos, elegantes, saudáveis, alegres, confiantes.

Curvados, dilacerados, abandonados, desesperados, desencantados.

De todos os tipos. De todas as raças. De todas as cores. De todas as crenças.

De toda a forma e qualidade.

Anônimos? Não! Seres humanos.

Examine esse mapa com atenção, desprendimento, carinho, generosidade.

Que anatomia é essa? Que tecido a envolve?

Que sonhos, esperanças, pesadelos e doenças estão impregnados na pele desse corpo urbano?

Procure entender como tratar esse corpo que pulsa incessante por uma vida digna.

“Há tanta esquina esquisita”, diz o poeta.

“Tanta nuança de paredes”.

Tantas buscas, desejos, dores, alegrias, desistências, conquistas, fracassos.

Há tanta miséria, tanta violência, tanta opulência, tanto desperdício na cidade de longos e muitos já cansados andares.

Há beleza, justiça, bondade, vontade de acertar.

Mas há tanta injustiça, tanta precariedade, tanto abuso de poder, tanto descaso.

São muitas as vozes sufocadas na cidade onde construímos nossas vidas.

A cidade que escolhemos? Ou a cidade que nos restou?

São muitas e vitais as questões nessa concretude urbana.

O corpo dessa cidade precisa de quê? E os corpos que por ela andam?

Precários e hipócritas

Vivemos em um país de terceiro mundo, escandalosamente injusto, sucateado por políticos, empresários e outras tantas inescrupulosas criaturas, com uma elite soberba, cruel, voraz e medíocre. Gente que tudo pode, tudo tem e tudo quer. Tentamos reagir, mas ainda nos submetemos. Por uns bons trocados fazemos valer a máxima “cada um tem seu preço”. E acabamos servindo a quem nos tira a dignidade. Criamos falsas ilusões cotidianamente. Aplaudimos e damos voz aos algozes.

Louvamos a supremacia das máquinas, da automação, da tecnologia que vai substituir o fazer humano, em um país miserável, de homens e mulheres desempregados ou em subempregos, crianças abandonadas e prostituídas, trabalho escravo. Admiramos os grandes centros urbanos nevrálgicos, que fazem girar o capital financeiro e insuflam as negociações milionárias. Ao mesmo tempo, lamentamos a periferia que sustenta a ostentação, é explorada e mergulha cada vez mais na pobreza.

Saudamos os bem-sucedidos, os espertos, os que estão no topo da pirâmide social e nos estendem a mão, benevolentes. E desprezamos a maioria que vive a dura vida real, mas é vista pelos olhos dos afortunados como gente que não deu certo, é preguiçosa, não gosta de trabalhar.

Enganamos o outro sempre que possível. Cometemos inúmeras infrações e pequenos delitos dia a dia, mas discursamos convictos pelo politicamente correto.
Sofremos de uma precariedade moral assustadora, mas não nos cansamos de falar no bem comum. E achamos que a razão sempre nos pertence.

Somos imperfeitos, mas temos a arrogância da perfeição.

Somos hipócritas.

 

A dificuldade de ver com olhos livres

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Um dos meus primeiros artigos sobre questões importantes para a vida de pessoas com nanismo falava sobre a difícil luta por inclusão e apontava para os tantos limites de uma sociedade minada de preconceitos. Foi em 2010, quando a palavra acessibilidade passou a ser muita usada, no sentido de alertar e sensibilizar a população, governos e instituições para o universo da deficiência física e mental. Para amenizar o que veio à tona, muitos projetos foram criados e a fala em defesa das pessoas com algum tipo de deficiência foi para as ruas. Além de ocupar palanques e tribunas, o assunto foi tema de amplas discussões em palestras, seminários, congressos, encontros e reportagens nos meios de comunicação.

O discurso em nome de quem precisava de acesso e inclusão estava na ordem do dia e apontava para muitas questões. Na época, tomei a palavra acessibilidade – difícil de dizer, difícil de escrever, difícil de entender, difícil de executar – para estimular a reflexão. O assunto, que perturbava olhares carregados daquela piedade mórbida que faz mal, colocava em discussão o direito a uma vida digna, menos complicada e mais humana. Direito de toda mulher, homem, criança, jovem e velho, não importa sua condição ou opção.

