Lanceiros Negros – Por quê?

Quando reivindico inclusão, acessibilidade e respeito às diferenças, reivindico justiça e humanidade. Tudo o que faltou na triste noite de 14 de junho de 2017, na esquina das ruas General Câmara e Andrade Neves, no centro de Porto Alegre, em ação truculenta da Brigada Militar, comandada por um governo que não inclui, não acolhe, não respeita a diversidade, não entende o que é ser humano. Ou, melhor, não sabe do Ser Humano. Famílias da comunidade Lanceiros Negros foram arrancadas de um prédio que pertence ao Estado de forma violenta, covarde e desnecessária em uma noite fria, véspera de um feriado.

Sem condições de escrever sobre esta história de abuso de poder, prepotência, brutalidade e hipocrisia, busquei alguns comentários de pessoas que respeito. Poderia ter sido diferente? É óbvio que sim, mas quando o poder perde a lucidez, sobra só violência.

O retrato do descaso com o ser humano
Liza Cenci, Grupo Inclusivass – Clima tenso de guerra, tiros, bombas ao descer na rua da ladeira. Chego em casa e está cheio de fumaça. 70 Famílias despejadas. Frio na alma. Tristeza. Retrocesso.

Luis Eduardo Gomes, jornalista Sul21 – O José Ivo não curtia que eles estavam ali no Centro. Invasores dizia a nota do governo do Estado. E então mobilizou sua cavalaria e mandou tirar todo mundo de lá. Para preservar o prédio, dizia a nota, enquanto a Brigada arrancava a porta com uma caminhonete e destruía tudo por onde passava, incluindo as pessoas, suas esperanças, suas pequenas posses, suas noites quentes.

Jussara De Azeredo Sá, advogada – Importante esclarecer para quem está muitíssimo mal informado e defendendo o governador nessa reintegração covarde que acontece agora no centro de Porto Alegre. O imóvel é do Estado. O Estado é que moveu ação de reintegração de posse. Portanto, o Sartori. Um imóvel que estava abandonado há mais de doze anos! Ao menos se informem antes de defender o indefensável. Ah, e pra quem, na falta de argumentos e sensibilidade diz que se trata de uma “ocupação política”: sim! É uma ocupação política. O direito à moradia é uma questão política. O descaso com a moradia é uma questão política. A decisão de despejar as pessoas sem uma política social que garanta o direito à moradia é uma decisão política. A cidadania é uma questão política. Viver é um ato político.

Lu Vilella, Livraria Bamboletras – E ainda fazem “campanha do agasalho”. Hipócritas. Fascistas. Desumanos. Monstros.

Fátima Ávila – Ocupação Lanceiros Negros abriga famílias que perderam suas casas, muitas por conta do tráfico ou por terem perdido seus empregos. Cumpre um papel importantíssimo de dar moradia e dignidade a essas pessoas, papel esse que deveria ser do estado. O estado se nega a cumprir com seu dever e ainda por cima manda desocupar com violência policial um prédio que estava abandonado, jogando 80 famílias na rua em uma noite fria. Tem crianças, tem mulheres grávidas, tem GENTE lá dentro. São super organizados e acolhem pessoas, muitas vezes, que vieram do interior e não têm onde dormir ou o que comer para que consigam se reerguer. Que vida queremos pra nossa cidade? Que vida essas pessoas vão ter? Quem coloca a cabeça no travesseiro no quentinho da sua casa e não se preocupa com essa gente tirada à força e jogada na rua? E aí vem me dizer que querem uma cidade sem violência? Imaginem o trauma dessas crianças? Pra onde vocês acham que eles vão correr? Somos todos responsáveis por essa situação.
Leandro Selistre, designer – Hoje, 15/06, é o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa. Ontem à noite vários idosos foram agredidos na absurda atuação da polícia e do estado na Ocupação Lanceiros Negros. A justiça que mandou desocupar o prédio vai punir com o mesmo rigor essa violência?

Carmem Cecília Magalhães, professora – Meu Deus! Que atitude funesta desse governo Sartori. Tirando vidas do abrigo de um lugar que chamavam de lar e as jogando no relento da noite fria! O que vai testar nesse prédio abandonado e sem vida? Pedra e cimento onde antes ouvíamos vozes de crianças e bebês! Grande “obra desse governo”, um prédio fantasma igual ao coração seco e de pedra do governador Sartori. Qualquer obra que seja feita neste local após essa cruel desocupação será marcada pelas lágrimas dos que foram expulsos. A História jamais vai esquecer essa amaldiçoada ação desse governador. Ele será para sempre lembrado pelas lágrimas e pelo choro das crianças e bebês assustados e despachados na noite fria.

Jorge Correa, jornalista – Quando uma estrutura de tijolos e argamassa vale mais do que homens, mulheres e crianças, a civilização faliu. Cadê a humanidade?

Nina de Oliveira, jornalista – Quando a boate Kiss ardeu em Santa Maria/RS, naquele janeiro de 2013, levando mais de 200 almas, Cezar Schirmer era o prefeito da cidade e se eximiu de responsabilidades. Atualmente é o secretário de segurança do RS e, junto com o governador Sartori, autorizou o despejo de famílias, com suas crianças e velhos, da Ocupação Lanceiros Negros,usando de toda a força desnecessária da Brigada Militar, para mandar para a noite gelada os desvalidos. Os que vivem à margem desta sociedade desumana e desigual.
Para isto servem estes cidadãos. Para agir da maneira mais torpe, cruel e covarde. São gânsters. Andam em bando espalhando o terror. Ainda levaram preso o deputado do PT, da Comissão de Direitos Humanos, da Assembleia Legislativa, Jeferson Fernandes. Isto precisa ser denunciado. Todos precisam saber.

Daniel Soares, jornalista – Não é preciso dizer mais nada. Sartori e sua corja são criminosos. Comando da BM é capacho de um governador que atrasa salários, fecha escolas, quer vender patrimônio e ainda mantém um secretário de Segurança que afirma que a insegurança é imaginária.

