Saudade ou “a gente se acende é nos outros”

Hoje, 5 de abril de 2020, faz 5 anos da morte da Marlene Teixeira, minha irmã. Hoje, 5 de abril de 2020, faz 4 anos que escrevo este blog que chamamos espontaneamente de “Isso não é comum”. Só tenho a agradecer à amiga querida Flavia Boni Licht, que tanto me estimulou e estimula. Aos amigos jornalistaa Núbia Silveira, Mílton Ribeiro e Carmen Crochemore, que me receberam tão bem. À minha grande família. Aos que me leem. Estamos juntos. Vai passar.

Marlene partiu na fase madura das nossas vidas, depois de muitos enfrentamentos, mas já apaziguadas diante dos tantos questionamentos que fazíamos. E, justamente por isso, com outros desafios e projetos, tranquilas para escrever e falar sem medo da dor e da delícia que nos acompanhavam.

A ausência da Marlene mudou completamente a minha relação com o mundo. O efeito primeiro foi devastador. Perdi o centro. Fiquei à deriva. Sem porto. Sem rumo. Só fragilidade, dor, medo. O desamparo foi radical. Como é que tanto amor, tanta parceria, tanta cumplicidade, tantas reflexões são arrancadas do teu cotidiano inesperadamente? Tantas buscas e tantas trocas para entender o que nos foi tirado, o que nos foi dado, o que não nos pertencia, o que escondemos e o que conquistamos. A nossa condição. A condição do outro. A avassaladora fragilidade dos humanos.

Atordoada diante do inexorável, repeti inúmeras vezes, como um mantra, o verso do poeta João Cabral de Melo Neto – “não há guarda-chuvas contra o mundo” – para entender que precisava fazer alguma coisa urgentemente. Em nome de uma relação que nos preenchia, ensinava e estimulava a cada pedra no caminho, a cada clarão no horizonte. Comecei a buscar respostas na tentativa de desenhar outros desejos. Ou realizar o que já era latente.

E foi lá, na fala do personagem João Celestioso ao regressar do outro lado da montanha, no livro “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, do escritor moçambicano Mia Couto, que vi acender internamente uma luz – “Eis o que aprendi / nesses vales onde se afundam os poentes: / afinal, tudo são luzes, / e a gente se acende é nos outros. / A vida é um fogo, / nós somos suas breves incandescências – A gente se acende é nos outros! O eu, sem o tu, não se vê!”

Em meio ao caos, descobri uma coragem que não imaginava ter. A fragilidade foi dando lugar a uma força que começou a pulsar lentamente, estimulada pela família e pelos amigos – por quem te acolhe, afaga, ouve, faz companhia, observa, critica, mas respeita teu movimento. Diante do que não tem jeito, fui tomada por um impulso restaurador, que vinha de relações já consolidadas e daquelas que se fazem e se solidificam nos momentos difíceis.
Passei a escrever cotidianamente. Como um jeito de resistir, sobreviver à dor, me ver existindo, mesmo sem o contraponto de alguém que sentia a vida como eu sentia. Como um jeito de falar e me ouvir. Como um jeito de apaziguar a alma. Como uma tábua de salvação!

Foi assim que no dia 5 de abril de 2016, um ano depois da morte da Marlene, comecei a escrever aqui sobre acessibilidade, inclusão, diferença, discriminação e os tantos fragmentos do cotidiano político e social que me envolvia. Respirei, ampliei relações, abri portas e, certamente, me tornei uma pessoa melhor. 

Vai passar!

Vai passar. A expressão que virou mantra neste tempo sombrio e inquietante de pandemia me faz lembrar a canção de Chico Buarque de Holanda. Composta em meados dos anos 1980, período conturbado em que vislumbrávamos o fim da cruel ditadura militar instaurada no Brasil no fatídico 31 de março de 1964, a música fala da nossa história ainda tão recente. Uma história cravada de injustiças, contradições, tortura e morte. E que neste início de 2020, se mostra tão ou mais injusta e contraditória.

As terras deslumbrantes descobertas por Pedro Álvares Cabral viraram colônia de Portugal. E seus donatários, os privilegiados de sempre, seguindo o exemplo do colonizador/doador, passaram a capturar negros na África para transformá-los em escravos. Arrancados da terra mãe, eles foram jogados nas mãos de gente sem escrúpulos que, por ser branca e poderosa, achava que podia tudo. Gente obcecada por uma perfeição discriminatória e alimentada por uma ambição desmedida que, assim como destrói o meio ambiente, dissemina preconceito de toda ordem.

“Aqui sambaram nossos ancestrais”. Marginalizados em um lugar que só os via como seres para servir, os negros foram obrigados a abrir mão das suas origens e da cultura que os constituía para atender os desejos do senhor dono da terra. “Erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais”. Mas um dia perceberam que era possível subverter essa ordem. Entenderam que “tinham direito a uma alegria fugaz”. E fizeram dessa possibilidade uma grande luta pelo direito de ser e manter sua identidade.

Aos poucos, mesmo sem liberdade, retomaram suas vozes genuínas, seus cantos, seus tambores, suas danças, sua história, sua alegria. Excluídos das festas da casa grande, que abrigava, e abriga ainda hoje, a elite soberba, os escravos tomaram becos e ruelas com uma festa popular que acabou contagiando o país inteiro. E “que se chama carnaval”.

Mas a “terra brasilis” seguiu distraída – dominada por senhores sem escrúpulos, os donos do dinheiro – sem entender “que era subtraída em tenebrosas transações”. A elite econômica, desumana e sem freios, que se formou seguiu impávida a liturgia da escravidão, ancorada em discursos hipócritas. O que ficou escancarado em alguns momentos da pandemia do coronavírus. Ao atender aos apelos do presidente insano, alguns empresários manifestaram o desejo de ver seus empregados trabalhando, ignorando determinações dos governos dos estados e municípios.

Apesar das vozes da Organização Mundial da Saúde, de cientistas, pesquisadores e médicos, o poder financeiro tentou falar mais alto, mas recuou. E o poder político, nas mãos de indecisos, sem preparo para comandar um país que vive uma crise sem precedentes na história mundial, assinou embaixo. Para mudar de postura logo depois. Já não há dúvidas. Vivemos uma situação complexa, que exige discernimento, respeito e maturidade de todos os lados. Já não há espaço para brigas político-partidárias. Assim como também não há dúvidas de que estamos diante de um governo incapaz de olhar para a população. Em momento algum, o outro coube neste olhar.