Como a importância desse debate é indiscutível, a mobilização foi grande. Muitos grupos se organizaram. As reivindicações aumentaram e algumas conquistas foram efetivadas, especialmente a autoestima de muita gente que se sentia discriminada. Mas é uma luta que não cessa. Precisamos estar sempre alertas. As adaptações físicas do meio, que a princípio pareciam fáceis de executar, ficaram, na sua maioria, no campo da promessa. Basta observar as instituições bancárias, de lucros homéricos e propagados aos quatro ventos. Não oferecem nem um mísero banquinho, no caso de pessoas com nanismo como eu, para um mínimo de independência. E quando solicitado, se espantam incrivelmente.

La Nana - Picasso, Paris, 1901

La Nana – Picasso, Paris, 1901

É por isso que repito, hoje com muito mais propriedade, que há algo vital a ser feito urgentemente para que a acessibilidade e a inclusão se tornem atitudes naturais: Educar para a diversidade que constitui cada um de nós como seres plurais e únicos. Educar para o respeito, a solidariedade e o acolhimento. Mostrar que a verdadeira riqueza humana está no encontro das diferenças, com suas múltiplas possibilidades e capacidades.

Por mais que tenhamos equipamentos urbanos acessíveis, rampas, calçadas, balcões, banheiros, elevadores e ônibus, campanhas pela inclusão, cotas, emprego, tudo ainda será precário se o preconceito, seja qual for – deficiência, cor da pele, opção sexual, classe social – persistir. Encarar as dificuldades cotidianas e a repercussão da diferença física, mental, monetária, religiosa, comportamental na sociedade em que vivemos nunca foi tarefa fácil. E hoje parece ainda mais cruel.

Para além do que é material, todo indivíduo precisa ser acolhido. Precisamos encarar essa incapacidade de ver o outro em todas as esferas da sociedade, tão sem escrúpulos. Não há nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo: ver com olhos livres – Oswald de Andrade. Poucos conseguem!

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bufão D. Sebastião de Morra, de Velázquez

Nanismo e a novela global

O que dizer de Estela, a personagem com nanismo da novela do horário nobre da TV Globo, interpretada pela atriz Juliana Caldas? Um equívoco? Procuro acompanhar sua história, mas, lamentavelmente, não me diz nada. Assim como não diz para muitas outras pessoas que, como eu, lutam contra o preconceito e batalham por inclusão e acessibilidade. Não pertencemos ao mesmo universo. E se perde uma oportunidade preciosa para discutir questões vitais do cotidiano de quem é discriminado.

A pergunta que fica é: o autor Walcyr Carrasco se perdeu ou queria isso mesmo?

A trama poderia ter muitos outros olhares para a personagem. Olhares mais densos, críticos e realistas. Para além de uma mãe megera e de uma jovem mimada e maltratada ao mesmo tempo. Para além do dinheiro que pode mascarar ou esconder a filha “monstrenga” e indesejada. Por que não tratar da rotina de uma pessoa com nanismo mostrando que tem vontade própria, toma conta da sua vida, trabalha, enfrenta inúmeros obstáculos, a discriminação, sofre, mas busca ajuda, tenta se entender e entender a reação do outro? Por que não aprofundar o tema retratando uma pessoa com deficiência que combate o preconceito, busca por seus direitos e amplia uma luta que é de tanta gente?

Estela vive fora do mundo real. Não se dedica a nada. Não estuda. Não sai. Não anda pelas ruas. Não tem amigos. Não se relaciona com ninguém de forma natural. Não reivindica. Não é crítica. Estela parece não ter vida interior. Não deseja. Não sonha. Não pensa. Não fala abertamente. Já mostrou em várias cenas dificuldade de lidar com o seu tamanho, mas não questiona este sentimento. E só acorda para a sua condição, vez que outra, quando a inconveniente cuidadora, se é que se pode chamar assim, faz um alerta. Em seguida, volta à sonolência.

Estela parece não se importar com o cotidiano, o que é inverossímil, pois já viveu sozinha na Europa. Quem sabe tinha por lá uma babá que supria tudo. Os possíveis romances que aparecem para ela na novela deveriam ser consequência de uma vida livre e natural e não o foco mal desenhado da sua história. Há tanto para mostrar sobre o dia a dia das pessoas com nanismo. E o que se vê na tela é uma jovem sem a mínima reflexão, que vive em uma bolha.

