Lucidez poética – Hora do voto

Há um inquietante desencanto permeando quase tudo. O jeito é esticar o olhar para além dos botões, janelas, esquinas, ruas, cidade, em busca de um rasgo de esperança. Não desanimar. Organizar o delírio. Perseguir o equilíbrio. Entre o caos e uma possível ordem, alguma coisa há de fazer sentido. Mais uma vez, a arte me socorre.

“Linhas Paralelas”, do mineiro Murilo Mendes, nascido em 1901, resume, com a simplicidade da poesia, a ação política na prática, aqui, lá, acolá.

Um presidente resolve
Construir uma boa escola
Numa vila bem distante.
Mas ninguém vai nessa escola:
Não tem estradas pra lá.
Depois ele resolveu
Construir uma estrada boa
Numa outra vila do Estado.
Ninguém se muda pra lá.
Porque lá não tem escola.

"As obras", por Tamar Matsafi
“As obras”, por Tamar Matsafi

A sabedoria dos versos do poeta, que encontrei na “Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira – para crianças de qualquer idade”, organizada e ilustrada por Adriana Calcanhoto (Casa da Palavra), me fez ruminar o fazer político como é e como não o queremos.

É nosso direito e dever acompanhar e participar da administração pública, conhecer cada projeto dos governos no país, no estado, no município, na cidade, na vila, no bairro, no entorno em que vivemos. A reforma de uma praça, a limpeza de ruas e boeiros, a canalização de um córrego, a chegada do asfalto, a melhoria dos serviços, as mudanças na educação e na saúde, a reutilização dos espaços, a urbanização.

Cada ação deveria valorizar a vida e a cidadania. Mas, definitivamente, não é assim. As atitudes dos administradores seriam fundamentais se as almas não fossem tão pequenas!

A política partidária praticada no Brasil é velha. Tem caráter autoritário, redutor e revanchista. Desmantela ao invés de construir. É mais predatória do que civilizadora. Mais empresarial do que ética. Mais econômica do que social. Mais burocrática do que libertária. Mais individual do que coletiva. Simplesmente acomoda os eleitos no poder para não abrir mão dos privilégios. Em 1968, o artista plástico Hélio Oiticica, em carta para a pintora e escultora Lygia Clark, já sinalizava: “Quando há real inovação, a sabotagem sempre impera”. Comentário que diz muito do momento que vivemos.

Hora do voto
“Desta hora, sim, tenho medo”, diz a canção “Anoitecer”, de José Miguel Wisnik.

O momento é delicado e o jogo egocêntrico. Estamos mergulhados na superficialidade e na mesquinharia da pequena política eleitoreira. Poucos parecem interessados em olhar de frente para as ações ou omissões que geram desigualdade, degradação, miséria, abandono, violência, medo. Poucos falam em uma nova política, livre das amarras da corrupção, tenha ela o tamanho que tiver. Muito poucos!

Mesmo assim, e apesar de todas as falcatruas, ainda aposto no voto. É um meio de manifestar nosso desejo de um governo conduzido por homens íntegros. Um governo que não tenha medo da diversidade, da nossa capacidade de pensar, da nossa criatividade, da memória que nos constitui, da arte que nos representa, do aprendizado múltiplo e libertário. Um governo voltado para a inclusão, que reconheça a diversidade e não nos roube direitos legítimos para nos matar aos pouquinhos.

"O repouso dos guerreiros", por Tamar Matsafi
“O repouso dos guerreiros”, por Tamar Matsafi

Entre o bem e o mal, a perfeição que paralisa e a imperfeição que dá asas

Se não está do meu lado, não me reverencia e não assina embaixo, é inimigo. Mas se está comigo, me reverencia e assina embaixo, é dos meus. Assim, organizo o poder que me cabe. Dane-se a ética!

Essa engrenagem cruel, que coloco aqui de forma tosca, para mostrar que ainda vivemos polarizados, divididos entre o bem e o mal, diz muito da humanidade. Parte de uma lógica primária, que limita o entendimento da perplexidade que nos cerca.

Esse denso coletivo humano que formamos é capaz de uma generosidade absurda e de uma maldade na mesma medida. Assim como tenta o equilíbrio entre a cruz e a espada. Nem lá nem cá, salvando a pele, simplesmente. Condenamos, redimimos, matamos e salvamos cotidianamente. Sem compromisso.

Amamos para sempre e odiamos de forma igual. Ou não amamos, nem odiamos. Preferimos o meio termo. Somos tão imprevisíveis e loucos quanto prováveis, burocráticos e normativos. Inusitados e óbvios. Criativos e banais.

Podemos nos corromper por muito pouco, assim como não abrimos mão da honestidade mesmo que nos ofereçam o ouro do mundo. Ou escolhemos a neutralidade e servimos a todos os senhores.

"Seguranca", por Tamar Matsafi
“Seguranca”, por Tamar Matsafi

Somos contraditórios, impulsivos e irresponsáveis. Somos também objetivos, certeiros, parcimoniosos e responsáveis. Pesamos e medimos nossas atitudes, agimos premeditadamente, assim como jogamos tudo pelos ares. Encantadores e desprezíveis.

Libertários e escravagistas. Guerreiros e pacíficos. Tiranos e democratas. Sonhadores e realistas. Vadios e trabalhadores. Mocinhos e bandidos.
Somos feitos de infinitos sentimentos, só não somos essa polarização simplista que divide o mundo entre o bem e o mal. Somos o que podemos ser diante do imponderável.

O que detém o nosso desejo?
O que nos forma? O que nos joga fora dos trilhos? O que nos dá régua e compasso? O que nos insere na cultura e nos torna seres sociais, que vivem coletivamente, respeitando limites? O que nos torna capazes de ver o outro? Reconhecer, acolher, dividir, entender?

O núcleo familiar é o ninho, o aconchego que nos dá limite, o ponto de partida. A convivência saudável nesse núcleo torna natural a sua extensão. Os amigos e a escola.

O cotidiano dividido com professores e colegas. As brincadeiras, as trocas, o conhecimento, o aprendizado partilhado. As noções de limite expandidas, na prática, de cara com o mundo, traduzidas no respeito pelo outro e pela diferença. O crescer no convívio com a diversidade.

"Lazer", por Tamar Matsafi
“Lazer”, por Tamar Matsafi

Depois, o trabalho, a inserção social na vida adulta responsável, para muito além do núcleo inicial. O exercício da liberdade plena, as escolhas, os desafios, as parcerias, as conquistas, os sucessos, os embates, os fracassos, as trocas. E as novas famílias que vamos constituindo, amorosamente, vida afora.

