Sobre Lelei Teixeira

Sou jornalista e já atuei em diversas empresas de comunicação de Porto Alegre, como Zero Hora, TV Guaíba, rádio e TV Pampa, Correio do Povo e TVE. Fui sócia da Pauta Assessoria, por 20 anos, onde trabalhei com divulgação, produção, redação e coordenei a assessoria de imprensa de várias edições do Festival de Cinema de Gramado e da Feira do Livro de Porto Alegre. Atualmente, integro a equipe da Gira Produção e Conteúdo, que reúne profissionais para criação, produção, revisão e finalização de artigos, ensaios e livros, além de assessoria e planejamento de comunicação.

Conexões – saindo do armário

O Nanismo é pouco estudado e pesquisado. Há um grande desconhecimento sobre a deficiência, se é que podemos chamar assim, e suas consequências. Essa negação explícita possivelmente tem suas raízes no preconceito que gera desinteresse e falta de seriedade em relação ao assunto, desde a antiguidade. Somos ainda motivo de riso e piada, mesmo nos meios mais bem informados e ditos politizados. Fazemos parte de um imaginário popular que nos vê ora como figuras mágicas e cheias de poderes, ora como seres à margem, que vieram para divertir a “plebe rude”.

Por isso, é muito estimulante perceber que nos últimos anos há uma busca por outros olhares. As pessoas com nanismo não são mais escondidas pelas famílias e nem se escondem mais. Em agosto de 2016 participei de um debate durante a XX Semana da Pessoa com Deficiência, promovida pelo Tribunal de Justiça do RS, e falei sobre essas questões. No mesmo ano, em novembro, fui convidada pela FADERS, órgão estadual de política pública de acessibilidade e inclusão, para falar no I Encontro Estadual sobre Nanismo. Paralelamente, fiz algumas palestras em escolas e instituições e escrevo muito sobre a minha experiência.

Nesse período, foi criado o Dia Estadual da Pessoa com Nanismo, 25 de outubro. E também o Dia Nacional de Combate ao Preconceito contra as Pessoas com Nanismo. Particularmente, tenho muitas dúvidas em relação a essas datas. Especialmente pelo lamentável uso político-partidário de um assunto muito sério, que requer atitude, não discurso. Enfim, aposto que gerem acessibilidade e esqueçam a exigência da superação!

Recentemente, realizou-se no Rio de Janeiro o 2º Congresso Brasileiro de Pessoas com Nanismo que, por tudo o que li, vi e pelas pessoas envolvidas, foi um encontro de debates pertinentes, alegria e sucesso. E na próxima novela do horário nobre por excelência da TV, a Globo apresenta uma atriz com nanismo, que vai viver uma personagem real.

congresso

Esses movimentos todos tornam a causa mais conhecida pela sociedade, além de estimular a inclusão e a troca de experiências. A participação ativa das famílias e de profissionais da área médica, entre outros, na discussão sobre saúde, políticas públicas adequadas e preconceito é essencial para a qualidade de vida de quem luta cotidianamente para ultrapassar barreiras sociais, culturais, científicas, e, sobretudo, barreiras reais da discriminação.

Saindo do armário

Literalmente, estamos saindo do armário, expressão muito usada pelos homossexuais há bem mais tempo, ao expor nossos problemas e buscar alternativas, fazendo o que é possível por respeito e dignidade.

Eu pensava sobre isso quando comecei a ler “Pai, Pai” (Alfaguara), livro do jornalista, escritor, tradutor e ativista LGBT, João Silvério Trevisan, lançado em Porto Alegre, na Livraria Baleia, no dia 14 de outubro – com direito a ver “Lampião da Esquina”, documentário de Lívia Perez que conta a história do jornal voltado para o movimento homossexual no Brasil no final dos anos 1970, além de uma conversa boa com o autor, os amigos, mais o autógrafo.

Pois não é que encontro muitos pontos de conexão na leitura!

Foi a partir de uma depressão aos 70 anos que Trevisan olhou para a sua história, viu as marcas profundas deixadas pelo pai – um homem ausente, violento e infeliz – e começou a escrever. Um mergulho radical em situações difíceis da sua vida, como as que se referem à sexualidade. Pouco antes de completar 73 anos, em junho de 2017, ele finaliza o livro. Um dos criadores do jornal “Lampião da esquina” e do “Grupo Somos”, Trevisan praticamente retrata uma geração libertária, que sofreu todo tipo de violência e preconceito.

“As violências que a criança sofre dificilmente são superadas sem que fiquem cicatrizes que se abrem”, confessa. E acrescenta: “A criança é de uma delicadeza assustadora”. O livro, segundo ele, mostra o processo da descoberta do perdão: “Como nasce a ideia do perdão numa selva de dores, mágoas e ressentimentos”.

Em um dado momento, escreve: “Quando pequeno, eu me comovia até as lágrimas diante de uma pessoa com deficiência física. Demorei a entender que eu não chorava por ela, mas por mim. O fato é que eu me identificava com aquela falha, falta ou incompletude”.

