A cidade e seu corpo – Por mais acessibilidade e inclusão

Em tempo de eleições municipais, abrimos aqui uma conversa sobre Porto Alegre, suas condições atuais, suas possibilidades e o futuro que ousamos sonhar. O que nos move é o desejo de viver em uma cidade mais inclusiva, leve, acessível, saudável, generosa e bonita.

Queremos participar desse momento com algumas ideias sobre o espaço urbano, contribuindo de alguma maneira para que os possíveis candidatos a prefeito e vereador façam a diferença necessária ao assumir essa grande responsabilidade que é administrar um município e dar voz aos cidadãos que nele habitam.

A inspiração para iniciar essa conversa vem do poema “O Mapa”, de Mario Quintana, o escritor das nossas ruas e esquinas.

Mapa de Porto AlegreokOlhe o mapa da cidade como se examinasse a anatomia de um corpo.
Do seu corpo.
Dos corpos de milhares de indivíduos que cruzam as ruas cotidianamente.
Trabalhadores. Estudantes. Aposentados. Desempregados. Jovens. Crianças.
Lindos, elegantes, saudáveis, alegres, confiantes.
Curvados, dilacerados, abandonados, desesperados, desencantados.
De todos os tipos. De todas as raças. De todas as cores. De todas as crenças.
De toda a forma e qualidade.
Anônimos? Não! Seres humanos.

Examine esse mapa com atenção, desprendimento, carinho, generosidade.
Que anatomia é essa? Que tecido a envolve?
Que sonhos, esperanças, pesadelos e doenças estão impregnados na pele desse corpo urbano?
Procure entender como tratar esse corpo que pulsa incessante por uma vida digna.

“Há tanta esquina esquisita”, diz o poeta.
“Tanta nuança de paredes”.
Tantas buscas, desejos, dores, alegrias, desistências, conquistas.
Há tanta miséria, tanta violência, tanta opulência, tanto desperdício na cidade de longos e muitos já cansados andares.
Há beleza, justiça, bondade, vontade de acertar.
Mas há tanta injustiça, tanta precariedade, tanto abuso de poder, tanto descaso.
São muitas as vozes sufocadas na cidade onde construímos nossas vidas.
A cidade que escolhemos? Ou a cidade que nos restou?
São muitas e vitais as questões nessa concretude urbana.

“A cidade é para quem vive NELA ou para quem vive DELA?”
Essa é uma pergunta do ator e diretor Amir Haddad, do grupo teatral Tá na Rua, pergunta que precisa ser ouvida e pensada na dimensão da sua importância.

O corpo dessa cidade precisa de quê? E os corpos que por ela andam?

Que essa seja uma conversa permanente, intensa e de trocas úteis para a anatomia do nosso corpo urbano!

Rompendo barreiras para uma sociedade solidária e inclusiva

É bom lembrar que alguns espaços culturais já promovem a inclusão. O Museu de Porto Alegre é um exemplo, bem como as sessões de cinema com audiodescrição. Agora, o portal de Acessibilidade da Faders/Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência e com Altas Habilidades no Rio Grande do Sul propõe uma consulta pública para avaliar o projeto da Lei Gaúcha de Acessibilidade e Inclusão. Quem quiser conferir pode acessar o link http://www.portaldeacessibilidade.rs.gov.br/servicos/36/3334.

É bom lembrar também que não basta só cumprir uma lei. É necessário saber o que propõe e por que foi criada. No bairro Moinhos de Vento, na calçada da rua Doutor Timóteo, entre a 24 de Outubro e a Tobias da Silva, está sendo feito um piso tátil que dá em um poste ou algo parecido. Imagino que quem teve a ideia, muito bem vinda, não sabia que piso tátil e uma indicação de “caminho livre”. Ou sabia e não se importou?

Por conta disso, reli o artigo “Acessibilidade e Cultura – Por que sim? Por que não?”, de Flavia Boni Licht, arquiteta que está sempre em busca de respostas para questões que envolvem inclusão. No artigo, que sintetizo aqui, ela fala de leis, cidades, patrimônio cultural, mudança de paradigmas. Já no início cita João Filgueiras Lima, também arquiteto, reconhecido pelos projetos desenvolvidos para a Rede Sarah de hospitais: “Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um”.

