Férias, amigos, Bahia

Sempre gostei de férias, desde os tempos escolares, mesmo ficando em casa, o que era comum, sem perspectivas de algo muito novo no horizonte. Quando entrei para o mercado de trabalho e as férias precisavam ser solicitadas e autorizadas, eu procurava períodos que possibilitassem uma viagem, geralmente no verão. Planejava e juntava dinheiro para abrir as asas e voar.

Foi assim que entrei em um ônibus da Penha na rodoviária de Porto Alegre rumo a Salvador/Bahia, com uma parada estratégica de dois dias no Rio de Janeiro para descansar. Sentar ao lado da janela, olhar a paisagem, ler as placas que iam me localizando ao longo do caminho era uma emoção muito grande. Certamente não maior do que a emoção que tomou conta de mim quando pisei pela primeira vez no Pelourinho, em janeiro de 1974, e entrei no prédio de número 16. Lá morava meu primo/irmão Júlio, que dividia um apartamento com baianos que ficaram nas nossas vidas para sempre, João e Ronaldo. E os tantos outros que foram se somando, num ir e vir constante.

Marlene, minha irmã, que já havia morado em Salvador, levada pelo Júlio, foi quem me estimulou muito a fazer esta travessia. A casa era vertiginosa. Com esses amigos aprendi muito e me reconheci como uma pessoa que poderia andar pelo mundo, com o meu jeito singular, que provocava tanto estranhamento. Entendi o entusiasmo e o desejo da Marlene para que eu vivesse aquela experiência. A diferença, que constituía cada um de nós, era explícita. Foi a partir daí que entendemos um pouco mais da nossa condição de mulheres com nanismo, que poderiam ter uma vida plena. A diversidade, motivo de tantas lutas hoje, já fazia parte daquele ambiente de forma espontânea.

Vivíamos ingenuamente livres, leves e soltos, na contramão de uma ditadura feroz, que perseguia, torturava e matava quem ousasse pensar de um jeito que não o da voz cruel dos militares no poder. Pulamos atrás do trio elétrico de Dodô e Osmar. Cantamos com Caetano, Gil, Moraes Moreira e Baby Consuelo. Acompanhamos a preparação e a saída das baianas, a organização e o desfile dos Filhos de Gandhi, do bloco afro Ilê Aiyê, a criação do Olodum. Nos carnavais, brincamos e dançamos no espaço libertário da Praça Castro Alves, que “é do povo como o céu é do avião”.

Éramos de uma geração que pregava paz e amor e acampava na Aldeia Hippie de Arembepe. Uma geração que queria ser, não ter. E assim vivemos o que foi possível,voltando todos os anos à Bahia e trazendo os amigos para Porto Alegre e São Francisco de Paula sempre que dava. Até criamos um termo que nos definia – “baiúchos”.

Neste verão voltei à Bahia – Arembepe e Salvador – de férias e à flor da pele. Fiquei no apartamento do João, em cima do restaurante Mar Aberto. Um lugar onde Marlene e eu sempre ficávamos. A saudade pulsou forte, mas desta vez de uma forma serena. E fiquei bem. João estava comigo.

E lá estavam meus primos Júlio, Olita, Otília e Joene, que hoje têm uma hospedaria muito aconchegante e charmosa, a Casa das Águas. E lá estavam Ronaldo, Thierry, Luara e Narayan. Minha família baiana.

Arembepe é uma vila privilegiada que luta para manter a integridade do meio ambiente,uma luta necessária e urgente contra a ganância das grandes empresas que só pensam no concreto e no lucro fácil.

Em Salvador fiquei no apartamento do Pelourinho e com os amigos queridos Rita Chagas Ortiz e Freddy Ortiz, mais um pedaço dessa grande família, com quem fiz vários passeios e conheci o Mercado Iaô, da cantora Margareth Menezes. A emoção sempre me sacudindo.

O centro histórico, do Pelourinho até a Rua Chile, está lindo, com vários prédios restaurados e ocupados por redes hoteleiras poderosas, como o do jornal A Tarde, hoje sede do Hotel Fasano.

Lelei em frente ao prédio restaurado em Salvador

Foi muito bom ver a cidade renovada, bonita, com a arte pulsando forte através das várias manifestações genuínas, na rua, mostrando a força indiscutível da cultura negra.

Além da arte nas ruas, conferi um pouco da estimulante produção teatral baiana em três peças solo. No espaço de Aninha Franco, que ela define como “uma casa de encontros,de celebração da vida e da arte, porque sem arte é impossível sobreviver”, vi “Surf no Caos”, com a atriz Rita Assemany, uma reflexão contundente e atual sobre os caminhos da humanidade, que emociona, faz rir e bota a gente para pensar. E “R$ 1,99”, escrito,dirigido, produzido e interpretado por Ricardo Castro, também uma reflexão sobre o cotidiano brasileiro que diverte e inquieta. A casa de Aninha chama-se Republicanos e é realmente “um laboratório de ideias para fazer poesia, pensar, representar, comer e beber”, com uma biblioteca que tem um acervo de 14 mil livros, com muitas raridades.

No Teatro Módulo vi o diretor Fernando Guerreiro no palco em “Revele – Um Desabafo Cômico”, um rasga coração incrível, dinâmico, com texto, produção e direção dele. Todos os espetáculos são contundentes e bem humorados, falam do estado das coisas, da arte e dos artistas em um Brasil à deriva. E, ainda, Adriana Calcanhoto e Baby Consuelo no Teatro Castro Alves, mais o filme “Fevereiros”, documentário com Maria Bethânia no Espaço Glauber Rocha.

Foi um tempo incrível de relax, conhecimento, novas experiências, boas conversas e alegrias. Afetos e aconchegos que me fazem cantar com Milton Nascimento “amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração”. Ou poetar com Guimarães Rosa “amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado”.