O Brasil, os trabalhadores, as mulheres, a gente comum, o povo, nós todos estamos nas canções de Chico Buarque, compositor que tão bem fala da nossa história, dos tempos inocentes em que víamos a banda passar, passando pelo exílio e o sofrimento imposto pela ditadura militar, pelas diretas já, pela nossa jovem democracia, hoje tão sucateada – https://www.ouvirmusica.com.br/chico-buarque/77259/

E lá me vem outra canção, lembrada recentemente por Jorge Furtado – “Pessoa Nefasta”, de Gilberto Gil – “Tu, pessoa nefasta / Vê se afasta teu mal / Teu astral que se arrasta tão baixo no chão / Tu, pessoa nefasta / Tens a aura da besta / Essa alma bissexta, essa cara de cão”. Vai passar!

Estamos todos nus

“O Brasil está nu. E isso não é uma performance artística”, escreveu recentemente a jornalista e ativista Nanni Rios, proprietária da Livraria Baleia, em Porto Alegre. Estamos nus e desgovernados. Traduzindo: Sem governo! Despencando? Ladeira abaixo? É bem provável. O medo e a insegurança reverberam por todos os espaços, independente de classe social – abastados, médios e pobres. E ecoam especialmente entre os mais velhos, os já doentes, os mais pobres, os que vivem do trabalho informal, única fonte de renda da maioria da população. Assim como ainda reverbera o egoísmo absurdo daqueles que se jogaram nos supermercados e abarrotaram carrinhos com alimentos e produtos de limpeza. E a ganância de empresários desprovidos de empatia. Mas temos antídotos. E a solidariedade vai se manifestando de um jeito forte, acolhedor, comovente, a distância, como está prescristo – Fique em Casa. É necessário agir com rapidez e firmeza para evitar o caos. Por isso, muita atenção navegantes desta nau desorientada: Cuidem-se. Impossível confiar em um governo que consegue ser mais nefasto do que os regimes fascista e nazista, que contaminaram a Europa e o mundo no século XX.

Quando médicos especialistas da área de infectologia no mundo inteiro pediam que as pessoas evitassem aglomerações, o governo brasileiro minimizou. Espaços culturais fecharam. Artistas cancelaram apresentações. Shoppings restringiram a entrada de pessoas. Voos foram cancelados. Mesmo assim, contrariando todas as normas, o presidente desdenhou, tratando o caso como histeria. E ainda foi para as ruas, com a sua irresponsabilidade e arrogância, tão peculiares, apertar a mão de eleitores, tão sem noção quanto ele.

Quando as vozes consequentes do país provaram que não havia paranoia nem exagero nas medidas urgentes que precisavam ser tomadas, as vozes do governo continuaram desconsiderando a possibilidade de pandemia. E o presidente pontuou com uma declaração estapafúrdia: “Se eu resolvi apertar a mão do povo, é um direito meu, eu vim do povo. Uma maneira de mostrar que estou junto com eles na alegria e na tristeza. Se me contaminei, a responsabilidade é minha”. Responsabilidade? Não! Insanidade, sim. É óbvio que, se já estava contaminado, deve ter contaminado muita gente. Mas a soberba fala mais alto.

“Burrice mata”, escreveu o cineasta Jorge Furtado. E o panelaço veio. É real. O mundo está contaminado. E o governo, que assim como está não está, nunca se sabe, foi obrigado a mudar o tom do discurso. Cinicamente mostrou preocupação com o avanço da doença, sem dar o exemplo necessário de um chefe de estado.  Caiu a ficha? Não! Precisamos de medidas para conter o que vem por aí. Mas como confiar em quem não tem a mínima coerência, só tem olhos para a elite econômica, empresários e banqueiros, e brinca com a dor dos menos favorecidos? Como confiar em quem tem um filho desgovernado, cheio de razão e sem noção de diplomacia, que culpa a China por tudo?

O contágio, a partir dos cálculos estatísticos feitos até agora, vai aumentar muito ainda, o que certamente provocará pane no sistema de saúde se não forem tomadas medidas drásticas para contenção. Não há mais como negar. Está no ar. Está nas ruas. Está nas esquinas. Está nas nossas portas. Precisamos ficar isolados em nossas residências para evitar a propagação. Estamos vulneráveis, emocionalmente frágeis, e temos muitos exemplos no passado para rever e não repetir.

Logo, precisamos de uma Nação firme e bem posicionada, com uma estrutura forte na área da saúde para dar conta do que vem e proteger a população. Até o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckimin, que é médico, deixou o período sabático e declarou: “Temos que revalorizar a política”, perplexo diante do péssimo exemplo do presidente, “com atitudes que desdenham de orientações mundiais, deseducam, prestam um desserviço”.

Como escreveu o ator e diretor de teatro Zé Adão Barbosa, precisamos de “um Estado que olhe para os trabalhadores informais, sem salário fixo, sem condições de trabalhar em casa, que não terão como manter seu sustento, e também para os artistas que vivem de seus espetáculos e de suas aulas sem outras fontes de renda, muitos sem casa própria. E a luz? E a internet? E o telefone? E a comida na mesa? Quem paga por isso sem trabalhar? Felizes dos que poderão ficar em casa sem prejudicar sua vida econômica e familiar. Por isso, juntamente com as indicações de cuidados e prevenções, pensemos em uma maneira de sermos solidários para com os que terão as vidas mais devastadas neste momento caótico”.

E a população das vilas abandonadas, sem saneamento básico, sem recursos, sem nada? E a população de rua, sem guarida? Cuidem-se navegantes desta nau desgovernada!

O jornalista Rafael Guimaraens questionou a atuação política e a vida pública de um presidente que já homenageou assassinos como Pinochet, Stroessner e Brilhante Ustra. Que já declarou que a ditadura deveria ter matado mais 20 mil e que tortura é cascata. Que quer distribuir armas à população. Que propõe acabar com os redutores de velocidade no trânsito. Que quer acabar com o Mais Médicos. Que estimula a violência em todos os níveis com suas falas racistas, machistas e homofóbicas que estimulam o assassinato de jovens negros, da comunidade LGBT e o feminicídio. E agora, diante de uma das maiores crises que o mundo já enfrentou, coloca-se ao lado do poder econômico mais voraz, lança medida que beneficia os empresários e vira as costas para o povo trabalhador.