Leis são leis!                                                                                                                           A Constituição Brasileira de 1988 (artigo 5º/Capítulo 1) refere-se aos direitos e deveres individuais e coletivos dizendo: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Vigente no Brasil desde 2000, a lei federal 10.098, regulamentada em 2004, estabelece normas e critérios básicos para a promoção da acessibilidade mediante a supressão de barreiras e de obstáculos nas vias e espaços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma de edifícios, nos meios de transporte e de comunicação.

Desde 1948, depois de promulgada pela ONU, a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi assumida no Brasil.

A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada pela ONU em 2007 e promulgada no Brasil em 2009, fala em respeito pela dignidade e autonomia das pessoas, a não discriminação, a igualdade de oportunidades. Reconhece o direito à efetiva participação e inclusão na sociedade e o respeito pela diferença.

Ainda na década de 1990, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e a Câmara Municipal de Porto Alegre aprovaram leis que determinam o acesso e a circulação livre, segura e independente, para todas as pessoas nos espaços públicos.

Se levarmos em conta essas e tantas outras leis – estudadas, debatidas e aprovadas – a acessibilidade e os direitos essenciais dos indivíduos estariam dados de forma singela e definitiva. Deveriam ser naturais, mas não é bem assim! Nas questões de direitos humanos “não somos tão virtuosos como gostamos de nos acreditar ser”.

Chego lá, por Tamar Matsafi

Acessibilidade e espaços urbanos – um debate fértil                                               Assim Flávia iniciou em 2011 uma pesquisa para identificar as barreiras existentes nos espaços da cidade para pessoas com deficiência e visitou instituições públicas municipais e instituições com atividades públicas em edificações tombadas pelo município. Para ela, o acesso pleno à cultura, incluindo a participação na dinâmica da criação, seja como artista ou espectador, está entre os direitos humanos fundamentais. A iniciativa abriu um espaço fértil e favorável ao debate.

Avançando um pouco além do mais evidente e entrando em terreno menos concreto e mais espinhoso, é fato que temos dificuldade em reconhecer no diferente alguém com direitos iguais aos demais. Construímos, segundo Flávia, com requintes e detalhes, uma cultura excludente e nos esforçamos em mantê-la, da democracia ateniense, que sacrificava crianças nascidas com deficiência, até hoje.

Por que ignorar o diferente e suas necessidades? O sociólogo polonês Zygmunt Bauman afirma no livro “Confiança e Medo na Cidade” que “as diferenças nos incomodam e nos impedem de interagir, de atuar amistosamente e que, se quisermos compreender nossas diferenças, precisamos formular novas questões”.

O Conselho Internacional de Museus/ICOM expressa, no seu Código de Ética, que as instituições culturais têm o compromisso de abrir espaços, acervos, coleções e atividades a todos os públicos, agindo como interface da multiplicidade de percepções, gerando acesso para diversificadas sensibilidades e variados entendimentos, visando satisfazer uma das necessidades básicas do ser humano: o conhecimento do mundo.

É necessário, portanto, a construção de estratégias e metodologias, a utilização de equipamentos e produtos, o desenvolvimento de programas e projetos que possibilitem o acesso, a contemplação e a captação dos conteúdos expressos pela cultura de forma não discriminatória.

Por onde ir, por Tamar Matsafi

Por onde ir, por Tamar Matsafi

Perguntas infindáveis
Como os profissionais devem atender demandas diferenciadas, incorporando a acessibilidade às práticas cotidianas? Como um museu deve receber o público, contribuindo com o desenvolvimento das potencialidades funcionais, neutralizando e superando diferenças sensoriais, físicas e/ou cognitivas? Por que podemos tocar numa escultura colocada em praça pública? E por que isso é vedado nas obras expostas em museus? Quando e por que o toque deixou de ser incentivado e foi proibido? Por que delegamos majoritariamente ao olho toda a possibilidade de captar sensações? Por que, pelo papel hegemônico dado à visão, reprimimos o toque e, em menor escala, os demais sentidos?

Tendo como objetivo a inclusão de todos na construção e na vivência da cultura, não seria o caso de apostar na multissensorialidade ou – de forma mais poética, como fala o filósofo francês Gaston Bachelard – na polifonia dos sentidos? Afinal, como lembrou o arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa, o olho é o órgão da distância e da separação, enquanto o tato é o sentido da proximidade, intimidade e afeição. O olho analisa, controla e investiga, ao passo que o toque aproxima e acaricia.

