Fragmentos do cotidiano de quem busca a inclusão

A inclusão pode ser simples assim
O menino parou e me olhou com os lindos olhinhos arregalados e curiosos. Olhou para a mãe, sério, e disse: “Tô achando essa pessoa muito estranha”. Parecia ter uns 5 anos. A mãe, delicadamente, falou: “Então, conversa com ela”. Perguntei: “O que tu estás achando estranho?”. Ele: “O tamanho”. Eu: “Somos quase do mesmo tamanho”. Ele: “Mas é diferente. Tu tá sozinha?”. Respondi que sim e completei: “É que eu sou uma adulta pequena”. Ele puxou a mãe pela mão e disse, aliviado: “Ela é uma adulta pequena, mamãe!”. A mãe, sábia, comentou: “Pois é! Vocês podem ser amigos. Dá um beijo nela”. Ele veio, sorrindo, me deu um beijo e um abraço. E se foi, me abanando. Encarar com naturalidade a fala da criança, responder e explicar afasta os fantasmas e aponta para a riqueza da diversidade humana.

"Incluídas", por Tamar Matsafi

“Incluídas”, por Tamar Matsafi

A inclusão pode ser complicada assim
A menina me olhou assustada, puxou a mãe pelo vestido, apontou o dedinho para mim e foi dizendo: “Olha, olha!”. A mãe não me olhou, deu um safanão na criança e foi saindo e falando rispidamente: “Onde está o respeito? Tu sabes que não se deve fazer isso”. Não tive tempo para dizer nada. E elas se foram. Fazer o quê? Fiquei pensando com os meus botões. A criança foi reprimida na sua espontaneidade. Não falar é abrir uma fresta para que o preconceito entre e vá se acomodando, quieto e perigosamente.

Nossa diferença é a nossa fortaleza
Lute como uma menina. Nesta quinta-feira, 16 de março de 2017, às 17h, na sede do Coletivo Feminino Plural (Andrade Neves, 159, sala 85, Centro Histórico de Porto Alegre), uma roda de conversa com jovens estudantes que participaram das ocupações das escolas em 2016 marca o lançamento do projeto “Mandala da Diversidade – Nossas Diferenças, Nossa Fortaleza”. O projeto busca dar visibilidade a jovens ativistas de 13 a 18 anos, aprofundando questões de gênero, etnia e raça, diversidade, mulheres com deficiência, sexualidade, comunicação e política. Informações pelo email pontodeculturafeminista@gmail.com. Cada vez mais, precisamos colocar esses temas nas nossas rodas de conversa.

Ícaro desejou voar
“Ícaro” coloca em cena um cadeirante, Luciano Mallmann, que sofreu uma lesão na medula ao cair durante uma acrobacia aérea em tecido no Rio de Janeiro, em 2004. Entre o real e a ficção, a montagem nasceu da experiência do ator e de pessoas que conheceu depois que passou a usar cadeira de rodas. As histórias tratam de temas universais, resiliência, relacionamento entre pais e filhos, relações amorosas, suicídio, preconceito, gravidez e maternidade. “Se eu não fizer a minha história e simplesmente esperar alguém me chamar para um trabalho não faço quase nada. Já é difícil para quem tem todas as possibilidades ser chamado”, assinala Luciano, produtor, intérprete e autor dos textos. A direção é da atriz Liane Venturella. A iluminação de Fabrício Simões e a trilha sonora de Monica Tomasi sublinham cada cena da peça que está em cartaz no Instituto Goethe até 26 de março. “Ícaro” é, acima de tudo, um espetáculo sobre a condição humana. “Somos todos iguais, cadeirantes ou não, temos dificuldades em relacionamentos, medos etc. Espero contribuir com essa peça para o debate”.

Luciano Mallmann em Icaro, foto de Jonathan Heckler

Luciano Mallmann em Icaro, foto de Jonathan Heckler

Uma pessoa não pode ser definida pela sua deficiência
Ednilson Sacramento faz Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, na Universidade Federal da Bahia. Por uma dessas felizes coincidências, um e-mail dele me foi encaminhado por um amigo. Ednilson é cego, condição que o impulsionou a fazer o trabalho de conclusão de curso voltado para a linguagem. Mais especificamente, para o vocabulário usado quando o assunto é a pessoa com deficiência. As novas abordagens e nomenclaturas pertinentes, o que deve ou não ser usado, o peso de uma expressão, de uma palavra, para quem já é estigmatizado. Um trabalho necessário que, com certeza, será muito bem-vindo. Uma reflexão singular sobre um assunto pouco pensado. Estou aguardando ansiosa.

 

A possibilidade da reinvenção e do sonho, sem tragédias

No país do jeitinho, vamos, lamentavelmente, nos ajeitando. Assujeitando. O olhar enviesado para as pequenas dores latentes, físicas ou da alma. Parece que o importante é ir ultrapassando os obstáculos do cotidiano, em silêncio quase conformado, sem importunar ninguém.

Mas os abusos saltam e entram pelos olhos. Mesmo fechados. E, apesar do cansaço, reativamos a inquietação e a necessidade de não aceitar o que não nos pertence.

"A possibilidade da luz", por Tamar Matsafi

“A possibilidade da luz”, por Tamar Matsafi

A entrevista da professora e médica Izabel Maior, uma das pioneiras do movimento político das pessoas com deficiência no Brasil há mais de 30 anos, fez isso comigo. Mais uma vez, tive a certeza de que tudo anda muito devagar quando o assunto bate na cidadania, no direito de ir e vir e na independência possível. Mais uma vez, me dei conta de que é preciso atenção para não deixar o padrão de normalidade e o modelo de perfeição impostos colarem na gente e nos fazer, de uma forma ou de outra, alimentar a doença de uma sociedade que não vê o outro.