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Foto divulgação

De um modo geral as pessoas com nanismo não se perdem em “mimimis”. Não acumulam recalques, não se importam se ganham “ursinhos”, miniaturas ou salto alto. Especialmente nos dias de hoje, criam grupos e promovem encontros para discutir questões importantes, como o preconceito e o reconhecimento de suas reivindicações. Lutam por dignidade e independência, o que passa necessariamente por respeito, inclusão e equipamentos urbanos adequados, fundamentais na vida de qualquer pessoa. Não é o que se vê em “O outro lado do paraíso”, que reduz a quase nada o universo de Estela.

A novela tem muitos outros equívocos, como o tratamento que dá aos gays e aos negros, e é feita de clichês lamentáveis, mas fico por aqui.

 

2017 – ano da palavra, da escrita e da leitura que salvam o meu cotidiano

Zé Walter, amigo querido e parceiro de trabalho, e eu revisamos e fizemos a coordenação editorial do livro de poesia “a vida das sobras” (Editora Leitura XXI), do jornalista Carlos Eduardo Caramez, com arte e design gráfico de Cristina Pozzobon, lançado no outono. Poemas imprescindíveis em tempos de desmanche. Falam de uma geração que sonhou, se desesperou, lutou para voltar a sonhar, e vê a desesperança minar o sonho. Falam das sobras, do que aí está a nos dilacerar num “país sem pátria”. É preciso resistir, mesmo com o pouco que sobrou. E a resistência está na coragem de dar vida às sobras.

“tudo o que eu tenho / é meu corpo / o que faço / é minha vida / nada é mais veloz / que a minha pressa”.
“Preciso firmar meu ponto / nunca ficar pronto”.

Pouco depois, Cris me convidou para escrever, em parceria com Rosina Duarte, a história dos 50 anos da escola de educação infantil Pato. Foram vários meses de um trabalho que me emocionou e me ensinou muito sobre a infância. Conheci professoras acolhedoras, intensas, apaixonadas pelo que fazem e famílias maravilhosas, humanistas. O resultado está no livro encantador chamado “Pato – Escola de Educação Infantil – 50 Anos de História”, lançado em outubro.

Também em outubro o jornalista e amigo de longa data, José Antônio Silva, lança “Vagar em Macau”, poemas que resistem e testemunham uma geração que “teve sua juventude debaixo do mau tempo das ditaduras latino-americanas da década de setenta”, como diz Ricardo Silvestrin na apresentação.

“És sábia / – e, reconheço, podes ser doce – / Irmã Tristeza. / Mas vai! / Não conseguimos / continuar respirando / por muito tempo / em tua companhia”.

O professor e escritor Jorge Du Barbosa, que conheço há muito tempo, me chamou para escrever o prefácio do seu livro “Contos Irregulares” (Editora Somar), lançado na 63ª Feira do Livro de Porto Alegre. O convite me surpreendeu e emocionou. A escrita de Jorge é urgente e questionadora. Como definiu bem Armindo Trevisan, Jorge é um poeta ‘nervoso e impaciente’, que nos arranca do comodismo.

“Há que se ler respirando muito e profundamente porque nos seus Contos Irregulares estamos todos nós, que por sermos tão humanos somos tão imprevisíveis”.

Além dos textos semanais deste blog, fui convidada para escrever dois artigos para o jornal Zero Hora.

E as leituras?

Começo com um livro que ganhei de presente de amigos baianos e que traz um pouco do que fui e do que sou – “Anos 70 Bahia” (Editora Currupio), de Luiz Afonso e Sérgio Siqueira. Escrito com paixão por 200 pessoas, começou como uma brincadeira na rede e fala de um tempo em que a Bahia era o imaginário do mundo, um tempo incrível, de muitas descobertas.

“Que lugar é este? Aqui há muita coisa legal, mas o melhor são os baianos. Sem saber, sabem de tudo, sabem de tudo sem saber” – Armando Visuetti (pág.229).

Quero deixar registrada a minha emoção ao ler o “Jogo da Memória”, da amiga Maria Rosa Fontebasso, mais um lançamento da Feira do Livro deste ano. Um romance atual, que viaja com leveza e profundidade pela busca das raízes e, ao mesmo tempo, está vinculado à realidade da personagem que conduz a história.