Marco Weissheimer, jornalista – Chegando em casa agora da cobertura da ação de despejo da Ocupação Lanceiros Negros. Truculência é apenas uma das palavras para descrever o que aconteceu, entre ilegalidades flagrantes, como a ausência do Conselho Tutelar em uma ação contra famílias com crianças, cujo “crime” foi lutar por um teto para morar. Outra foi a notável falta de preparo e profissionalismo de integrantes da Brigada Militar, que abusaram da truculência e do desrespeito para com as famílias que estavam sendo despejadas do local onde viviam há um ano e sete meses. Para não falar da truculência com jornalistas que cobriam a operação. Mas não são necessários adjetivos. O melhor retrato sobre o que aconteceu é uma descrição sobre o que aconteceu na noite desta quarta-feira, no centro de Porto Alegre. Ao final do espetáculo de truculência e falta de compromisso social, os principais derrotados não foram os moradores da Lanceiros Negros, mas sim o governador José Ivo Sartori, o Judiciário e a Brigada Militar. Uma nota especial para a coragem do deputado Jeferson Fernandes, alvo de jatos de spray pimenta jogados à queima roupa em seu rosto e, especialmente, das famílias que resistiram e ousaram construir, no centro de Porto Alegre, uma alternativa de vida. Honraram o sentido do nome que escolheram para batizar esse espaço.

Dinorah Araújo, jornalista e atriz – Por que a Brigada Militar destruiu a biblioteca da Ocupação Lanceiros Negros? Destruir bibliotecas é uma ação usual dos governos autoritários, das ditaduras. Então, o que é o atual governo do RS?
Carlos Badia, músico – Programa Esfera Pública na Rádio Guaíba de POA sobre a questão da desocupação no prédio dos Lanceiros Negros está sendo extremamente esclarecedor. Rádio Guaíba dando show de jornalismo. Nenhum representante do governo do PMDB, mesmo convidado, se dignou a ir. Deve ser vergonha, pois como se está comprovando agora, a ação do governo através da brigada esteve repleta de equívocos jurídicos, que serão judicialmente investigados em profundidade a partir de agora.Sem falar na violência que foi injustificada, como se vê agora. Os índios que moravam na ocupação não puderam entrar no prédio hoje para pegar seus materiais de trabalho para vender no centro. Um equívoco atrás do outro. O governo do estado está sendo omisso nesse caso. Deveria dar uma satisfação à sociedade.

Adriana Franciosi, fotógrafa – Vergonha do Estado do Rio Grande do Sul. Ontem o governo Sartori, amparado pela decisão de uma juíza, que por sinal recebe auxílio moradia de 5 mil reais. desalojou 70 famílias com crianças na madrugada fria. A brigada Militar com sua truculência habitual contra pessoas de baixa renda, e até mesmo contra jornalistas, tirou as pessoas de um prédio no centro, o qual por 12 anos o Estado abandonou. E pior o governo Sartori, PMDB, faz isso sem ter um mísero plano para onde levar essas famílias.

Recuar, virar, mexer – descortinar o avesso

A solidão é minha, não é de mais ninguém! Assim como “a dor é minha só, não é de mais ninguém”, que ecoa nos meus ouvidos na voz de Marisa Monte. “Aos outros eu devolvo a dó, eu tenho a minha dor”. Ponto.

Quando se perde uma guerra, depois de algumas batalhas espinhosas, a recomendação é avaliar e, se necessário, recuar. Sinto que perdi e que é coerente no momento o recuo. Ao mesmo tempo, ao olhar pelo avesso, percebo que nada foi em vão. Sem dó. O que fiz foi por mim. Pelos meus valores e crenças, pelo que entendo por respeito, ética, solidariedade, amor, humanidade. Pelo que aprendi de um jeito muito natural com meus pais, avós, tios, amigos.

Pelo que aprendi vida afora, com a minha diferença. Não me encolhi diante do preconceito, mas soube me retirar em determinadas situações para evitar a exposição excessiva, às vezes cruel. E hoje poder falar com naturalidade sobre preconceito, invisibilidade social e inclusão no sentido de contribuir de forma efetiva para uma sociedade múltipla e libertária.

Se o aprendizado primeiro veio do ninho familiar, as asas ganharam ainda mais força na vida lá fora, no mundo do trabalho e nos tantos enfrentamentos. Na responsabilidade às vezes absurda, no cuidado que sempre tive com o outro, na maneira de levar a vida e de lidar com o conhecimento, o poder e o dinheiro. Nunca dei ousadia ao ter, mas ao ser. Desde sempre. Agora, com a maturidade, mais ainda.

Então, pronto!

"Travessias", por Tamar Matsafi

“Travessias”, por Tamar Matsafi

Dia desses, ao me sentir um Dom Quixote desesperado, uma visionária querendo mudar o mundo ao redor, parei para encarar os fantasmas que me atordoavam. E voltei alguns passos. Só assim para recuperar o fôlego e seguir acreditando que é possível, sim, mudar alguma coisa.

“Ande e olhe / Vire e mexa / Não se incomode / Com essa falta de assunto / Ande muito / Veja tudo / Não diga nada além / De dois minutos”, canta Gal Costa.

Andei, olhei, virei e mexi nas muitas linhas da vida, retas e curvas. Há tantos atalhos que podem nos levar por outros caminhos, formulando novas questões para não enferrujar, não acumular mágoas inúteis, não estagnar burramente. Ou, como disse o Diego Titello, há a possibilidade de olhar pelo avesso, considerar o contrário, o inusitado, para não cair no perigo da história única. “Ler o avesso do bordado é fundamental para entender os sentidos do desenho das linhas para além da superfície”.

Ler o avesso do avesso do avesso do avesso
A canção “Sampa”, que Caetano Veloso fez para São Paulo, cidade onde chegou muito jovem para impulsionar sua carreira, diz muito de tudo o que sinto.

“E quem vem de outro sonho feliz de cidade / Aprende depressa a chamar-te de realidade /Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso / Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas / Da força da grana que ergue e destrói coisas belas / Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas / Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços / Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva / Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba / Mais possível novo quilombo de Zumbi / E os Novos Baianos passeiam na tua garoa / E novos baianos te podem curtir numa boa.”