O que pensar e dizer diante de tanto desrespeito pelo outro? Penso e digo que a irresponsabilidade diante da pandemia do coronavirus é crime, que temos um presidente de comportamento psicopata, vulgar, fixado em enviar recadinhos pela rede social, que só olha para os seus milicianos, despreza quem não lhe faz a corte e agora deu para se elogiar.

E me pergunto: Diante do quadro político trágico que aí está o que vamos fazer? O que vai fazer o Congresso Nacional? O que pensam os deputados? Teremos condições de eleger pessoas honestas? Qual a responsabilidade de quem sonha com lideranças sérias? Precisamos radicalizar? E a esquerda o que propõe? Seremos atropelados mais uma vez?

A situação que está posta é grave. A turbulência está só começando. Questões econômicas, sociais e trabalhistas preocupantes estão emergindo e vão explodir. Trabalhadores de carteira assinada, que estão trabalhando de casa e cuidando dos filhos porque não tem escola, já estão assoberbados, cumprindo uma carga horária desumana. Não há limite e poucos empregadores se dão conta que o regime é de escravidão. Onde está a conscientização dos que discursam pelo respeito ao trabalhador? Será que a pandemia veio para fazer o mundo repensar prioridades, lideranças, destino? E para fazer com que cada um de nós reflita sobre a maneira como nos relacionamos com quem presta serviço, seja quem for? A escravidão acabou mesmo? Infelizmente, não. E o Brasil está cheio de tristes exemplos.

Pois agora estamos todos enjaulados e certamente este pode ser um bom momento para pensar, repensar e questionar nossas relações – pessoais, profissionais, políticas. É possível estabelecer parâmetros cristalinos e humanitários voltados verdadeiramente para o respeito e a responsabilidade social? Tenho muitas dúvidas, mas a minha luta é esta.

Estamos todos nus

“O Brasil está nu. E isso não é uma performance artística”, escreveu recentemente a jornalista Nanni Rios, proprietária da Livraria Baleia, em Porto Alegre. Estamos nus e desgovernados. Traduzindo: sem governo! Despencando? Ladeira abaixo? É possível. O medo e a insegurança reverberam por todos os espaços, independente de classe social – abastados, médios, remediados, pobres. E ecoam especialmente entre os mais velhos, os já doentes e os que vivem do trabalho informal cotidiano, única fonte de renda da maioria da população. Assim como ainda reverbera o egoísmo absurdo daqueles que se jogaram nos supermercados e abarrotaram carrinhos com alimentos e produtos de limpeza. Mas temos antídotos. E a solidariedade vai se manifestando de um jeito forte, acolhedor, comovente, a distância, como está prescrito. É necessário agir com rapidez e firmeza para evitar o caos.

Quando médicos especialistas da área de infectologia no mundo inteiro pediam que as pessoas evitassem aglomerações, o governo brasileiro minimizou. Espaços culturais fecharam. Artistas cancelaram apresentações. Shoppings restringiram a entrada de pessoas. Voos foram cancelados. Mesmo assim, contrariando todas as normas, o presidente desdenhou, tratando o caso como histeria. E ainda foi para as ruas, com a sua irresponsabilidade e arrogância, tão peculiares, apertar a mão de eleitores, tão sem noção quanto ele.

Quando as vozes consequentes do país provaram que não havia paranoia nem exagero, as vozes do governo continuaram desconsiderando a possibilidade de pandemia. E o presidente pontuou com uma declaração estapafúrdia: “Se eu resolvi apertar a mão do povo, é um direito meu, eu vim do povo. Uma maneira de mostrar que estou junto com eles na alegria e na tristeza. Se me contaminei, a responsabilidade é minha”. Responsabilidade? Não! Insanidade? sim! É óbvio que, se já estava contaminado, poderia contaminar muita gente.

“Burrice mata”, escreveu o cineasta Jorge Furtado. O panelaço veio. É real. O mundo está contaminado. E o governo, que assim como está não está, nunca se sabe, foi obrigado a mudar o tom do discurso. Agora é de quem sempre se preocupou com o avanço da doença. Caiu a ficha. Mexam-se. Precisamos de medidas para conter o que vem por aí. Mas como confiar em quem não tem a mínima coerência e brinca com a dor alheia? Como confiar em quem tem um filho desgovernado, cheio de razão e sem noção de diplomacia, que culpa a China por tudo?

O contágio, a partir dos cálculos estatísticos feitos até agora, vai aumentar muito ainda, o que certamente provocará pane no sistema de saúde se não forem tomadas medidas drásticas para contenção. Não há mais como negar. Está no ar. Está nas ruas. Está nas esquinas. Está nas nossas portas. Precisamos ficar isolados em nossas residências para evitar a propagação. Estamos vulneráveis, frágeis, e temos muitos exemplos no passado para rever e não repetir. Logo, precisamos de uma Nação firme e bem posicionada, com uma estrutura forte na área da saúde para dar conta do que vem e proteger a população. Até o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckimin, que é médico, deixou o período sabático e declarou: “Temos que revalorizar a política”, perplexo diante do péssimo exemplo do presidente, “com atitudes que desdenham de orientações mundiais, deseducam, prestam um desserviço”.

Como escreveu o ator e diretor de teatro Zé Adão Barbosa, precisamos de “um Estado que olhe para os trabalhadores informais, sem salário fixo, sem condições de trabalhar em casa, que não terão como manter seu sustento, e também para os artistas que vivem de seus espetáculos e de suas aulas sem outras fontes de renda, muitos sem casa própria. E a luz? E a internet? E o telefone? E a comida na mesa? Quem paga por isso sem trabalhar? Felizes dos que poderão ficar em casa sem prejudicar sua vida econômica e familiar. Por isso, juntamente com as indicações de cuidados e prevenções, pensemos em uma maneira de sermos solidários para com os que terão as vidas mais devastadas neste momento caótico”.

E a população das vilas abandonadas, sem saneamento básico, sem nada? E a população de rua?