Dor e Indignação

 

“Justiça para as vítimas”. “Punição aos responsáveis”. Essa é a promessa de empresários da Vale, do governo e das autoridades a cada manifestação e a cada entrevista sobre uma das maiores e mais tristes tragédias que vivemos desde sexta-feira, 25 de janeiro de 2019, pouco depois do meio-dia.

Só que no Brasil não é assim!

Tragédias anunciadas, como a de Brumadinho, três anos depois de Mariana, escancaram a assustadora irresponsabilidade, indigência e oportunismo das relações políticas e empresariais. Não temos voz. Temos algozes. Vivemos em constante vulnerabilidade social. A lama que mata seres humanos, animais e o meio ambiente em Minas Gerais é movida pela soberba, pela ganância, pelos negócios escusos e pelo cinismo de quem detém o poder, de quem compactua e de quem só vê e só deseja o lucro, a qualquer custo – governos, políticos e empresários.

É assustadora a voracidade que conduz o comportamento desses senhores – um protegendo o outro para ganhar mais e mais. E de uma forma ou de outra, todos ganham muito, em detrimento do bem estar e da segurança de comunidades inteiras que trabalham para sustentar suas famílias. O fosso de negociatas é sem tamanho, em nome de licenças muito bem pagas e privilégios de toda ordem. Não há a mínima preocupação e respeito pelo outro.

Os governos não se comprometem com as camadas mais pobres da sociedade. É assustadora a frieza de quem conduz o negócio e de seus comparsas, sem olhar para os males que provocam. Mais assustador ainda é o apoio que lideranças políticas dão a esses atos ilícitos, em troca de votos e, claro, muito dinheiro para garantir seus podres poderes. Já são eleitos para isso, é certo!

Respeito, autorização, fiscalização, ética, transparência são palavras não gratas para tais senhores, e seus asseclas, que insistem em manter a casa grande e a senzala. Ninguém ouve as pessoas sensatas, os técnicos, as organizações da sociedade civil que alertam para os perigos. E agora ficamos sabendo que foram muitos os alertas sobre os perigos. Mas só foram ouvidas as cartas marcadas. É triste. É desolador. Dói muito olhar para este Brasil que abandona sua gente, suas origens, suas florestas maravilhosas, ricas em flora e fauna, conhecidas como o pulmão do mundo, em nome do lucro excessivo de tão poucos.

O que fazer com a nossa indignação?

Cartilha Escola para todos! Nanismo

Lançamento dia 27 de janeiro, 21h, na 46ª Feira do Livro Da Universidade Federal do Rio Grande (Furg)

Criada a partir da experiência de famílias e pessoas que vivem o nanismo no dia a dia, a Cartilha Escola para Todos! Nanismo vai ser lançada neste domingo, 27 de janeiro, às 21h, na Feira do Livro de Rio Grande, onde pode ser adquirida até o dia 3 de fevereiro pelo valor de R$ 8,00. Com o objetivo de contribuir para uma sociedade inclusiva e justa, a publicação mostra que o respeito às diferenças é fundamental para que cada um viva bem e em harmonia com a sua singularidade. E trabalhar a conscientização na escola, de forma simples e lúdica, a partir do cotidiano de uma criança com nanismo, é o caminho natural, saudável e efetivo para o entendimento de que todos são diferentes de alguma maneira.  A cartilha foi apresentada em uma audiência pública para a Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, representantes do MEC e do senador Romário Faria, em junho de 2018, com o apoio do senador Paulo Paim. A proposta é que os municípios conheçam o projeto, abracem a ideia e distribuam nas suas escolas.

Vélvit Ferreira Severo, designer gráfica de Rio Grande/RS, mãe de Théo Severo Huckembeck, está na linha de frente do projeto e diz que “felicidade é o nome deste momento”. Ela contou com a contribuição de um grupo muito especial para chegar até aqui – Flávia Berti Hoffmann, proprietária de uma editora de livros em Caxias do Sul, mãe de Bernardo. Kênia Maria Rio, presidente da Associação de Nanismo do Estado do Rio Janeiro/ANAERJ. Liana Hones, representante do Nanismo em Santa Catarina. Djarlles Pierote. Somos Todos Gigantes. Lilian e Vanderlei Link, de Pelotas/RS. Familiares e amigos. Pessoas que convivem cotidianamente com o nanismo, ou porque têm ou porque os filhos têm ou porque conhecem muitas pessoas que têm. Gente guerreira que, há mais de dois anos, se juntou para criar a Cartilha Escola para todos! Nanismo. Gente de luz, que faz a sua parte, neste Brasil desgovernado, onde os trabalhadores e as pessoas de bem perdem direitos a cada minuto.

Conheça este projeto e leve para seu município.

Escola para todos: Nanismo
Cartilhananismo@gmail.com
WhatsApp 53 99124.6632

#escolaparatodosnanismo
#feiradolivrofurg
#nanismo

Em 15 de abril de 2018, publiquei um texto sobre a Cartilha no meu blog. A seguir um trecho: É preciso esclarecer, informar e falar sem medo para espantar o preconceito, que está no adulto e não na criança. Vélvit Ferreira Severo, idealizadora da cartilha, diz que “as crianças são puras e veem ao mundo de forma leve e singular”. Abordar o assunto dessa maneira torna mais fácil a compreensão da necessidade do respeito às diversidades. São muitas as iniciativas que rondam esse universo. Vélvit, que atua em várias frentes, acredita que “espalhar conhecimento, acabar com a discriminação e, com isso, tornar a vida melhor para todos, tem que partir do respeito à diferença”. O projeto defende a aprovação de uma Lei Nacional de Inclusão da Cartilha nas Escolas para conscientizar, multiplicar e fazer com que as pessoas vejam o mundo de outra maneira.

Reflexos do baile neoliberal em Porto Alegre e Paris

Pelo olhar fotográfico do jornalista José Walter de Castro Alves, em Porto Alegre, e da arquiteta Flavia Boni Licht, em Paris.

