Como é difícil ser diferente! Fragmentos

Pelo direito à diferença, por Tamar Matsafi
Pelo direito à diferença, por Tamar Matsafi

* “Quero a diferença, o encanto, o inusitado. A diversidade está em pauta, em todos os sentidos. Me incomoda o discurso de vítima que, às vezes, circula. O mundo culposo e ascético é ruim” – Fernanda Torres, atriz (Fevereiro de 2016).

* Ser diferente é correr perigo – reflexão da cantora Fernanda Takai sobre a diferença. A partir de gravação de videoclipe, em madrugada na capital paulista, cantando uma canção que dizia: “a gente se acostuma com tudo”. Com maquiagem e figurino que remetiam ao personagem Edward Mãos de Tesoura, versão moderna e mais sentimental de Frankenstein, ela estava irreconhecível. A publicação é de 18 de dezembro de 2015.

“Comecei a caminhar lentamente, enquanto as cenas eram captadas. A cada minuto alguém passava de carro ou a pé e gritava alguma coisa como: “olha a loucona!”, “bicha”, “sai, macumba!”, “que ser é esse, meu pai?”, sempre em tom de escárnio ou reprovação. Detalhe: quando percebiam que era uma gravação, trocavam um pouco a postura ofensiva por um “quem é?”, “é da televisão?”. Continuamos a andar, cruzamos a Avenida Paulista e uns fãs passantes me descobriram por trás daquela personagem.

Enquanto ia cantando e descendo a rua em direção à parte mais barra-pesada do lugar, ficava pensando como é difícil ser diferente nesse mundo. Seja pela roupa, o corpo, algum tipo de comportamento menos usual e nem por isso errado. Ser diferente é atrair olhares e pensamentos que a gente sente como espinhos. Mas o pior eu ainda ia sentir de verdade naquela madrugada.

O diretor queria gravar umas cenas num clube noturno que costuma lotar todas as noites. Logo chegamos ao lugar, que fica exatamente na área mais recheada de saunas, casas de espetáculos eróticos e hotéis de alta rotatividade. Ou seja, supus que haveria umas tantas pessoas também diferentes e que ali eu não chamaria atenção. Errado. Os mesmos comentários surgiram como farpas. Eu também não era daquela turma.

Conseguimos autorização pra entrar com a câmera na boate. Já no corredor de acesso, pressentindo a hostilidade, disse que era melhor a gente ir embora que as pessoas estavam me olhando feio demais. Me davam empurrõezinhos e se viravam resmungando qualquer coisa. O som era altíssimo e a iluminação precária. Quando começamos a gravar umas cenas em que eu apenas ficava na pista enquanto todos dançavam. Alguém deliberadamente agarrou meus cabelos e me puxou com força. Estava escuro, lotado, e as pessoas pareciam todas iguais. Digo, vestiam-se do mesmo modo. Não consegui ter certeza de quem foi. Justamente nessa hora a câmera foi desligada para ser ajustada à quantidade de luz e ninguém da pequena equipe que estava lá comigo conseguiu ver o ataque.

Imediatamente pedi pra irmos embora porque agressão física é o tipo de coisa que me faz perder a graça. Ou a gente parte pra cima ou foge. Eu fugi e fiquei com muita vontade de chorar. Nem tanto pela dor, mas pela constatação de que ser diferente é correr perigo. Não ser de uma determinada turma nos torna automaticamente alvos de um bocado de gente bruta e disposta a nos colocar no devido lugar pelas palavras e pelos atos ignorantes. Minha filha tem um livrinho, que é um dos mais vendidos mundo afora, que se chama Tudo bem ser diferente. Não, Nina. Ainda não está tudo bem e pelo jeito nunca vai estar.”

Ações – A luta cotidiana por respeito e reconhecimento

Tamanho é documento, por Tamar Matsafi
Tamanho é documento, por Tamar Matsafi

*Respeite o Nanismo – A seguir, trecho de texto de Carla Abreu, anã. Li no face Respeito o Nanismo, que tem o objetivo de divulgar informações, trocar experiências e ampliar conhecimentos sobre o Nanismo na Região Sul do Brasil (https://www.facebook.com/respeiteonanismo/).