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Pois é! Inevitavelmente, de um jeito ou de outro, nós humanos somos seres em falta! Se todos entendessem que a falta nos constitui, a vida seria bem melhor!

 

Oásis – uma homenagem às crianças

Temos oásis incrivelmente verdejantes e cheios de frutos em meio à secura deste deserto ético e moral que tenta minar a nossa crença no presente e no futuro. Oásis que iluminam o cotidiano e nos fazem acreditar que é possível fazer diferente. Um destes oásis passa pela educação infantil, fundamental para a formação de pessoas que contribuam efetivamente para a construção de um mundo melhor.

Conto aqui um pouco do oásis que encontrei em 2017.
A jornalista Cristina Pozzobon, com quem já fiz algumas boas aventuras na área editorial, me ligou e perguntou: Topas fazer o livro do Pato, uma escola infantil que faz 50 anos, com a Rosina (Duarte)? Imediatamente saltou da minha memória a escola onde estudaram os filhos de amigos muito queridos, desses para a vida toda: Custódio (Luiz Antônio Bolcato Custódio), arquiteto e Teresa (Maria Teresa Chaves Custódio), professora, pais da Bianca e do Miguel. A resposta foi sim, sem pestanejar. Não resisti e liguei em seguida para a família Custódio. Queria confirmar se a memória não me traía e contar a boa nova. Qual não foi a minha surpresa: Teresa começou a falar e chorou. De emoção, literalmente!

Que escola é essa? Fiquei ruminando. Até ser convocada para a primeira reunião com as fundadoras. Cheguei atrasada e a conversa corria solta e animada. A tarde voou e saí renovada, mais jovem do que nunca. E assim foi sucessivamente ao longo dos meses. E assim entendi o choro da minha amiga.

Ouvir Beth (Elizabeth Mariani) e Marcia (Marcia Palmira Sacco), as fundadoras do Pato, foi mágico pra mim nesse momento da vida. E ouvir Laura, Patrícia e Mônica confirmava a magia, sublinhada depois pelos depoimentos que fomos colhendo, Rosina e eu. Depoimentos que começaram em uma grande e catártica reunião na escola com muitos pais e ex-alunos que falaram emocionados e com muita alegria sobre o Pato. Depois, tive encontros incríveis em busca de mais depoimentos. Com a psicanalista Lucrécia Zavaschi, a psiquiatra e pediatra Geraldina Viçosa, a família Cohen com sua sacola de preciosidades, a família Loss que me esperava inteira na volta de uma mesa, Marta Saldanha, uma das fundadoras, e tantos outros que chegaram por e-mail, como o dos Grassi, por telefone, pelo whats, como o de Ana Flávia Baldisserotto. Tudo à flor da pele!

Foram sete meses de muito trabalho, muito afeto, muita adrenalina, muitas entrevistas, muita parceria, muita busca e muita ansiedade. Escritos e escritos. Revisões. Ajustes. Outras revisões. Mais escritos. Encontros com a Cris para seleção de fotos e para ver a proposta gráfica. Depoimentos de última hora. Uma enorme responsabilidade! Até o ponto final, que não é final, porque a história não se acaba. E tanta experiência, convicção, dedicação não cabem inteiros nessas amorosas 151 páginas.

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Pato – uma criança de 50 anos, o livro que conta um pouquinho desta escola que fez e faz a diferença na educação infantil, ficou pronto. Vê-lo assim acabado, todo bonito, cheio de lindas histórias e muita delicadeza, tão lúdico, é uma emoção indescritível. Emoção que, talvez, só eu, neste momento louco da minha vida, possa entender.
É um horizonte claro, cristalino. É um rasgo enorme de esperança, simplicidade e muito amor nestes tempos incertos e sombrios. Há quem trabalhe com afeto. Há quem priorize a criança. Há quem acredite na educação e tenha convicção de que é na infância que se afaga a essência do adulto que somos. Há muita luz nesse caminho.
Só tenho a agradecer por essa jornada. Conhecer as fundadoras e a equipe da escola e suas histórias me fizeram uma “patinha”. Simples assim!

Fragmentos da violência que nos cerca

Como se constrói a mínima estrutura para uma vida digna nestes tristes tempos em que tudo vira violência?

A política ordenada pelo mercado financeiro é violenta. Aponta cruelmente para uma população ainda mais pobre e desamparada. Os impostos e as taxas de juros são violentos. Pagamos pelo que não temos e pelo que nos tiram a cada dia. A mudança das relações de trabalho que vem por aí, com negociações acima da lei, é violenta. Como não haverá mediação do Estado, nem uma justiça especial, as ofertas serão adulteradas e indignas, e o trabalhador vai aceitar porque não terá outra condição. O parcelamento dos salários é violento. Impossível não pensar no dano moral, para além do dano material, das pessoas que honram seus compromissos, pagam suas contas em dia e, de repente, passam a receber aos poucos. E o que dizer da violência da corrupção e do poder nefasto que emanam do planalto central do país? A vida real está tão violenta que abre espaço para o fanatismo, para a intolerância, para o aumento da desigualdade e de todo tipo de destempero ou desespero.