“Dormindo na rua – Porto Alegre”, por José Walter de Castro Alves
“Dormindo na rua – Paris, 2019”, por Flavia Boni Licht

E pelas palavras da produtora cultural Valência Lousada, em 21 de janeiro de 2019 – “Palavras ausentes no vocabulário do atual governo: cidadania, políticas públicas, educação, igualdade, cultura, ética, miscigenação, trabalhadores, liberdade, desenvolvimento, proteção ambiental. E palavras que andam pálidas de exaustão: disciplina, armas, Deus, militarização, vagabundo, corrupção, bandido, doutrinação, agronegócio, cidadão de bem, isso daí”.

“Dormindo na rua – Porto Alegre”, por José Walter de Castro Alves
“Ruas de Paris – 2019”, de Flavia Boni Litcht

E da cantora Cida Moreira, também em 21 de janeiro de 2019 – “Tenho evitado falar do momento político, por todas as razões, a começar por respeito a mim mesma, sendo fiel às minhas decisões. Mas hoje não consegui deixar de pensar que estamos de muitas formas desesperados com o que estamos vendo acontecer. É um limbo tenebroso onde as poucas esperanças afundam dia a dia. É a fala de uma brasileira comum, mas consciente. Não me vitimizo, mas não tenho como dizer o que tem sido viver estes dias horrendos, piorados por este calor infernal que maltrata a todos. As ruas estão cheias de brasileiros maltratados e tristes. A visão cotidiana disso tudo apequena meu coração e a minha vida. Um teatro pobre, falido, mentiroso, que deixa nossa bandeira aviltada e com escarro de um cretino que não merece ter nas mãos um símbolo fundamental do nosso país e de nós todos”.

“Dormindo na rua – Porto Alegre”, por José Walter de Castro Alves
“Ruas de Paris 2019”, por Flavia Boni Licht

Constatações

Em alguns momentos, a solidão bate inexoravelmente. A independência, tão batalhada e conquistada, não é o suficiente. Precisamos do outro. Ao mesmo tempo, não queremos ser um peso para quem nos cerca ou nos cuida. Neste sentido, a convivência com a tia de 91 anos, que me criou, foi muito emocionante no final do ano. Impossível não pensar na fragilidade da condição humana. Impossível não concluir que, venha o que vier, é fundamental a convivência, a troca, o diálogo, a boa conversa, a solidariedade.

É urgente voltar a acreditar que é possível, apesar do enorme vazio e da desesperança que me cercaram em 2018 e permanecem neste início de 2019.

Fiquei especialmente à flor da pele com as chegadas e partidas, os finais e os recomeços. O velho e pesado ano de 2018 foi para a história política e social do país com todas as suas idiossincrasias, injustiças e antagonismos, deixando rastros vorazes e inquietantes. O jovem e já desgastado 2019 sinaliza tempos nada amenos. Ficamos mais intolerantes, raivosos, violentos, cheios de um ódio autorizado que se disseminou feito praga. A cultura, “que nos define e nos salva da mediocridade”, como escreveu Cláudia Laitano no artigo “A Arte Contra-Ataca” (ZH DOC, 29 e 30 de dezembro de 2018), é desprezada. Nunca imaginei ser possível acreditar mais nas armas do que na arte e na educação, o que me assusta muito. O horizonte é turvo e sombrio.

Conquistas como as que se referem às questões de gênero estão ameaçadas. A flexibilização dos papéis tradicionais, com as novas formações familiares que dão mais verdade e transparência às relações humanas, provoca medo em quem detém o poder. Melhor viver na hipocrisia do que conhecemos como “tradição, família e propriedade”, um dos bordões da ditadura militar brasileira, do que apostar na riqueza da diversidade.

Estamos mais vulneráveis, é certo.  Resta-nos, agora, a resistência. Com a arte sempre. Com ética. Com argumentos. Sem barganhas. Sem toma lá, dá cá. Com justiça. Com dignidade.

Enquanto isso…

Falo tanto em acessibilidade, mas nunca me referi aos ônibus de linha.

Falo tanto em inclusão, mas nunca mencionei o tratamento recebido em rodoviárias e nos ônibus de um modo geral.

Falo tanto em alteridade, mas nunca comentei a ausência de um olhar acolhedor nestes espaços.

Nas estações rodoviárias é um salve-se quem puder. Parece que todo mundo está a um passo de perder a viagem. No interior dos ônibus, acesso zero. Nem a tradicional perguntinha: Precisas de ajuda?

É duro reconhecer, mas tudo ainda é primário e a precariedade do cotidiano é grande.

Tempo de aliviar tensões

Sensibilidade, fluidez, procura, entrega, dúvida, aprendizagem, sabedoria, troca e emoção. Os desejos que me movem neste momento obscuro e de tanto ódio que vivemos no Brasil são plenos dessa humanidade avassaladora e diversa, tão ameaçada no nosso cotidiano. Humanidade transgressora, rebelde no que tem de genuína e despojada. Como o café com mistura na casa da avó, cheio de boas histórias e lembranças, que nos faziam rir e chorar espontaneamente. Ou como o amigo que encontramos de repente e nos faz esquecer da pressa maldita que nos levava para não sei onde, em nome de não sei bem o quê. Ou como o pastel estalando de novinho saboreado no boteco solitário de uma beira de estrada. Rebelde porque não se submete, mas sabe ser leve.

Sei que é tempo de aliviar as tensões de um ano muito difícil para viver os rituais de passagem, tão necessários. Respirando profundamente entre familiares, amigos, conhecidos. No lugar do café com mistura ou do pastel, um brinde com espumante, ou com a bebida preferida, e um salgadinho gostoso, um pedaço de peru ou de pernil, para triscar. O importante mesmo é não acumular ódios, nem mágoas. É seguir olhando para o outro com afeto, entre risos, abraços, lágrimas e brincadeiras, com a certeza de que é possível a harmonia na diversidade.