“…momentos de cansaço da estupidez do mundo a crescer mais que sua genialidade, e de minha insuficiência em interferir para qualquer ínfima mudança” (pag. 12).

“…e nossos olhos escancaravam o gosto de viver à revelia de preocupações cotidianas e da consciência de um mundo lá fora virando pelo avesso” (pag. 22).

“Ganhar e perder, um aprendizado difícil e necessário” (pág. 49).

Ainda na Feira do Livro encontrei a querida Claudia Tajes, em uma sessão de autógrafos concorrida de “Dez (quase) Amores + 10” (Belas Letras). Maria Ana está de volta e, apesar dos mais de 40 anos, segue buscando o que julga ser merecimento.

E para fechar o ano, “Sílabas Ciladas” (Editora InVerso), de Carlos Badia. Surpresa total. Sei que ele escreve bem, mas os poemas deste livro são lindos, intensos, urgentes. Transbordam o tempo todo e, como o autor mesmo diz, nascem de uma “necessidade vital”. Viramos cúmplices ao ler, o que Lúcio Carvalho define muito bem no prefácio: “É um livro que procura o leitor, deseja falar-lhe. Instigar-lhe”.

“Se a vida é corda bamba, / Quero o equilibrar. / Se a Vida é Mar, / Quero o navegar. / Se a vida é fogo, / Quero arder em sua Luz. / Se a vida é voo, / Quero o flutuar. / Se a vida é turva, / Quero o iluminar. / Se a vida é Dor, / Quero me curar. / Se a vida é querar, / Quero. / Ávida”.

“Aprender é ofício / Qual ensandecido pensaria diferente, / já que viver é sem garantias? / Seria tolo em nós não sermos infinitamente aprendizes”.

Que 2018 me faça escrever ainda mais e ler, ler, ler, ler, ler! Aprender, ensinar, multiplicar, aprender…

Ser. E ser.

Mesmo com uma tristeza mais funda que a de hábito e um cansaço maior que o normal, sou tomada pelo impertinente espírito natalino e uma emoção forte me sacode. Pelo ser, não pelo ter, sinto vontade de presentear e falar palavras bonitas aos amigos. Mergulhada no silêncio do espaço de trabalho, olho para a vida que pulsa ao redor com um afeto oceânico.

Os dias do ano de 2017 foram difíceis, pelos motivos mais diversos. Das questões pessoais às questões que passam pela sordidez política que me afeta inevitavelmente, tanto no privado como no público, nas relações sociais e de trabalho. Mas sinto que as dificuldades que encarei, algumas ainda em processo de assimilação, me fizeram rever a vida, me ver, me re-conhecer e ver o outro de forma mais aguda. Um pouco atordoada e inquieta, vou percebendo as muitas delícias que a simplicidade do cotidiano oferece. E me bastam.

Uma música, um livro, um filme, uma noite de lua cheia, um encontro casual, um entardecer colorido, um trabalho bem feito, um café e uma boa conversa, uma viagem, uma palavra acolhedora, uma boa risada, a presença das crianças, a voz de um amigo/a. São esses singelos acontecimentos que me fortalecem ou, no mínimo, me deixam menos áspera, quando vem o amargo. Porque vem. Faz parte.

Neste longo ano que termina, minha vida navegou por mares já navegados, mas com ondas de intensidade inusitadas. Foi agoniada, feliz, apreensiva, inteira, incerta, solitária, dura, insegura, emocionada. De desafios instigantes, alegrias, decepções e esperanças. Plena de novos afetos e amigos de fé, esse combustível necessário para os embates diários.

Fecha-se mais um ciclo, que a gente mesmo determina. Uma forma inteligente de driblar o tempo, suspender tudo por alguns momentos, aliviar as tensões, respirar profundamente. Refazer as energias. Olhar fundo no fundo de nós mesmos e descobrir que, apesar dos tsunamis, estamos inteiros. E prontos para recomeçar, com o melhor que há em nossos corações.

É um tempo em que penso com muita emoção na família e nos amigos, parceiros imbatíveis.