“O que estamos fazendo uns com os outros?”
Essa é uma das perguntas da filósofa Márcia Tiburi diante da normalização de um discurso e de um comportamento violentos, que viraram norma no meio social em que vivemos. O que imaginávamos já ter superado cresce “por todos os lados, à direita e à esquerda, a partir de todos os credos”. Tudo o que foge de uma normalidade sem sentido, que nos é imposta, é foco de ódio – classes sociais, raças, etnias, religiões, opções sexuais e por aí afora. “A mais básica abertura a uma conversa se torna inviável quando os indivíduos estão fechados em seus pequenos universos”, diz Márcia. Desaprendemos a falar e a ouvir. Já não entendemos que somos capazes de constituir um cenário ético-político diferente e que podemos “tentar intensamente o diálogo que está tão esquecido e faz muita falta entre nós”.

"Tempos líquidos", de Tamar Matsafi

“Tempos líquidos”, de Tamar Matsafi

Esse vazio de autoridade, que torna o poder tão vulnerável e gera essa incapacidade de agir em conjunto, é um convite ao recrudescimento da violência. “Há algo assustador no ódio contemporâneo”, completa Márcia. Mas quem são mesmo os nossos inimigos nesse mundo tão fragmentado? O que fazer com esse medo, essa insegurança, essa ansiedade que nos invade e contamina como praga? Por que não conseguimos ver outras possibilidades? Vivemos a liquidez da vida, que escorre frágil entre nossos dedos, como falou o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman?

Perdemos a identidade? Já não pertencemos a nada?
Subjugados pelo mundo digital que nos dá visibilidade, mas nos esconde e nos acovarda, temos opinião sobre tudo. Provocamos, atacamos sem conhecimento de causa, e acabamos mergulhados em uma viagem egocêntrica e superficial. Essa exacerbação do individualismo é muito violenta. Já não analisamos, não escutamos, não paramos, não olhamos para o outro. E esse não olhar, que desconhece os limites necessários para a vida compartilhada e para a inserção dos indivíduos na cultura, nos transforma em presas fáceis da violência.

Antídotos para a desesperança

Intolerância e preconceito de toda forma e qualidade invadiram nosso cotidiano, já tão massacrado. Os embates inquietam. Alguns provocam boas reflexões, é certo, mas assinalam que extrapolamos infinitamente a civilidade, a ética, o respeito pelo outro. O pensamento único, sem nuances, insiste em nos guiar. Mais uma vez, o bem e o mal.
Diante de um panorama indigente, só vejo uma saída: buscar antídotos para arrefecer essa quase desesperança. Urgentemente! E seguir na luta.

Aleatoriamente, ouço uma fala de José Pepe Mujica, quando ainda era presidente do Uruguai. Um alerta para a necessidade de uma América Latina solidária, capaz de um olhar para as potencialidades de seus países e da união de forças para combater as desigualdades sociais. A civilização em que vivemos põe o dinheiro como o mais alto objetivo de vida, mas só uma política que se ocupe do ser humano pode ter crédito, disse ele. Um sonhador?

Em seguida, revisito as canções de Adriana Calcanhoto Partimpim, que gosto muito, e dou de cara com uma declaração dela em uma entrevista: “Não devemos matar o artista que cada criança é”. Uma sonhadora?

E acabo encontrando anotações que fiz de uma aula magna de Mia Couto, na UFRGS, em setembro de 2014. O escritor moçambicano dividiu histórias, memórias, vivências e leveza com mais de mil e quinhentas pessoas ávidas por ouvi-lo. Entre as preciosidades da sua fala, disse que é fundamental manter uma ponte entre o tradicional e o novo. É no passado que carregamos nossa vida futura. Para ele, não precisamos de mais tempo, mas de um tempo que seja nosso, para viver e não apenas registrar a vida. Precisamos restituir a dimensão humana aos territórios e devolver à vida as pequenas histórias. Um sonhador?

É justamente essa dimensão do humano que estamos perdendo ao não reconhecer a diversidade e a singularidade que nos constituem como sujeitos. Este início de primavera pode ser um bom momento para entendermos que o tempo hoje é de ressignificação. Navegamos em mares turbulentos e desconhecemos a força das águas. Ao mesmo tempo, esquecemos ou minimizamos nossos direitos e responsabilidade. Deixamos de sonhar?

Essa engrenagem política, com suas milícias sem escrúpulos espalhadas por aí, é dilacerante. Assustada, às vezes atordoada, mas firme nos meus propósitos e nas minhas crenças, intacta no ser que sou, sinto que é necessário nos mantermos em alerta – “cuidado, há um morcego na porta principal” – e de olhos bem abertos. “Senhoras e senhores, ele põe os olhos grandes sobre mim”. Como diz a canção de Jards Macalé, “Gotham City”.

Nesse percurso, a ancoragem vem da presença, física ou não, dos amigos e dessa grande família que formamos e ampliamos a partir de tantos sonhos coletivos, lutas, realizações, decepções, alegrias, generosidade, afeto, coragem, cuidados. Essa gota de mel que vem de cada um, com delicadeza, sem invasão, nem polaridades inúteis, restabelece minha energia interior.