O jornalista Rafael Guimaraens questionou a atuação política e a vida pública de um presidente que já homenageou assassinos como Pinochet, Stroessner e Brilhante Ustra. Que já declarou que a ditadura deveria ter matado mais 20 mil e que tortura é cascata. Que quer distribuir armas à população e propõe acabar com os redutores de velocidade no trânsito. Que quer acabar com o Mais Médicos, estimula a violência em todos os níveis e manifesta posições racistas, machistas e homofóbicas, estimulando o assassinato de jovens negros, da comunidade LGBT e o feminicídio. E acrescento: que já minimizou as políticas de acessibilidade e inclusão, quando ainda era deputado.

O que pensar e dizer diante de tanto desrespeito pelo outro? Penso e digo que temos um presidente de comportamento psicopata, fixado em enviar recadinhos pela rede social, que só olha para os seus milicianos, despreza quem não lhe faz a corte e agora deu para se autoelogiar.

E me pergunto: Diante do quadro político que aí está, temos condições de eleger pessoas honestas? Qual a responsabilidade de quem sonha com lideranças sérias? Precisamos radicalizar? E a esquerda o que propõe? Seremos atropelados mais uma vez?

A situação é preocupante. A turbulência está só começando. Questões econômicas, sociais e trabalhistas graves estão emergindo e vão explodir. Trabalhadores de carteira assinada, que hoje trabalham de casa e cuidam dos filhos porque não tem escola, já estão assoberbados, cumprindo uma carga horária mais do que absurda. Não há limite e poucos empregadores se dão conta que o regime é de escravidão. Onde está a conscientização dos que discursam pelo respeito ao trabalhador? Será que a pandemia veio também para fazer o mundo repensar prioridades, lideranças, condutas? E para fazer com que cada um de nós reflita sobre a maneira como nos relacionamos com quem presta serviço, seja ele qual for? A escravidão acabou mesmo? Pelo visto, não. E o Brasil está cheio de tristes exemplos.

Pois agora estamos todos enjaulados e certamente este é um momento raro para pensar, repensar e questionar nossas relações pessoais, profissionais e  políticas. É possível estabelecer parâmetros cristalinos e humanitários voltados verdadeiramente para o respeito e a responsabilidade social? Tenho muitas dúvidas, mas a minha luta é esta. Sempre foi.

Raízes, memória, história

 

O processo cultural que nos faz pertencer, criar identidade e voar

O projeto “Memórias de São Francisco de Paula” chega para estimular a comunidade a se apropriar da sua história, trocar experiências e promover a difusão do patrimônio que nos dá raízes. Valorizar espaços que mostram a diversidade que nos constitui é valorizar a pluralidade, a convivência e o diálogo permanente e crítico entre a tradição e o contemporâneo. É entender o processo cultural que nos faz pertencer e criar identidade e, ao mesmo tempo, nos dá asas para voar. Colocar no centro da cena os saberes e fazeres gerados pela cultura patrimonial material e imaterial, para que infinitos olhares possam ver e aprender, é o combustível que impulsiona o conhecimento e abre fronteiras para uma educação libertária.

Com essa perspectiva – a ampliação do olhar – o projeto do município serrano vai promover rodas de memória em três dos principais patrimônios culturais de São Francisco de Paula, momento em que as pessoas vão falar das suas emoções e vivências na interação com esses lugares. Tudo começa no dia 14 de março, em uma velha e imponente casa de madeira com mais de 70 anos – o Hotel do Campo, no distrito de Cazuza Ferreira. No dia 18 de abril, a roda será no Hotel Cavalinho Branco, no Lago São Bernardo e, em 30 de maio, no auditório da Escola Estadual José de Alencar, em São Francisco de Paula. É a história contada por quem viveu e vive a riqueza cultural de cada lugar.

As rodas de memória serão registradas em vídeo e áudio e, posteriormente, em livro. O objetivo é possibilitar que um número muito maior de pessoas e de escolas possam acompanhar o andamento do projeto e transformá-lo em conteúdo para os alunos na sala de aula. São momentos para escutar, participar, entender e expandir.

Integrado à imensidão dos campos, ao verde das matas e à imponência das araucárias, “o ouro branco” do passado, São Francisco de Paula, ou São Chico como a cidade é carinhosamente chamada, está mergulhada em uma natureza exuberante que possibilita paz, recolhimento, reflexão. Ou bons encontros e boas conversas ao sabor do churrasco e do carreteiro. Além de longas caminhadas em volta do lago ou mato à dentro para desvendar as inúmeras cachoeiras da região. Ou, ainda, se aventurar em cavalgadas campo afora.

Para a Roda de Memória em Cazuza Ferreira no dia 14 de março, sábado, às 15h, foram convidadas quatro pessoas que vão dividir com o público experiências, estudos e relações afetivas com o local. A mediação será da professora de História e doutoranda Cláudia Duarte. São elas:

Grasiela Picoloto de Barros, formada pela Universidade de Caxias do Sul, onde apresentou como trabalho final o texto “As Metamorfoses do Hotel Avenida”, em dezembro de 2001, para graduar-se em Licenciatura Plena em História.

Iró Beatriz Basso Gomes, filha mais velha de Antonio Machado Basso (dono do hotel e cinema), trabalhadora dos Correios e Telégrafos, que sempre viveu em Cazuza Ferreira, ajudando o pai nas atividades do cinema.

Elmo Rossi, amigo próximo de Antonio Machado Basso, um frequentador assíduo das sessões de cinema do Serrano.

Batista Bossle, autor dos livros Dicionário do Cavalo, Dicionário Gaúcho Brasileiro e Cazuza Ferreira tem História para Contar. Mantém o site www.gauchadas.com.br e o blog www.familiabossle.blogspot.com.br

Como viver com leveza na falta

Nestes tempos sombrios que nos absorvem por todos os lados, do pessoal ao profissional, passando pela questão política, busco jeitos de viver com leveza em meio às dores que me assaltam a qualquer hora. Sem pedir licença. Os caminhos, muitos, desdobram-se à minha frente, mas estou com dificuldades de achar o rumo nesta encruzilhada. Às vezes, entre a agitação e as cobranças que eu mesma me faço, produzo incessantemente. Em outras, paraliso. Ou viro um ponto de interrogação. Ou sou tomada por uma emoção tão grande, radicalmente humana, que se transforma em reflexão e acabam em lágrimas – “E qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d´água”. Mas estou na estrada. Sempre estive. E continuo. Aos solavancos.