É nesse círculo que construímos o nosso estar no mundo, um ensaio contínuo porque nunca estamos prontos. É desse círculo ampliado, biológico ou não, que alimentamos nosso ser e tiramos o equilíbrio necessário para abrir as asas. É nessa trama que, por vezes, perseguimos uma perfeição doentia, que nos torna arrogantes, autoritários, sem limites, predadores. Perfeição que paralisa, porque só os seres imperfeitos, logo humanos, estão abertos para aprender e arriscar sempre novos voos.

Quero dizer, então, que dá um cansaço danado ouvir os discursos políticos tão perfeitos nesses tempos de um Brasil quase sem rosto. Só se ouvem respostas prontas, soluções mágicas, acusações, sem autocrítica, sem dúvidas, sem diálogos consistentes. Nenhum questionamento mais profundo. A disputa toma o caminho mais fácil, centrada no bem e no mal, em uma via de apenas duas mãos, onde circulam unicamente mocinhos e bandidos.

Para quem falam os candidatos se somos tão múltiplos?

Só para estrangeiro ver!

Como desenhamos e construímos nossas cidades? Sob o princípio do bem estar dos cidadãos ou apenas sob a lógica do mercado? A partir de ambientes naturais, vivos, atraentes e inclusivos, que estimulam os sentidos e a respiração e alargam o olhar ou a partir de grandes torres espelhadas, frias, de fachadas enormes e vazias, que não despertam nenhum sentimento?

Volto ao arquiteto dinamarquês Jan Gehl e somo às suas reflexões estudos do neurocientista e psicólogo ambiental Colin Ellard. Ambos concluíram que as pessoas tendem a caminhar mais rápido ao passar por lugares de fachadas enormes e rígidas, enquanto desaceleram o andar em bairros de baixa verticalidade, com fachadas ativas, quentes e acolhedoras. Gehl já dizia em 2006 que “uma boa rua precisa ser desenhada a fim de que os pedestres, que caminham a uma média de 5km/h, vejam algo interessante pelo menos uma vez a cada cinco segundos”, o que, segundo Colin, “não acontece em frente a grandes edifícios, sejam hipermercados, bancos ou torres empresariais”.

Em 1905 o escritor brasileiro João do Rio falava em ‘flanar’ pela cidade. Mais de cem anos depois, percebemos que a palavra ganhou novos sentidos. Flanar é hoje mais do que um convite ao caminhar. É um jeito de sentir, esbarrar, reconhecer e aprofundar a experiência urbana. É na cidade que vivemos e é com ela que nos relacionamos cotidianamente.

"Harmonia", por Tamar Matsafi
“Harmonia”, por Tamar Matsafi

Por isso, insisto que, ao assumir o comando de uma cidade, todo gestor deveria ter por princípio cercar-se de profissionais que valorizam a vida urbana e a relação da cidade com homens, mulheres e crianças, os habitantes, que por ela circulam no dia a dia. Suas ruas, calçadas e praças devem ser seguras, acessíveis e agradáveis e seus prédios harmonizar-se com a natureza, possibilitando a ampliação do olhar, para que o andar em direção ao trabalho, à escola, às compras, aos negócios e ao lazer seja leve, prazeroso.

Em relação à inclusão, já me referi em outros textos ao que diz a arquiteta Flavia Boni Licht e repito: “Independente da idade ou da condição física, a acessibilidade é o direito que todos devem ter de compreender um espaço, relacionar-se com os seus conteúdos e usar os seus elementos com autonomia e independência”. Estamos todos de acordo, não?

"Buscando", por Tamar Matsafi
“Buscando”, por Tamar Matsafi

Muitos desafios e pouco interesse
É indiscutível o grande desafio que os candidatos têm pela frente, mas eles me parecem muito pouco interessados em aprofundar qualquer questão. O desafio passa, inevitavelmente, por um entendimento contemporâneo da criação e da diversidade humana que habita os espaços urbanos.

O ponto de partida está em jogar no lixo a velha política do “toma lá, dá cá”, que facilita a corrupção.

É necessário conhecer a cidade profundamente, seus pontos positivos e negativos, entender as demandas da população e planejar.

Mudar a relação com o poder econômico, deter a especulação abusiva, que dita regras e troca uma população inteira pelo concreto sem sentido, e inaugurar um jeito diferente de ativar a economia, os negócios, o crescimento.

Abandonar as carapaças ortodoxas, como Flávia escreveu em 2009, para estabelecer um diálogo franco que compatibilize conceitos, encontre identidades, equilibre posições e construa um novo caminho na direção do respeito ao ser humano e às suas criações.

Desburocratizar os serviços e fazer um bom uso do dinheiro público. Caso contrário, sempre teremos discursos vazios e paliativos, que nunca resolveram nada.

Vejam o Rio de Janeiro, que recém encerrou uma Olimpíada de sucesso e começa a Paralimpíada. O jornal O Estado de São Paulo acompanhou no dia 5 de setembro um cadeirante e um deficiente visual pelas ruas da cidade. Faço referência à reportagem porque é a cara do Brasil e da maneira irresponsável como nossos governos falam, discursam e usam as verbas públicas nas suas administrações.

“Em contraste com a infraestrutura oferecida aos atletas paralímpicos, os deficientes físicos enfrentam no Rio dificuldades de locomoção e circulação decorrentes da carência de equipamentos facilitadores de acessibilidade. Para eles, circular com autonomia pela cidade ainda é uma realidade distante”, escreveu a repórter Constança Rezende na matéria que pode ser acessada no link http://esportes.estadao.com.br/noticias/jogos-olimpicos,acessibilidade-continua-sendo-grande-problema-na-cidade-olimpica,10000074049

Há um desleixo triste, quase total! E quando investem em obras para promover a acessibilidade não se dão ao trabalho de consultar técnicos no assunto e muito menos as pessoas com deficiência para fazer o que é mais adequado. A falta de conhecimento e de informação é assustadora. Preocupam-se apenas em mostrar o que fizeram. Vivemos de verdades que não se sustentam, em uma cruel e cotidiana corrida de obstáculos. É tudo para estrangeiro ver!

Diferença, educação inclusiva, segurança e o fazer político – Busco respostas!