“Não vivemos no tempo das cavernas para eliminar pessoas com deficiência, mas essas pessoas ainda vivem segregadas”, enfatizou Izabel, a primeira pessoa com deficiência – uma lesão medular aos 22 anos – a comandar a Secretária Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência no Brasil (Fernando Henrique e Lula) . “O ser humano tem a capacidade de se reinventar, mas o desconhecimento do outro é um traço forte. Somos ainda muito resistentes a mudanças. Achamos que pessoas merecem rótulos, e muitos deles as inferiorizam”.

Izabel Maior - Divulgação Prêmio Claudia 2010

Izabel Maior – Divulgação Prêmio Claudia 2010

Ela falou sobre o tema “Deficiências e Diferenças”, no Café Filosófico da TV Cultura (https://www.youtube.com/watch?v=29JooQEOCvA – agosto de 2016), terceiro encontro da série “O valor das diferenças em um mundo compartilhado”, que teve a curadoria do psiquiatra e psicanalista Benilton Bezerra Júnior, doutor em Medicina Coletiva.

Se o Brasil tem hoje uma das legislações mais fortes em relação à pessoa com deficiência, deve-se, em grande parte, a luta incansável desta mulher, sua alma de ativista e seu olhar voltado para os mais vulneráveis entre os vulneráveis. Izabel Maior alia o conhecimento teórico de médica fisiatra, professora universitária com mestrado em Deficiência pela Universidade de Salamanca, na Espanha, e especialização em Bioética pela Universidade de Brasília ao saber técnico de gestora pública. Reconhecida pela Organização dos Estados Americanos/OEA, lançou em parceria com a Organização dos Estados Ibero-Americanos o filme-documentário “História do Movimento Político das Pessoas com Deficiência no Brasil”.

Foi nos anos 1970 que alguns movimentos coletivos tomaram vulto e mudaram o conceito de deficiência, que deixou o campo puramente biomédico e ganhou contornos sociopolíticos, de direito à diferença. Izabel defende o lema “nada sobre nós, sem nós” e diz que “não é o limite individual que determina a deficiência, mas sim as barreiras existentes no meio”. A atitude preconceituosa das pessoas, a arquitetura, o transporte público, a comunicação, a falta de acesso a bens e serviços, entre outras questões, travam a autonomia verdadeira.

E, então, lá vem o jeitinho. E seguimos fazendo do jeito que dá.

Mais de 15% da população mundial têm algum grau de limitação funcional e boa parte dessa grande minoria ainda enfrenta discriminação, invisibilidade e está isolada da convivência social. Não por desejo delas, já que a funcionalidade das pessoas, em um mundo com recursos tecnológicos para compensar os limites, não impede a convivência. Em sua fala, a médica se referiu à desconstrução dos problemas relacionados ao estigma, “que leva a não aceitação do outro como ele é. Não respeitamos pessoas que não sejam exatamente iguais”.

“Mas iguais a quê?” – essa é a pergunta.

A pessoa com deficiência tem que provar o tempo todo que é capaz. “É o famoso ‘matar um leão por dia” e a mídia não é uma aliada efetiva nessa luta. “Segue falando ‘o deficiente’, por exemplo, e ainda investe no sensacionalismo: se não tem superação, não tem notícia”. Para a médica, o imperativo da superação cria um desequilíbrio. É a pessoa com deficiência que deve se adaptar à sociedade, e não o contrário.

O recado é: “Mude você se quiser ser norma”.

A sociedade só vai mudar quando admitir a discriminação, principalmente em relação a pessoas com deficiência, que fazem parte de outras minorias. “Eu, por exemplo, sou uma pessoa com deficiência, mulher, na terceira idade”, salientou Izabel. Sobre as cotas, ela foi enfática. Só existem porque existe discriminação, mas a maior barreira ainda é o mercado de trabalho. “Quando se fala em cota, não significa que a pessoa vai passar com qualquer nota. A entrevista (de emprego) ainda é a prova de que a discriminação existe. A lei de cotas é uma maneira de contornar isso”. Ela criticou também os resultados práticos da lei de inclusão. “É preciso fiscalizar a sua aplicação”.

Só vamos chegar ao desenvolvimento social que buscamos quando entendermos que cada um tem contribuições a dar, a partir da sua diferença, do seu jeito de ver o mundo, do seu saber e da sua maneira de colaborar para a qualidade de vida de todos. A luta dos cidadãos é a mesma. “É contra a discriminação, é contra o apartheid, é contra a falta de oportunidades, é contra a reiterada posição de discriminar parecendo que não está discriminando”.

“Ainda bem que os nossos sonhos permanecem”.

"Ver o outro", por Tamar Matsafi

“Ver o outro”, por Tamar Matsafi

Ordens são ordens! E ponto? E basta? É isso mesmo?

Ordens são ordens! E ponto? E basta? É isso mesmo?

Revendo “O dia em que Dorival encarou a guarda”

"O dia em que Dorival encarou a guarda", por ChristianLesage

“O dia em que Dorival encarou a guarda”, por ChristianLesage

Toda vez que me deparo com a intransigência e com pessoas que só se pautam pela burocracia, não são razoáveis e não conseguem ver a rigidez insensata das normas, salta da minha memória o genial curta-metragem “O dia em que Dorival encarou a guarda”, de Jorge Furtado e José Pedro Goulart. E, mais uma vez, me dou conta do enredo incrível do filme que escancara o autoritarismo burro e a violência desnecessária.