Quero todos por perto. Mas quero, especialmente, que vivam em harmonia, eliminando tudo o que não vibre com ética e respeito. Quero que deixem espaço para o novo, para o outro e para o fluir de uma energia luminosa, forte, ativa. Quero que brinquem muito com as crianças e absorvam sua sabedoria genuína. Quero que cada um viva amorosamente a dor e a delícia de ser quem é. Mesmo com os temporais previstos para 2018, aposto na possibilidade de uma vida mais amena, sem tantos julgamentos, tantos mandamentos, tantas certezas a nos prender, sem o olhar que condena e contamina. Aposto no ser que somos.

Lelei

Foi e é possível – Minha experiência na TVE

1987. Pedro Simon é eleito governador do Rio Grande do Sul. O jornalista e publicitário Alfredo Fedrizzi assume a presidência da TVE. Eu o conhecia pouco. Sabia que era um dos diretores da agência Escala e que tinha trabalhado na RBSTV. Vez que outra a gente se encontrava em eventos culturais, seminários, lançamentos de livros, filmes, palestras.

Minha vontade de trabalhar na TVE era grande, inspirada por Jorge Furtado, pela ousadia do programa “Quizumba”, Eduardo Peninha Bueno, Zé Pedro Goulart, o programa “Pra começo de conversa”, Ana Luiza Azevedo e tantos outros. Fui falar com o Fedrizzi. Alguns anos antes, quando o jornalista Luiz Figueredo, meu amigo e comprade, era diretor de programação, eu já havia tentado. Ele foi gentil, mas não tinha vaga. Recolhi o desejo e segui trabalhando onde estava.

Desengavetei o desejo e, como o Figueredo, Fedrizzi foi gentil, me ouviu, quis saber da minha experiência em TV, não me perguntou sobre partido político. Estava iniciando a gestão e não sabia se teria como me contratar. Na saída encontrei Tânia Carvalho, com quem já havia trabalhado e virou uma grande amiga. Expliquei a ela porque estava ali. Por coincidência, o novo diretor de programação Luiz Eduardo Crescente passava pelo corredor e Tânia me apresentou a ele. Conversamos um pouco e me fui para o Correio do Povo, onde trabalhava.

No final de julho de 1987, Fedrizzi me convidou para chefiar os setores de Divulgação, Chamadas, Arte e Cenografia. Eu, que nunca quis ser chefe de nada, seria responsável pelas equipes de divulgação da programação, interna e externamente, de criação de vinhetas e gravação e edição de chamadas e pelos cenários. Argumentei, disse que só queria ser produtora, que não tinha vocação para chefia. Em vão. Assumi. Enfrentei alguns boicotes no início, tive muita ansiedade, quis desistir, mas, com o apoio de gente boa que trabalhava muito bem, fui ganhando experiência e segurança.

Formamos uma equipe cheia de garra, que se somava às equipes da produção e do jornalismo. Foram 4 anos de ações e invenções incríveis, realizadas com profissionalismo e entusiasmo. Conteúdo, qualidade técnica e intercâmbios faziam parte dos projetos. Tínhamos total apoio da presidência e da direção, sempre presentes, tanto para criticar, como para conversar, trocar ideias e aplaudir. Muitos programas locais foram criados – Palcos da Vida, Menor questão Maior, Radar, Pandorga, para citar alguns. A TVE fez parcerias com a TV Cultura de São Paulo e passou a exibir programas como Roda Viva, Metrópolis e Jornal da Cultura. Da TVE Rio, exibia o Sem Censura. As discussões que envolviam o trabalho eram acaloradas. E quase ninguém se omitia.

Nesse período, 1989, foi fundada a FM Cultura, muito festejada por todo mundo. Sob a direção da jornalista Liana Milanez, a rádio virou referência para as artes no Rio Grande do Sul, especialmente a música.

Essa movimentação fez parte do sonho de profissionais que queriam abrir cada vez mais espaços para a informação, a arte e a cultura do meio em que viviam, transformando a TVE e a FM Cultura em emissoras que refletissem, com talento, ousadia, liberdade e crítica, a produção local e nacional.

Foi e é possível
Por isso, não dá para entender o desmonte desses verdadeiros patrimônios públicos pelo governo Sartori e a tortura psicológica a que submete os funcionários da TV e da rádio (tortura sofrida também por trabalhadores de outras fundações em processo de extinção), ameaçados por demissão na véspera do Natal.