Mais ou menos como os embates dos poetas com a palavra, que a Marlene, minha irmã, tanto estudava e definiu tão bem. “Os poetas sempre souberam da rebeldia da palavra, de sua ‘resistência’ em colocar-se sob o domínio daquele que a utiliza: ela diz mais ou diz menos, diz outra coisa; ela não cessa de produzir sentidos através do tempo, sentidos esses nunca acabados, jamais detidos. Se, de um lado, não se pode realizar uma fala ‘satisfatória’, de outro lado, a palavra ‘justa’ insiste em se dizer e é para encontrá-la que seguimos falando”.

Sabemos da nossa rebeldia, mas precisamos seguir procurando a palavra que nos tire dessa polaridade que não leva a lugar nenhum. Precisamos buscar algo que nos coloque novamente em sintonia para divergir, se for o caso, como seres civilizados que somos.

A psicanalista Diana Corso escreveu algo que me tocou muito nos últimos dias. “Reavaliar-se demanda uma escuta fina e destravada de si mesmo, só assim para descobrir o que estamos querendo de forma enviesada, inconfessa, canhota. Somos estranhos ao que expulsamos da nossa consciência, por isso mudar dá tanto medo”.

E a jornalista Adriana Martorano em suas reflexões de final de ano escreveu: “Reconhecer a importância de alguém na sua vida afetiva, profissional, familiar, ENQUANTO essa pessoa ainda está contigo: um aprendizado que muitos insistem em não ter”.

Que os tempos sejam de ver o outro!

 

 

 

Pão e Direitos Humanos

Comecei a falar e a escrever sobre acessibilidade e inclusão no blog Isso não é comum para suportar uma dor avassaladora. Acabei atravessando fantasmas e fronteiras internas e externas jamais imaginadas. E, naturalmente, fui dando voz a uma série de outras questões, vitais para a dignidade humana, que me inquietavam e ainda me inquietam muito. De certa maneira, preenchi um grande vazio ao falar de temas que poucos falavam e ao perceber que minha escrita ecoava e ecoa de um jeito surpreendente. Assim como ecoam tantas vozes plurais Brasil afora.

Tive certeza dessas vozes e desses ecos ao participar do Seminário Inclusão: Direito das Pessoas com Deficiência, no Rio de Janeiro, em 23 de novembro, organizado pela Práxis Sistêmica, em parceria com a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CDPD) da OAB/RJ e com a Escola da AGU. Ao lado de pessoas cegas e com baixa visão, jovens com autismo, pais e mães de crianças diferentes, falei, mais uma vez, sobre esse tema tão necessário e especial para todos nós que buscamos a diversidade. Foi uma jornada emocionante, de muitas trocas, aprendizagem, respeito, afeto, empatia, que fez diferença no meu cotidiano. Conheci pessoas incríveis, que lutam com lucidez e leveza. E tive esclarecimentos precisos e preciosos sobre os direitos da pessoa com deficiência, agora tão vulneráveis, correndo o risco de serem banidos pelo governo eleito, que pode acabar com tudo o que já se conquistou.

“A grandeza da existência humana é poder trabalhar com a pluralidade, é poder compreender nas diferenças o conjunto da igualdade humana”, escreveu alguém que desconheço, mas quem vai assumir ministérios e cargos no Brasil 2019 parece não entender ou não se interessa mesmo pela diversidade, seja ela qual for.

Em novembro, li também a reportagem da jornalista Clara Clock sobre inclusão no Jornal Extra Classe. Poucos, na mídia, trataram o assunto com tanta seriedade e reflexão. Ali estão colocadas, sem sensacionalismo ou vitimismo, as informações necessárias sobre a questão da deficiência e da inserção no mercado de trabalho. Quero destacar um depoimento que está na matéria e é esclarecedor, o de Paulo Fernando Soares, que foi perdendo paulatinamente a visão ao descobrir, aos 16 anos, um tumor no nervo ótico. Aos 20 anos estava cego. E na seleção para um estágio em Psicologia surpreendeu a supervisora, que achou que ele não daria conta do serviço. “Entre todos os candidatos, só eu consegui responder as perguntas e fui selecionado”, diz ele na matéria. E seguiu comentando: “A gente tem que estar sempre provando que é capaz”. “Deveríamos falar de diversidade desde o ensino básico, sensibilizando e conscientizando que as pessoas com deficiência não são um problema”.

Portanto, é fundamental lutarmos pelos nossos direitos e enfrentarmos os posicionamentos e discursos retrógrados. E é fundamental insistirmos no “Nada sobre nós, sem nós”. Não falem por nós. Não façam por nós. Não decidam por nós. Não nos olhem com olhos contaminados, como se fôssemos incapazes. Antes de tudo, exerçam a alteridade. Coloquem-se no nosso lugar. Perguntem. Ouçam o que temos a dizer. Não nos proíbam de fazer. E respeitem o nosso jeito. Nossas vidas, a sua e a nossa, vão ficar melhores, mais fáceis, mais verdadeiras, mais solidárias.

Podemos dividir nossas tristezas e alegrias, possibilidades e impossibilidades, fracassos e sucessos, sonhos e decepções e seremos inteiros nas nossas interações. Sem mágoas ou ressentimentos. Nossa humanidade é maior do que qualquer atitude excludente. A diversidade que experimentaremos juntos abrirá muitos caminhos. Novas configurações. Novos paradigmas. Outros padrões. A hierarquia radicalmente vertical não se sustenta. Precisamos da horizontalidade, do movimento, da rebeldia, dos vários lados que nos formam. Precisamos dar voz aos tantos que somos. Ninguém fica por muito tempo em um lugar autoritário. São tantos e tão ricos os caminhos que podemos trilhar e os que certamente poderemos abrir como seres libertários que somos.  Não podemos desistir.