Há algo de muito atual nesta curta história
Adaptação de uma passagem do romance “O Amor de Pedro por João”, lançado em 1982 pelo escritor Tabajara Ruas, o curta é uma produção da Casa de Cinema de Porto Alegre (http://www.casacinepoa.com.br/. Fala sobre prisão, racismo, repressão, estupidez, mediocridade e outras tantas atitudes insanas, traduzidas pela frase “Ordens são ordens”. São 14 minutos frenéticos, que cruzam humor e violência em doses exatas, como escreveu o escritor Caio Fernando Abreu para O Estado de São Paulo, no dia 8 de agosto de 1986, ano do lançamento do filme.

Vi pela primeira vez no Festival de Cinema de Gramado. Desde então, virou filme de cabeceira, assunto de muitos debates e muitos encontros.

A história é absolutamente simples. Na prisão, o negro Dorival, em uma noite de muito calor, pede para tomar um banho. O pedido inusitado espanta e desencadeia uma rede de covardia, submissão, falta de discernimento e loucura dos carcereiros. A manifestação do desejo, apenas um banho, toma uma dimensão desproporcional. Do soldado ao cabo, passando pelo sargento e chegando ao tenente, autoridade máxima da carceragem, vai desvelando uma obediência cega, sem fundamento, covarde, e o medo do enfrentamento.

"O dia em que Dorival encarou a guarda. Ator João Acaiabe", por Christian Lesage

“O dia em que Dorival encarou a guarda. Ator João Acaiabe”, por Christian Lesage

A transgressão e a coragem de Dorival, que enfrenta a incapacidade da guarda e questiona a falta de argumento de quem lhe nega um banho, provoca a convocação de um bando de soldados para enfrentá-lo. Encurralados, eles só conseguem responder a partir do que recebem: autoritarismo e violência. Dorival é agredido ferozmente e fica jogado no chão da cela, sangrando.

É nesse momento que a ordem é maravilhosamente subvertida. O sargento, negro como Dorival, leva-o para o chuveiro. A água cai sobre ele como uma bênção. Ele sorri apaziguado. O instante, redentor, ganha ainda mais emoção e poesia quando o sargento acende um cigarro e coloca na boca do preso. A humanidade de um gesto fora da ordem salta aos olhos de todos nós e restabelece a esperança.

O filme
Direção: Jorge Furtado e José Pedro Goulart
Roteiro: Giba Assis Brasil, José Pedro Goulart, Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo
Direção de Fotografia: Christian Lesage
Direção de Arte: Fiapo Barth
Música: Augusto Licks
Direção de Produção: Gisele Hiltl e Henrique de Freitas Lima
Montagem: Giba Assis Brasil
Assistente de Direção: Ana Luiza Azevedo

Elenco Principal
João Acaiabe (Dorival)
Pedro Santos (Soldado)
Zé Adão Barbosa (Cabo)
Sirmar Antunes (Sargento)
Luiz Strassburger (Tenente)

Prêmios
– 1º Prêmio Iecine (Governo do Estado/RS), 1985-86: Apoio à produção.
– 14º Festival do Cinema Brasileiro, Gramado, 1986 – Melhor Curta Nacional (dividido no Júri Oficial, sozinho no Júri Popular e no Prêmio da Crítica), Melhor Ator de Curta (João Acaiabe) e mais 4 prêmios regionais (Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Montagem).
– Troféu Scalp 1986: Destaque do ano em cinema.
– 21º Festival de Cinema Ibero americano, Huelva, Espanha, 1986: Melhor Curta Metragem de Ficção.
– 8º Festival Internacional do Novo Cinema Latino americano, Havana, Cuba, 1986: Melhor Curta de Ficção.
– Exibido na mostra “Os 10 Melhores curtas brasileiros da década de 80”, no Cineclube Estação Botafogo, Rio de Janeiro, 1990.

 

Outros fragmentos de um mesmo cotidiano. Da série Acessibilidade para quê?

“Se não nos movermos, o mundo encolherá para além do imaginável. Não só no lá distante. Mas aqui. (Tudo agora é um grande aqui.)” – Jornalista Eliane Brum, na coluna desta semana para o El País, O que o velho Araweté pensa dos brancos enquanto seu mundo é destruído?, onde fala sobre o impacto da construção da hidrelétrica de Belo Monte e o extermínio cultural de povos indígenas, agravado com a extração de ouro pela empresa canadense Belo Sun.

"Mover-se", por Tamar Matsafi

“Mover-se”, por Tamar Matsafi

Precisamos nos mover para que a nossa capacidade de luta e a nossa esperança de uma vida digna na aldeia que habitamos não encolham. Por isso, insisto nas questões que se referem à acessibilidade e à inclusão e busco entendimento e respostas.

Aqui, pequenas histórias da vida cotidiana, como ela é, um jeito de mostrar concretamente o porquê da inquietude que me acompanha. Movimento necessário para sair do limbo onde insistem em nos jogar.

*Lojas Renner, rede gaúcha referência em roupas e acessórios.
Para mim, quase um deserto. Entro. Ninguém olha. Ninguém vê. Vasculho um pouco. Alcanço em alguns produtos apenas. Então, logo pergunto para um e outro atendente sobre tamanhos etc e tal. “Podes ver para mim?” Respostas monossilábicas. Nenhuma sugestão. Não se dão conta, mesmo que o meu tamanho grite “tenho dificuldades de encontrar roupa”, que na pergunta que faço está embutido um pedido de ajuda. E já saem para arrumar prateleiras, o que, me parece, é o que fazem o tempo todo. Por esses e outros dissabores, deixei de frequentar as lojas do centro de Porto Alegre e do Shopping Iguatemi.