É interessante repensar o que define a qualidade cultural de um bem e qual o limite da obra original, diz Flávia. Considerando a longevidade do monumento, qual o momento histórico a ser preservado? Quem tem o poder de tomar essa decisão? Se nossos bens não deixam de ser patrimônio quando se deterioram e se restauram, por que deixariam de ser quando tornados acessíveis a todos? O que e quem define a autenticidade de um bem?

Nos museus, os objetos exigem condições específicas e adequadas de catalogação, acondicionamento, manuseio, conservação, umidade, temperatura, luminosidade, limpeza e restauro. E as pessoas? São os seres humanos ou os objetos que têm necessidades? Colecionar, preservar e expor são um fim em si ou uma forma do museu desempenhar seu papel social, facilitando e estimulando a todos – independente de idade e de condição física – o acesso à cultura?

Em 1964, a Carta de Veneza dizia que a preservação será sempre favorecida por sua função útil à sociedade (desde que as alterações necessárias não desvirtuem o autêntico de cada bem). Em 1976, a Unesco, na 19ª Sessão, em Nairóbi, sobre a Salvaguarda dos Conjuntos Históricos e sua Função na Vida Contemporânea, estabelece, entre os princípios da Carta, a necessária e harmoniosa integração dos monumentos na vida coletiva da nossa época.

Em 1990, o arquiteto Antonio Cravotto, representando a Comissão do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Uruguai no 2º Seminário Ibero-americano de Promotores e Formadores em Acessibilidade ao Meio Físico, declarou: “Em termos práticos, os bens patrimoniais só podem ser salvaguardados se usados apropriadamente no presente. Para tanto, esses bens serão necessariamente afetados por modificações espaciais e estruturais; incorporação de elementos, dispositivos, sistemas e redes técnicas; inclusão de equipamentos e de sinalização. Essas intervenções não possuem justificativa nem melhor nem diferente das originadas pela eliminação das barreiras para pessoas com deficiência”.

Mudando paradigmas
Ou os bens patrimoniais se adaptam às exigências contemporâneas, ou vão perder o significado, pela impossibilidade do uso. A afirmação pode ferir muitos ouvidos, mas por si só, a transformação de uma residência num museu já pressupõe inúmeras adequações, permitidas, aceitas e festejadas. Porém, muitas vezes, as adaptações dos espaços para atender aos requisitos da acessibilidade são feitas para se livrar do problema. Aí, dificilmente se tem boas soluções.

Nas praças públicas dos centros históricos observa-se a mesma situação. Aceitamos eliminar ou substituir árvores e arbustos, inserir novos quiosques, bancos e lixeiras, mudar o desenho dos canteiros, trocar antigas placas de sinalização. Mas, pelo viés da acessibilidade, quando muito, se aceita o rebaixamento do meio fio. Nem pensar em macular as calçadas de pedra portuguesa com piso tátil para que pessoas cegas ou com baixa visão aproveitem o espaço com autonomia. Ou em estudar alternativas melhores para pisos pouco confortáveis aos usuários de cadeiras de rodas.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/Iphan, em 2003, também tratou do tema. As soluções adotadas para a eliminação, redução ou superação de barreiras na promoção da acessibilidade devem compatibilizar-se com a sua preservação e, em cada caso, assegurar condições de acesso, de trânsito, de orientação e de comunicação, facilitando a utilização desses bens e a compreensão de seus acervos para todo o público.

Será possível respeitar o passado de uma edificação, desrespeitando os direitos das pessoas? Selecionar, com nossa visão de restauro, quem pode ou não desfrutar de um patrimônio de todos é correto? Será que não deveríamos pensar primeiro nas necessidades dos seres humanos e depois nas dos edifícios? Para Flávia é preciso desconstruir conhecimentos e práticas para pesquisar e descobrir novas e boas soluções. O trabalho não é fácil nem rápido, mas, sem dúvida, o momento é de questionar e buscar a transformação para, efetivamente, caminhar na direção de uma sociedade inclusiva.

Será que não seremos todos iguais na diversidade, se a infraestrutura for adequada, se a tolerância desafiar os padrões, se o respeito romper com os programas e projetos tradicionais, se a solidariedade voltar a ser considerada como um valor por todos nós? Talvez seja essa uma utopia, mas, voltando às palavras do professor Cravotto, não será a utopia, corretamente entendida, a determinar a acertada direção de um avanço social?