Sonhadora? Sim! Como tantos, não quero abrir mão dessa capacidade de sonhar que ainda me habita.

"Ainda há luz", por Tamar Matsafi

“Ainda há luz”, por Tamar Matsafi

 

Olhares contaminados

O que quero mesmo dizer quando uso essa expressão?

São olhares de muitíssimos anos, seculares, que fomos herdando. Quando, em um dado momento, ainda na Antiguidade, foram se definindo os critérios de beleza. Ou quando, na Idade Média, ficou estabelecido que toda criança que nascesse com problema físico ou mental, vista como uma “aberração”, deveria ser eliminada. Naqueles tempos tão distantes dos nossos dias, já se amaldiçoavam os humanos diferentes – feios? defeituosos? estranhos? loucos? – os sem lugar entre os normais – perfeitos?

Assim se disseminou uma rede discriminatória cruel. De alguma forma, todo o indivíduo que fugia dos parâmetros consagrados de beleza, normalidade, raça, comportamento, status social, criados por seus próprios semelhantes, passou a ser marginalizado. Não correspondia ao sonhado desejo da perfeição humana, portanto não seria útil à sociedade e deveria ser ignorado.

Os olhares foram sendo doutrinados e contaminados pouco a pouco, em casa, na escola, nas ruas, nas empresas, sem que as pessoas se dessem conta e sem contraponto. E o preconceito se instituiu barbaramente.

Assim se definiu que algumas raças são inferiores e devem servir às raças consideradas superiores, que se impõem pela força, pela exploração, pelo poder econômico. Assim os índios foram expulsos das terras que habitavam para dar lugar aos colonizadores. Assim os negros foram carregados em navios e escravizados em terras distantes das suas, servindo aos senhores brancos.

Também foi assim quando milhares de cidadãos – homens, mulheres e crianças – foram levados sem piedade para os campos de concentração na Alemanha de Hitler porque não eram de uma raça pura.

Assim é ainda hoje
O abuso de poder, a ambição e a força do dinheiro criaram uma elite predadora, que se vê perfeita e dona do mundo. Ávida por ser servida a qualquer custo, precisou levar para dentro da sua casa esses imperfeitos. Eram inferiores, é certo, por vezes desprezados, mas, ironicamente, podiam fazer a comida cotidiana dos superiores e cuidar de seus bens mais preciosos, os filhos, mantendo sempre a devida distância.

São séculos e séculos de olhares que segregam, que ignoram, que humilham, que hierarquizam e que normalizam a discriminação. O preconceito já nasce colado na gente. Está na pele, latente, basta um impulso. Impulso que esses tempos polarizados, sem limites, pautados pelo senso comum banal, acentuam de todas as maneiras. Quanto mais o cidadão vulnerável socialmente se revela, se impõe, conquista espaços e direitos, mais o preconceito mostra suas garras.

Muito poucos conseguem driblar esse olhar viciado, questionar o que tanto o contamina, sacudir todas as certezas e sair em busca de um olhar livre que deixe a vida fluir naturalmente, com todas as suas diferenças.

“Pauta Eficiente: Como abordar a deficiência na imprensa”

Trabalho de conclusão de curso de Comunicação Social do baiano Ednilson Sacramento fala da linguagem utilizada quando o assunto é deficiência

Ednilson Sacramento faz a apresentação pública do seu trabalho de conclusão do curso de Comunicação Social/habilitação em Jornalismo, na Universidade Federal da Bahia/UFBA, em 29 de agosto. Com o título “Pauta Eficiente: Como abordar a deficiência na imprensa”, o trabalho teve a orientação da professora doutora Simone Terezinha Bortoliero e a banca examinadora é formada pela jornalista e ativista dos direitos humanos Mariene Maciel e pelo professor José Roberto Severino.

Ednilson é o primeiro estudante com deficiência visual a se formar em jornalismo pela UFBA. Sua pesquisa reúne termos e expressões comuns usadas por jornalistas quando o assunto é deficiência, a partir de depoimentos e documentos legais. O resultado é um guia de orientação sobre essas terminologias, com recomendações sobre os termos mais adequados, as expressões em desuso, como conduzir uma entrevista, fazer uma reportagem, além de notas sobre os variados tipos de deficiência e um banco de fontes para pesquisa. Informações: 71992 581961 (Ednilson) ednilsonsacramento@gmail.com pautaeficiente@gmail.com

Li o trabalho de Ednilson quando ele estava escrevendo. Gostei da maneira objetiva como conduzia o tema, ao mesmo tempo firme e delicado. O resultado é um guia eficiente, complementar aos clássicos manuais de redação, com orientações práticas, alertando para o que é recomendado e o que não é em entrevistas e reportagens sobre e com pessoas com deficiência. O objetivo é contribuir com repórteres, produtores, editores, apresentadores, formadores de opinião e demais profissionais da comunicação na construção e edição da notícia, evitando tratamentos inadequados e indelicados que contaminam o campo de representação desses sujeitos. Para sair do clichê e dos discursos prontos que enquadram as pessoas, todos precisamos dessa abertura para as questões que envolvem a deficiência.