O “sirva-se você mesma e vá para o caixa pagar”, explícito na atitude, não me serve. Assim como não me servem o Self Made Man ou o We Can. Necessito da interação, não apenas pelos meus 1m10cm de estatura. Gosto de parceria, de um olhar, de um sorriso, de uma gentileza, de um “posso te ajudar?”. Fazer o quê!

No dia 6 de fevereiro, voltei à loja, no Shopping Total. Tratamento ainda mais impessoal. A sensação que ficou é que as pessoas que estão ali para atender o público, todas muito jovens, são orientadas para não sorrir, não perguntar “quer uma ajuda”, não interagir de forma alguma. Que dirá perceber que estão diante de um ser humano com necessidades especiais. Continuam monossilábicas e parecem fazer de tudo para não serem solicitadas.

Quase robôs! Assim como alguns atendentes de bancos, de laboratórios de exames, de repartições públicas e privadas. Virou norma agora? Que orientação esses profissionais recebem? O atendimento deixou de ser a alma do negócio? A tal qualidade total tão apregoada pelo marketing das empresas desandou ou é isso mesmo?

"Perplexidade", por Tamar Matsafi

“Perplexidade”, por Tamar Matsafi

*Mercado Público de Porto Alegre, onde pulsa freneticamente o coração da cidade.
Adoro o entra e sai. O burburinho. As bancas. O café. A padaria. As histórias. As vidas que cruzam cotidianamente por ali. A diversidade. Mas definitivamente não é um lugar para mim. Se estou sozinha, então, melhor nem tentar. Não alcanço em nada. E as pessoas tomam conta dos balcões como se fossem perder a última oportunidade de compra se fizerem uma gentileza. Não dão espaço. Não dão trégua. Salve-se quem puder! Quando, por ventura, consigo acessar um atendente, sou muito bem tratada em qualquer uma das bancas. Mas até conseguir são muitos empurrões, muitas admirações, muita mão na cabeça e as inevitáveis, para não dizer lamentáveis, observações: “Ah, pensei que fosse uma criança”. “Que engraçadinha!”. Haja paciência.

*E volto ao transporte público.
Na Praça 15, ônibus para o bairro. Fila enorme. As pessoas se empurrando, como se o ônibus fosse fugir e deixá-las ali plantadas para sempre. Resisto à pressa, aos apertos e aos comentários desagradáveis até entrar, sentar e observar, calmamente.

E a saga continua. Linha 10, carro número 6480, bairro Auxiliadora rumo ao centro, mais ou menos 11h15min. Uma senhora de muleta tenta entrar. Larga a muleta para se segurar. Quem ajuda? Uma senhora bem mais velha que também necessita de cuidado. O motorista olha. A cobradora, sorridente, também olha. E pede agilidade – “um passinho mais a frente, por favor”.

Relaxo e me pergunto: De onde vem esta ansiedade toda, este medo de perder o lugar, esta insistência em não ver o outro? Perdemos mesmo a delicadeza? É urgente evitar o encolhimento humano.

 

Por mais atitude

Na busca de respostas para infinitas perguntas que envolvem acessibilidade e inclusão, entendi que precisamos de ações concretas. Atitude! “Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um”, escreveu o arquiteto João Filgueiras Lima. Normas, regras, estatutos e tudo o que aparece como necessário para tornar a vida mais fácil, na maioria das vezes, fica no discurso ou no papel. A começar pela Constituição Brasileira que diz no artigo 5º, Capítulo 1, que trata dos direitos e deveres individuais e coletivos: todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Somos?

E por aí vamos.

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada pela ONU em 2007, ratificada pelo Congresso brasileiro e promulgada pelo presidente da República em 2009, fala em respeito pela dignidade, autonomia e independência das pessoas, a não discriminação e a igualdade de oportunidades, o direito à plena e efetiva participação e inclusão na sociedade e o respeito pela diferença. Temos?

Acessibilidade para quê?

Acessibilidade para quê?

Vigente no país desde 2000, a Lei federal 10.098 (regulamentada, em 2004, pelo Decreto 5.296) estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade, suprimindo barreiras e obstáculos nas vias e espaços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma de edifícios, nos meios de transporte e de comunicação. Onde?

Na década de 1990, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e a Câmara Municipal de Porto Alegre aprovaram leis que determinam o acesso e a circulação livre, segura e independente a todas as pessoas nos espaços públicos. Como?

Partindo do cumprimento do que cito acima, a acessibilidade estaria dada, de forma singela e efetiva. Engano. É evidente que quase nada funciona na prática e que nas questões que envolvem direitos humanos a sociedade não é tão magnânima quanto faz parecer que é.

Desconhecemos as leis e o significado real de palavras como acessibilidade e inclusão. Não nos ocupamos desses assuntos no cotidiano. Não buscamos informações concretas sobre Braile, Libras, audiodescrição, piso tátil, só para ficar em alguns exemplos.

Como chegar lá?

Como chegar lá?

Como avançar, então?

É fundamental divulgar e trabalhar as questões relacionadas aos direitos das pessoas com deficiência nas repartições, públicas e privadas. Sensibilizar os profissionais que fazem o atendimento nesses lugares. Mexer na infraestrutura física para tornar os espaços adequados e facilitar o acesso. Precisamos estar de olhos e ouvidos bem atentos.

Um banco pode ajudar

Um banco pode ajudar

Sempre me pergunto nos meus inúmeros embates internos com os bancos: O que deve custar para uma instituição financeira um balcão ou um caixa eletrônico mais baixo? Imagino que só com os juros que dois ou três clientes comuns, assalariados, pagam no ano, dá e ainda sobra.