"O avesso", por Tamar Matsafi

“O avesso”, por Tamar Matsafi

Comunicação e direitos humanos – uma conversa olho no olho com alunos do Jornalismo e de Publicidade e Propaganda da Feevale

No dia 22 de maio vivi um momento raro de alegria e realização pessoal e profissional. Fui convidada para falar com os alunos do Curso de Comunicação (Jornalismo e Publicidade e Propaganda) da Universidade Feevale, a partir do tema Comunicação e Direitos Humanos.

Encontro alunos Comunicação_ Feevale

Que papel exerce a mídia nesses tempos em que a cultura do sucesso é exaltada e a sociedade insiste em dividir as pessoas em vencidos e vencedores? Qual a relação entre a cultura midiática e o aumento do bullyng? Por que a mídia insiste na superação quando se refere às pessoas com deficiência, aos negros, aos marginalizados de um modo geral, quando ocupam um lugar que a sociedade entende como lugar da “normalidade”? Estas foram algumas das questões que orientaram a minha conversa olho no olho com alunos atentos, que fizeram muitas perguntas. Neste dia, tomei contato com um trabalho sensível, humano, questionador e contemporâneo desenvolvido pelo grupo de professores em parceria com os estudantes.

Me senti em casa. Além da recepção carinhosa e acolhedora, um auditório lotado, de olhares atentos e instigantes. Saí reabastecida, com a certeza de que é possível mudar, formular outras questões e incluir esta discussão na formação dos nossos jovens.

Mais uma vez, agradeço à professora doutora do Curso de Jornalismo Sarai Schmidt e à equipe linda, ativa e apaixonada que trabalha com ela e os demais professores.

Encontro com alunos da Comunicação Feevale_Só alegria

A seguir um pouco da minha fala
É muito bom compartilhar experiências e inquietações que cercam a vida de pessoas que, como eu, têm uma dificuldade marcante. E é um desafio estimulante falar sobre Comunicação e Direitos Humanos, universos que transitam por fronteiras muito vulneráveis nesses tempos em que o debate reflexivo perde espaço para a polarização raivosa.

A pergunta é: Como tratar de temas como deficiência, acessibilidade, inclusão e preconceito, evitando cair no heroísmo, no fetiche, no sensacionalismo, no clichê, na vitimização, no paternalismo, no estereótipo, no constrangimento e na superação tão endeusada pela sociedade e reforçada pela mídia?

Para começo de conversa, é preciso entender que inclusão não é concessão, como são percebidos os direitos das minorias efetivados sob o viés do benefício e da bondade. Os espaços de representatividade e de legitimação da diferença são ainda pontuais e frágeis.

Portanto, falar sobre o assunto e encarar a repercussão da diferença na sociedade em que vivemos são tarefas necessárias. Contraditoriamente, me parece que quanto mais falamos em diversidade e conquistas sociais, mais cresce a intolerância, o que escancara o despreparo de todos nós para o convívio com a diferença.

A sociedade reserva um lugar para quem foge dos padrões de normalidade sobre os quais o mundo está estruturado. E, sem nos darmos conta, reforçamos esse lugar sem questionar. Ninguém se espanta ao ver o negro como porteiro, operário, empregada doméstica, porque este é o espaço que lhe cabe. Assim como ninguém se admira ao ver o homossexual como costureiro, cabeleireiro, fazendo o gênero pitoresco, irônico, com humor fino, ferino. O anão divertindo as pessoas, dando cambalhotas, sendo alvo de chacota, ou como figura mágica, também não espanta. É o que lhe cabe no latifúndio da perfeição. Portanto, vê-los respondendo ao discurso já dado sobre eles, que a mídia reproduz porque dá ibope e atrai público, não espanta ninguém. É perfeitamente natural e chega a ser condição para que sejam incluídos.

O espanto surge quando rompem esses espaços. Aí a diferença assume outras proporções e a sociedade se defronta com o que não quer ver e, de certa forma, rejeita. Rejeição explicitada pelo preconceito diante da pessoa real, de carne e osso, com sentimentos, paixões, contradições e a sua DIFERENÇA.

É nesse confronto que as pessoas que fogem do padrão por opção sexual, religiosa, de raça, cor, ou por algum tipo de deficiência, física, mental, intelectual, surdez, dificuldade de visão, uso de cadeiras de roda, enfim, instauram a desordem e desorganizam a frágil organização da sociedade.

E aí somos assoberbados pelo discurso da superação
A pessoa com deficiência tem que provar o tempo todo que é capaz. “É o famoso ‘matar um leão por dia”. E a mídia só contribui para isso. Segue falando ‘o deficiente’, por exemplo, e investe no sensacionalismo. Se não tem superação, não tem notícia. É a pessoa com deficiência que deve se adaptar à sociedade, e não o contrário.

Só vamos chegar ao desenvolvimento social que buscamos quando entendermos que cada um tem contribuições a dar, a partir do seu jeito de ser e de ver o mundo, do seu saber e da sua maneira de colaborar para a qualidade de vida de todos. SEM SUPERAÇÃO! A luta dos cidadãos é a mesma. Contra a discriminação, contra o apartheid, contra a falta de oportunidades, contra a reiterada posição de discriminar parecendo que não está discriminando.

A importância de pensar o papel dos meios de comunicação
A mídia é formadora de opinião, portanto tem uma responsabilidade fundamental neste sentido: mostrar a vida como ela é, tratar de questões que envolvem a deficiência e o preconceito com naturalidade e verdade, denunciar, apontar leis que preservam os direitos das pessoas com deficiência, sem alimentar mitos, nem transformar os deficientes em vítimas, heróis ou guerreiros a serem admirados.

Precisamos estar atentos aos efeitos do discurso dos meios de comunicação sobre a diferença. É importante instigar, fazer pensar, mas evitar o sensacionalismo, que não contribui em nada para causa nenhuma. Precisamos de mais civilidade, mais humanidade e mais sabedoria ao falar da deficiência, seja ela qual for.