A decisão de escrever, conta Ednilson, nasceu da observação de dois cenários: a ausência de conteúdos que abordem o tema na trajetória dos comunicadores e as matérias e reportagens publicadas, que não têm “o necessário diálogo ou análise crítica das novas abordagens e nomenclaturas pertinentes”. As referências sobre esse universo, quase esquecido, são pouquíssimas. Não há literatura e conteúdos afins nos currículos dos cursos de comunicação, nem nos órgãos de representação de classe, o que deixa os jornalistas solitários em sua missão. O trabalho defende o princípio de que as pessoas têm o direito de ser chamadas da forma que melhor desejam, pois deficiência é um conceito em constante construção. O autor convoca o Estado para a conversa, fazendo uma espécie de linha do tempo das terminologias adotadas ao longo da história do Brasil.

Uma pessoa não é definida por sua deficiência. Ednilson, como eu, acredita que “as pessoas com deficiência também querem ser cuidadas”, ao invés de mostrar força e superação o tempo todo. “Precisamos de espaço para que nos vejam para além da nossa deficiência”, como bem sinalizou a jornalista e audiodescritora Rosa Matsushita. Segundo Ednilson, “vivemos em uma sociedade que midiatizou o conhecimento e necessita dos meios de comunicação para revelar fragmentos da realidade”. E hoje é grande a influência desses meios. “A cultura e as atitudes sociais têm recebido forte impacto e esse cenário nos convoca a refletir sobre a oportunidade e urgência de pautarmos as singularidades presentes na sociedade”.

Crédito: Jonatan Rebouças

Crédito: Jonatan Rebouças

Nomenclaturas ao longo do tempo
Desde o Brasil Império se adotou nomenclaturas distintas. Thiago Helton Ribeiro, cadeirante que tem um blog no portal r7.com, publicou um estudo sobre a linha do tempo das terminologias e suas atualizações no país. De acordo com o estudo, termos como “aleijado”, “inválido”, “incapacitado”, “defeituoso”, “desvalido”, já constavam na Constituição de 1934. O termo “excepcional” foi adotado na Constituição de 1937 e repetido na Emenda Constitucional nº. 1 de 1969. A expressão “pessoa deficiente”, segundo o blog, veio com a Emenda Constitucional nº. 12 de 1978. A Carta Magna de 1988 trouxe a expressão “portadores de deficiência” e, com a adoção dessas terminologias estipuladas na legislação, a documentação oficial serviu de base para que a sociedade brasileira convivesse com essa nomenclatura até a edição de novos marcos legais.

No plano internacional, o emprego da palavra “pessoa” antes de “deficiente” só aconteceu em 1981, quando a ONU incluiu aqueles que tinham deficiência, igualando-os em direito e dignidade à maioria. A expressão “pessoa com deficiência”, adotada pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência (2015), fruto da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD), foi a que ganhou maior acolhida no seio da comunidade internacional.

Débora Diniz, doutora em antropologia citada por Ednilson, afirma que “a deficiência não é mais uma simples expressão de uma lesão que impõe restrições à participação social de uma pessoa. Deficiência é um conceito complexo que reconhece o corpo com lesão, mas que também denuncia a estrutura social que oprime a pessoa deficiente. Assim como outras formas de opressão pelo corpo, como o sexismo ou o racismo, os estudos sobre deficiência descortinaram uma das ideologias mais opressoras de nossa vida social: a que humilha e segrega o corpo deficiente”.

A linguagem influi na maneira como as pessoas com deficiência são percebidas pela sociedade. É importante conhecer o significado embutido nas palavras. As expressões empregadas de maneira inapropriadas podem fazer com que as pessoas se sintam excluídas, representando uma barreira para a plena participação social. Palavras negativas como “vítima” ou “sofredor” reforçam os estereótipos de que as pessoas com deficiência são infelizes e dignas de compaixão, o que na maioria das vezes não confere.

As pessoas com deficiência têm família, virtudes e defeitos, vitórias e derrotas, trabalham e participam de atividades comunitárias, fazem sexo, querem respeito e buscam viver bem e em igualdade de condições. Como todo mundo. Reconhecer essa necessidade e adotar uma linguagem cada vez mais condizente com a singularidade de cada um é a senha para quem produz narrativas no campo da comunicação, bem como para todo cidadão que aposta em uma sociedade pautada na ética e na alteridade.

O cotidiano e o sonho que se distancia

Sempre ouvi dizer que quando um assunto vira tema de muitas conversas, discussões, artigos, encontros, enfim, é porque o seu conteúdo está em falta. Estamos, então, absurdamente carentes de respeito, direitos, liberdade. É sobre isso que falamos e escrevemos vertiginosamente. É o que lamentamos sem parar. É o que nos falta.

A diversidade humana segue espantando e a intolerância mostra suas garras afiadas nas situações mais cotidianas. Machuca. Fere. Os movimentos sociais, sempre tão estimulantes, são rechaçados e a força bruta dos governos se impõe com violência. Sem pudor.