O que deve custar um balcão adaptado para uma repartição pública, um laboratório de exames médicos ou qualquer outra organização que lida com uma gama de indivíduos? Para um hotel, que recebe pessoas de todo tipo, ter móveis mais adequados? Para um projeto contemporâneo de engenharia ou arquitetura pensar na diversidade humana? Vamos fazer essas contas e apresentar aos executivos dos serviços públicos e privados.

Vamos formular novas questões, como sugere o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que morreu em 9 de janeiro deste ano, no livro “Confiança e Medo na Cidade”: “As diferenças nos incomodam e nos impedem de interagir, de atuar amistosamente e que, se quisermos compreender nossas diferenças, precisamos formular novas questões”.

 

Em tempos ásperos Há que…

Há que ter paciência para enfrentar a cidade, sua concretude explícita e agressiva no verão de extremos e seus humanos que vão e vêm atordoados, às vezes tão impermeáveis. Há que desviar os olhos dos espigões azulados, disfarçados de céu, e das marcas de empreiteiras sem escrúpulos que descaracterizam o espaço urbano, com o aval de governos e administradores públicos que se corrompem por um punhado de reais.

"Tempos ásperos", por Tamar Matsafi

“Tempos ásperos”, por Tamar Matsafi

Há que tomar o ônibus no ponto escaldante, mesmo que pare longe da calçada e seja difícil o acesso e o equilíbrio ao subir.                                                                                 Há que suportar o olhar do motorista que, apesar de piedoso, não percebe que estacionou de forma inadequada e não consegue ver a diferença. Já é muito para ele carregar os cansados passageiros do cotidiano pelas ruas tumultuadas da metrópole.
Há que esticar ao máximo as pernas curtas para acessar os balcões de bancos e outros tantos balcões. Os atendentes, distraídos no cumprimento mecânico de suas tarefas, pouco sabem de acolhimento e inclusão.
Há que encarar os sorrisos e os discursos protocolares que louvam a “superação” e nada fazem pela acessibilidade.

Há que desviar dos carros estacionados irresponsavelmente nas calçadas. O espaço público, sem fiscalização, é mais das máquinas do que das pessoas.
Há que caminhar pelas ruas com o lixo transbordando na volta. Os próprios moradores colocam nos containers, misturando tudo e mostrando total descaso com a cidade, já tão abandonada. Há que ter cuidado para cruzar nas faixas de segurança. São poucos os motoristas que consideram a faixa um sinal de alerta e respeito aos pedestres.
Há que respeitar os sinais de trânsito, criados para disciplinar o movimento urbano. Mas muitos pedestres e motoristas pouco se importam com isso.

Há que enfrentar o medo de sair de casa e a inquietude que acompanha cada passo. É um medo real e é também o medo de gente como a gente que anda por aí.

Há que não se submeter ao que é imposto e ao que humilha, como falou o cidadão Eduardo Marinho, que abriu mão do conforto do mundo burguês, foi viver na rua e descobriu a arte para se manifestar (https://voosubterraneo.wordpress.com/2013/12/06/eduardo-marinho/). Como ele, penso que é preciso simplesmente viver e não cultivar o desejo insólito de vencer na vida.

O que é mesmo vencer na vida?                                                                                      Há que abandonar as “expectativas mercadológicas da excelência” e uma vida “sob estresse e sob uma cobrança que nunca irá ser satisfeita porque todos nós, seres humanos, temos singularidades, com possibilidades e limitações, sendo estas mais evidentes (como é o caso de uma pessoa com deficiência) ou não”, como escreveu Carla Abreu, que tem nanismo, no seu blog (https://www.facebook.com/abreucacau?fref=ts).

"Inocência", por Tamar Matsafi

“Inocência”, por Tamar Matsafi

Há que estimular o afeto, a dignidade, a delicadeza, o encontro, a diversidade, a tolerância.
Há que se brincar com as crianças e se cercar dos amigos e de gente do bem.
Em nome de tempos menos ásperos, acessíveis e inclusivos!

Por espaços urbanos acessíveis e inclusivos

Alertar a população e os gestores públicos para as limitações cotidianas das pessoas que têm uma deficiência e sensibilizá-los para as conquistas é compromisso de todos nós, assim como reivindicar políticas que priorizem a inclusão e a acessibilidade é um direito. Repensar a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar as dificuldades enfrentadas pelos cidadãos é um dever das administrações municipais, estaduais e federais, em sintonia com suas comunidades.

"Acessibilidade para que?", por Tamar Matsafi

“Acessibilidade para que?”, por Tamar Matsafi

Em 2016 esse foi o foco principal dos meus comentários, assunto que vai seguir no centro das minhas atenções em 2017. O objetivo é estimular a reflexão, provocar conversas coletivas em nome dos direitos humanos e da não-discriminação e impulsionar atitudes transformadoras. Não podemos deixar que essa luta caia no esquecimento ou seja ofuscada pelo descaso ou pela inércia.

Começo relembrando trechos de um texto que compartilhei no blog sobre a cidade no início da campanha eleitoral para prefeito.

A jornalista e consultora em audiodescrição Mariana Baiarle, que tem baixa visão, escreveu: “O olho às vezes me atrapalha. A visão embaraçada muitas vezes me trai. Minha retina desvairada me leva a tropeços constantes em ruas e calçadas esburacadas. Mas a rotina de tombos e tropicões me ensina também a levantar, a re-levantar e encarar a vida de diferentes maneiras”.