O tratamento dado aos anões pela mídia, especialmente no rádio e na televisão, é abusivo, para não dizer cruel. Comunicadores de programas como Manhattan Connection e Pretinho Básico, da Rádio Atlântida, já fizeram comentários absurdos, infelizes e preconceituosos sobre os anões. E vou me poupar de falar aqui de programas de auditório como o de Rodrigo Faro, Ratinho e Faustão, que prestam um desserviço para a causa. Só tratam do estereótipo, sem nenhum contraponto. Pelo discurso desses comunicadores, quase nazista, não é delegado ao anão um comportamento humano.

Como todo comunicador, que precisa ser interessante, chamar a atenção, preencher um espaço, garantir a audiência para o bem ou para o mal, sem pensar ou questionar, eles ironizam grosseiramente a condição de vida dos anões, demonstrando farta ignorância sobre a diferença e a deficiência.

O que é possível fazer? Não deixar passar. Denunciar sempre. Criticar. Não se submeter. Formular novas questões. Tarefa para jovens como vocês que em breve estarão no mercado de trabalho.

Para encerrar, lembro duas frases de canções de Caetano Veloso, que podem funcionar como uma bússola nessa jornada: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” e “De perto ninguém é normal”.

Não somos nem vítimas nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com a nossa dificuldade.

A poesia, a condição humana, a experiência que nos salva!

Tudo é tenso. Tudo treme. Tudo é ponto de interrogação. “A espera desespera”, escreve o poeta de “a vida das sobras”, Carlos Caramez. Não sabemos nada. O momento é de apreensão. A vida na ponta dos dedos. O coração aos pulos, com direito a um respiro/suspiro prolongado entre um baque e outro. Para não morrer da espera asfixiante. Essa é a condição. É o que nos sobra nos momentos cruciais.

E por falar em “a vida das sobras” (Editora Leitura XXI), o livro está nas livrarias de Porto Alegre. Recomendo! São poemas curtos, vigorosos e proféticos. Um alerta. Falam de uma geração que sonhou, se desesperou, lutou para voltar a sonhar e vê o sonho escapando pelas mãos. Há no tecido poético vozes de quem não desiste. O livro do jornalista e produtor cultural Carlos Caramez encerra a trilogia “poemas incuráveis”, formada por “Última Safra do Silêncio” (Mercado Aberto/1998 – Prêmio Açorianos de Literatura em 1999) e “Construção das Ruínas” (Leitura XXI). O site do poeta é https://www.carloscaramez.com/

a vida das sobras_____CarlosCaramez_Capa*
Diante da certeza de que “não há guarda-chuva contra o mundo”, como escreveu João Cabral de Melo Neto no poema dedicado a Carlos Drummond de Andrade, e da vulnerabilidade de todos nós, reafirmo: Sempre me comoveu e comove a condição humana. Hoje, com a maturidade, ainda mais. Diante do inexorável, aprendi que o que nos ampara é a solidariedade, o amor, a generosidade, o ver o outro na sua dimensão e a luta coletiva.
*
Nos hospitais, de um modo geral, porteiros, auxiliares e pacientes me olham com um misto de pena, curiosidade, espanto e vários pontos de interrogação. São gentis. Não me dizem não. Minha figura, de alguma maneira, os comove. Se me comunico, peço alguma informação, aí tudo se transforma em admiração. E, claro, normalmente, liberam a pergunta que não quer calar, o que eu faço. Quando digo que sou jornalista o milagre se dá e os rostos se enchem de sorrisos. Jornalista? Não tenho dúvidas de que por trás dessas reações, às vezes tão absurdas, está uma grande incredulidade – como uma pessoa assim chegou nesse lugar?
*
Em meio ao caos, o relato comovente da metamorfose de uma mãe aponta para a luminosidade. E nos salva! Com a palavra Flávia Berti Hoffmann, mãe de Bernardo, que tem nanismo.

Minha metamorfose sendo mãe!
“Eu já fui mãe que buscou os porquês quando soube que teria um filho com deficiência. Já fui mãe que sofreu por ter poucas informações sobre nanismo e por não saber como seria o futuro do Bernardo.
Sou mãe que quando saio na rua com meu filho, não passamos despercebidos, somos alvo de olhares curiosos e também carinhosos. Sou mãe que já escutou em alto e bom tom: “acho que ele tem um probleminha”
Já acreditei que o preconceito teria fim, hoje vejo que isso faz parte de alguns seres humanos, e esses, eu quero longe da minha vida.
Já me intitulei mãe especial, mãe abençoada, privilegiada e outras tantas.
Hoje sou inclusiva e informada, mas antes de tudo apenas MÃE!
Minha maior conquista? Não associar tudo que acontece, principalmente na vida do Bernardo, com a acondroplasia. Afinal de contas antes de qualquer rótulo, deficiência ou alteração genética, ele é uma criança.
Hoje posso dizer que, se tenho alguma missão na vida, é a missão de ser mãe e mostrar para ele que todos temos dificuldades, somos todos diferentes fisicamente, mas que o coração deve estar sempre cheio de sonhos e amor!”.

Bernardo*
Comunicação e Direitos Humanos
É estimulante também o convite que recebi da professora doutora Sarai Patricia Schmidt, do Curso de Comunicação da Feevale. Nesta segunda-feira, 22 de maio, às 19h30min, vou falar sobre Comunicação e Direitos Humanos para os alunos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da instituição.
Um debate necessário nesses tempos turbulentos. E, claro, um grande desafio. Comunicação e Direitos Humanos são universos que transitam por fronteiras muito vulneráveis. A pergunta é: Como tratar de temas como deficiência, acessibilidade, inclusão, preconceito, evitando cair no heroísmo, no fetiche, no sensacionalismo, no clichê, no estereótipo e na tão endeusada pela mídia superação?

 

“Laerte-se” e vá além, sem medo do avesso de todos nós

No dia 22 de abril foi lançado em São Paulo, no Reserva Cultural, o documentário “Laerte-se”, direção de Eliane Brum e de Lygia Barbosa da Silva, que também assinam o roteiro em parceria com Raphael Scire. A montagem é de Nani Garcia. A produção tem a assinatura de Lygia e Raphael. A realização é da Tru3Lab para a Netflix e a partir do dia 19 de maio estará disponível na Netflix para 190 países.