Queremos a democracia e lutamos por igualdade e dignidade, em todas as esferas. Repudiamos todas as matrizes que alimentam o preconceito, ignoram nossa memória e roubam direitos básicos das pessoas. Nosso desejo genuíno e sensato é, ao mesmo tempo, incompatível com o Brasil de hoje.

Na estranha semana que passou, alguns acontecimentos deixaram evidente que ainda estamos longe do sonho de viver entre pessoas que respeitem outras pessoas e seu direito de ser quem são. E tristemente vemos o país se distanciando do mínimo de dignidade que uma nação precisa para acolher sua gente.

Memória da ditadura em risco

Mais uma ação nefasta do desgoverno federal é tema de reportagem do jornal Extra Classe online – http://www.extraclasse.org.br/edicoes/2017/08/nem-memoria-nem-verdade-nem-justica/. A prova de que Temer e seus aliados trabalham incessantemente por um Brasil sem rosto, uma educação sem memória e um povo subjugado porque quem não conhece sua história verdadeira é fácil de enganar/dominar.

A Comissão da Anistia, criada para ‘reparar moral e economicamente as vítimas de atos de exceção, arbítrio e violações aos direitos humanos cometidos entre 1946 e 1988’, corre sérios riscos, assim como as Comissões da Verdade, que trabalharam para recuperar essa memória. ‘Os anistiados não estão tendo suas portarias assinadas. Muitos estão com idade avançada, com doenças até de sequelas das torturas que sofreram, e não têm acesso à reparação. E outros não têm o processo apreciado porque a comissão não está funcionando’. A denúncia é feita por Moreira da Silva Filho, professor da Escola de Direito da PUCRS e do Pós-Graduação em Ciências Criminais. Antes da ruptura institucional em 2016, com a deposição da presidenta Dilma Rousseff, a Comissão estava também construindo políticas de memória’.

Homofobia em Porto Alegre

Celebração vira caso de polícia motivado por preconceito, na Associação Leopoldina Juvenil, bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Marcos Vinicio Beccon e o namorado Raul Weiss foram vítimas de discriminação em uma festa de formatura. As pessoas se divertiam, tudo parecia normal, até que um beijo entre os dois desestabilizou a frágil harmonia da celebração. A intolerância brotou de todos os lados. Não vou entrar nos detalhes do que aconteceu, mas a atitude é o retrato da covardia e do preconceito velado – “tudo bem ser gay, mas não aqui na minha festa”.

Comportamentos assim estão tão entranhados no inconsciente de todos nós que, às vezes, até soam como normais, mas não são! A presença de pessoas naturalmente livres, que não têm medo de assumir a sua condição, incomoda. Elas nos desafiam, especialmente se vivemos engavetados, de costas para a diversidade, consumindo sem críticas os discursos discriminatórios que já vêm prontos e tabelados. É necessário desmascarar a hipocrisia e desorganizar essa ordem social que alimenta o preconceito.

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Chico Buarque crucificado e endeusado

A pergunta é: Por que Francisco Buarque de Hollanda, conhecido como Chico Buarque, compositor, dramaturgo e escritor brasileiro, provoca tanto amor e tanto ódio? É tão difícil deixá-lo viver, amar, desamar, compor, descompor, escrever, ser politicamente correto ou incorreto? O que querem dele?

O recuo das águas mostra descaso com a natureza

O que dizer do lixo que ficou escancarado às margens do Guaíba com o recuo das águas? Definitivamente, temos discurso, mas não temos prática. Cobramos das autoridades, mas não participamos. Não cuidamos do mínimo necessário para a vida saudável que tanto queremos. Os governos são indigestos, sim. E a população – eu, tu, ele, nós, vós, eles – é hipócrita. Prega, cobra, mas nada faz. Até quando?

Arte e suavidade – Amaro Abreu e seu Habitat

Amaro Abreu está com a exposição “Habitat – II Parte”, que tem curadoria da Cristina Pozzobon, no Clube de Cultura (Ramiro Barcelos, 1853), até o dia 21 de agosto. Recomendo para quem não viu. E para quem já viu, digo que vale a pena ver de novo. Escrevi o texto de apresentação da mostra, que tem muito do texto que fiz para o livro. Amaro é um guri talentoso, tem uma sensibilidade incrível e faz um trabalho que me emociona muito.

Amaro

Arte e suavidade – Amaro Abreu e seu Habitat
O menino curioso, que poeticamente via peixinhos a nadar no lago dos profundos olhos azuis da Marlene, minha irmã, cresceu. De repente. Quando o reencontrei, parou na minha frente um menino-homem, expressão carinhosa muito comum no nordeste brasileiro para dizer, “a criança que você conheceu já não é mais a mesma”. Logo vi que não era, mas que guardava muito do universo lúdico de menino no entusiasmo, no jeito de olhar, de falar, no sorriso. A suavidade daquela infância que nunca nos abandona, especialmente quando nos revelamos através da arte.