De forma poética, Mariana deixa claro que o espaço urbano precisa de intervenções que facilitem a vida, em perfeita sintonia com o que diz a arquiteta Flavia Boni Licht: “Acessibilidade é pensar, edificar e adequar espaços e equipamentos para a diversidade humana. Em algum momento da vida, uma parcela significativa da população tem sua mobilidade reduzida: idosos, gestantes, crianças, mães que carregam bebês no colo e/ou carrinhos, pessoas em processo de reabilitação, vítimas leves de acidentes de trânsito e/ou de trabalho”.

O difícil cotidiano da cidade

*Proliferam calçadas irregulares e quebradas, sem rebaixos do meio-fio, sem piso tátil, um problema para a autonomia de pessoas cegas ou com baixa visão, cidadãos que precisam usar cadeira de rodas ou bengalas, idosos com alguma dificuldade de locomoção.

"Calçada para carros", por Tamar Matsafi

“Calçada para carros”, por Tamar Matsafi

*Carros que ocupam as calçadas, sem deixar espaço para o pedestre passar.

*Obras de toda forma e qualidade que invadem calçadas, representando risco para o pedestre.

*Sinaleiras que necessitam de revisão dos tempos para a travessia de pedestres. Afinal, não são apenas para os veículos, mas para quem anda na cidade.

*Linhas de ônibus urbanos sem áudio interno que oriente os usuários sobre as paradas e sem um sistema adequado para acolher cadeiras de rodas.

*Paradas de ônibus que também necessitam de um sistema de áudio, avisando a linha que está chegando.

*Balcões muito altos de bancos, repartições públicas, hospitais e caixas eletrônicos de um modo geral, o que dificulta a autonomia de pessoas com nanismo e cadeirantes.

E as leis? E a fiscalização? E a ética?

E a pergunta que não quer calar: Que projetos de revitalização possíveis, voltados para acessibilidade, criação de ambientes acolhedores, livres de barreiras físicas, têm os novos prefeitos das nossas cidades?

“A eliminação das barreiras físicas da estrutura da cidade, de todo o mobiliário urbano, das edificações, dos meios de transporte e de comunicação enriquece e amplia a qualidade de vida dos moradores e visitantes, possibilitando, além disso, a inclusão das pessoas com deficiência no cotidiano. Isso significa uma cidade efetivamente democrática” – Flavia Boni Licht.

Impressões de um ano cruel

"Tempos obscuros", por Tamar Matsafi

“Tempos obscuros”, por Tamar Matsafi

Um país sequestrado.

Executivo, Legislativo e Judiciário mergulhados na lama.

Instituições da República falidas, ocupadas por políticos mesquinhos e sem caráter.

STF sem dignidade.

Imprensa conivente, unilateral, sem reflexão.

Para o bando que entrega o país ao capitalismo mais sórdido, não basta a aprovação da ultraneoliberal PEC dos gastos, resultado do pacto desumano entre políticos corruptos e elites soberbas. Eles são insaciáveis. Querem muito mais. Nunca saberemos o quanto vão sugar de todos nós. Os projetos, votados às pressas, nas madrugadas, sem discussão, em nome de uma “agenda positiva”, revelam uma estranha modernização da administração pública.

O corte de investimentos em educação e pesquisa certamente nos torna menos autônomos no campo da ciência e muito vulneráveis como cidadãos. Sem cultura, sem análise, sem reflexão e com mudanças que desestruturam o ensino médio e fundamental, o que temos pela frente é a vulnerabilidade do pensamento crítico e de direitos fundamentais. A anulação do estudo de disciplinas como filosofia e sociologia interfere diretamente na formação de indivíduos livres, responsáveis e éticos.

Os cortes de verba para a saúde pública nos deixam mais doentes e frágeis e nos jogam na privatização. O governo lava suas mãos, mas elas continuam sujas.

Os podres poderes ignoram a liberdade de pensamento, a justiça social, as conquistas de um povo sofrido.

Para fechar um ano emblemático, difícil, sombrio, de perdas nunca antes imaginadas, a demolição dos seis casarões históricos da rua Luciana de Abreu, em Porto Alegre, é muito simbólica. As palavras do advogado Milton Terra Machado, ao justificar o fato, traduzem esse simbolismo: “A construtora Goldsztein está fazendo tudo com calma, com muita parcimônia”. Ele só esqueceu de dizer “às escondidas”, como quase tudo o que aconteceu no Brasil neste triste 2016 que chega ao fim.

"Abismos", por Tamar Matsafi

“Abismos”, por Tamar Matsafi

Estamos carentes!

Enquanto os poderes lavam as mãos, que continuam sujas, o povo brasileiro assiste, atônito e sem voz, mudanças que acabam com conquistas sociais significativas. Estamos diante de um dos maiores retrocessos na história recente do país.

Resistir e lutar contra o desmonte geral é urgente e necessário.

Que 2017 nos livre da ignorância e nos devolva a esperança, a garra e a delicadeza!

"Resistiremos", por Tamar Matsafi

“Resistiremos”, por Tamar Matsafi

Presente de Natal!