Com a Marlene, minha irmã, sempre tive algumas estratégias para encarar o cotidiano de enfrentamentos inevitáveis, muitos bem difíceis. Em algumas situações ríamos muito. “Estou bem para enfrentar os olhares críticos do povo?”. Esta era uma pergunta clássica, sempre que uma ou outra precisava encarar uma atividade que exigia mais do que o cotidiano banal de olhares invasivos: Uma aula com turma nova. Uma coletiva de imprensa. Uma banca de mestrado ou doutorado. Um cliente novo. Uma palestra. A abertura de um evento. Um encontro de trabalho. Uma entrevista. E a resposta vinha firme: “Estás toda lorde, vai!”. Era uma forma de diluir a ansiedade e o medo, descontrair, tirar a importância. Tínhamos códigos e frases simbólicas, além de uma cumplicidade deliciosa que ficou amorosamente na memória.

É com esse espírito que procuro assimilar a partida do meu amigo José Walter de Castro Alves, o Zé, no dia 12 de fevereiro de 2020, para o infinito que desconhecemos, por mais que tenhamos crenças e fé. O buraco que se abriu é enorme. E preciso me entender neste redemoinho. Espirituoso, crítico, revisor de texto preciso, firme e delicado nas suas ponderações, acolhedor, com um olhar absurdamente sério para as questões de trabalho, mas com um humor implacável nas suas observações, Zé deixa um vazio, da colocação de uma simples vírgula até uma conversa densa sobre religião, política ou um papo trivial.

Desde que nos conhecemos, discutimos muito, no bom sentido, é claro. E sei que aprendi com ele um olhar mais abrangente e pausado, que foi a nossa salvação em alguns momentos de trabalho, contando sempre com as observações e imitações implacáveis da Kixi Dalzotto. Zé era fã incondicional do humor da parceira, que chamávamos de “Inezinha” quando ela, por pura diversão, se comportava como uma “socialite”. Ríamos muito. E nos divertíamos com o uso de expressões como “é um diferencial da empresa”, “iniciativa única” ou “iniciativa ímpar”, entre tantos outros jargões, típicos da publicidade e do marketing que, inevitavelmente, usávamos no material enviado para os meios de comunicação. Enfim, tarefas de assessores de imprensa que somos.

Zé era músico, tocava violão muito bem e deixou canções lindas que fez para os netos Flora e Joaquim, para os filhos do Cassiano, meu sobrinho, e da Cláudia – Arthur, Eduardo e Laura, para as filhas dos sobrinhos Gonçalo/Magrão – a Bia, e do Gustavo/Guga – a Gabi. E “Bambuzais” que ele compôs em Bagé quando andou por lá trabalhando em uma campanha política, música que me emocionou desde a primeira vez que ouvi e hoje ainda mais.

E por falar em música, o trecho de uma canção chamada “Serenata”, na voz de Celso Sim, traduziu o meu sentimento dois anos depois da morte da Marlene – “Um sabiá, na palmeira, longe / Canta, canta pra ti / Ele bem sabe a dor da saudade / E canta, canta pra ti”. Ouvimos juntas pela primeira vez no Theatro São Pedro, em show do José Miguel Wisnik. Essa mesma canção traduz hoje o meu sentimento em relação ao Zé. No link abaixo a versão de Arthur Nestrovski para a música, na voz de Lívia, sua filha, acompanhada por ele ao violão – https://www.youtube.com/watch?v=iQVTCp6x520. Integra o repertório do CD “Pós você e eu”, com os dois. No encarte, um texto muito bom e bem humorado, assinado pela irmã caçula de Lívia, Sofia, diz algo que já me confortou e conforta agora: “A música ensina a transformar o tempo vazio em tempo interior”.

A música salva. Assim como a escrita me salvou ao me colocar em contato com movimentos e coletivos engajados na luta por acessibilidade e inclusão. Textos que fiz e que Zé sempre revisou, entre tantos outros, na busca por direitos sociais, voz, equilíbrio, respeito, cidadania, reconhecimento, independência, acolhimento, que sempre dividi e discuti com ele.

Assim, percebo agora que aprendemos juntos a falar, a entender os nossos tantos limites e ampliamos a discussão sobre o nosso estar no mundo. “Existirmos, a que será que se destina?” A pergunta do compositor Caetano Veloso na canção “Cajuína” sempre esteve no nosso horizonte. E está no ar. Por isso hoje, mais uma vez, confirmo que existir é perguntar, é questionar, é não fugir dos sentimentos, não se acomodar, é buscar forças e preencher os vazios que vão se acumulando. É viver o luto. É resistir, apesar da dor, abrir portas, ampliar os relacionamentos. O nosso estar no mundo é feito assim, até o ponto final. Fundamental, então, é sensibilizar ainda mais o olhar para o outro e entender que a falta que nos fragiliza é da condição humana.

Mas é carnaval!

Sempre fui carnavalesca. Do salão da Sociedade Cruzeiro em São Francisco de Paula, à Praça Castro Alves em Salvador/Bahia, ao som das marchinhas de bandas do interior ou dos trios elétricos na cidade grande.

Quem sabe ainda teremos a chance, como escreveu e cantou Vinícius de Moraes, de “viver e brincar outros carnavais / com a beleza / dos velhos carnavais / que marchas tão lindas / e o povo cantando / seu canto de paz”. Não sou saudosista, mas adoraria tomar as ruas com um canto de paz, celebrando a vida em um país digno, que respeita sua gente.

A seguir boas lembranças de muitos carnavais.

Conheci o carnaval baiano, ápice do ciclo de festas que caracterizam o verão, nos anos 1970/1980. Lá passei os melhores carnavais da minha vida, encantada com a maior e mais popular festa de rua brasileira. Transbordando de euforia e molhados de suor e cerveja, todos brincavam espontaneamente ao som dos trios, afoxés, blocos e cordões.