TVE3

Provocações do cotidiano

A criança aproxima-se. Fica me observando por alguns momentos e pergunta: Por que tu é tão pequena? Tento uma resposta e lá vem outra pergunta: Por que teu dedo é tão curto? Começo a responder, mas a menina insiste: Por que tua mão é tão gordinha? Joaquim, quatro anos e sete meses, sobrinho-neto que estava comigo, adianta-se e diz pausadamente: Porque ela é anã! Pensei: Simples assim. Ou não?
*
Jovens aparentando 17 e 18 anos, três meninos e duas meninas, sobem a rua. Eu desço. Uma das meninas quando me vê cutuca a outra que cutuca o outro, e assim por diante. Resultado? Todos me olham e caem num riso disfarçado, indisfarçável. Pensei: Em que mundo vive essa juventude? O que sabe da vida?
*
Reunidos, em pé, em um canto da Praça da Alfândega, em plena Feira do Livro, amigos e conhecidos conversam animadamente. Eu ali, tentando falar também. Dependendo da empolgação, a roda da conversa fecha ou abre. Eu ali, resistindo. Algumas cotoveladas ou bolsas, de leve, na cabeça. Nada que eu já não esteja acostumada. Não é fácil mesmo achar uma brecha e participar do papo de pessoas de um metro e sessenta, um metro e setenta, com os meus parcos um metro e dez. Não é fácil ser ouvida. Vou desanimando. Vou me calando. Desisto. E imediatamente lembro de um artigo do jornalista Luiz Antônio Araújo, publicado no jornal Zero Hora em 28 de julho de 2014, a que já me referi aqui neste blog. O artigo termina com a frase “Ser anão não é para qualquer um”. Pensei: Não é para qualquer um, mesmo! Assim como perceber o outro na sua condição não é para qualquer um. Mas sempre há um contraponto.
*
Na rua, espero o ônibus. O motorista, distraído no fazer cotidiano, para longe da calçada. Fica mais difícil de subir, é óbvio, mas já estou acostumada e normalmente dou conta. Ao ver o meu esforço, um senhor aparentando uns 80 anos que está sentado no banco bem da frente, levanta-se e estende a mão para me ajudar. Mais: Ainda oferece o lugar para que eu sente. Agradeço, digo que posso ir em pé. Ele responde: Que nada, minha filha! Tu tens mais dificuldade para te segurar do que eu. Pensei: Ver o outro é fundamental.

Era uma vez uma ruazinha bucólica

Em uma rua, o retrato do abandono de uma cidade.

Foto de  José Walter de Castro Alves

Crédito das fotos: José Walter de Castro Alves

Quando vim para Porto Alegre no início dos anos 1970, a rua Xavier Ferreira, no bairro Auxiliadora, era harmoniosa, calma, com casas bem cuidadas e um único prédio – art decô, segundo um amigo – onde fomos morar.

Pouco depois, chegou o Zaffari da Bordini, que dá fundos para a Xavier Ferreira. Os caminhões que abasteciam o supermercado, muito bem vindo, começaram a transitar pela ruazinha. Civilizadamente, no início. O movimento foi aumentando. Os caminhões tornaram-se maiores, mais frequentes, menos civilizados. Estacionavam de qualquer jeito. A rua de paralelepípedos, tão bucólica, foi, aos poucos, se deteriorando. O que era pequeno ficou grande demais e já não cabia na rua tortuosa. Fizemos algumas denúncias para a EPTC/Empresa Pública de Transporte e Circulação, reuniões com gerentes do Zaffari e autoridades e fomos para os meios de comunicação. Aí, ficamos sabendo que a metragem de rua não permitia transporte pesado. Usamos o argumento exaustivamente, mas o poder econômico falou mais alto. Como sempre, nada de relevante aconteceu.

O Zaffari cresceu sem o mínimo cuidado com o entorno. Além de detonadas, a rua e a calçada começaram a ganhar mais lixo. Alguns moradores foram embora. Algumas casas ficaram abandonadas. E os alagamentos tornaram-se cada vez mais frequentes. Até que na esquina com a Mata Bacelar começou a construção do sonhado Conduto Álvaro Chaves.

Segundo a Wikipédia, “O Conduto Álvaro Chaves-Goethe é uma grande obra de engenharia que teve início em 2005 e término em 2008, com a finalidade de reverter o problema crônico de alagamentos devido à má drenagem da Avenida Goethe, rua Álvaro Chaves e regiões próximas, e que se intensificam com o asfaltamento das ruas, diminuindo a infiltração da água e aumentando o seu escoamento superficial”.