Em 2018 participei como palestrante em sete eventos, voltados para qualidade de vida, responsabilidade social e sustentabilidade, inclusão e acessibilidade, discriminação e direitos das pessoas com deficiência, comunicação, desigualdades e políticas públicas, direitos humanos. Um velho ditado diz que quando se fala muito em pão é porque o pão está em falta. Pois está! Pão e direitos, fundamentais para a sobrevivência e a dignidade humanas.

O fazer político – busco respostas!

É tão bom quando a gente encontra eco na fala do outro e se vê fazendo parte de uma tribo com desejos comuns – democracia e direitos humanos, sob o signo da diversidade. É o que eu gostaria de viver na aldeia que habito. E vivi no dia 29 de setembro, momento que vai para a história mundial, liderado pelas mulheres. Um eco sinalizando mudanças, transformando pessoas e o modo de fazer política.

Mas hoje vivo sob o signo da incerteza e do medo em relação ao futuro da minha cidade, do meu estado e do meu país, em relação ao ir e vir cotidiano de pessoas que ousam pensar diferente. Especialmente neste momento em que o ódio e o repúdio à diversidade tomam conta dos discursos de quem vai governar o país.

O que os candidatos que entraram na reta final das campanhas políticas óbvias, com discursos ultrapassados e cheios de clichês, disseram concretamente sobre diversidade? Sobre uma educação inclusiva, capaz de acolher todas as diferenças, físicas, mentais, intelectuais, comportamentais e sociais? Sobre as crianças e jovens abandonados? Sobre a marginalidade, o preconceito e a criminalidade, que só aumentam? Sobre esse momento delicado que enfrentamos no Brasil?

Temos instituições, empresas, associações de bairros, comunidades organizadas e comunidades inteiras à deriva, enclausuradas, ameaçadas, jogadas às traças. E temos um Executivo, um Judiciário e um Legislativo, muito bem pagos, envolvidos em denúncias de corrupção, sem respostas para nossos anseios e sofrimentos, que só fazem defender-se usando a força que detêm.

Enquanto isso, os podres poderes se agigantam e ferem, inexoravelmente, a ética, os sonhos e a confiança de cada um de nós.  Egos inflados e ocos mergulham nas picuinhas político-partidárias e a mesquinharia domina os debates. Ou os embates!

O que sempre me inquietou, e hoje me inquieta ainda mais, é a dificuldade que os políticos de plantão e os postulantes a qualquer cargo (porque infelizmente é um cargo!), de vereador a presidente, têm de conversar e agir em nome de uma causa maior, que envolva a vida, o bem estar e os direitos dos cidadãos.

Quem está no poder, pelo partido X, e perde as eleições para o partido Y, transforma-se em vilão, enquanto o vencedor assume com sua vara mágica de solução para qualquer problema. Um e outro só conseguem cumprir os encontros protocolares de passagem do cetro. O resto são farpas! Estabelecem uma relação de mão única, primária, e subestimam os eleitores, o que é inadmissível em um século tecnológico, de comunicação avassaladora, onde tudo se vê e tudo se sabe.

Aquele que assume, com o bolso cheio de soluções, não dá conta do que prometeu, mas não se responsabiliza. A culpa é sempre do outro. E a ladainha segue até o final do mandato. A cena se repete de quatro em quatro anos, de partido para partido, de candidato para candidato e, assim, indefinidamente. Muito poucos abrem mão da possibilidade de se candidatar várias vezes ou dos cargos já conquistados. Por quê?

Apesar dos discursos queixosos, que apontam para o caos, querem o poder. Alguma grande vantagem certamente todos têm!

É impossível que uns só acertem e outros só errem e que um governo, por mais equivocado e ruim, não contabilize nenhum acerto. Por que não reconhecer os méritos? Por que não dar continuidade às ações que tiveram bons resultados na administração anterior? Por que não somar? Por que essa voracidade em destruir o outro e o que ele fez? Por que só governar com e para os seus? Por que não uma coalizão ética?

Por que ninguém tem coragem de mudar, de fazer diferente, de romper com as velhas formas corruptas? Por que a maioria que se candidata não sabe exatamente a que veio? Por que são tão poucos hoje os líderes que surgem da militância estudantil, social e política? Por que inventar candidatos, buscando comunicadores populares que dominam os microfones, mas nada entendem do fazer político e da questão social? O que realmente mobiliza partidos, candidatos, eleitores e políticos?

Não tenho respostas, mas lamentavelmente tenho algumas certezas: São bem poucos os que têm ideais humanistas e pensam no bem comum ao assumir uma candidatura ou qualquer cargo político.

Diferença, Inclusão, Acessibilidade

Seminário Inclusão: Direitos das Pessoas com Deficiência

23 de novembro de 2018 – Rio de Janeiro

Minha fala no Painel Inclusão e Acessibilidade

Diferença, inclusão, acessibilidade

 – debate urgente em tempos de desmonte –

“Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”. Ao dar voz ao desabafo do anão Umberto no seu primeiro livro infantil, “A história mais triste do mundo” (Bolacha Maria Editora, 2014), o psicanalista e escritor gaúcho Mário Corso nos mostra o quanto as crianças e as pessoas diferentes dependem do olhar e da atitude do outro para serem acolhidas e o quanto incluir e respeitar são atitudes necessárias.

Se estivesse em um hospital, o anão Umberto perguntaria: Por que usar aparelho de pressão grande em braço tão curto? Detalhe que poucos lembram e que deixa evidente a negação da diferença. O tamanho, o peso, a dosagem da medicação, o conforto, o que fazer com as crianças ou com um adulto em um corpo tão pequeno, no caso das pessoas com nanismo? As perguntas espantam e quase não há respostas! Às vezes o vácuo é tão insondável que parecemos estrangeiros buscando um mínimo de dignidade em um mundo que não nos reconhece e insiste em não nos ver.

Agradeço aos organizadores deste Seminário, especialmente ao Marcos Bliacheris por mais uma oportunidade de Conversar sobre Inclusão. É fundamental refletir coletivamente sobre questões relacionadas ao cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma deficiência ou uma diferença marcante. Questões que envolvem direitos, políticas públicas, leis, mas dependem especialmente de sensibilidade.