Primeiro foi o livro do norte-americano Andrew Solomon, “Longe da Árvore – pais, filhos e a busca da identidade” (Cia das Letras, 2012). Depois, “O que é que ele tem”, de Olivia Byington (Objetiva, 2016). Ambos chegaram às minhas mãos pelas mãos do amigo Alfredo Fedrizzi.

longe-da-árvore

o que é que ele tem

 

 

 

 

 

 

 

 

Li o intenso, instigante, corajoso e comovente relato de Olivia sobre sua vida com o filho João, que nasceu com a rara Síndrome de Apert, completamente entregue e emocionada. Em um dado momento, ela comenta o livro de Solomon, que fala sobre dez tipos de diversidade, traçando um mosaico incrível sobre a experiência de criar filhos não enquadrados ao que chamam de “normalidade”. Estou lendo aos poucos e já chorei muito no capítulo em que ele trata do nanismo.

Para Olivia, o livro de Solomon, com mais de mil páginas, é um tratado sobre as diferenças. “Ensina sobre a própria vida, sobre como lidar com a diversidade humana, como fazer parte desse universo rico, com tantas histórias semelhantes e plenas de amor”. Ela assinala uma constatação muito verdadeira do autor: “Pessoas longe da árvore devem criar grupos de identificação a partir de suas próprias necessidades”. Assim, reconhecem suas semelhanças, compartilham experiências e afirmam suas identidades, muitas vezes tão distintas e tão distantes do que está ao seu redor.

É tão bom quando a gente encontra eco na fala do outro, se identifica, se sente fazendo parte de uma tribo e, mesmo longe, reconhece sentimentos comuns, como amor, sofrimento, dores e delícias que a vida, sob o signo da diversidade, pode tirar, provocando solidão e desamparo.

A identidade necessária na diversidade, foto de arquivo pessoal
A identidade necessária na diversidade, foto de arquivo pessoal

O que ecoa na nossa aldeia?
É o que gostaríamos sempre de sentir e ouvir na aldeia que habitamos. Um eco repercutindo positivamente, sinalizando mudanças, transformando pessoas e o modo de fazer política.

Hoje vivemos sob o signo do medo, da incerteza e do espanto em relação ao futuro da cidade, do estado e do país. A vulnerabilidade das nossas vidas gera insegurança e amedronta o nosso ir e vir cotidianos.

O que os candidatos que estão por aí fazendo campanhas, às vezes óbvias, com discursos ultrapassados e cheios de clichês, têm a dizer concretamente sobre educação inclusiva, que acolha todas as diferenças, físicas, mentais, intelectuais, comportamentais e sociais? Que acolha crianças e jovens abandonados e contribua para diminuir a marginalidade, o preconceito e a criminalidade? Como os poderes estão conversando sobre esse momento delicado que enfrentamos?

Temos um Executivo, um Judiciário e um Legislativo. Temos instituições, empresas, associações de bairros, comunidades organizadas e comunidades inteiras à deriva, enclausuradas, ameaçadas e abandonadas. Enquanto isso, os podres poderes se agigantam, banalizando vida e ferindo, inexoravelmente, a ética e a confiança de cada um de nós.

Somos todos responsáveis, sim! Mas quem governa, legisla e decide é muito mais responsável. Foram eleitos e têm o dever de cumprir suas promessas, respeitar a constituição e estimular a população para ações do bem. É fundamental que deixem de lado os egos inflados, as constantes picuinhas político-partidárias e a mesquinharia que domina o poder.

O fazer político
O que sempre me inquietou, e hoje me inquieta ainda mais, é a dificuldade que os políticos de plantão e os postulantes a qualquer cargo, de vereador a presidente, têm de conversar e agir em nome de uma causa maior, que envolve a vida e os direitos dos cidadãos.

Quem está no poder, pelo partido X, e perde as eleições para o partido Y, transforma-se em vilão, enquanto o vencedor assume com sua vara mágica de solução para qualquer problema. Um e outro só conseguem chegar aos gestos e encontros protocolares da passagem do cetro. O resto são farpas! Estabelecem uma relação de mão única, primária, subestimando eleitores, o que é inadmissível em um século tecnológico, de comunicação avassaladora, onde tudo se vê e tudo se sabe.

Aquele que assume, com o bolso cheio de soluções, lá pelas tantas não dá conta do que prometeu em campanha, mas não se responsabiliza. A culpa é sempre do outro. E a ladainha segue até o final do mandato. A cena se repete de quatro em quatro anos, de partido para partido, de candidato para candidato e, assim, indefinidamente. Mas quase ninguém abre mão da possibilidade de se candidatar novamente ou dos cargos já conquistados. Por quê? Apesar dos discursos queixosos, que apontam para o caos deixado pelo outro, ainda querem o poder. Alguma vantagem certamente todos têm!

É impossível que uns só acertem e outros só errem e que um governo, por mais equivocado e ruim, não contabilize nenhum acerto. Por que não reconhecer os méritos? Por que não dar continuidade às ações que tiveram bons resultados na administração anterior? Por que não somar? Por que essa voracidade em destruir o outro e o que ele fez? Por que só governar com e para os seus? Por que não uma coalizão ética?
Por que ninguém tem coragem de mudar e fazer diferente? Por que a maioria que se candidata não sabe exatamente o que está fazendo? Por que não temos mais líderes que surgem naturalmente, da militância estudantil, social e política? Por que inventar candidatos, buscando comunicadores populares que dominam os microfones, mas nada entendem da questão social? O que realmente mobiliza partidos, candidatos, eleitores e políticos?

Não tenho respostas. Estou buscando, lamentavelmente com uma certeza: são bem poucos os que têm ideais e pensam no bem comum ao assumir uma candidatura.

Acessibilidade e inclusão no cotidiano da cidade

O discurso social hoje já tem um viés voltado para a diferença no sentido de repensá-la e não mais ignorar ou mascarar o preconceito enfrentado por pessoas que têm uma deficiência ou um comportamento “incomum”. Em um mundo feito por e para pessoas “normais”, esse novo olhar é muito bem vindo e não podemos deixar que seja ofuscado pelo conservadorismo anunciado.

Portanto, sensibilizar os candidatos para os direitos conquistados e para as limitações cotidianas que as pessoas com deficiência enfrentam, reivindicando políticas públicas que priorizem a inclusão, é um compromisso. Políticas que devem ser impulsionadas de forma coletiva pela administração municipal, em sintonia com a comunidade e o empresariado local.

Estamos na XXII Semana Estadual das Pessoas com Deficiência do RS. Há uma programação intensa sobre o assunto até o final de agosto. No dia 22, participei como debatedora do V Seminário de Inclusão e Acessibilidade do Tribunal de Justiça do Estado, onde questões importantes foram levantadas. O tema está no centro das atenções, proporcionando boas e inspiradoras conversas coletivas em nome dos direitos humanos e da não-discriminação.