Acompanhamos tudo de perto: plantas do projeto, visitas dos técnicos e autoridades, uso do projeto na campanha política. Eleições. E assim que a obra começou sentimos que teríamos inúmeros embates. A construtora acumulava lixo e mais lixo na calçada, apesar dos protestos. E a primavera daquele ano veio com temporais intensos nos finais de tarde.

Crônica da tragédia anunciada
Na manhã do dia 5 de novembro de 2005, ao sair de casa para trabalhar, vi muito lixo obstruindo as bocas de lobo da rua. Fui até a obra pedir que tirassem. O engenheiro que lá estava me olhou com deboche. Insisti, argumentei, mas ele não se deu ao trabalho de responder.

O Resultado? No final do dia caiu uma chuva torrencial. A água, sem evasão diante do concreto e do lixo, invadiu furiosamente casas e apartamentos. Alguns moradores perderam tudo. E naquele fatídico anoitecer ninguém do governo municipal apareceu. Abandono total.

Passamos a noite e o dia seguinte limpando tudo. Só no final da tarde do dia após o temporal apareceu uma engenheira da prefeitura, completamente perdida. Os responsáveis pela obra também chegaram e nos chamaram de escandalosas. Descaso absurdo. Os moradores mais atingidos trataram de reformar suas casas e resolver suas vidas. O Conduto passou por várias vistorias e reformas. Mas ninguém assumiu nada. Até hoje.

A rua continua com casas bem cuidadas. Outras foram vendidas e os terrenos estão tomados pelo mato. O leito da rua de paralelepípedos está cheio de emendas de asfalto e os bueiros e bocas de lobo estão destruídos, sujos e entupidos. A calçada? Nem pensar em passar ali de cadeira de rodas, bengala, carrinho de bebê, bicicleta, enfim. O único órgão do governo que atende os moradores com presteza é o DMAE. Até porque deve saber que os esgotos, que a gente não vê, estão misturados e, às vezes, transbordam e deixam um cheiro insuportável. Os moradores continuam guerreiros e reivindicam seus direitos cotidianamente para recuperar a ruazinha linda.

Falam tanto em parceria público-privada. Será que é isso? O Zaffari tomou conta da Xavier Ferreira. Além de quintal abandonado, é o estacionamento dos caminhões. Dane-se a população! Para o privado tudo. Para o público, nada. Acho que entendi a tal parceria.
clixo na rua

É preciso remar contra a corrente

Na escuridão desses tempos, busco brechas luminosas para respirar. E me abastecer.

O texto de Mia Couto, enviado pela amiga Flavia Boni Licht, chegou como um presente, enchendo de luz o cotidiano. A escrita, lúcida e simples do escritor, dá voz ao que penso, apontando alguns equívocos da educação que vemos brotar hoje.

Para Mia, há muita preocupação com o fato dos jovens entrarem para a universidade com um fraco desempenho acadêmico, enquanto a preocupação maior deveria ser com o crescer sem referências morais. Há um discurso pelo empreendedorismo e pela liderança, como se toda uma geração estivesse destinada à vida política ou empresarial. Mas não há, segundo ele, interesse em preparar os filhos para serem simplesmente boas pessoas, bons cidadãos do seu país, bons cidadãos do mundo. E fazerem suas opções!

E segue: “Escrevi uma vez que a maior desgraça de um país pobre é que, em vez de produzir riqueza, vai produzindo ricos. Poderia hoje acrescentar que outro problema das nações pobres é que, em vez de produzirem conhecimento, produzem doutores (até eu agora já fui promovido). Em vez de promover pesquisa, emitem diplomas. Outra desgraça de uma nação pobre é o modelo único de sucesso que vendem às novas gerações e que está bem patente nos vídeo clips que passam na nossa televisão: um jovem rico e de maus modos, rodeado de carros de luxo e de meninas fáceis, um jovem que pensa que é americano, um jovem que odeia os pobres porque eles lhes fazem lembrar a sua própria origem”.