Nesta semana, que termina na confraternização de Natal, os trabalhadores gaúchos da comunicação pública, da cultura, das ciências, da pesquisa, da educação e do planejamento de vários setores de inteligência do Estado (inteligência, o que é isso?) ganharam do governador, e da sua servil base aliada, a aprovação de um pacote cruel. Muito bem embalado pelo autoritarismo mais vil, o pacote fecha portas, gera o desemprego de milhares de pessoas, o fim de projetos importantes e de muitos sonhos. Além de não aprofundar a discussão sobre a proposta, o governo sonegou informações e tratou os profissionais que protestaram com violência desmedida.
Para quem, como eu, luta desde sempre por liberdade de expressão, igualdade de direitos, cidadania, acessibilidade, inclusão, emprego e salário dignos, foi uma afronta difícil de dimensionar. “Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso percebe que, quando os direitos são brutalmente suprimidos e os canais democráticos de reivindicação são bloqueados, o único caminho que sobra para os desesperados é o mais violento”. Palavras do jornalista e poeta Eduardo Sterzi. E assim foi!
Restou uma grande tristeza, o medo do que virá e uma sensação terrível de descrédito e de impotência. E muitas perguntas!

Que seres humanos são esses que habitam a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul?
O que querem?
Por que não ouvem?
Por que não conseguem dialogar com a população?
Por que fecham as portas da casa?

"Obstáculos", por Tamar Matsafi

“Obstáculos”, por Tamar Matsafi

A maioria desses senhores não sabia exatamente o que estava aprovando na madrugada da última quarta-feira, 21 de dezembro. E essa ignorância ficou clara nos discursos vazios e ofensivos, em nome de um “ajuste” que nem sabiam o que era. Votavam como marionetes, para cumprir conchavos e negociatas pessoais e de seus partidos. E, claro, para garantir as benesses no final de cada mês, sem parcelamento e com muitos penduricalhos. Alguns até pareciam constrangidos, mas foram incapazes de uma atitude corajosa.
Esse é o parlamento gaúcho hoje, medíocre e ineficaz, espelho do que acontece país afora.

Enfim, conseguiram!
O projeto 246/16, que extingue seis fundações estaduais – Zoobotânica (FZB), Piratini (TVE e FM Cultura), Ciência e Tecnologia (Cientec), Economia e Estatística (FEE), Desenvolvimento de Recursos Humanos (FDRH) e Planejamento Metropolitano e Regional (Metroplan) – saiu vitorioso, 30 votos a favor e 23 contra.
Vitórias como esta deixam claro que no Brasil pós-golpe não é o bem estar social da população que interessa. O que importa é dar guarida a políticos corruptos, preservar benefícios de qualquer natureza, manter acima da lei o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, proteger o empresariado que mantém regalias em troca de favores, assegurar o lucro ofensivo dos bancos e os parcos salários dos trabalhadores. A cada dia, menos.
Uma mediocridade assustadora, recheada de raiva, vingança e entreguismo, acompanha cada passo de políticos sem escrúpulos que querem nos tirar a identidade, a memória, a história, a alegria. Mais uma vez, a poesia traduz o mal estar que sinto e me salva do que é mesquinho.

“Da vez primeira que me assassinaram, / perdi um jeito de sorrir que eu tinha. / Depois, a cada vez que me mataram, / Foram levando qualquer coisa minha” – Mario Quintana.

Resistiremos!

"Desistir jamais", por Tamar Matsafi

“Desistir jamais”, por Tamar Matsafi

Fundamental, agora, é saber e não esquecer como cada deputado votou nesse pacote indigesto. A sugestão é imprimir a lista e colocar onde os olhos sempre alcançam.
Adão Villaverde (PT) – Não
Altemir Tortelli (PT) – Não
Edegar Pretto (PT) – Não
Jeferson Fernandes (PT) – Não
Luiz Fernando Mainardi (PT) – Não
Miriam Marroni (PT) – Não
Nelsinho Metalúrgico (PT) – Não
Stela Farias (PT) – Não
Tarcisio Zimmermann (PT) – Não
Valdeci Oliveira (PT) – Não
Zé Nunes (PT) – Não
Álvaro Boessio (PMDB) – Sim
Edson Brum (PMDB) – Sim
Gabriel Souza (PMDB) – Sim
Gilberto Capoani (PMDB) – Sim
Ibsen Pinheiro (PMDB) – Sim
Juvir Costella (PMDB) – Sim
Tiago Simon (PMDB) – Sim
Vilmar Zanchin (PMDB) – Sim
Adolfo Brito (PP) – Sim
Frederico Antunes (PP) – Sim
Gerson Borba (PP) – Sim
João Fischer (PP) – Sim
Marcel van Hattem (PP) – Sim
Sérgio Turra (PP) – Sim
Ciro Simoni (PDT) – Não
Eduardo Loureiro (PDT) – Não
Enio Bacci (PDT) – Não
Gilmar Sossella (PDT) – Sim
Juliana Brizola (PDT) – Não
Marlon Santos (PDT) – Não
Vinicius Ribeiro (PDT) – Sim
Aloísio Classmann (PTB) – Sim
Luís Augusto Lara (PTB) – Não
Marcelo Moraes (PTB) – Sim
Maurício Dziedricki (PTB) – Sim
Ronaldo Santini (PTB) – Não
Adilson Troca (PSDB) – Sim
Jorge Pozzobom (PSDB) – Sim
Pedro Pereira (PSDB) – Sim
Zilá Breitenbach (PSDB) – Sim
Elton Weber (PSB) – Sim
Liziane Bayer (PSB) – Sim
Miki Breier (PSB) – Sim
Any Ortiz (PPS) – Sim
Juliano Roso (PCdoB) – Não
Manuela d`Ávila (PCdoB) – Não
Sérgio Peres (PRB) – Sim
João Reinelli (PV) – Sim
Missionário Volnei (PR) – Sim
Pedro Ruas (PSOL) – Não
Bombeiro Bianchini (PPL) – Não
Regina Becker Fortunati (REDE) – Não

 

Ecos de uma semana difícil

Em meio a cenas triviais do cotidiano de quem tem uma dificuldade, as percepções são inquietantes. Há muitos “jeitinhos” de levar a vida neste vasto país desde que aqui ancoraram as caravelas de Cabral. E aí mora o perigo. As cenas principais que se desenham nas alcovas palacianas, gestadas no Planalto Central, têm requintes de injustiça. Para quem luta dia a dia por dignidade, esse Brasil de berços nada esplêndidos inquieta. As marcas sociais e culturais centenárias que nos fazem escravagistas e bajuladores do poder assustam.