Quando falo em acessibilidade, falo no bem viver de todas as pessoas que moram na cidade, inspirada no que diz a arquiteta Flavia Boni Licht. Para ela, acessibilidade é “pensar, edificar e adequar espaços e equipamentos para a diversidade humana”. Em algum momento da vida, uma parcela significativa da população tem sua mobilidade reduzida: idosos, gestantes, crianças, mães que carregam bebês no colo e/ou carrinhos, pessoas em processo de reabilitação, vítimas leves de acidentes de trânsito e/ou de trabalho.

"Calçada com obstáculo", por Zé Walter de Castro Alves
“Calçada com obstáculo”, por Zé Walter de Castro Alves

Por uma cidade efetivamente democrática                                                                       A jornalista e consultora em audiodescrição Mariana Baiarle, que tem baixa visão, escreveu no blog http://tresgotinhas.com.br/ – Além do Olhar: “O olho às vezes me atrapalha. A visão embaraçada muitas vezes me trai. Minha retina desvairada me leva a tropeços constantes em ruas e calçadas esburacadas. Mas a rotina de tombos e tropicões me ensina também a levantar, a re-levantar e encarar a vida de diferentes maneiras”. De forma poética, ela deixa claro que o espaço urbano precisa de intervenções que facilitem a vida de todos.

Como a campanha para a eleição municipal já começou, pergunto: Que projetos de revitalização do espaço urbano, voltados para a acessibilidade, para a criação de ambientes acolhedores, livres de barreiras físicas, têm os candidatos?

*Temos as calçadas irregulares e quebradas, sem rebaixos do meio-fio, sem piso tátil, um problema real para a autonomia de pessoas cegas ou com baixa visão, pessoas que andam de cadeira de rodas ou com bengalas, idosos com alguma dificuldade de locomoção.

*Os carros que param ocupando as calçadas, sem deixar espaço para o pedestre passar.

"Calçada vira estacionamento", por Zé Walter de Castro Alves
“Calçada vira estacionamento”, por Zé Walter de Castro Alves
"Por onde andar...", por Zé Walter de Castro Alves
“Por onde andar…”, por Zé Walter de Castro Alves

*As obras de todo tipo e qualidade que invadem as calçadas e representam um risco para o pedestre.
*Sinaleiras que necessitam de revisão dos tempos para a travessia de pedestres. Afinal, não são apenas para os veículos, mas para quem anda na cidade.

*Linhas de ônibus urbanos sem áudio interno que oriente os usuários sobre as paradas e sem um sistema adequado para acolher cadeiras de rodas.

*Paradas de ônibus que também necessitam de um sistema de áudio, avisando a linha que está chegando.

*Balcões muito altos – de bancos, repartições públicas, hospitais – e caixas eletrônicos de um modo geral dificultam a autonomia de anões e cadeirantes.

E as leis? E a fiscalização? E a ética?

“A eliminação das barreiras físicas da estrutura da cidade, de todo o mobiliário urbano, das edificações, dos meios de transporte e de comunicação enriquece e amplia a qualidade de vida dos moradores e visitantes, possibilitando, além disso, a inclusão das pessoas com deficiência no cotidiano do município. Isso significa uma cidade efetivamente democrática” – Flavia Boni Licht.

Pensando e repensando a cidade

– Em tempo de eleições, o espaço urbano deve estar no centro das reflexões –

 

Com a missão de colocar em pauta algumas ideias, opiniões e interpretações, sugerimos aos que querem legislar e governar a cidade um olhar mais agudo e analítico para o ambiente urbano, sob o ponto de vista da inclusão e da acessibilidade, no sentido de repensá-lo em sintonia com as demais inquietações que mobilizam os moradores.

Porto Alegre e o Guaíba

O meio ambiente urbano, a qualidade de vida dos homens e o perfil das cidades na contemporaneidade são temas que ocupam o cotidiano das populações devido ao tamanho do descontrole e da desumanização que enfrentamos hoje nas ruas. Afinal, a quem pertence o espaço público? Quem são seus inventores e atores? As metrópoles são atualmente um bom lugar para se estar? É possível humanizá-las e transformá-las em espaços criativos, de compartilhamento, colaboração, acolhimento, celebração da arte de bem viver?

Vivemos em cidades cheias de conflitos criados por nós, habitantes, pelo poder público e pelo poder econômico, relacionados ao tratamento que damos aos lugares que ocupamos, muitas vezes desleixado, arbitrário, desordenado, sem critérios e sem respeito. É bom que se tenha consciência de que a responsabilidade é de cada um – do cidadão que joga lixo na rua, do empresário que constrói “mastodontes” por pura ganância, sem observar o entorno e a natureza, e de governos que vendem a alma ao dinheiro fácil, não fiscalizam e não fazem o que realmente precisa ser feito.

É evidente que os espaços precisam ser valorizados, requalificados e que é fundamental multiplicar essa discussão, difundindo a ideia de que para viver na cidade não precisamos de “mastodontes de janelas pequenas”, grudados uns nos outros, que desrespeitam as regras mínimas da natureza e da convivência saudável.

É evidente que as cidades podem crescer sem afogar seus centros históricos, sem se tornar impermeáveis, cinzas e insensíveis, sem abrir mão da inclusão, da brisa, da paisagem arborizada, dos horizontes amplos, das cores, da humanização.

É evidente que precisamos urgentemente de planejamento efetivo, uso honesto das verbas públicas, maior comprometimento das autoridades e do poder econômico, mais agilidade e menos burocracia, mais criação e menos ambição.

É evidente que a arte pode minimizar o impacto provocado pela dura paisagem concreta e que as cidades são de quem nelas vive.

Algumas ideias para o bom espaço público
Para o designer visual Vitor Mesquita, idealizador do projeto URBE, cuja revista conquistou o Prêmio Açorianos de Artes Visuais (Especial do Júri, 2013) e, por duas vezes, o Prêmio Abrigraf de Excelência Gráfica (2012 e 2913), a reflexão sobre o espaço urbano, no sentido de torná-lo mais criativo e convidativo ao convívio, está cada vez mais latente. “Cidade criativa é cidade compartilhada de dentro para fora. Fazer parte dessa transformação e experimentação é o que está no atual cotidiano das pessoas”.

Vitor destaca que os cidadãos estão preocupados com a sua cidade, com a revitalização de áreas deterioradas, com a ocupação de espaços. Prova disso é que o tema domina desde os noticiários do horário nobre e redes sociais até reuniões de moradores de bairros. “A palavra é pertencimento e o verbo é compartilhar.”