O filme revela um pouco mais dessa criatura libertária, ousada e inquietante chamada Laerte Coutinho, cartunista e chargista. Suas buscas, o feminino e tantas questões que dizem respeito à mulher que se insurgiu nessa caminhada, quando, aos 57 anos, Laerte assumiu sua transexualidade e passou a viver uma experiência inusitada.

Laerte - foto divulgação documentário

Laerte – foto divulgação documentário

Para Eliane, que conduz a entrevista no filme, o momento de mostrar para o mundo algo que se cria, neste caso uma criação coletiva, é, “ao mesmo tempo tão alegre, ao mesmo tempo tão frágil, ao mesmo tempo tão trêmulo.” E ela tem toda a razão! E esse momento que vem através da arte é singular, denso e tenso na sua amplitude. É revelador do avesso do avesso do avesso de todos nós.

Laerte Coutinho é tão surpreendente na sua busca que até virou verbo – Laertar-se

A sinopse do filme diz que “Laertar-se ao mesmo tempo que impele ao movimento, como um imperativo de vida, se volta para si, numa interrogação persistente. Mas aquela que retorna não é o mesmo que foi. E isso a cada volta. Ao acompanhar Laerte Coutinho em seu percurso de investigações sobre o que é ser uma mulher, o documentário também se faz ponto de interrogação. Ou apenas espaço de possíveis”.

No documentário, “Laerte conjuga um corpo no feminino, esquadrinha conceitos e preconceitos. Não busca identidade. O que conjura são desidentidades. Laerte é filho e filha, é vó e vô. É também pai, de três filhos, órfão de um. É ainda quem leva a filha ao altar como pai e como mulher. E quem, mesmo sem útero, gesta. Envia suas criaturas para confrontar a realidade na ficção dos quadrinhos como uma vanguarda de si. E, nas ruas, ficciona-se como personagem real”.

“Laerte, pessoa de todos os corpos e de nenhum, embaralha qualquer binarismo. Ao indagar sobre Laerte, este documentário escolhe vestir a nudez, aquela que vai além da pele que se habita”.

Depois do lançamento, a agenda que vem pela frente é motivo de alegria para Eliane “porque os documentários têm pouco ou nenhum espaço nos cinemas brasileiros”. Os dois documentários anteriores dela, “Uma História Severina” e “Gretchen Filme Estrada”, percorreram o mundo, mas muito pouco frequentaram as telas de cinema no Brasil. “E a gente faz um filme para que ele possa ser visto e debatido, para que ele produza algum movimento interno nas pessoas. Para que ele tenha sua própria aventura no mundo”.

Precisamos nos ver existindo – Abrindo frestas

Não há como não pensar nos invisíveis deste Brasil continental, país que tão pouco vê, cuida, dá importância e entende sua gente. Essa gente que trabalha duro e cria, com a sua labuta cotidiana, os alicerces para o crescimento de um país que não os considera. Não procuro respostas para esta constatação. Até porque quando chegam são vazias, protocolares, às vezes piedosas, cumpridoras da burocracia. Apenas. Penso pela necessidade de entender a razão de um existir absurdamente na contramão.

De repente, saltam da minha memória publicações e exposições instigantes, que li e vi, sobre essas vidas à margem e, ao mesmo tempo, no centro nevrálgico de tudo. São iniciativas que dão visibilidade e um lugar para pessoas comuns, juntando e tecendo fios da condição humana, sem caricatura, sem maquiagem, sem estereótipos. Estão aí! Para democratizar a comunicação, combater o preconceito, desacomodar olhares e a nossa, por momentos, distraída consciência crítica.

Frestas para a visibilidade necessária

Começo por “A vida que ninguém vê”, série de reportagens da jornalista Eliane Brum publicadas em 1999 no jornal Zero Hora. Ao se aventurar pelo avesso do jornalismo padrão que persegue o sensacionalismo, a fama, a superação, o escândalo e a tragédia, Eliane mergulhou com rara sensibilidade no dia a dia de pessoas esquecidas para revelar a singularidade de suas vidas invisíveis e tão ricas. A série conquistou, em 2006, o Prêmio Esso Regional e se transformou em livro, lançado pela Editora Arquipélago. Recomendação da autora no final: “Seja generoso. Arrisque. Ouse. Olhe”.

Em 2011, me deparei com “Passageiro do fim do dia”, do escritor Rubens Figueiredo, romance que fala de uma maioria invisível que povoa a periferia pobre das metrópoles, sujeita a tudo, especialmente à injustiça sistemática que gera violência, sonhos demolidos, desejos frustrados, esquecimento, massacres. Publicado pela Cia das Letras, foi considerado o melhor livro daquele ano.

Em 2012, acompanhei o lançamento de “Mulheres perdidas e achadas – histórias para acordar”, projeto editorial da Alice/Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação, organizado por Rosina Duarte e Maíra Brum Reick, com uma bela edição de arte de Rosana Pozzobon. São três pequenos livros, muito originais: um Folhetim, com histórias de prostitutas; um Almanaque, que traz a sabedoria de mulheres vividas do interior, “uma espécie de degustação da cultura feminina gaúcha”, e um Bloco de Cartas escritas por presidiárias com o nome de Pombo-Correio.

Em 2014, o livro e a exposição fotográfica “Arquipélago” de Cristiano Sant´Anna revelam o cotidiano da comunidade de pescadores de Arquipélago, bairro esquecido de Porto Alegre, formado por 16 ilhas. O trabalho deu visibilidade a um povo que vive de frente para o rio, enfrenta as cheias com naturalidade e pesca para viver. Com um formato ousado, o livro é uma edição da Pubblicato.