Nas minhas andanças necessárias, sinto a cidade violenta, nervosa, os trabalhadores tensos e as pessoas nas ruas desesperançadas, sem a mínima tolerância. Consumindo. Consumindo-se.

Acessibilidade para quê?

"A fila tem que andar", por Tamar Matsafi

“A fila tem que andar”, por Tamar Matsafi

Linha T9, Auxiliadora, em direção ao Centro. Entro. Assim que piso no segundo degrau, o motorista arranca bruscamente. Vou me equilibrando como posso. Uma senhora ocupa quase todo o primeiro banco, reservado para pessoas com deficiência. Sento no pouco que sobra. Ela nem se mexe. Vou me segurando com dificuldade. E a criatura impassível. De repente se dá conta de que o ônibus chega onde quer descer, levanta rápido, quase me derruba e sai porta afora. Solidariedade é algo que desconhece.

Caixa Econômica Federal, agência da esquina das ruas 24 de Outubro e Quintino Bocaiúva. Do balcão, a moça me olha. E eu me estico. Ela segue impassível. E vou me virando. Até que estende um papel e uma caneta e pede que eu assine. Apoiada em quê? No ar? Parece sadismo, mas sei que não é. A atitude é típica de quem não vê o outro. Apenas cumpre o ritual de mais um dia cansativo de trabalho, mecanicamente.

Linha T5, Aeroporto, em direção ao bairro Floresta. Pego o ônibus na rua Venâncio Aires. Já lotado. Em seguida, entra uma moça. Espreme-se entre as pessoas e a sacola que carrega fica batendo no meu rosto, insistentemente. Olho, faço um pequeno gesto para afastar a sacola e ela, quase ofendida: “Não tenho controle sobre a bolsa, até porque todos me empurram nesse ônibus atrolhado”. E as queixas sobre a decadência do transporte público em Porto Alegre jorram.

No mesmo ônibus, uma menina de uns 4 anos me vê, puxa a avó pela mão e insiste: “Uma mulher pequena, olha, olha!”. Uma, duas, três vezes. A avó só consegue disfarçar. Não olha para a neta. Não me olha. Nenhum movimento para esclarecer o espanto da criança. Melhor ignorar do que encarar. Afinal, é só uma criança manifestando sua curiosidade natural.

É assim. Por todos os lados.

Enquanto isso, lá vai o Brasil, anulado, descendo a ladeira. Infelizmente, não a ladeira da canção de Moraes Moreira!

"Subindo a ladeira", por Tamar Matsafi

“Subindo a ladeira”, por Tamar Matsafi

Executivo, Legislativo e Judiciário mergulhados na lama.

Instituições da República ocupadas por políticos mesquinhos e sem caráter.

Mídia superficial, conivente, unilateral.

Contraponto para quê?

A ultraneoliberal PEC dos gastos é aprovada rapidamente por senadores oportunistas de um Congresso que perdeu o respeito pelos cidadãos que representa. Resultado de um pacto cruel entre políticos corruptos e elites nefastas. Grupos preocupados em manter os privilégios a qualquer custo entregam o futuro ao capitalismo financeiro mais sórdido. Condenam o país à dependência e a população à miséria e à ignorância.

O corte de investimentos em educação e pesquisa certamente vai tornar o Brasil menos autônomo no campo da ciência e da cultura, colocando os cidadãos a mercê de um ensino medíocre e descomprometido. No pacote do governo, reina a escola sem partido para gerar jovens sem voz.

O corte de verbas na saúde pública vai deixar a população mais carente, mais doente e vulnerável. Nesse jogo, as cartas ficam nas mãos dos planos privados. Os que têm como, pagam. Os que não têm, vão minguar nas filas. Simples assim!

Os podres poderes ignoram a liberdade de opinião, a diversidade, a justiça social, o debate, as conquistas de um povo que trabalha. E vai trabalhar muito mais com as novas regras da previdência social. Mas o governo lava suas mãos sujas.

Como lembrou o músico Raul Elwanger no simbólico 13 de dezembro de 2016: “Em 13 de dezembro de 1968, o Ato 5 enterrou nosso país em décadas de violência contra seu povo. Agora, a mesma casta predadora está destruindo o Brasil, com aventuras golpistas e totalitárias de grande perigo para todo cidadão e projeto econômico de misérias. Às vezes com a farda, às vezes com a toga, às vezes de gravata: sempre a mesma casta predadora. Colônia, escravidão, ditadura”.

A jornalista Bia Lopes alertou para os ventos que sopraram em Porto Alegre nesse mesmo dia 13: “Simbólico? Ventos fortes varrem o Brasil. Justo no 13 de dezembro, quando é lembrada a promulgação do AI 5, que deu início a um dos piores momentos da história brasileira, é aprovada a PEC da Morte. Ai de nós!”

Para finalizar, palavras de João Goulart: “Não há ameaça mais séria à democracia do que desconhecer os direitos do povo”. E de Nelson Mandela: “Quando um homem fez o que considera seu dever para com seu povo e seu país, pode descansar em paz”.

Alguém ouviu?