Ao reler um artigo da arquiteta gaúcha Flavia Boni Licht com o título “Acessibilidade – um fator de inclusão social”, chamou minha atenção uma frase do carioca João Filgueiras Lima, também arquiteto: “Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um”.

A afirmação sintetiza o que penso de leis, normas, regras, estatutos, tudo o que é criado para colocar ordem na desordem humana. Necessárias, certamente, porque regulam, oferecem alguma garantia, apontam a preocupação da sociedade, mas raramente são colocadas em prática com a seriedade que a situação pede.

Governos, empresas, instituições públicas ou privadas, na maioria das vezes, apenas cumprem ordens, sem a preocupação de entender o cotidiano de quem tem uma diferença. Pouco ou nada entendem e não conseguem colocar-se no lugar do outro e mudar a regra, se o momento pede.

Enquanto a burocracia discute como incluir, a vida anda e vamos dando um jeito de encarar com dignidade o cotidiano desse mundo dito “normal”. Tão normal e tão acomodado que não vê na diversidade uma maneira de sair dos espaços institucionais e inventar, reinventar, criar, mudar, facilitar. A diferença, seja ela qual for, necessita de olhares capazes de ver o invisível, de acolher e de ousar.

Historicamente, a formação de grupos humanos sempre apontou para um fenômeno curioso. Ao mesmo tempo em que se criam traços de identidade entre os integrantes, admite-se a exclusão de determinadas pessoas ou grupos. Certas características e comportamentos são bem vindos e outros repudiados. A sociedade reserva um lugar para as pessoas que fogem do padrão, como se fossem incapazes. Assim, admitimos uma teoria da normalidade alicerçada no preconceito. Parte-se do já inscrito na cultura, a que todos, de algum modo, devem se conformar.

Os que se afastam ou não correspondem aos padrões determinados sofrem vários tipos de discriminação e há um esforço grande para jogá-los na invisibilidade. Ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma diferença, física, intelectual ou mental. Na Idade Média e em outros tempos obscuros, como o período do nazismo na Alemanha, a morte era a sentença para os que não correspondiam à raça pura.

Por isso, precisamos fazer essa travessia e eliminar o fantasma cruel da exclusão. Precisamos falar sobre a diferença e o impacto que provoca. Enfrentar o preconceito que carregamos é não ter medo das palavras. Só a fala, com atitude, tem condições de desacomodar conceitos e pré-conceitos seculares e apontar para a inclusão.

Precisamos dar voz às pessoas, ouvir o que têm a dizer, entender o seu espanto quando encontram uma pessoa diferente, responder suas perguntas e deixá-las manifestar a curiosidade. A negação e a repressão são combustíveis para o preconceito porque se conformam à mensagem já instituída: Cada grupo no seu lugar fazendo o seu papel.

Essa é a condição para que negros, grupos LGBTs, população indígena, quilombolas, pobres e toda e qualquer pessoa que apresente alguma deficiência ou comportamento diverso sejam aceitas.

Nossa experiência cotidiana deixa isso muito claro. Ninguém se espanta ao ver o negro como porteiro, operário, empregada doméstica. O homossexual como figura bizarra também não surpreende, assim como o anão divertindo as pessoas, de forma grotesca ou mágica.

Já nascemos, portanto, marcados, inseridos em um meio incapaz de nos olhar de outro jeito, falar e acolher.

O nu artístico é crime. A infância abandonada nas ruas, nas escolas, nas famílias, não. Prega-se a necessidade de proteger as crianças dos movimentos e ações culturais que mostram a diversidade. Da fome, das balas perdidas, do machismo, do assédio, do estupro, não.

Como mudar este olhar para a diferença?

Essa é a grande tarefa das famílias e dos educadores nesse momento em que forças obscuras avançam sobre o Brasil tendo o autoritarismo, a violência e o preconceito como bandeiras. Ensinar, aprender, dialogar, dividir saberes e experiências são compromissos que não podem ficar para amanhã. Precisamos de espaços para trabalhar a cidadania e a crítica. Precisamos de sujeitos conscientes, comprometidos com a valorização da vida, do humano. Precisamos desacomodar certezas sacralizadas porque só a partir da incerteza, da dúvida, do questionamento que crescemos e adensamos o conhecimento e a consciência.

Só a educação para a diversidade vai libertar o excluído, freando o seu impulso primeiro de calar e aceitar passivamente o massacre, por medo da rejeição. Não se acomodar é falar, dar voz ao que repudiamos, instaurando a desordem cidadã. A instituição dos direitos humanos nos trouxe a ética, o respeito, a solidariedade, valores que estão sendo contaminados por um desentendimento bárbaro e por abusos de toda ordem. Caímos em uma polarização acompanhada de um ódio feroz, que rechaça a diferença e o pensamento libertário.

Minha reflexão se faz justamente sobre esse sujeito diferente, ameaçado porque tem um comportamento diverso, oriundo de diversas questões. Como se constitui esse sujeito? Que posição ocupa em relação aos discursos que se fazem sobre ele? Submete-se, acomodado, ou resiste e acrescenta um efeito novo e crítico? Sacode as certezas estabelecidas? Inquieta a maioria conformada ao padrão clássico de beleza, comportamento, tamanho, origem e meio social? Que discussão provoca?

As sociedades modernas, em razão de sua aspiração igualitária, criaram mecanismos dedicados a anular a diferença para, em um segundo momento, segregar todo aquele que não se conforma ao padrão estabelecido. Mascaram a dificuldade de assimilação, enquanto grupos que sofrem preconceito lutam pela conquista de dispositivos legais que proíbam a discriminação, o que é necessário, mas também pode mascarar o problema.