Nessa direção, o arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl, um estudioso das cidades e da vida das pessoas nos grandes centros, referência mundial em desenho urbano e espaços públicos, levantou 12 critérios para o Bom Espaço Público. Dizem respeito a todos nós e, claro, aos governos e aos empresários que, na maioria das vezes, ignoram o público – o urbano e o humano – e exercem o poder em nome do lucro e do benefício de muito poucos. E se os gestores urbanos procurassem ouvir o que diz Gehl e adaptassem algumas de suas ideias aos espaços sob sua responsabilidade?

1 – Proteção contra o tráfego
2 – Segurança nos espaços públicos
3 – Proteção contra experiências sensoriais desagradáveis
4 – Espaços para caminhar
5 – Espaços de permanência
6 – Lugares para sentar
7 – Possibilidade de observar
8 – Oportunidade de conversar
9 – Locais para se exercitar
10 – Escala humana
11 – Possibilidade de aproveitar o clima
12 – Boa experiência sensorial

Jan Gehl dá ainda cinco conselhos para cidades habitáveis, saudáveis, seguras e sustentáveis.

1. Parar de construir cidades pensando em “facilitar a vida dos automóveis”.
2. Fazer dos espaços públicos o foco dos projetos urbanos.
3. Projetar experiências multisensoriais.
4. Fazer com que o transporte público seja para todos.
5. Proibir o uso de automóveis.

A cidade e seu corpo – Por mais acessibilidade e inclusão

Em tempo de eleições municipais, abrimos aqui uma conversa sobre Porto Alegre, suas condições atuais, suas possibilidades e o futuro que ousamos sonhar. O que nos move é o desejo de viver em uma cidade mais inclusiva, leve, acessível, saudável, generosa e bonita.

Queremos participar desse momento com algumas ideias sobre o espaço urbano, contribuindo de alguma maneira para que os possíveis candidatos a prefeito e vereador façam a diferença necessária ao assumir essa grande responsabilidade que é administrar um município e dar voz aos cidadãos que nele habitam.

A inspiração para iniciar essa conversa vem do poema “O Mapa”, de Mario Quintana, o escritor das nossas ruas e esquinas.

Mapa de Porto AlegreokOlhe o mapa da cidade como se examinasse a anatomia de um corpo.
Do seu corpo.
Dos corpos de milhares de indivíduos que cruzam as ruas cotidianamente.
Trabalhadores. Estudantes. Aposentados. Desempregados. Jovens. Crianças.
Lindos, elegantes, saudáveis, alegres, confiantes.
Curvados, dilacerados, abandonados, desesperados, desencantados.
De todos os tipos. De todas as raças. De todas as cores. De todas as crenças.
De toda a forma e qualidade.
Anônimos? Não! Seres humanos.

Examine esse mapa com atenção, desprendimento, carinho, generosidade.
Que anatomia é essa? Que tecido a envolve?
Que sonhos, esperanças, pesadelos e doenças estão impregnados na pele desse corpo urbano?
Procure entender como tratar esse corpo que pulsa incessante por uma vida digna.

“Há tanta esquina esquisita”, diz o poeta.
“Tanta nuança de paredes”.
Tantas buscas, desejos, dores, alegrias, desistências, conquistas.
Há tanta miséria, tanta violência, tanta opulência, tanto desperdício na cidade de longos e muitos já cansados andares.
Há beleza, justiça, bondade, vontade de acertar.
Mas há tanta injustiça, tanta precariedade, tanto abuso de poder, tanto descaso.
São muitas as vozes sufocadas na cidade onde construímos nossas vidas.
A cidade que escolhemos? Ou a cidade que nos restou?
São muitas e vitais as questões nessa concretude urbana.

“A cidade é para quem vive NELA ou para quem vive DELA?”
Essa é uma pergunta do ator e diretor Amir Haddad, do grupo teatral Tá na Rua, pergunta que precisa ser ouvida e pensada na dimensão da sua importância.

O corpo dessa cidade precisa de quê? E os corpos que por ela andam?

Que essa seja uma conversa permanente, intensa e de trocas úteis para a anatomia do nosso corpo urbano!

Para além do preconceito que limita o olhar

Um turbilhão de ideias e desejos me move, muitas vezes impulsionado por um incontrolável sentimento de urgência. A cada dia é um projeto e um tropeço, uma certeza e uma contradição, um redemoinho e um controle, um fascínio e um desvario, uma fantasia e uma desilusão, um sonho e uma desesperança. No pano de fundo, a consciência da diferença e dos deslocamentos que a diferença provoca, no sentido de evitar a acomodação diante dos discursos prontos e engendrados socialmente.

Discursos sustentados pela necessidade de controle e perfeição, que reservam determinados lugares e papéis aos que não se enquadram aos modelos e à ordem estabelecida. Lugares e papéis que sempre rejeitei.

Vou me deslocando daqui e dali. Desafino. Harmonizo. Descompasso. Equilibro. E sigo, encarando a violência, o medo e a insegurança provocados pela intolerância que invade nossas vidas. São tantos os movimentos que, por momentos, me vejo em lugar nenhum. Que lugar é esse que busco? Qual o lugar das pessoas que não se conformam à vida como ela se apresenta porque têm uma diferença ou fazem escolhas que fogem da ordem? Já não busco o perdido. Ele faz parte da falta que é inerente aos humanos. O que busco é o lugar do diálogo, da tolerância, do olho no olho, da transparência, onde seja possível simplesmente ser.

Desde a minha primeira escrita no blog, em 5 de abril de 2016, tomo contato com muitas pessoas que não se enquadram e buscam espaços de fala através de ações pela diversidade, inclusão, acessibilidade, direito de ser. Estou descobrindo muita gente que mostra, com naturalidade, que é possível viver a diferença, respeitando o outro, criando, sem negar a deficiência e as dificuldades cotidianas.

Bem vindos à necessária e urgente boa luta, nos grupos, na web, no teatro, nas famílias, entre amigos, em todos os meios. É estimulante essa rede que faz a vida pulsar para além da mediocridade e do preconceito que limitam o olhar e transformam o horizonte em pontos sem luz.

Algumas pitadas sobre o Grupo Inclusivass, a websérie “Fale com Veca” e o espetáculo teatral “Paradinha Cerebral”.