Fomos conversando e descobri que o menino já se aventurou pelo mundo. Articulado, dono do seu nariz, criativo, cheio de ideias, levou seus olhos para outras paragens. Bisbilhotou, desenhou, pintou, grafitou. Foi rabiscando a vida diversa que pulsa em todo lugar com seus lápis, tintas, sonhos, sprays, nanquim, fantasias, aquarelas e desejos. Desvendou, compartilhou e deixou em muros e painéis as criaturas inusitadas que cria.

Amaro Abreu hoje é um artista urbano. Eu, que não o via há muito tempo, fiquei surpresa e encantada. Mais ainda quando ele me chamou para escrever sobre seu trabalho no livro Habitat, que lançou em 2016, convite que me deixou incrivelmente feliz. Por ser quem é. E porque das suas mãos nascem figuras que dizem muito da vida vertiginosa que levamos, das ilhas que formamos para nos proteger, da diferença e da fragilidade que desacomodam nossas certezas, da diversidade que nos constitui como sujeitos únicos, da liberdade que buscamos.

As criaturas que Amaro vai desenhando e espalhando por aí desconsertam, inquietam, alegram, preenchem, fazem rir, emocionam. Coloridas e disformes, delicadas e fortes, às vezes são incrivelmente líricas, pura suavidade, leveza, e nos convidam a bailar. Em outras, surgem como fortalezas que guardam tesouros humanos preciosos, provocando um pensar incessante. Fazem parte de um universo vasto e inquieto, fora da ordem, que sempre me fez refletir, falar e escrever, hoje quase que cotidianamente, na tentativa de entender os humanos e seu Habitat.

Que segredos guardam esses seres, ao mesmo tempo circenses e melancólicos, brutos e lúdicos, enraizados e soltos, nesse misto de tristeza e alegria? Saltitantes, à beira do abismo, amordaçados, à espreita, olhos arregalados, despedaçados e inteiros, genuínos na sua adorável imperfeição, o que querem dizer assim tão inconstantes?
Dizem de nós, seres fragmentados, assustados, urgentes, às vezes dilacerados, que somos. Humanos?

Dizem dos outros que nos habitam. Revelam nossas tantas faces, nossa polaridade, nossos sentimentos divididos diante do mundo multifacetado, encantador e cruel. Habitável?

Dizem das vidas paralelas que, estranhamente, tentamos equilibrar.

Dizem de nós, tão coletivos e tão solitários nessa caminhada em busca de um final feliz.

Fale, responda, liberte

Depois de ouvir o depoimento da professora aposentada, Diva Guimarães, 77 anos, sobre desigualdade e o preconceito que enfrentou ao longo da vida por ser pobre e negra, o ator Lázaro Ramos falou emocionado: “A gente precisa fazer um pacto de investir em educação pública de qualidade. Não podem sucatear a educação brasileira. A escola pública tem que ser valorizada. O professor tem que ser valorizado”, sob o aplauso de uma tenda lotada, na 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty/RJ, em debate com o tema ‘A pele que habito’.

Diva se declarou “uma sobrevivente pela educação e pela mãe”, que definiu como uma guerreira. São momentos que lavam a alma da gente e acendem a esperança.

Os desiguais, os diferentes, os que não correspondem ao ideal de ‘ser humano’, estão se manifestando e se posicionando com firmeza. E quanto mais falam, mais o preconceito aparece. É difícil para os “normais” encarar a diversidade de vozes que assumem a sua condição, denunciam o preconceito e reivindicam o direito de ir e vir com liberdade e respeito. E quanto mais ouço, leio, falo, mais me convenço que a mudança está na educação, bem lá no início, na pureza da criança ainda não contaminada.

Simplicidade e verdade
Os caminhos de uma educação libertadora passam inevitavelmente pela simplicidade, jamais pelo extraordinário. Passam pelo afeto, pelo acolhimento, pelo diálogo, pela segurança, pela verdade. Precisamos de olhares que percebam as diferenças que nos rodeiam. Busquem a história de cada indivíduo, produzam vínculos, proporcionem a troca e a visibilidade, diluam os fantasmas, possibilitem o sonho, enfrentem o preconceito com atitude.

Nestes tempos permissivos, em que tudo pode ser dito e tudo pode ser feito, em que o bullying está no centro da cena, há que se dar limites para a insanidade humana, encarando toda a atitude que segrega, ofende, humilha, com a simplicidade do que é verdadeiro.

Quem disse que não é possível? Ver o outro para além de qualquer barreira, com sensibilidade e respeito, é transformador. Não podemos dar lugar ao desejo da invisibilidade como fuga das agressões preconceituosas. E responder naturalmente à curiosidade das crianças, sem alimentar espanto, medo ou o que seja, é o princípio da visibilidade que traz a cidadania. Afinal, de um jeito ou de outro, todos buscamos respostas para o que desconhecemos.

A seguir uma pequena história de quando enfrentei a rejeição, se é que posso chamar assim, pela primeira vez.