Folia definida pelo sociólogo baiano Antônio Risério como “um baile imenso, colorido, feérico e frenético”, que se espalha pelos becos, praças, avenidas, orla e contagia até a mais empedernida das criaturas. Do Largo do Pelourinho, passando pelo Terreiro de Jesus, Praças da Sé, Castro Alves e Municipal, Avenida Sete de Setembro, até o Farol da Barra são mais de 15 quilômetros de chão totalmente tomado por uma massa enlouquecida. Um roteiro carnavalesco por onde cruzam os tipos mais incríveis, levados pela magia e pelo calor humano que tomam conta da cidade nesta época. Todos pulam, cantam, dançam, vivem o carnaval na sua plenitude, noite e dia, como se não houvesse amanhã.

Salvador foi descoberta pelo turismo na década de 1970 e se transformou num atraente polo no verão. Turistas, curiosos e curtidores, hippies e viajantes do Brasil e do mundo, chegavam lá a procura do paraíso perdido à beira mar ou de uma sonhada “capital do prazer”, onde tudo fosse permitido. Uma invasão que mudou a fisionomia da cidade. A anarquia, o delírio, a catarse geral provocada pelo carnaval, constituem a essência desta busca desenfreada.

Foi na Praça Castro Alves que vi, senti e participei intensamente do carnaval de rua de Salvador. Lá se juntavam artistas, intelectuais, turistas, comerciantes, homossexuais, mulheres, homens, velhos e jovens. Tipos física e socialmente diferentes que brincavam juntos como se sempre tivesse sido assim.

“A Praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião”, canta Caetano Veloso, que define como poucos o espírito do carnaval baiano. Um espetáculo de rara beleza plástica e humana, pelo qual ninguém passa impunemente. Para Gilberto Gil, o carnaval é uma manifestação séria e complexa, “um espaço muito curto para a transfiguração, para a loucura, para a reconciliação total com a carne, que é ignorada o ano todo”. Há uma explosão total de vida. E todos os vícios e virtudes do ser humano fluem naturalmente. Afinal, tudo é permitido.

Além da conotação de festa popular e de prazer, o carnaval da Bahia, especialmente em Salvador, é uma vitoriosa afirmação cultural dos negros. São eles os responsáveis pela essência do carnaval. Proibidos de frequentar os salões do branco, pela condição de escravos, os negros dançavam e cantavam na rua, na tentativa de manter viva sua origem africana. Com graça, magia, sensualidade e muita pulsação, eles passavam noites inteiras entregues a rituais típicos das regiões de onde vinham.

E é nas ruas que pulsa a alma do carnaval baiano. E nas ruas estão os negros com seus blocos afros, o som ijexá, a percussão, o batuque, os metais dos afoxés, mostrando a autenticidade da sua arte, inteira e envolvente, apesar de todo tipo de repressão a que foi submetida. É uma exibição rica em originalidade, beleza e força, que flui através de uma coreografia harmoniosa. E todos são convidados a dançar.

Participação é a característica fundamental desta festa colorida, cheia de ritmo, que os negros levaram para as ruas e que hoje é de todo mundo. Com ou sem dinheiro. Com ou sem fantasia. O luxo, a pompa e a riqueza também podem fazer parte, mas não são características essenciais. O que importa são as pessoas que se deixam levar ruas afora, integrando-se deliberadamente no mais autêntico e democrático salão de baile do país.

Os antropólogos afirmam que o carnaval é o momento em que esquecemos a seriedade. É um espaço ritualístico onde as diferenças culturais, sociais e comportamentais se dissolvem. Pobres, ricos, homossexuais, machos, fêmeas, todos se irmanam na avenida. Em um país como o Brasil, onde uma minoria concentra poder e dinheiro e a maioria se debate na miséria, está cada vez mais difícil ignorar as diferenças. Mas no carnaval que brinquei nos anos 1970/1980 ainda era possível a ilusão de que somos todos irmãos. Que se dane a política, a crise, a desgraça cotidiana. Quem está na rua quer se entorpecer um pouco. E são milhares e milhares de pessoas que suspendem delirantemente o cotidiano para perder-se de alegria e liberdade. E volto à música de Caetano Veloso – “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. E o povo está vivo e faz a festa com brilho nos olhos. “Amanhã há de ser outro dia”, cantou Chico Buarque.

Nestas duas décadas, o carnaval de Salvador contava com a presença de homossexuais que vinham de todas as partes e aproveitavam a loucura geral para liberar sua opção sexual, tão reprimida e condenada pela sociedade. No início, a manifestação era disfarçada e eles saíam às ruas mascarados, dando um toque especial aos dias de folia. Aos poucos, foram conquistando espaço e já não precisavam se esconder. Tornaram-se comuns os desfiles das “bichas” na Praça Castro Alves. A escadaria era a passarela. Ali faziam o espetáculo, exibindo-se, tirando a roupa, mostrando em tom irônico que eram homens que desejavam homens e queriam manifestar seus sentimentos livremente.

Entre risos, espanto, agressão e afirmação, os gays se fizeram respeitar. Sem máscara, sem medo e sem bloqueios tomaram conta da Praça, das ruas, abraçando, beijando, amando ao som dos afoxés. Nos cinco dias de catarse coletiva, tudo parecia natural. O carnaval era terreno livre para o bem de todos.  E foi assim que comecei a entender a riqueza das diferenças. Salve o carnaval baiano!

Nossa insanidade cotidiana

 

Um país em que o governo brinca ironicamente de fazer “arminha” com os dedos é responsável, sim, pelo aumento da violência. Ao tratar com naturalidade o uso de armas por uma população que vive situações absurdamente desiguais – se olharmos para a base e para o topo da cruel pirâmide social – as autoridades máximas da nação viram as costas para os já abandonados, amedrontados, acuados. Portanto, vulneráveis, suscetíveis a atitudes por impulso. Ou para uma população que já não se choca com nada porque a barbárie, além de ocupar os noticiários de jornais, rádios e TVs, sem o mínimo contraponto, está na porta das suas casas. Está nas calçadas, nas ruas e vielas por onde andam e brincam seus filhos inocentes e sem proteção.

Soma-se a esta triste realidade, a loucura das redes sociais que julgam, condenam, destilam ódio e futilidades o tempo todo. Um tiro a mais, um tiro a menos, parece não fazer a mínima diferença nesse contexto de frases feitas, piadas indigestas, ofensas, preocupado apenas com o número e com a performance dos seguidores, onde as vozes da vaidade, do poder e da casa grande falam mais alto.