Inclusivass – porque todas são todas

todas são todas menor lat face
O Grupo Inclusivass, de Porto Alegre/RS, é formado por mulheres com deficiência e desde 2014 faz um trabalho incessante contra a violência, pela ampliação da consciência e do conhecimento dos direitos, pela inserção no mercado de trabalho, por políticas públicas que promovam a acessibilidade, buscando reduzir as barreiras para uma efetiva inclusão. Com o apoio da ONG Coletivo Feminino Plural, participa e apoia movimentos pela autonomia das mulheres, realiza oficinas, debates e palestras. Todas estão sempre atentas ao que acontece nesse inquietante universo feminino de lutas cotidianas. No blog www.inclusivass.blogspot.com.br, acesse o projeto TODAS SÃO TODAS, de inclusão das mulheres com deficiência nas políticas de enfrentamento à violência doméstica e demais políticas, que tem apoio do Fundo Fale Sem Medo (Instituto Avon e Fundo ELAS).
Agora em agosto, quando se completam 10 anos da Lei Maria da Penha, as Inclusivass participam da campanha do Fundo Fale sem Medo: “Eu falo sem medo, e você?”. As mulheres com deficiência fazem um vídeo de, no máximo, um minuto, respondendo à pergunta: “O que é violência para mulheres com deficiência?” Depois, publicam nas suas páginas no Facebook e na página do Grupo Inclusivass junto com a hashtag #inclusivassfalamsemmedo.

Fale com Veca – websérie no Youtube

Verônica Ned, imagem da websérie "Fale com Veca"
Verônica Ned, imagem da websérie “Fale com Veca”

A atriz, cantora e publicitária Verônica Ned criou um canal no Youtube para falar de nanismo e outros assuntos que envolvem ser diferente em uma sociedade que se acha “normal”. A websérie “Fale com Veca” já está no ar, tem financiamento coletivo e foi produzida em parceria com a plataforma Benfeitoria. O objetivo do projeto, inspirado no filme “Fale com Ela”, de Pedro Almodóvar, é quebrar alguns tabus referentes ao nanismo, com bom humor e verdade.

Em 15 episódios, Verônica fala sem medo dos traumas da família, do preconceito, das dificuldades, enfrentamentos e sonhos, como o de fazer um filme com o cineasta espanhol. Filha caçula do cantor Nelson Ned (1947-2014), a atriz é anã como ele e os outros dois irmãos e já recusou papéis que faziam chacota de sua altura. Os episódios vão ao ar sempre às quartas-feiras, a partir das 11h. E na animação dos episódios tem um cara que conheço, o querido Nicolás Monasterio. Vale muito conferir o que Veca diz com transparência e leveza –https://www.facebook.com/falecomveca/.

Paradinha Cerebral – espetáculo teatral

Cacá Fernandez, ator do espetáculo "Paradinha Cerebral"
Cacá Fernandez, ator do espetáculo “Paradinha Cerebral”

O protagonista da peça é o ator e cantor Cacá Fernandez, que tem paralisia cerebral e aborda com naturalidade seus enfrentamentos cotidianos. A proposta é mostrar a espontaneidade e inteligência de alguém que transforma a sua dificuldade em um mero detalhe ao dar uma entrevista no “Show da Madá”. Tudo começa quando os produtores do programa resolvem levar um convidado diferente para impulsionar a audiência: um jovem jornalista, cantor lírico, com paralisia cerebral, em cadeira de rodas. Com um humor peculiar e livre de neuroses, ele dá lições ácidas e divertidas à apresentadora, que se vê obrigada a encarar o sonho frustrado de ser cantora.

Em cena, os atores falam abertamente de preconceito, trabalho, sexo, inclusão e relacionamento. Para a produtora Lara Pozzobon, que tem uma bela trajetória nessas questões, “é importante para que as pessoas da plateia percam o preconceito”. Segundo ela, “Paradinha Cerebral” é um espetáculo em que a arte transcende a condição de cada indivíduo. No elenco, Cacá Fernandez (ator e cantor) e Mirna Rubim (atriz e cantora). Texto e direção de Iuri Saraiva. A videografia que permeia a peça é realizada por Daniel Gonçalves, jornalista, diretor de documentários, editor de programas de TV, que, como Cacá, tem paralisia cerebral. O espetáculo está em cartaz no Rio de Janeiro até 29 de setembro. Saiba mais no face: https://www.facebook.com/paradinhacerebral/.

A diversidade na família contemporânea

Família, por Tamar Matsafi
Família, por Tamar Matsafi

A Constituição Brasileira de 1988 define família como o resultado da união entre um homem e uma mulher.

Em 2011, o Supremo Tribunal Federal/STF reconheceu a união estável de pessoas do mesmo sexo, com direitos e deveres iguais aos das famílias formadas por homens e mulheres. A partir dessa decisão, casais homossexuais podem casar no cartório. Em 2013, O Conselho Nacional de Justiça/CNJ também deu legalidade ao casamento civil. As medidas provocaram fortes reações de grupos sociais que não aceitam a união de pessoas do mesmo sexo.

Diversidade, por Tamar Matsafi
Diversidade, por Tamar Matsafi

Surgiu, então, o polêmico Estatuto da Família, tentativa de definir o que realmente é uma família no Brasil e quem tem acesso a direitos como pensão, INSS, licença-maternidade. O projeto de lei, aprovado na Comissão de Constituição e Justiça, ainda precisa ser votado na Câmara e no Senado e sancionado pelo presidente, o que pode durar meses ou até anos.

De autoria do deputado evangélico Anderson Ferreira (PP-PE), o texto principal do Estatuto ratifica como família a união entre um homem e uma mulher, e seus filhos, excluindo os demais arranjos familiares, não apenas o homoafetivo. Além de discriminatório e preconceituoso, ignora direitos já conquistados como herança, guarda dos filhos e inclusão da parceria em planos de saúde. Há também o Estatuto das Famílias, quase parado, que atinge mulheres e seus filhos, homens e seus filhos, avós e seus netos e pessoas do mesmo sexo que adotam filhos abandonados por heterossexuais. Quem pensa que só os gays são prejudicados com esses projetos de lei está desinformado. Milhões de famílias serão prejudicadas e podem perder benefícios se os estatutos forem aprovados.

Vamos por partes.
A orientação sexual e amorosa das pessoas é uma questão pessoal, portanto não pode ser considerada ilegal. O casamento entre duas pessoas é um contrato civil e/ou religioso. O civil é o contrato legal e o religioso é baseado na fé e nos costumes da religião escolhida pelo casal. O Brasil é um país laico. E as leis devem tratar todo mundo da mesma maneira. Logo, não há motivo para impedir o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a formação libertária das famílias contemporâneas, inclusivas e sem preconceitos, como define o site Todas as Famílias (link http://todasasfamilias.com.br/): “Núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantêm entre si uma relação solidária”.