A criança precisa de respostas
Na primeira vez em que ouvi alguém gritar “olha uma anãzinha!”, eu ainda morava em Jaquirana, que na época pertencia ao município de São Francisco de Paula. Estava na fila para entrar na escola, lá pelos 6 anos. Não tive dúvidas! Dei meia volta e corri, aos prantos, para a casa dos meus avós maternos. Tudo era muito perto. Uma das tias, irmã mais nova da minha mãe, também não teve dúvidas! Pegou na minha mão e me levou de volta, direto para a sala do diretor da escola. Ele, sobrinho do meu avô materno, assim que ouviu o relato da tia, e certamente percebeu meus olhinhos assustados, foi mais um a não ter dúvidas! De mãos dadas comigo, passou nas salas de aula e me apresentou naturalmente aos alunos – “Essa é a nova coleguinha de vocês. Respeitem, sejam amigos”.

Um gesto. Uma atitude fora do protocolo. E o acolhimento estava dado. Hoje, chamamos esse comportamento de “inclusivo”. Na época, ninguém se dava conta do quanto de sensibilidade havia na atitude do diretor e do quanto uma ação assim pode ser vital na vida de uma criança diferente da média. Depois desse episódio simbólico, fui estudar na pequena cidade da longa avenida, que eu gostava tanto, São Chico. E, sem medo, fui para a escola sozinha no primeiro dia. E fiquei.

Novos enfrentamentos vieram. Alguns grosseiros, outros engraçados e ingênuos, muitos absolutamente preconceituosos. Mas estudar, aprender, relacionar-se para além dos quintais das casas familiares era um desejo inabalável. Internamente, sem entender bem aquele sentimento, alimentava o forte desejo de olhares sem julgamento. Até entender e olhar para esses olhares, sem receio. Segui experimentando a vida do jeito possível, à flor da pele, com meus tantos limites e outros tantos desejos.

Sempre é interessante voltar ao tema

Em abril de 2016 escrevi um artigo para o portal da cidade de Cachoeirinha, que ainda seria lançado. Não consegui acompanhar o andamento. Não sei se foi publicado. Reli o texto um dia desses. É um apanhado de quase tudo o que tenho falado sobre as minhas inquietações relacionadas à diferença, inclusão e acessibilidade. Mexi um pouco no texto e achei oportuno trazê-lo para o blog. É bom voltar ao assunto que me colocou entre os blogueiros do Sul21.

Inclusão e Acessibilidade

Assim que a causa das pessoas com deficiência física, visual, auditiva, mental ou intelectual conquistou a visibilidade necessária, a fala em defesa dessas pessoas foi para as ruas. Os discursos vieram para o centro da cena, instigando o debate sobre temas como acessibilidade, inclusão, respeito e diversidade, e projetos e leis foram criados para amenizar as dificuldades. Muitos olhares se voltaram para os diferentes e passaram a perceber suas carências e sua luta em busca de uma vida menos complicada e mais humana.

Não tenho dúvidas sobre a importância dessa conscientização, no sentido de sensibilizar, fazer pensar e estimular a mudança. Mas é bom ter claro que há algo mais urgente a ser feito para que as diferenças não causem tanto espanto, a superação não vire bandeira, a inclusão se incorpore naturalmente ao cotidiano das pessoas e o convívio se torne solidário. A educação, tão sucateada pelos governos atuais, é o caminho.

Educar para a diferença

É preciso educar, em casa e na escola, para a diversidade que constitui os indivíduos. Mostrar que a grande riqueza humana está no encontro das diferenças, nas múltiplas possibilidades e capacidades de cada um, na cooperação e na troca. Mas para isso é necessário falar sobre o preconceito com a criança, não sonegar informações, tratar com naturalidade suas perguntas, não contaminar seus olhares infantis tão livres e curiosos.

Para ir e vir com dignidade, precisamos muito mais do que discursos, leis e projetos. Por mais que tenhamos rampas, calçadas adequadas, balcões e banheiros adaptados, elevadores e ônibus acessíveis, equipamentos de toda ordem, difusão da língua de sinais e do sistema braile, campanhas pela inclusão e emprego através de cotas – conquistas sem dúvida fundamentais – tudo ainda será precário se a discriminação persistir. Não basta o cumprimento burocrático das leis. É fundamental desacomodar posturas sacralizadas e aprender cotidianamente a conviver com a diferença.

Não basta cumprir protocolos

Sabemos que as bem-vindas adaptações físicas do meio, que em princípio parecem fáceis de executar, são lentas, mal feitas muitas vezes e, se não houver fiscalização, ficam no campo da promessa. As empresas, o público e o privado de modo geral, acordaram para a importância do acolhimento, mas não sabem como fazer. Cumprem o protocolo. Apenas.

Acolher não significa passar a mão na cabeça, fingir que está tudo bem, minimizar a capacidade de trabalho. Acolher é compreender, orientar e exigir. As pessoas com deficiência necessitam ser percebidas na sua dimensão. Jogá-las em alguma atividade, sem saber das suas potencialidades, sem o devido preparo e sem o preparo dos colegas de jornada, é desconhecer o que significa efetivamente a palavra inclusão. Só encarando os limites, e todo temos limites, será possível subverter a ordem e mudar comportamentos. Nada muda por decreto. Há um caminho a ser trilhado com afeto e firmeza. E o princípio, como já disse, está na educação para a diferença.