Foto do livo "Arquipélago", de Cristiano Sant'Anna

Foto do livo “Arquipélago”, de Cristiano Sant’Anna

No final de 2016, uma exposição chamada TODAS SÃO TODAS reuniu 30 fotos de 11 mulheres com deficiência, que posaram de corpo e alma para a lente da fotógrafa Daiane Peixoto. Iniciativa do Grupo Inclusivas, em parceria com o Coletivo Feminino Plural, a mostra busca instigar a reflexão sobre o lugar delegado a essas mulheres e contribuir para um novo olhar através do seu protagonismo. Estamos todas na torcida para que a exposição volte.

Um ano do blog – descobertas e uma pequena história

Há um ano escrevo neste blog que, intuitivamente, ganhou o nome de “Isso não é comum”. Há um ano percebo que essa escrita foi me colocando em contato com movimentos e coletivos engajados na luta por acessibilidade e inclusão. Grupos formados por pessoas absolutamente incomuns, éticas, generosas e guerreiras na sua busca por direitos sociais, voz, respeito, cidadania, reconhecimento, independência, acolhimento.

A proposta de falar sobre o impacto da diferença, e do quanto ser diferente pode machucar e afastar do convívio, era um desejo que Marlene, minha irmã, e eu estávamos concretizando quando ela nos deixou. Queríamos entender os limites que o nanismo nos impôs e os limites de tantas outras pessoas com dificuldades marcantes que geram preconceito, segregam e intimidam. Queríamos refletir sobre um assunto que nos inquietava e estava nas nossas vidas desde que nascemos. Queríamos ampliar a discussão. Não deu tempo! Passei, então, a escrever muito, uma maneira de não desistir, seguir conversando com ela, preencher um vazio insuportável, não sucumbir.

Assim encarei este blog e publiquei o primeiro texto no dia em que fez um ano da morte da Marlene – 5 de abril de 2016. E, quase sem perceber, fui abrindo portas. Passei a conviver com pessoas que, como eu, são diferentes e estigmatizadas cotidianamente. Ampliei meus relacionamentos, me fortaleci. Sensibilizei ainda mais o olhar para o outro e entendi que falar da diferença é encarar a fragilidade da condição humana. E se contrapor ao preconceito de qualquer natureza é saudar a diversidade tão necessária para uma vida libertária.

Há um ano escrevi: “O caminho é longo, mas estou na estrada. Sempre estive”. E continuo.

"Solidão suave", por Tamar Matsafi

“Solidão suave”, por Tamar Matsafi

Pequena história de como criar jeitos de viver com leveza

“Estou bem para enfrentar os olhares críticos do povo?”. Esta era a pergunta recorrente que nos fazíamos sempre que íamos sair para uma atividade que exigia de nós um pouco mais do que o cotidiano de enfrentamentos inevitáveis. Uma aula com turma nova. Uma coletiva de imprensa. Uma banca de mestrado ou doutorado. Um cliente novo. Uma palestra. A abertura de um evento. Um encontro de trabalho. Uma entrevista. Respondíamos uma para a outra: “Vai firme. Estás toda lorde”. E ríamos muito. Era uma forma de diluir a ansiedade e o medo, descontrair, tirar a importância. Tínhamos muitos códigos. Muitas frases simbólicas. Cumplicidade deliciosa de uma convivência que fica carinhosamente e amorosamente na memória.

É assim que tenho lembrado da Marlene ultimamente – espirituosa, com um humor incrível, forte e delicada, precisa e acolhedora nos conflitos, com um olhar absurdamente sensível para a condição do outro. Aprendemos juntas, no dia a dia, esse olhar que, provavelmente, foi a nossa salvação.

“Um sabiá, na palmeira, longe / Canta, canta pra ti / Ele bem sabe a dor da saudade / E canta, canta pra ti”.

Essa canção traduz o meu sentimento neste dia 5 de abril de 2017, dois anos da morte da Marlene. Ouvimos pela primeira vez no Theatro São Pedro, na voz de Celso Sim, em show do José Miguel Wisnik.

Aqui quem canta a versão de Arthur Nestrovski para “Serenata” é Lívia, sua filha, acompanhada por ele ao violão (https://www.youtube.com/watch?v=iQVTCp6x520). A música está no CD “Pós você e eu”, com os dois. No encarte, um texto bem humorado, muito bom, assinado pela irmã caçula de Lívia, Sofia, diz algo que me conforta muito: “A música ensina a transformar o tempo vazio em tempo interior”. A música salva.

A necessária busca pela inclusão – “Sons pra Bella”

O humor, às vezes, é tão sem graça

Sábado à tarde. Saio de casa pela Marquês do Pombal em direção à Quintino Bocaiúva. No estacionamento, ao lado da Panvel, quase na esquina das ruas, acontece um evento estilo Food Truck. Ao me aproximar, vejo uma pessoa usando pernas de pau enormes, na calçada, tentando animar quem chegava. Lá do alto, o personagem cola os olhos em mim. Acostumada com a piada óbvia, deduzi o que ele ia dizer: “Olhem, olhem, a minha noiva está chegando!”, gritou. Os poucos que estavam nas barracas mais próximas riram. Com o humor curto, mas elegante, respondi: “Não sou tua noiva, nem na brincadeira”. Os risos continuaram. Segui. Ele disse mais alguma coisa. Não ouvi. O humor, às vezes, é muito sem graça.

"Invasão", por Tamar Matsafi

“Invasão”, por Tamar Matsafi

Somam-se a essa vontade de fazer rir a qualquer custo outras piadinhas banais que ouço quase que cotidianamente. “Mulher chaveiro”. Mulher de bolso”. “Esqueceu de crescer”. “Sai do chão, criatura”. Nessa precariedade lamentável em que se transformou o Brasil, sinto que o preconceito recrudesceu. Ou ando muito sensível aos olhares e palavras que invadem minha privacidade. Mas, em meio a esses ruídos perturbadores, o vídeo de uma campanha com o objetivo de arrecadar dinheiro para uma menina que precisa de um novo aparelho auditivo restaurou minha emoção, minha esperança, minha força.

Nossa busca pela inclusão não pode cessar – Bella precisa ouvir novamente

Bella, arquivo pessoal

Bella, arquivo pessoal

A história de Isabella é contada pela mãe, a professora Tamires Roos, no vídeo https://www.youtube.com/watch?v=3P60m47FaQs&feature=youtu.be. A coragem para assumir publicamente que a família não tem condições financeiras se impôs quando ela e o pai sentiram a filha mais triste, retraída, solitária.