Não é mais possível negar a alteridade, a diferença, o estranho, a diversidade.
Dito isto, divido com os leitores deste blog o artigo de um amigo sobre o silêncio, a homossexualidade na velhice e o novo Estatuto da Família.

Família, por Tamar Matsafi
Família, por Tamar Matsafi

 

O Novo Estatuto da Família não passará!
Marco Aurélio Alves*

Em outubro de 2015, uma repórter de ZH pediu que eu intercedesse junto a integrantes da comunidade LGBT, frequentadores do Projeto Papo Reto, da ONG onde atuo, para que falassem sobre o lado positivo da vida gay após os 60 anos. Ninguém quis! A jornalista surpreendeu-se e fiquei refletindo sobre a razão do silêncio.
Viver a homossexualidade aos 60, 70 anos é difícil! Pessoas dessa faixa descobriram o sexo em uma época de repressão aguda. Carregam traumas intransponíveis e o medo da exposição, do deboche, da chacota, da piada perversa, dos dedos apontando.
Não sei se estão erradas na sua mudez, pois diariamente vejo ou sofro algum tipo de discriminação. Para alguns, o enfrentamento é a razão da vida. O grito vem com raiva, contra a impotência ou o abandono. Para outros, silenciar é a solução. Escondem-se em guetos, no humor cáustico, na quietude das casas bem decoradas, na própria solidão. Há os que buscam pequenos círculos de amigos para compartilhar sensibilidade e conhecimento. Reservados, não falam no assunto, seja no trabalho, na família ou nas redes sociais.
Tudo fica ainda mais difícil com a invisibilidade da velhice, quando são chamados de “museu, bengala, canteiro de rugas, bixa velha”. Como tempero para esse caldo já tão amargo, a hipocrisia do politicamente correto faz pensar que tudo vai bem, enquanto uma cortina de fumaça conservadora e cruel transforma o assunto em folclore ou business. Afinal, quem não tem um amigo gay para chamar de seu? Em qualquer idade é doloroso falar de humilhação, amores sem nome, tapa na cara para aprender a ser macho, paixões platônicas, roubo de quem prometia um prazeroso programa.
Mas, sim, avançamos! Esses atrevidos, bem humorados e maquiados, já abriram muitos caminhos e, de botina ou salto alto, afirmam: Não peço que me aceitem, mas exijo que me respeitem! Felizes os que vivem sua afetividade e sexualidade livres da aprovação de quem quer que seja e defendem o direito à palavra, ao amor, à vida plena. O vingativo estatuto da família conservadora, que quer retroceder 50 anos, não passará. Estamos juntos, não importa com que letra do LGBT cada um se identifique.

*Gestor do Instituto Brasileiro da Pessoa

Rompendo barreiras para uma sociedade solidária e inclusiva

É bom lembrar que alguns espaços culturais já promovem a inclusão. O Museu de Porto Alegre é um exemplo, bem como as sessões de cinema com audiodescrição. Agora, o portal de Acessibilidade da Faders/Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência e com Altas Habilidades no Rio Grande do Sul propõe uma consulta pública para avaliar o projeto da Lei Gaúcha de Acessibilidade e Inclusão. Quem quiser conferir pode acessar o link http://www.portaldeacessibilidade.rs.gov.br/servicos/36/3334.

É bom lembrar também que não basta só cumprir uma lei. É necessário saber o que propõe e por que foi criada. No bairro Moinhos de Vento, na calçada da rua Doutor Timóteo, entre a 24 de Outubro e a Tobias da Silva, está sendo feito um piso tátil que dá em um poste ou algo parecido. Imagino que quem teve a ideia, muito bem vinda, não sabia que piso tátil e uma indicação de “caminho livre”. Ou sabia e não se importou?

Por conta disso, reli o artigo “Acessibilidade e Cultura – Por que sim? Por que não?”, de Flavia Boni Licht, arquiteta que está sempre em busca de respostas para questões que envolvem inclusão. No artigo, que sintetizo aqui, ela fala de leis, cidades, patrimônio cultural, mudança de paradigmas. Já no início cita João Filgueiras Lima, também arquiteto, reconhecido pelos projetos desenvolvidos para a Rede Sarah de hospitais: “Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um”.

Leis são leis!                                                                                                                           A Constituição Brasileira de 1988 (artigo 5º/Capítulo 1) refere-se aos direitos e deveres individuais e coletivos dizendo: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Vigente no Brasil desde 2000, a lei federal 10.098, regulamentada em 2004, estabelece normas e critérios básicos para a promoção da acessibilidade mediante a supressão de barreiras e de obstáculos nas vias e espaços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma de edifícios, nos meios de transporte e de comunicação.

Desde 1948, depois de promulgada pela ONU, a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi assumida no Brasil.

A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada pela ONU em 2007 e promulgada no Brasil em 2009, fala em respeito pela dignidade e autonomia das pessoas, a não discriminação, a igualdade de oportunidades. Reconhece o direito à efetiva participação e inclusão na sociedade e o respeito pela diferença.

Ainda na década de 1990, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e a Câmara Municipal de Porto Alegre aprovaram leis que determinam o acesso e a circulação livre, segura e independente, para todas as pessoas nos espaços públicos.

Se levarmos em conta essas e tantas outras leis – estudadas, debatidas e aprovadas – a acessibilidade e os direitos essenciais dos indivíduos estariam dados de forma singela e definitiva. Deveriam ser naturais, mas não é bem assim! Nas questões de direitos humanos “não somos tão virtuosos como gostamos de nos acreditar ser”.

Chego lá, por Tamar Matsafi

Acessibilidade e espaços urbanos – um debate fértil                                               Assim Flávia iniciou em 2011 uma pesquisa para identificar as barreiras existentes nos espaços da cidade para pessoas com deficiência e visitou instituições públicas municipais e instituições com atividades públicas em edificações tombadas pelo município. Para ela, o acesso pleno à cultura, incluindo a participação na dinâmica da criação, seja como artista ou espectador, está entre os direitos humanos fundamentais. A iniciativa abriu um espaço fértil e favorável ao debate.

Avançando um pouco além do mais evidente e entrando em terreno menos concreto e mais espinhoso, é fato que temos dificuldade em reconhecer no diferente alguém com direitos iguais aos demais. Construímos, segundo Flávia, com requintes e detalhes, uma cultura excludente e nos esforçamos em mantê-la, da democracia ateniense, que sacrificava crianças nascidas com deficiência, até hoje.