Acessibilidade e inclusão para quê? Entre desabafos e constatações

Pra onde ir, por Tamar Matsafi

Pra onde ir, por Tamar Matsafi.

Alguém que me lê em algum momento já parou para pensar efetivamente nos banheiros de ônibus e de aviões? Acessibilidade zero para qualquer pessoa que tenha uma necessidade física especial. Eu, com 1m10cm de altura, quase não consigo me movimentar nesses minúsculos banheiros.

Mas não é só o nanismo. E as pessoas altas e acima do peso, como se acomodam nesses cubículos? E as que têm dificuldades de movimento ou de se segurar? E quem está em cadeira de rodas?  E as crianças?

A questão não é simples.

Mais acentos, mais passagens vendidas, mais lucro? É essa a lógica? Dane-se o conforto e a acessibilidade. Afinal todos precisam viajar e, se não há melhores opções, que assim seja. É uma hipótese. A sociedade do “quero sempre mais” é desumana. E poucos pensam em minimizar as dificuldades, que dirá resolver!

O dinheiro dos impostos pagos regularmente pelo cidadão para garantir algum serviço de qualidade vaza pela corrupção miúda e farta que percorre as veias abertas das administrações sem escrúpulos de muitos governos. E sangra muitas vidas, especialmente a vida de milhares de brasileiros que trabalham eticamente e dizem não ao ilícito, ao abuso de poder, ao dinheiro fácil.

Na sociedade do lucro acima de tudo, o outro só é considerado se contribuir para aumentá-lo e para o acúmulo de quem já tem em demasia. É o que temos. Gastos para atender uma demanda específica de quem tem uma dificuldade são vistos como desnecessários. Não dão “ibope” a ninguém. Conquistas? Só com muita luta. Algumas reivindicações voltadas para a acessibilidade esbarram no quesito verba. “Não está previsto”. “Não foi orçado”.  Estanca na burocracia. “Não podemos fazer sem autorização”. Morre no desinteresse generalizado. “O que eu ganho brigando pela sua causa?”

Enquanto isso, a sonegação de impostos corre solta, governos aprovam obras desnecessárias, fecham os olhos para o superfaturamento e o caixa dois, não fiscalizam, trocam benesses por votos, perdoam dívidas de grandes empresários em troca de apoio e fazem o mínimo pelas pessoas, o que custa muito pouco na maioria das vezes.

Enquanto isso, muitos políticos eleitos para cuidar dos interesses da população, que deveriam ser olhados e tratados como trabalhadores do país, acumulam regalias. Além dos salários polpudos, têm uma série de auxílios. Trabalham em causa própria. Criam projetos desnecessários. Transformam mandatos em empregos. Só pensam na próxima eleição para garantir mais quatro anos. Facilitam o trânsito dos corruptos. Enriquecem ilicitamente. E, como se não bastasse, ainda são tratados como seres especiais, fazendo uso do tal “foro privilegiado”.

Assim é o Brasil dos deitados em berço esplêndido que aí está, escancarado, para quem quiser ver.

Que dor é essa, por Tamar Matsafi.

Que dor é essa, por Tamar Matsafi.

Quando se fala de acessibilidade e do que pode ser feito efetivamente, de ordem prática, para incluir as pessoas, se cai no vazio.

Vou dar um exemplo simples, que diz muito dessa realidade.

Sempre que entro em um banco, público ou privado, e procuro um mínimo de acesso, não encontro. A única exceção é a agência do Banco do Estado do Rio Grande do Sul, onde tenho conta, e que já comentei aqui. As pessoas que atendem são gentis, mas burocráticas. Não sabem o que fazer comigo, muito menos propor uma alternativa que me dê autonomia. A pergunta “Vocês têm um banquinho ou uma cadeira onde eu possa subir?” desnorteia. E a resposta, invariavelmente, é “só temos com rodinhas”. Não dá!

Às vezes, a situação é tão vulnerável, e tão humilhante, que a vontade é virar as costas e não voltar. De modo geral, as pessoas com alguma dificuldade física quando pedem ajuda são tratadas de forma infantil, como se fossem ignorantes, senis, tontas, seres de outra galáxia.