Não se trata de anular as diferenças, porque elas efetivamente existem. Nem de reduzir a discussão apenas à conquista de dispositivos legais. O fato é que precisamos de muito mais para abstrair o preconceito resultante de um processo histórico e cultural que fixa um modelo, no qual o sujeito se inscreve desde o nascimento.

O que desejo aqui é alertar para a necessidade de prestarmos atenção aos efeitos do preconceito que incorporamos e reproduzimos sem nos dar conta. O preconceito está enraizado em cada um de nós e se revela de todas as maneiras, especialmente através da linguagem. Portanto, a linguagem tem papel fundamental nessa construção porque traduz o olhar da sociedade. Revela conceitos, mitos, evolução e transformação. Voluntária ou involuntariamente, revela respeito ou discriminação. Nesse contexto, as pessoas que têm uma deficiência ficam muito vulneráveis e são obrigadas a criar mecanismos de defesa para a sua sobrevivência em um universo hostil.

Quem sofre preconceito pela condição física, mental, intelectual, social ou pelo tipo de comportamento precisa impor o seu jeito de ser, subverter o estigma e não cair na vitimização. As conquistas feitas até agora apontam para a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar. No momento em que parte da sociedade começa a entender que a grande riqueza humana está na diversidade, esta discussão tem que ganhar mais fôlego. Não pode se dispersar justo agora em que os direitos humanos são questionados, perdem espaço e importância e têm pouca representação nas políticas que se desenham para o país.

Cabe aos educadores educar para a diversidade. acredito que uma educação voltada para as diferenças é o melhor caminho, em casa e na escola. Uma educação libertadora passa inevitavelmente pela simplicidade, jamais pelo extraordinário. Passa pelo acolhimento, pelo afeto, pelo diálogo, pela segurança, pela verdade. E, como já enfatizei, pela fala.

Cabe aos governos criar políticas públicas de inclusão. Repensar a diferença e não mais ignorar as dificuldades enfrentadas pelos cidadãos é um dever das administrações municipais, estaduais e federais, em sintonia com suas comunidades.

Cabe às empresas entender os limites de uma pessoa com deficiência, estimular sua inserção no trabalho, orientar, acolher, e não apenas jogá-la em uma função para cumprir a lei.

São múltiplas as possibilidades que as diferenças trazem, fora dos discursos ultrapassados e redutores.

De um modo geral, as instituições (públicas, privadas ou independentes), incapazes de sair do convencional, se enredam em normas na tentativa de facilitar um cotidiano que desconhecem. Desperdiçam a maravilhosa chance de conviver e aprender com uma pessoa diferente, ouvindo dela o que ela precisa.

Precisamos refletir sobre nossos papéis. Não podemos contribuir para a criação de estereótipos. Não é a pessoa com deficiência que deve simplesmente descobrir maneiras de se adaptar. Ou se transformar em vítima, heroína, guerreira a ser admirada em busca de aceitação. A sociedade tem seus deveres e precisa cumpri-los. Não podemos também cair nas artimanhas da superação. Até porque não se trata de superar. Trata-se de viver com a deficiência da melhor maneira possível.

Se prestarmos atenção, a pessoa com deficiência é, em geral, caracterizada por suas fragilidades e não por suas qualidades. Só vamos chegar ao desenvolvimento social que buscamos quando entendermos que cada um tem contribuições a dar, a partir do seu jeito de ser, de estar e de ver o mundo, do seu saber e da sua maneira de colaborar para uma vida solidária. SEM SUPERAÇÃO!

Nossa luta é a mesma. Contra a discriminação, contra o apartheid, contra a falta de oportunidades, contra a miséria, contra a exploração, contra o abuso de autoridade, contra o trabalho escravo, contra o abandono infantil e a reiterada posição de discriminar parecendo que não está discriminando.

A diferença é a riqueza do mundo e deve ser respeitada, independente de raça, cor, sexualidade, religião, deficiência física, mental, intelectual, surdez, dificuldade de visão, uso de cadeira de roda e outras características.

“A vida é rio, não é muro, apesar de quem pensa que o lugar dos diferentes é o muro de fuzilamento”, escreveu recentemente o jornalista gaúcho Renato Dalto.

Precisamos ficar atentos aos efeitos dos discursos sobre a diferença. É importante instigar, fazer pensar, mas evitar o sensacionalismo, que não contribui em nada para causa nenhuma. Precisamos, sim, de mais civilidade, mais humanidade e mais sabedoria ao falar da deficiência, seja ela qual for.

Os anões, por exemplo, até bem pouco tempo, eram praticamente invisíveis para a sociedade, para os governos, para a imprensa. Alvo de chacotas, piadas e brincadeiras de mau gosto, eram pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores.

Precisamos dar voz às pessoas diferentes sem assoberbá-las, sem exigir que provem o tempo todo que são capazes. Não precisamos “matar um leão por dia” para viver em harmonia com nossa deficiência no meio social em que estamos inseridos. Não podemos aceitar a invisibilidade como fuga das agressões provocadas pelo preconceito.

A pergunta que quero deixar aqui é: Como tratar de temas como deficiência, acessibilidade, inclusão e preconceito, sem cair em velhos clichês? No estereótipo, no constrangimento e na superação, questões tão reforçadas pela sociedade e endeusadas pela mídia?

O que é possível fazer? Precisamos formular novas questões. Quem disse que não é possível? Ver o outro para além de qualquer barreira, com sensibilidade e respeito, é transformador. As pessoas que fogem do padrão instauram a desordem na sociedade normalizada e, ao fazerem isso, apontam para a riqueza de uma sociedade múltipla.

É preciso falar. É preciso responder naturalmente à curiosidade das pessoas, especialmente das crianças. Calar é concordar. A visibilidade e a fala trazem cidadania. Afinal, de um jeito ou de outro, todos buscamos respostas para o que desconhecemos ou estranhamos.