Isabella nasceu linda, saudável e tranquila. Aos quatro meses, a família percebeu que algo de estranho acontecia. Os choros eram intensos e já não se acalmava ouvindo a voz da mãe. Depois de muitos testes e análises indicando que tudo estava normal, o médico recomendou exames auditivos. Aí se revelou o problema. Diagnóstico: Surdez severa profunda. Aos dois anos, Isabella fez um implante coclear (instalação de eletrodos na cabeça). A cirurgia foi um sucesso. A menina começou a ouvir, falar, brincar e conviver com outras crianças, feliz.

Como a garantia do aparelho externo do ouvido não é vitalícia, sempre é necessário algum ajuste. A família, que não mede esforços para garantir uma vida saudável para Isabella, agora enfrenta dificuldades. O aparelho estragou definitivamente. A menina, hoje com 9 anos, necessita de um novo Nucleus 6, que custa R$ 39.600,00, mesmo sendo paciente do Sistema Único de Saúde/SUS. O governo não fornece o dispositivo espontaneamente. É preciso entrar com uma ação que pode demorar meses ou até anos. Os pais não têm condições financeiras e lutam para devolver os sons à vida de Isabella. A falta de audição já interfere no seu desenvolvimento, na aprendizagem, na comunicação, no emocional.

Vejam o vídeo, compartilhem, contribuam. As doações podem ser feitas no Banrisul, agência 0070, conta poupança 39.0929.360-6, em nome de Tamires Ross dos Santos – CPF 024.594.120-70.

Fragmentos do cotidiano de quem busca a inclusão

A inclusão pode ser simples assim
O menino parou e me olhou com os lindos olhinhos arregalados e curiosos. Olhou para a mãe, sério, e disse: “Tô achando essa pessoa muito estranha”. Parecia ter uns 5 anos. A mãe, delicadamente, falou: “Então, conversa com ela”. Perguntei: “O que tu estás achando estranho?”. Ele: “O tamanho”. Eu: “Somos quase do mesmo tamanho”. Ele: “Mas é diferente. Tu tá sozinha?”. Respondi que sim e completei: “É que eu sou uma adulta pequena”. Ele puxou a mãe pela mão e disse, aliviado: “Ela é uma adulta pequena, mamãe!”. A mãe, sábia, comentou: “Pois é! Vocês podem ser amigos. Dá um beijo nela”. Ele veio, sorrindo, me deu um beijo e um abraço. E se foi, me abanando. Encarar com naturalidade a fala da criança, responder e explicar afasta os fantasmas e aponta para a riqueza da diversidade humana.

"Incluídas", por Tamar Matsafi

“Incluídas”, por Tamar Matsafi

A inclusão pode ser complicada assim
A menina me olhou assustada, puxou a mãe pelo vestido, apontou o dedinho para mim e foi dizendo: “Olha, olha!”. A mãe não me olhou, deu um safanão na criança e foi saindo e falando rispidamente: “Onde está o respeito? Tu sabes que não se deve fazer isso”. Não tive tempo para dizer nada. E elas se foram. Fazer o quê? Fiquei pensando com os meus botões. A criança foi reprimida na sua espontaneidade. Não falar é abrir uma fresta para que o preconceito entre e vá se acomodando, quieto e perigosamente.

Nossa diferença é a nossa fortaleza
Lute como uma menina. Nesta quinta-feira, 16 de março de 2017, às 17h, na sede do Coletivo Feminino Plural (Andrade Neves, 159, sala 85, Centro Histórico de Porto Alegre), uma roda de conversa com jovens estudantes que participaram das ocupações das escolas em 2016 marca o lançamento do projeto “Mandala da Diversidade – Nossas Diferenças, Nossa Fortaleza”. O projeto busca dar visibilidade a jovens ativistas de 13 a 18 anos, aprofundando questões de gênero, etnia e raça, diversidade, mulheres com deficiência, sexualidade, comunicação e política. Informações pelo email pontodeculturafeminista@gmail.com. Cada vez mais, precisamos colocar esses temas nas nossas rodas de conversa.

Ícaro desejou voar
“Ícaro” coloca em cena um cadeirante, Luciano Mallmann, que sofreu uma lesão na medula ao cair durante uma acrobacia aérea em tecido no Rio de Janeiro, em 2004. Entre o real e a ficção, a montagem nasceu da experiência do ator e de pessoas que conheceu depois que passou a usar cadeira de rodas. As histórias tratam de temas universais, resiliência, relacionamento entre pais e filhos, relações amorosas, suicídio, preconceito, gravidez e maternidade. “Se eu não fizer a minha história e simplesmente esperar alguém me chamar para um trabalho não faço quase nada. Já é difícil para quem tem todas as possibilidades ser chamado”, assinala Luciano, produtor, intérprete e autor dos textos. A direção é da atriz Liane Venturella. A iluminação de Fabrício Simões e a trilha sonora de Monica Tomasi sublinham cada cena da peça que está em cartaz no Instituto Goethe até 26 de março. “Ícaro” é, acima de tudo, um espetáculo sobre a condição humana. “Somos todos iguais, cadeirantes ou não, temos dificuldades em relacionamentos, medos etc. Espero contribuir com essa peça para o debate”.

Luciano Mallmann em Icaro, foto de Jonathan Heckler

Luciano Mallmann em Icaro, foto de Jonathan Heckler

Uma pessoa não pode ser definida pela sua deficiência
Ednilson Sacramento faz Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, na Universidade Federal da Bahia. Por uma dessas felizes coincidências, um e-mail dele me foi encaminhado por um amigo. Ednilson é cego, condição que o impulsionou a fazer o trabalho de conclusão de curso voltado para a linguagem. Mais especificamente, para o vocabulário usado quando o assunto é a pessoa com deficiência. As novas abordagens e nomenclaturas pertinentes, o que deve ou não ser usado, o peso de uma expressão, de uma palavra, para quem já é estigmatizado. Um trabalho necessário que, com certeza, será muito bem-vindo. Uma reflexão singular sobre um assunto pouco pensado. Estou aguardando ansiosa.