A solução? Neste caso específico, revelar as senhas para conseguir pagar uma conta, tirar um extrato, pegar algum dinheiro.

Volto à velha tecla, já batida: de que adiantam discursos e leis se ninguém é preparado para acolher a diferença? Se poucos conseguem ver que é possível andar na direção contrária da padronização e da burocracia? A melhor maneira de combater o espanto, que vem com o preconceito, é a informação, o conhecimento, a vivência. Mas ainda estamos longe disso, lamentavelmente.

Quando falo de padronização, burocracia, preconceito, falo desses pequenos descasos cotidianos, lamentavelmente já incorporados no dia-a-dia de muitos. Falo da intolerância absurda que provoca tanta violência, medo e morte. Falo do silêncio.

O episódio do senhor que tentava pegar uma calça e uma blusa em uma caixa de doações da campanha do agasalho, em um supermercado de Porto Alegre, é um exemplo triste desse tipo de descaso. A noite era gelada, mas ele foi impedido porque só a Defesa Civil poderia retirar as peças.  Assim funciona a burocracia.

Cores da diversidade, por Tamar Matsafi.

Cores da diversidade, por Tamar Matsafi.

E o massacre violento em Orlando, nos EUA, na madrugada do dia 12 de junho, em uma boate gay? Tragédia motivada pela homofobia. “Não aceito, então mato”. Assim se manifesta o preconceito radical.

Foi um atentado contra todos os que lutam pela diversidade, pelo diálogo, pelos direitos humanos. Os que se calam e se recusam a ouvir a voz da comunidade LGBT, entre outras tantas vozes dissonantes, preocupados apenas em responsabilizar alguém rapidamente para encerrar o assunto, não querem o debate. Preferem o silêncio. E silenciar é consentir, deixando brechas para que outras formas de violência se manifestem.

Fragmentos da possível delicadeza cotidiana – Por que incluir?

Incluir para que todos tenham, na medida do possível, uma vida autônoma, segura, livre, em condições de usufruir com dignidade tudo o que aí está para ser curtido, não importa o tipo de deficiência, a raça, a cor, a opção sexual.

Equipe do filme Mulheres no Poder. Crédito: Divulgação

Equipe do filme Mulheres no Poder. Divulgação

É o que propõe o filme Mulheres no Poder, escrito e dirigido por Gustavo Acioli, que estreia no dia 12 de maio com a inserção de recursos inclusivos de audiodescrição, legendas e de LIBRAS, por meio do aplicativo MovieReading. Em parceria com a Lavoro Produções, a Iguale Comunicação e Acessibilidade é a responsável pela produção e aplicação desses recursos, disponíveis para as produções audiovisuais, beneficiando pessoas com deficiência intelectual, visual e auditiva. Segundo Mauricio Santana, diretor da Iguale, o download do aplicativo é gratuito para IOS e Android. Depois de instalado no celular ou tablet, o usuário baixa o arquivo referente ao recurso que necessita para assistir ao filme em tempo real ao exibido na tela do cinema.

Para usar o app com o recurso da audiodescrição é necessário ter fones de ouvido conectados ao telefone celular. O MovieReading consegue sincronizar os arquivos de acessibilidade com o som do filme em exibição através do reconhecimento do áudio, portanto é preciso tomar cuidado para não obstruir a captação do microfone do celular ou tablet. Este microfone é o mesmo que transmite a voz para outra pessoa quando se está numa ligação telefônica. O app poderá ser experimentado em todas as salas de cinema onde o filme estiver em cartaz. A Iguale é a responsável pelo aplicativo MovieReading no Brasil e na América Latina.

O filme entra em cartaz em Porto Alegre e Santa Cruz do Sul/RS, São Paulo/SP, Rio de Janeiro e São Gonçalo/RJ, Belo Horizonte/MG e Salvador/BA. A produção é da Lavoro Produções, coordenada por Lara Pozzobon.

Incluir para que a educação em casa, na escola, na rua, em qualquer ambiente, seja realmente múltipla, livre de preconceitos, transformadora.

Frame do teaser disponível no YouTube.

Teaser do filme está disponível no YouTube.