É bom lembrar que tijolo por tijolo desta construção é resultado de muitas cabeças, braços e pernas que devem andar em harmonia, respeitando direitos, deveres, opiniões. Mas há uma inegável herança escravocrata correndo pelas nossas veias. Há uma indisfarçável necessidade de súditos e um clamor pela perfeição. Não suportamos o que nos aponta para o imperfeito.

Há uma necessidade absurda de proteger o que determinamos ser nosso, alimentada pelo discurso do esforço que fizemos para chegar aonde chegamos. Como se essa caminhada não tivesse anteparos a cada passo, a cada pedra no caminho, a cada trajeto percorrido, a cada conquista feita.

Por que excluir, então? Por que penalizar aqueles que consideramos inferiores a nós? Por que temos tanta dificuldade de olhar para as pessoas com deficiência com olhos livres, reconhecendo suas capacidades? Por que nos é tão difícil o pensamento coletivo? Precisamos entender que não somos ninguém sem o outro. O eu sem o tu não existe.

Para encerrar, duas frases de canções de Caetano Veloso, que funcionam como uma “bússola” nessa nossa jornada: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” – “De perto ninguém é normal”.

Portanto, não somos nem vítimas nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com as nossas dificuldades, as nossas aptidões, a nossa sabedoria e os nossos sonhos. Muito obrigada!

Voltando a falar de inclusão

No dia 10 de agosto deste ano o jornal Zero Hora publicou artigo meu com o título “Voltando a Falar de Inclusão”. Trago agora o texto para o blog porque o tema está longe de se esgotar. Pelo olhar de quem se preocupa com o outro e com a questão social, inclusão é uma busca sem fim – contra o abandono da maioria da população brasileira, jogada na miséria. Velhos, jovens e crianças esquecidos nas ruas, drogados e desprezados, ou em abrigos sem condições. Invisíveis para uma sociedade pautada pelo lucro desenfreado, com políticos sem caráter e uma elite preconceituosa, separatista e cruel, que sustenta o desgoverno. Não importam mais a história, a memória, a cultura, o desejo, o sonho, a singularidade, a diversidade, a arte.

O Brasil deste momento é um exemplo doloroso de exclusão dos que já não têm nada e vivem na miséria quase absoluta, dos que se diferenciam, dos que não se adaptam ao autoritarismo e ousam buscar democracia e liberdade. Nosso país escancarou a violência sem medidas e se abre para o armamento e a inclusão dos que já têm demais e querem mais e mais e mais. Quase não se vê mais aquela chama de esperança a impulsionar a vida.

Há um escancarado rastro de insatisfação social de parte significativa da população que já não encontra guarida diante da profunda crise ética, política, humana em que mergulhamos. Crise que fez renascer o conservadorismo, com o que há de mais velho, discriminatório e torpe, e deu asas a uma extrema-direita fascista, racista, intolerante, violenta, avessa à diversidade de comportamentos, opiniões, e às liberdades conquistadas com a democracia.

A classe política perdeu a credibilidade diante da farra da corrupção que contamina o país de norte a sul, mas não abriu mão do podre poder. Há quem lhe dê guarida! Sustentada por empresários, partidos e seus vassalos submissos, mesquinhos e covardes, segue mantendo seus domínios e comprando apoio. Soma-se a esse quadro deplorável a falta de respostas dos governos e seus quadros que, sem escrúpulos, mesmo depois de tantas denúncias, seguem suas práticas nefastas, ignorando questões vitais para o desenvolvimento real, como investimentos em educação, saúde, trabalho digno e saneamento básico.

Há uma devastação moral orquestrada por políticos sem caráter, indivíduos oportunistas e por uma lamentável mídia de mão única, voraz, autoritária, incapaz de análises mais profundas e amplas, focadas na realidade e na diversidade, que faz um antijornalismo. Por sua vez, o poder econômico ignora solenemente os direitos sociais e trabalhistas dos cidadãos. Entramos em um tempo de total negação do outro. O valor maior agora não é o humano. É o capital.

Diante desse valor maior, e voltando ao objetivo específico dos meus textos para o blog, que é falar de acessibilidade e inclusão, segue uma constatação sobre a mesquinharia monetária. Quero lembrar, mais uma vez, pequenas atitudes dos bancos, que dizem muito do perfil do mundo financeiro quando está diante de uma pessoa com dificuldades físicas, como eu.

Poucos falam sobre o assunto e a mídia só tangencia, não questiona. Bancos/banqueiros disfarçam sua incapacidade de lidar com a fragilidade humana, que é absurdamente evidente. Fui proibida, por exemplo, de fotografar as minhas artes e manhas em busca da independência necessária para dar conta da vida e acessar minha conta. Alcançar um caixa eletrônico, por exemplo.

É bom esclarecer que quando falo em banco estou me referindo a quem detém o poder sobre essas instituições que muito lucram sobre o dinheiro de cada um de nós. Falo de governos e empresários que ditam leis e regras, mas são incapazes de olhar fora do seu quadrado. E nossas vozes não ecoam. Ninguém escuta.

Tenho 1m10cm. Vivo de enfrentamentos e batalhas cotidianas pela autonomia possível.   

Toda vez que entro em um banco, dou de cara com essa limitação. E com a incapacidade da instituição de pensar fora da norma para me auxiliar e auxiliar outras pessoas com dificuldades. No meu caso, bastaria uma escada ou um banquinho, mas parece algo absurdo. A cada reivindicação que faço, os rostos viram pontos de interrogação. E sou lembrada que preciso ir até à superintendência ou ao gerente com a minha singela proposta.

Há também uma necessidade de se livrar do problema. Alguns sugerem que eu peça a ajuda de desconhecidos. Outros me pedem a senha, mesmo que recomendem que o cliente preserve as informações sobre sua conta. Ou me olham com espanto, incapazes de um gesto solidário.

São inúmeros os olhares e nenhum questionamento sobre acessibilidade e inclusão. Todos inevitavelmente tropeçam na burocracia. Mudar o script para quê? Melhor que os invisíveis permaneçam invisíveis.