Um contexto que as canções de Chico Buarque sempre apontaram. Como “Gota d´água” – “E qualquer desatenção, faça não / pode ser a gota d´água”.  Ou como “Construção” – “Agonizou no meio do passeio público / Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. E como “Deus lhe pague” – “Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir / Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir / Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair / Deus lhe pague”. E muito, muito mais! Basta pesquisar a obra deste compositor e cantor popular.

Assim vivem e morrem todos os dias no Brasil milhares de pessoas, vítimas do descaso, do abuso, da bala perdida, do tráfico de drogas.

É o mesmo país que já não se espanta com a morte de indígenas na Floresta Amazônica, o pulmão do mundo tão cobiçado pelo grande capital que só tem olhos para o lucro. Um lucro que vem acompanhado de excesso de poder, ambição, concentração de renda, acúmulo, injustiça e destruição. Danem-se as vítimas de incêndios criminosos, das chuvas avassaladoras que levam tudo e do inegável aquecimento global, essa invenção dos comunistas, segundo alguns dos “ilustres” pensadores da “nova” política brasileira.

Do alto da sua irresponsabilidade, o presidente diz que os “indígenas estão evoluindo e se tornando seres humanos iguais a nós”. Nós, quem? Uma clara demonstração de ignorância histórica, descaso e desconhecimento do papel relevante dos povos indígenas na nossa cultura e na preservação do meio ambiente. O presidente, que nada entende destas questões e nem quer entender, chegou a afirmar que “se puder, confino ambientalistas na Amazônia”, ao defender a regulamentação da mineração e exploração de energia em terras indígenas.

Coincidentemente é também o país que não reage e não combate com veemência o assassinato de negros, pobres, homossexuais, pessoas diferentes de um modo geral, e de mulheres que, pelas estatísticas, cresceu muito nos últimos anos. É aqui que ouvimos, mais uma vez, um presidente declarar de forma absurdamente preconceituosa que “uma pessoa com HIV, além de ser um problema sério para ela, é uma despesa para todos no Brasil”. Afirmação que reforça a indigesta campanha de abstinência propagada pela nossa religiosa e tresloucada ministra da família, que não vou nomear.

É ainda o país de um presidente que debocha dos trabalhadores que estão desempregos e diz, cinicamente, que temos muitos privilégios e que, por isso, vai lançar o programa “minha primeira empresa” para quem reclama que não tem emprego.

Quem suporta tanto deboche?

Nada acontece por acaso. A banalização da violência não é um fato isolado e não se restringe aos morros cariocas, às favelas, à periferia dos grandes conglomerados urbanos. Ela está no cotidiano de cada um de nós inundado pela falta de perspectivas, pela vulnerabilidade do trabalho, pela miséria estampada nas ruas, pela morte de inocentes vítimas de balas perdidas ou não, pelos incêndios criminosos, pela discriminação racial, sexual, cultural, pelo preconceito de toda ordem.

A população que vive nas ruas em São Paulo, por exemplo, aumentou 53% em 4 anos. Hoje são 24 mil, 11,7 mil dormindo em abrigos e 12,6 jogadas nas calçadas ou sob os viadutos. E a Igreja Universal do Reino de Deus segue coagindo e seduzindo as pessoas com problemas financeiros e emocionais, que acabam doando o muito ou o pouco que têm para sair de crises. E acabam ficando sem nada, nas mãos de pastores e pastoras que fazem fortunas com a dor do outro.

Neste caldeirão dominado pela insanidade as questões vitais do país são expostas e discutidas irresponsavelmente nas redes pelo governo, seus seguidores e opositores. É um bate boca sem fim, onde um ofende o outro e nada mais. Desaprendemos tanto no ano que passou! Já não nos sobra tempo para refletir sobre a condição humana, reagir e provocar alguma mudança. E onde estão mesmo os eleitos que discursavam sobre respeito e dignidade?

Rotas perigosas apontam para o caos

 

Como se não bastasse tudo o que estamos vivendo, agora querem nos proibir de ajudar as pessoas na rua. A dica é: dar emprego e não esmola. Não entendi a mensagem. Até porque não tenho condições de oferecer trabalho a quem me aborda pela cidade. Seria maravilhoso se eu pudesse! Então, se tenho dinheiro, dou. Se estiver próxima de um supermercado ou bar, compro algo que ajude a amenizar a fome da pessoa que me pede. O aumento da pobreza é um fato indiscutível. A miséria nunca foi tão cruel, pelo menos para meus olhos sensíveis, que já viram tanto. Não há como negar. E ninguém pode me impedir de tentar amenizar a fome de um ser humano como eu.

Não há como esconder o que está escancarado. E nenhuma maquiagem vai disfarçar o óbvio. A precarização do trabalho, da educação pública, da saúde e das políticas sociais é um fato. Teremos mais pobres, mais moradores de rua, mais papeleiros e mais indivíduos vulneráveis emocionalmente. Chamá-los simplesmente de vagabundos é negar a alteridade, é não ver o outro. O problema é muito mais grave e necessita de análise profunda, sem o banal viés classista ou político-partidário. A sociedade é responsável, sim. Somos todos responsáveis. E os políticos muito bem instalados e remunerados precisam ter respostas e soluções dignas para situações extremas como estas.

Afinal, é comum os governos oferecerem ajuda a empresários quando suas empresas estão falindo e precisam demitir funcionários para ter um respiro e recuperar perdas. A crise é palpável. O desemprego aumentou. Portanto, não sejamos hipócritas. Os discursos que taxam desempregados como preguiçosos é superficial, fascista. É claro que ninguém é santo nesta paróquia, nem no topo nem na base da pirâmide. Mas o fato concreto é que reformas como a trabalhista e da previdência atingem diretamente assalariados deste Brasil da delicadeza perdida. Como fica a autoestima de uma pessoa que, de repente, perde tudo? Não dá para esconder, muito menos ficar jogando a culpa, aleatoriamente, na população.

A maior prova de que o fascismo está na ordem dos dias foi dada recentemente, para quem quiser ver e ouvir, pelo agora ex-secretário da Cultura Roberto Alvim. Ao copiar no detalhe o discurso do ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels, em um vídeo para comunicar um projeto aos artistas brasileiros, Alvim ratificou o autoritarismo de um governo sem escrúpulos, inspirado no nazismo. E não há ingenuidade nesta ação pensada/copiada e colocada em prática.