Por que ignorar o diferente e suas necessidades? O sociólogo polonês Zygmunt Bauman afirma no livro “Confiança e Medo na Cidade” que “as diferenças nos incomodam e nos impedem de interagir, de atuar amistosamente e que, se quisermos compreender nossas diferenças, precisamos formular novas questões”.

O Conselho Internacional de Museus/ICOM expressa, no seu Código de Ética, que as instituições culturais têm o compromisso de abrir espaços, acervos, coleções e atividades a todos os públicos, agindo como interface da multiplicidade de percepções, gerando acesso para diversificadas sensibilidades e variados entendimentos, visando satisfazer uma das necessidades básicas do ser humano: o conhecimento do mundo.

É necessário, portanto, a construção de estratégias e metodologias, a utilização de equipamentos e produtos, o desenvolvimento de programas e projetos que possibilitem o acesso, a contemplação e a captação dos conteúdos expressos pela cultura de forma não discriminatória.

Por onde ir, por Tamar Matsafi
Por onde ir, por Tamar Matsafi

Perguntas infindáveis
Como os profissionais devem atender demandas diferenciadas, incorporando a acessibilidade às práticas cotidianas? Como um museu deve receber o público, contribuindo com o desenvolvimento das potencialidades funcionais, neutralizando e superando diferenças sensoriais, físicas e/ou cognitivas? Por que podemos tocar numa escultura colocada em praça pública? E por que isso é vedado nas obras expostas em museus? Quando e por que o toque deixou de ser incentivado e foi proibido? Por que delegamos majoritariamente ao olho toda a possibilidade de captar sensações? Por que, pelo papel hegemônico dado à visão, reprimimos o toque e, em menor escala, os demais sentidos?

Tendo como objetivo a inclusão de todos na construção e na vivência da cultura, não seria o caso de apostar na multissensorialidade ou – de forma mais poética, como fala o filósofo francês Gaston Bachelard – na polifonia dos sentidos? Afinal, como lembrou o arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa, o olho é o órgão da distância e da separação, enquanto o tato é o sentido da proximidade, intimidade e afeição. O olho analisa, controla e investiga, ao passo que o toque aproxima e acaricia.

É interessante repensar o que define a qualidade cultural de um bem e qual o limite da obra original, diz Flávia. Considerando a longevidade do monumento, qual o momento histórico a ser preservado? Quem tem o poder de tomar essa decisão? Se nossos bens não deixam de ser patrimônio quando se deterioram e se restauram, por que deixariam de ser quando tornados acessíveis a todos? O que e quem define a autenticidade de um bem?

Nos museus, os objetos exigem condições específicas e adequadas de catalogação, acondicionamento, manuseio, conservação, umidade, temperatura, luminosidade, limpeza e restauro. E as pessoas? São os seres humanos ou os objetos que têm necessidades? Colecionar, preservar e expor são um fim em si ou uma forma do museu desempenhar seu papel social, facilitando e estimulando a todos – independente de idade e de condição física – o acesso à cultura?

Em 1964, a Carta de Veneza dizia que a preservação será sempre favorecida por sua função útil à sociedade (desde que as alterações necessárias não desvirtuem o autêntico de cada bem). Em 1976, a Unesco, na 19ª Sessão, em Nairóbi, sobre a Salvaguarda dos Conjuntos Históricos e sua Função na Vida Contemporânea, estabelece, entre os princípios da Carta, a necessária e harmoniosa integração dos monumentos na vida coletiva da nossa época.

Em 1990, o arquiteto Antonio Cravotto, representando a Comissão do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Uruguai no 2º Seminário Ibero-americano de Promotores e Formadores em Acessibilidade ao Meio Físico, declarou: “Em termos práticos, os bens patrimoniais só podem ser salvaguardados se usados apropriadamente no presente. Para tanto, esses bens serão necessariamente afetados por modificações espaciais e estruturais; incorporação de elementos, dispositivos, sistemas e redes técnicas; inclusão de equipamentos e de sinalização. Essas intervenções não possuem justificativa nem melhor nem diferente das originadas pela eliminação das barreiras para pessoas com deficiência”.

Mudando paradigmas
Ou os bens patrimoniais se adaptam às exigências contemporâneas, ou vão perder o significado, pela impossibilidade do uso. A afirmação pode ferir muitos ouvidos, mas por si só, a transformação de uma residência num museu já pressupõe inúmeras adequações, permitidas, aceitas e festejadas. Porém, muitas vezes, as adaptações dos espaços para atender aos requisitos da acessibilidade são feitas para se livrar do problema. Aí, dificilmente se tem boas soluções.

Nas praças públicas dos centros históricos observa-se a mesma situação. Aceitamos eliminar ou substituir árvores e arbustos, inserir novos quiosques, bancos e lixeiras, mudar o desenho dos canteiros, trocar antigas placas de sinalização. Mas, pelo viés da acessibilidade, quando muito, se aceita o rebaixamento do meio fio. Nem pensar em macular as calçadas de pedra portuguesa com piso tátil para que pessoas cegas ou com baixa visão aproveitem o espaço com autonomia. Ou em estudar alternativas melhores para pisos pouco confortáveis aos usuários de cadeiras de rodas.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/Iphan, em 2003, também tratou do tema. As soluções adotadas para a eliminação, redução ou superação de barreiras na promoção da acessibilidade devem compatibilizar-se com a sua preservação e, em cada caso, assegurar condições de acesso, de trânsito, de orientação e de comunicação, facilitando a utilização desses bens e a compreensão de seus acervos para todo o público.

Será possível respeitar o passado de uma edificação, desrespeitando os direitos das pessoas? Selecionar, com nossa visão de restauro, quem pode ou não desfrutar de um patrimônio de todos é correto? Será que não deveríamos pensar primeiro nas necessidades dos seres humanos e depois nas dos edifícios? Para Flávia é preciso desconstruir conhecimentos e práticas para pesquisar e descobrir novas e boas soluções. O trabalho não é fácil nem rápido, mas, sem dúvida, o momento é de questionar e buscar a transformação para, efetivamente, caminhar na direção de uma sociedade inclusiva.

Será que não seremos todos iguais na diversidade, se a infraestrutura for adequada, se a tolerância desafiar os padrões, se o respeito romper com os programas e projetos tradicionais, se a solidariedade voltar a ser considerada como um valor por todos nós? Talvez seja essa uma utopia, mas, voltando às palavras do professor Cravotto, não será a utopia, corretamente entendida, a determinar a acertada direção de um avanço social?