Assim é o trabalho realizado pela Fadem/Fundação de Atendimento de Deficiência Múltipla, instituição sem fins lucrativos, especializada no atendimento a bebês, crianças e adolescentes de baixa renda, portadores de necessidades especiais. O documentário Vamos Falar de Inclusão? O case FADEM, dirigido por Bibiana Xausa-Bosak, lançado no dia 4 de maio no Teatro Bruno Kiefer, lotado, da Casa de Cultura Mario Quintana, mostra, de um jeito leve e comovente, o cotidiano de uma equipe interdisciplinar que atende um público com vários tipos de deficiência e atrasos no desenvolvimento, e suas famílias. A produção vai contribuir para a reflexão de todos nós sobre a inclusão. Ali estão profissionais que investem no potencial das pessoas e no direito que cada um tem de viver a infância e a adolescência da melhor maneira possível, incluídas não só na escola, mas na vida.

Assista aqui ao teaser do filme que logo estará no YouTube.

Para o psicanalista Alfredo Jerusalinsky, do Centro Lydia Coriat, que participou de um painel após a exibição do documentário, “a inclusão é na família, na praça, na escola, na sociedade. Nós humanos voamos sem saber voar. Estamos sempre além do limite que nosso corpo nos impõe. Permitir que nossos semelhantes cheguem a voar para além dos limites é a ética da civilização”.

Incluir para que mais historinhas como a que conto a seguir aconteçam.

Foto: Arquivo Pessoal.

Foto: Arquivo Pessoal

Há alguns anos, em uma agência do Banrisul, a surpresa do gerente. “Não alcanças no caixa, o que vamos fazer”? Respondo com outra pergunta e uma solução: Tens um banco, uma escadinha ou uma cadeira mesmo? Pausa. Ele sai. Demora um pouco. E lá vem com uma cadeira toda desengonçada, de rodinhas. É o que o banco – instituição financeira muito rica, que cobra até o suspiro dos clientes! – oferece. Corro o risco de subir e cair, mas isso não importa. O problema foi resolvido! E seguiram me olhando como se estivessem vendo um cavalo verde.

Algum tempo depois, o guarda do mesmo Banrisul nos olha – estávamos lá eu e minha irmã Marlene – e afirma que vai conseguir uma escada pra nós. Um belo dia chegamos no banco e ele, todo orgulhoso, nos apresenta uma escadinha decente, inteira, nova. Felicidade estampada no rosto dele e nos nossos! De onde a gente menos espera, vem uma solução, inclusiva e sensível.

O gerente, em outro momento, nos disse: “Viram a escada que eu consegui para vocês?” Resposta: “Vimos e agradecemos muito ao guarda da agência. Se ele não tivesse ouvido o nosso pedido, que tanto espanto provocou em vocês, a escada não estaria aqui”. Olhos esbugalhados nos olhando. Desde então, sempre que preciso tenho a minha escada quando vou ao banco.

Da série Acessibilidade para quê? Fragmentos do absurdo cotidiano

Há sempre um desejo de ser olhada e quem sabe admirada sem o “mas” que se interfere no cotidiano, desajeitado e sem modos, dando asas a um olhar interno crítico, muitas vezes cruel. Que olhar é esse que de dentro de mim me espreita? Os olhares todos do mundo são prolongamentos desse olhar primeiro, fundador, inquietante? Será que vem da relação que estabelecemos com esses olhares estranhos, invasores, a autorização para o ingresso efetivo no universo dos chamados “normais”? Há um quê indecifrável nesse “mas” que ergue barreiras, aprisiona e celebra a intolerância, acobertado pela feliz possibilidade de ignorarmos o que não queremos ver.

Grades, por Tamar Matsafi

Grades, por Tamar Matsafi

Eles vinham conversando animadamente pela calçada. Jovens, muito jovens. Quando me viram, pararam, trocaram olhares e caíram numa gargalhada farta, debochada e infindável. Fazer o quê? A vida é mesmo assim! Expressão que aprendi com um amigo muito querido. Ou, assim é a vida! – como dizia um rapaz que fazia consertos no meu apartamento.