Atitude sintomática, não? Especialmente vinda do secretário de um governo que autoriza e faz uso cotidiano da violência, de forma simbólica e real, através de ameaças e atos concretos. Basta lembrar o que acontece na Amazônia – o desmatamento em nome de quem só pensa em destruir para enriquecer, a morte de indígenas que defendem suas terras, o descaso com o aquecimento global. Segundo dados do Inpe/Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a área devastada na região chegou a 9.165,6 quilômetros quadrados, a maior devastação no bioma registrada nos últimos cinco anos.

E o que se espalha pelo resto do país, negando a multiplicidade cultural que nos constitui?

O recrudescimento do racismo, o assassinato de negros e mulheres, as ações contra a lei de acessibilidade e inclusão, os discursos que destilam ódio contra um educador como Paulo Freire, contra a comunidade LGBT ou contra a arte representada pela atriz Fernanda Montenegro. Alvim deixou muito claro na sua fala aprovada pelo presidente desta república usurpada que não há espaço para a diversidade no Brasil.

A triste série de absurdos que vamos vivendo cotidianamente aponta para o caos. E, como já escrevi aqui, estamos anestesiados. Onde se esconde a nossa capacidade de indignação? E nossas instituições o que fazem? E a classe política? Especialmente, os políticos de centro, centro esquerda e esquerda que não conseguem abrir mão de suas medíocres ambições pessoais e partidárias enquanto afundamos na lama fascista? Políticos sem grandeza suficiente para mobilizar a população e promover uma união avassaladora em nome da democracia que queremos. Só vejo este caminho, que me parece tão cristalino, para tirar o país desta rota assustadora.

O mínimo de atenção para algumas falas da cúpula de Brasília já mostra porque a rota é perigosa. Certamente todos já ouviram as desastradas colocações do ministro da Educação, Abraham Weintraub. Ou do chanceler Ernesto Araújo. Ou a loucura explícita da ministra da Família, Mulher e Direitos Humanos, Damares Alves e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que parece nada entender da questão ambiental. E do ministro da Economia, Paulo Guedes, do ministro-chefe do Gabinete da Segurança Pública, general Augusto Heleno, entre outros.

O presidente já se referiu a torturadores como heróis ao elogiar Brilhante Ustra quando ainda era apenas um deputado que fazia manifestações histéricas e descontroladas no Parlamento. Já elogiou ditadores como Pinochet e Stroessner. Ofende grosseiramente quem lhe contesta, como fez com Maria do Rosário, com o presidente da França e faz quase todos os dias com a imprensa. Vê toda manifestação popular como terrorismo ou “coisa de comunista”. Já declarou que vai varrer do mapa os opositores políticos, expulsando-os do país, com o objetivo de fazer “uma limpeza nunca vista na história desse Brasil”. Chamou nordestinos de “Paraíba” e disse que todo cearense é “cabeçudo”. Já fez a apologia do trabalho infantil e faz pouco caso do trabalho escravo. No absurdo mais recente, diz que “esquerda não merece ser tratada como ‘pessoas normais’”. E não se cansa de fazer observações irresponsáveis sobre assuntos sérios nas suas indigestas redes sociais. Esperar o que do presidente de uma nação que se comporta assim? Não dá mais para fingir que nada está acontecendo. Ou, como canta Gonzaguinha, “não dá mais pra segurar, explode coração”.

Incertezas, inquietações, interrogações

 

Pois então, 2020 é fato. Nada mudou, é certo. Mas a possibilidade de alterar alguns números, apenas dois, acendeu uma luzinha tímida de esperança na passagem de ano. Luz que se apagou logo ali adiante – no alvorecer do dia já cansado depois dos excessos e da euforia tradicional da festa.

Há algum tempo já não faço planos. E procuro não criar expectativas. Também já não priorizo a organização, mesmo carregando o rótulo de pessoa organizada. As surpresas da gangorra da vida, para o bem e para o mal, foram/são tantas que fui abrindo mão de coisas que acreditava serem importantes para seguir com mais leveza. Quando menos se espera, um acontecimento nos paralisa, angustia, enlouquece. Arranca as certezas mais banais. Rouba nossa tranquilidade.

O tempo é de incertezas, sob os mais diversos aspectos. Se entendêssemos minimamente a fragilidade da condição humana, não seríamos tão ingênuos nem tão prepotentes. Pelo contrário. Seríamos gentis, humildes, solidários, firmes. Exerceríamos verdadeiramente o que chamamos de humanidade. Mas essa delicadeza nos foi roubada pela rudeza dos dias.

O tempo é de inquietações. Algumas tão internas, carregadas do medo de perder e de uma emoção avassaladora. Outras, estruturadas na consciência do ser social e político que somos. O meu tempo, neste momento, é feito de indignação e tristeza. É muito difícil, para quem viveu e lutou nos ásperos anos da ditadura militar, o enfrentamento com a degradação moral que se impõe hoje no Brasil. Ver a ignorância ocupar o lugar da sabedoria. E, consequentemente, acompanhar a negação explícita da cultura, da arte, da educação, do conhecimento, conquistas que dão asas aos voos e nos fazem seres livres e críticos. É duro suportar a arrogância e a soberba do poder medíocre e corrosivo do Brasil atual pisoteando nossos sonhos.

O tempo é de muitas interrogações. O que leva algumas pessoas a sentir uma superioridade tão raivosa e cruel? O que leva quem está no comando a fazer a apologia da violência, autorizar a destruição do meio ambiente e a morte de quem reage e diz não? Por que insuflar o preconceito e retirar direitos de quem já vive praticamente com o mínimo?  Por que querem um povo subjugado, sem opinião e sem dignidade? O que está dado é o resultado de ambições desmedidas, excesso de poder, dinheiro em demasia, cargos e salários milionários que compactuam com a corrupção para manter privilégios, uma camada social que ainda almeja a casa grande para ser servida pela senzala.

O tempo é de discursos medíocres, discussões bizarras nas redes sociais e aplausos para a imbecilidade explícita, enquanto o mundo desaba sobre nossas cabeças. E seguimos anestesiados, apáticos diante de tanta insanidade.