 

A possibilidade da reinvenção e do sonho, sem tragédias

No país do jeitinho, vamos, lamentavelmente, nos ajeitando. Assujeitando. O olhar enviesado para as pequenas dores latentes, físicas ou da alma. Parece que o importante é ir ultrapassando os obstáculos do cotidiano, em silêncio quase conformado, sem importunar ninguém.

Mas os abusos saltam e entram pelos olhos. Mesmo fechados. E, apesar do cansaço, reativamos a inquietação e a necessidade de não aceitar o que não nos pertence.

"A possibilidade da luz", por Tamar Matsafi

“A possibilidade da luz”, por Tamar Matsafi

A entrevista da professora e médica Izabel Maior, uma das pioneiras do movimento político das pessoas com deficiência no Brasil há mais de 30 anos, fez isso comigo. Mais uma vez, tive a certeza de que tudo anda muito devagar quando o assunto bate na cidadania, no direito de ir e vir e na independência possível. Mais uma vez, me dei conta de que é preciso atenção para não deixar o padrão de normalidade e o modelo de perfeição impostos colarem na gente e nos fazer, de uma forma ou de outra, alimentar a doença de uma sociedade que não vê o outro.

“Não vivemos no tempo das cavernas para eliminar pessoas com deficiência, mas essas pessoas ainda vivem segregadas”, enfatizou Izabel, a primeira pessoa com deficiência – uma lesão medular aos 22 anos – a comandar a Secretária Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência no Brasil (Fernando Henrique e Lula) . “O ser humano tem a capacidade de se reinventar, mas o desconhecimento do outro é um traço forte. Somos ainda muito resistentes a mudanças. Achamos que pessoas merecem rótulos, e muitos deles as inferiorizam”.

Izabel Maior - Divulgação Prêmio Claudia 2010

Izabel Maior – Divulgação Prêmio Claudia 2010

Ela falou sobre o tema “Deficiências e Diferenças”, no Café Filosófico da TV Cultura (https://www.youtube.com/watch?v=29JooQEOCvA – agosto de 2016), terceiro encontro da série “O valor das diferenças em um mundo compartilhado”, que teve a curadoria do psiquiatra e psicanalista Benilton Bezerra Júnior, doutor em Medicina Coletiva.

Se o Brasil tem hoje uma das legislações mais fortes em relação à pessoa com deficiência, deve-se, em grande parte, a luta incansável desta mulher, sua alma de ativista e seu olhar voltado para os mais vulneráveis entre os vulneráveis. Izabel Maior alia o conhecimento teórico de médica fisiatra, professora universitária com mestrado em Deficiência pela Universidade de Salamanca, na Espanha, e especialização em Bioética pela Universidade de Brasília ao saber técnico de gestora pública. Reconhecida pela Organização dos Estados Americanos/OEA, lançou em parceria com a Organização dos Estados Ibero-Americanos o filme-documentário “História do Movimento Político das Pessoas com Deficiência no Brasil”.

Foi nos anos 1970 que alguns movimentos coletivos tomaram vulto e mudaram o conceito de deficiência, que deixou o campo puramente biomédico e ganhou contornos sociopolíticos, de direito à diferença. Izabel defende o lema “nada sobre nós, sem nós” e diz que “não é o limite individual que determina a deficiência, mas sim as barreiras existentes no meio”. A atitude preconceituosa das pessoas, a arquitetura, o transporte público, a comunicação, a falta de acesso a bens e serviços, entre outras questões, travam a autonomia verdadeira.

E, então, lá vem o jeitinho. E seguimos fazendo do jeito que dá.

Mais de 15% da população mundial têm algum grau de limitação funcional e boa parte dessa grande minoria ainda enfrenta discriminação, invisibilidade e está isolada da convivência social. Não por desejo delas, já que a funcionalidade das pessoas, em um mundo com recursos tecnológicos para compensar os limites, não impede a convivência. Em sua fala, a médica se referiu à desconstrução dos problemas relacionados ao estigma, “que leva a não aceitação do outro como ele é. Não respeitamos pessoas que não sejam exatamente iguais”.

“Mas iguais a quê?” – essa é a pergunta.

A pessoa com deficiência tem que provar o tempo todo que é capaz. “É o famoso ‘matar um leão por dia” e a mídia não é uma aliada efetiva nessa luta. “Segue falando ‘o deficiente’, por exemplo, e ainda investe no sensacionalismo: se não tem superação, não tem notícia”. Para a médica, o imperativo da superação cria um desequilíbrio. É a pessoa com deficiência que deve se adaptar à sociedade, e não o contrário.

O recado é: “Mude você se quiser ser norma”.

A sociedade só vai mudar quando admitir a discriminação, principalmente em relação a pessoas com deficiência, que fazem parte de outras minorias. “Eu, por exemplo, sou uma pessoa com deficiência, mulher, na terceira idade”, salientou Izabel. Sobre as cotas, ela foi enfática. Só existem porque existe discriminação, mas a maior barreira ainda é o mercado de trabalho. “Quando se fala em cota, não significa que a pessoa vai passar com qualquer nota. A entrevista (de emprego) ainda é a prova de que a discriminação existe. A lei de cotas é uma maneira de contornar isso”. Ela criticou também os resultados práticos da lei de inclusão. “É preciso fiscalizar a sua aplicação”.

Só vamos chegar ao desenvolvimento social que buscamos quando entendermos que cada um tem contribuições a dar, a partir da sua diferença, do seu jeito de ver o mundo, do seu saber e da sua maneira de colaborar para a qualidade de vida de todos. A luta dos cidadãos é a mesma. “É contra a discriminação, é contra o apartheid, é contra a falta de oportunidades, é contra a reiterada posição de discriminar parecendo que não está discriminando”.

“Ainda bem que os nossos sonhos permanecem”.

"Ver o outro", por Tamar Matsafi

“Ver o outro”, por Tamar Matsafi