E conclui: “É preciso remar contra toda essa corrente. É preciso mostrar que vale a pena ser honesto. É preciso criar histórias em que o vencedor não é o mais poderoso. Histórias em que quem foi escolhido não foi o mais arrogante, mas o mais tolerante, aquele que mais escuta os outros.”

É preciso cultivar o conhecimento, a convivência e a reflexão

Ao tomar contato com o trabalho da Nova Acrópole, organização internacional de caráter filosófico, cultural e social, sem fins lucrativos, que completa 60 anos no mundo e 30 anos em Porto Alegre, fiquei surpresa e me senti instigada. Totalmente mantida por voluntários, a instituição orienta-se pela Filosofia, Cultura e Voluntariado, e sua atuação é pontuada pela independência de interesses políticos, religiosos ou financeiros. Há um comprometimento com a educação humanista em todos os cursos que oferece, nas atividades culturais e artísticas e nas ações sociais e ambientais. É um espaço singular de ação, reflexão e convivência.

O movimento, fundado em 1957, tem forte presença em mais de 60 países, com mais de 400 sedes, sempre cultivando o conhecimento individual e coletivo e a qualidade de vida a partir de uma visão universal voltada para a transformação. Além de Porto Alegre, a Nova Acrópole está presente em Caxias do Sul, Gravataí, São Leopoldo, Santa Maria, Santa Cruz do Sul e Alegrete. Os associados voluntários participam de todas as atividades educacionais e culturais, que priorizam a ética, a filosofia à maneira clássica, a sociopolítica, filosofia da história, arte, cultura e voluntariado. As aulas, expositivas e práticas, estimulam, ao mesmo tempo, a reflexão e o uso do conhecimento no dia a dia para a construção de uma vida melhor.

É preciso que as palavras tenham mais força que as metralhadoras

“O homem morre em todos aqueles que se calam”. A frase é de Wole Soyinka, dramaturgo, poeta, ensaísta e professor nigeriano, primeiro africano Nobel de Literatura, uma das atrações da Feira do Livro de Porto Alegre neste ano. É um guerreiro incansável, como Ogum, “sua divindade companheira”. A Escola de Poesia, que tem a obra do dramaturgo como referência em seus estudos, desenvolveu um projeto para homenagear sua passagem pela cidade – Escola de Poesia & Wole Soyinka – Para que as palavras tenham mais força que as metralhadoras. O ponto alto é o lançamento do documentário Wole Soyinka – A forja de Ogum, no dia 18 de novembro, às 17h, na Tenda de Pasárgada, na Praça da Alfândega.

Soyinka em desenho de Emanuele de Quadros.

Soyinka em desenho de Emanuele de Quadros

O documentário mostra um pouco da vida e da obra de Soyinka e conta com a participação de artistas e integrantes da comunidade local que se articulam, de algum modo, com a ancestralidade africana, como o grupo musical Alabê Ôni, o grupo teatral Pretagô, e seu diretor Thiago Pirajira, o Africanamente Ponto de Cultura e Escola de Capoeira Angola, e seu Contramestre Guto, o poeta Ronald Augusto, o escritor Jeferson Tenório, o pintor Paulo Montiel, os escultores Jonas e Marcos, a Iyalorixá Sandrali de Oxum, a Iyalorixá Bete Omidewa, a artista visual Manuzita, a poeta e psicanalista Lúcia Bins Ely e a psicanalista e poeta argentina Marcela Villavella.

Wole Soyinka – A forja de Ogum foi produzido pela Escola de Poesia em coprodução com o Coletivo Catarse. Concepção, roteiro e direção da poeta Eliane Marques (Prêmio Açorianos de Literatura/2016) e do poeta e tradutor Adriano Migliavacca, estudioso da obra do nigeriano. Apoio de Gustavo Türck (documentarista e produtor audiovisual), Billy Valdez (operação de câmera) e Marcelo Cougo (operação de áudio). Documentação de Lúcia Bins Ely e Anelore Schumann. Pesquisa de imagens de Priscila Pasko.

Nesta época em que a arte está sendo tão abandonada pelos governos, é estimulante o que diz Soyinka: “O meu horizonte sobre a humanidade é ampliado pela leitura dos escritores de poemas, por ver um quadro, ouvir alguma música, alguma ópera, e isso não tem nada a ver com a volátil condição humana, ou luta, ou algo assim. Isso me enriquece como ser humano”.