Entro em uma agência da Caixa Econômica Federal. Não alcanço em nada, o que é muito comum nas instituições bancárias. Nem no buraco para colocar o celular e os metais todos para depois, desarmada, ser autorizada a passar pela porta giratória. Do lado de lá, o guarda me olha intrigado. Do lado de cá, abro meus pequenos braços querendo dizer “e agora, o que fazer”? Ele, atrapalhado, grita, “o que a senhora tem na bolsa?”. A resposta, óbvia: celular, agenda, caneta, carteira, chave, colírio… Abro a bolsa, ele estica o pescoço, mas acho que não vê nada. Finalmente, do lado onde estou, aparece outro guarda. Admirado, faz a mesmo pergunta. Repito, abro novamente a bolsa, ele espia e diz “Pode liberar a entrada”. Inúmeros olhares e nenhum questionamento sobre acessibilidade, inclusão, dificuldade, qualquer coisa neste sentido. Todos tropeçam na burocracia. Mudar o script para quê?

Em um prédio, no centro de Porto Alegre. Cheguei, dei bom dia e pedi: “Por favor, podes chamar o elevador porque não alcanço no botão?” Sem levantar a cabeça para me olhar, ele respondeu, automaticamente: “Fique à vontade!”. Eu: “Ahn!?” E falei um pouco mais alto, com firmeza. Ele, com uma rabiada de olho na minha direção, resmungou um “ah!”, levantou com o celular em punho, foi até o elevador, tocou no botão e já ia voltar quando expliquei: “Por favor, preciso que o senhor toque no botão de dentro também. Vou no 10º andar e o painel é muito alto”. Ele parou, olhos grudados no celular, até o elevador chegar. Tocou. E voltou para o seu brinquedinho. Nenhum rasgo de olhar um pouco humano! Muitos porteiros de prédios da contemporaneidade distraem suas longas horas de trabalho mergulhados no vasto universo descortinado pelos celulares. Isso é fato. E ponto!

Dores e delícias de ser o que se é

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Lelei e MarleneA proposta é compartilhar neste espaço ideias, experiências, sonhos e inquietações, no sentido de refletir coletivamente sobre questões relacionadas ao cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma diferença marcante. Diferença que exclui e provoca o preconceito, limite triste de uma sociedade linear, que não está preparada para perceber e aceitar o outro na sua dimensão. Encarar a exclusão é tarefa difícil porque todo ser humano busca o acolhimento. Há que se ter cuidado para não cair na vitimização e no paternalismo ou alimentar fetiches, heroísmos ou clichês. Há que se ter sabedoria para lidar com uma condição delicada que, às vezes, é jogada em uma espécie de limbo, onde permanece intocável pela dificuldade do enfrentamento. Em resumo, é fundamental evitar os estereótipos. Por isso, falar da diferença, encarando a fragilidade da condição humana, contrapor-se ao preconceito e saudar a diversidade, é desafio necessário e urgente.

É o que queremos aqui neste blog que nasceu de muitas conversas instigantes. Especialmente do estímulo da arquiteta Flavia Boni Licht, que provocou meu encontro com a jornalista Núbia Silveira, mais adiante com Carmen Crochemore, diretora executiva do portal Sul21 e, recentemente, com o editor Milton Ribeiro. E, claro, do apoio de amigos que acompanham tudo com entusiasmo.

O desejo de falar sobre o impacto da diferença e do quanto o convívio é duro muitas vezes já fazia parte das muitas conversas que Marlene, minha irmã, e eu tínhamos quase cotidianamente. Encarar uma vida a ser vivida com o nanismo, portanto cheia de limites, em uma época em que não se falava em inclusão e acessibilidade, foi desafiador desde a infância. Ainda é! E para mim é muito emocionante que este blog seja lançado justamente no dia 5 de abril de 2016, quando faz um ano da morte da Marlene.

Pensar a diferença de maneira ampla, a partir da perspectiva da acessibilidade e da inclusão, ampliou nossos horizontes. Quando Flavia me pediu para escrever algo sobre as dificuldades enfrentadas pelos anões no dia a dia, nosso interesse aumentou. A proposta desacomodava conceitos clássicos, enraizados, e apontava para uma sociedade como soma de diferenças e não de homens hipoteticamente iguais – tudo o que queríamos para potencializar um debate que já estava nas nossas vidas há muito tempo.

Para além da eliminação de barreiras físicas, acessibilidade é cidadania, direito social, independência, capacidade de olhar o outro e de acolher, “porque o olhar nunca termina de aprender a ver”, como escreveu a psicanalista Diana Corso em algum momento e anotei em um dos tantos blocos que carrego comigo.

O caminho é longo, mas estou na estrada. Sempre estive.