“Por vezes, a sociedade através de muita violência quer dizer a nós que não merecemos aquele lugar, que não merecemos os nossos sonhos, que o sonho que realizamos e os outros tantos que nós queremos realizar não pertencem a nós. Muitas vezes, ela nos violenta dizendo que não podemos ou não temos habilidade de sermos quem quisermos ser, pelo simples fato de, na sua esquizofrenia, não aceitar que a diversidade é algo intrínseco à natureza.”

*Grandes Cidadãos – Os desafios das pessoas com nanismo. Série que mostra com naturalidade o cotidiano dos anões em 4 episódios: Nanismo, Obstáculos, Família e Preconceito. Canal Rede Brasil no youtube.

Tamanho é documento (2), por Tamar Matsafi
Tamanho é documento (2), por Tamar Matsafi

*Queria ser Penélope Cruz em tamanho mini – Verônica Ned, atriz e cantora, filha caçula do cantor Nelson Ned (1947-2014), anã como ele e os outros dois irmãos. Verônica produz, em parceria com a plataforma Benfeitoria, a websérie Fale com Veca, inspirada no filme Fale com Ela, de Pedro Almodóvar. Em 10 capítulos, a série conta histórias sobre os traumas da família, preconceito e sonhos da atriz que quer fazer um filme com o cineasta espanhol. https://www.facebook.com/falecomveca/

“Para a gente tudo é alto, grande, duro, pesado, longo, comprido, distaaaaaante pra caramba”, declarou ela em um vídeo sobre o projeto. “Mas isso não quer dizer que a gente não vai conseguir chegar lá. Porque a gente é menos”. Verônica contou, no lançamento do projeto em 2015, que já recusou papéis que faziam chacota de sua altura.

“Tipo fazer assistente de palco vestida num biquíni de lantejoula. Não é minha pegada.”
Não é só o preconceito que precisa driblar. No dia a dia, até apertar o botão do elevador é um desafio físico a ser superado, afirmou. “Tirar dinheiro no caixa também não é fácil. Para isso, tenho banquinho no carro. E também uso uma almofadinha (para sentar no banco do automóvel) e um patinete, se for distante, umas cinco quadras.”

Ainda é tempo de recuperar a delicadeza perdida

Olhares do cotidiano, por Tamar Matsafi

A condição humana me comove muito. O ir e vir na busca de um lugar de dignidade. O desejo de significar. A vontade de um olhar que acolha a diversidade e dê sentido à perplexidade da vida. A desenfreada luta cotidiana.

Tantas faces. Tantas máscaras. Tantas incertezas. Tantos desafios. Tantas repetições.
Remexendo em guardados, encontrei escritos que falam da minha inquietude. São pequenos relatos sobre o país dos sonhos e o país real. Pincei um de 1990 e um de 2015 para dividir com os leitores do meu blog. Incrível constatar a repetição e a dificuldade de fazer diferente.

Dezembro de 1990. Depois de ver na TV Manchete um programa sobre Chico Buarque, que tinha como cenário o Rio de Janeiro e o Brasil da época, chamado O País da Delicadeza Perdida, escrevi:

No País da Delicadeza Perdida

Ruminando, por Tamar Matsafi

“Me dei conta mais uma vez do país onde vivo. A violência, a miséria, a injustiça social, a impunidade e o abuso de poder parecem estar impregnados na nossa pele e combinar com o nosso desejo. Já não nos espantamos.
Nossos olhos estão habituados com o desespero de alguns olhares e a apatia de milhares de rostos. Nossos ouvidos não estranham o atordoamento de algumas vozes e o silêncio da maioria. Nossa boca acostumou-se a dizer o óbvio, repetir frases feitas ou calar. Nosso corpo absorve o cansaço dos corpos famintos e desesperançados que cruzam as ruas em busca de quase nada. Nossa consciência, às vezes, lateja, mas logo arruma um jeito de amortecer.
Nosso amor não resiste ao menor contratempo. Já não temos quase fôlego. Sonhamos com o amanhã, só que de braços cruzados. Satisfazemos nossos egos com discursos inflamados. Mergulhamos nas causas além de nós, debruçados nas nossas janelas floridas, enquanto disfarçamos a implacável impotência que nos assalta.
Também perdemos uma certa delicadeza. Estamos embrutecidos diante de tanta impossibilidade e nos escondemos. Só conseguimos chegar até a janela, de onde vemos tudo, passiva e dolorosamente.”

Outubro de 2015. Tempos difíceis, escrevi:

Transbordamentos de um país à deriva

Qual a saída, por Tamar Matsafi

“E qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d´água! – diz a emblemática canção de Chico Buarque. Fizeram! E tanto que o pote transbordou. Vozes indignadas sacudiram o berço esplêndido. Era junho de 2013! Acostumados à cordialidade e à alegria do povo heróico, todos se espantaram. A pátria mãe gentil desatinou. Na raiz dos protestos, desejos simples e vitais – respeito, dignidade, participação – de homens e mulheres que queriam ser percebidos para além da moeda de troca vulgar em que transformaram a política e a vida de cada brasileiro.

Descaso, farra financiada por dinheiro público, deboche, impunidade, corrupção. O toma lá dá cá, o vale tudo e o deixa pra lá indiscriminados levaram a população às ruas. Atônitos, governos, políticos, partidos, empresários e instituições foram incapazes de uma resposta. Impávidos, seguiram jogando o sedutor e corrosivo jogo do poder com discursos protocolares de quem não se compromete com a sociedade que representa.

Entramos em 2014! Oposição medíocre, sem alternativas viáveis para os erros que apontava. Governo sem respostas para as críticas que recebia. Copa do Mundo, campanhas e eleições vergonhosas, cheias de dinheiro e promessas vazias. Uma indigesta falta de limites. Comprometimento com projetos para melhorar o país para quê? Uma “boa grana”, lícita ou ilícita, compra votos, adesão, cargos, silêncio.

Veio 2015! No poder, políticos de carreira eleitos com dinheiro ilícito e mantidos por verbas públicas. Partidos sem ideologia, reféns uns dos outros, que só entendem do venha a mim esse reino, de preferência com súditos sem voz. Governos sem autoridade, enredados em alianças oportunistas. Empresários incapazes de liderar um movimento pela ética nos negócios e pela saúde financeira do país. Indivíduos corruptos, desfilando impunes em cargos públicos. Bajuladores de plantão, que tudo veem e tudo ouvem, mas o silêncio é cômodo e tem preço. Burocracia. Violência. Corrupção desenfreada.”

Junho de 2016. E agora?

Desamparo e desencanto

Mesmo diante de tanta desesperança, não estamos inertes. Como em 2013, a vontade de mudar nos move. Se tudo está escancarado, se as máscaras estão caindo uma a uma, a hora é de recomeçar, sem medo, de rosto sereno e com firmeza, outra história, com os pés fincados na transparência e na justiça.

Esse mundo dos diferentes! Por mais atitudes

Por Tamar Matsafi
Por Tamar Matsafi

“Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”

 Ao dar voz ao anão Umberto no seu primeiro livro infantil, “A história mais triste do mundo” (Bolacha Maria Editora), o psicanalista e escritor Mário Corso nos mostra, mais uma vez, o quanto uma pessoa com dificuldades específicas depende do olhar e da atitude do outro e o quanto incluir não se resolve apenas com leis.

Se estivesse em um hospital, o anão Umberto perguntaria: Por que usar aparelho de pressão grande em braço tão curto? Detalhe que poucos lembram e que deixa evidente a negação da diferença. O tamanho, o peso, a dosagem da medicação, o conforto, o que fazer com um adulto em um corpo tão pequeno? As perguntas espantam e quase não se tem respostas! Às vezes o vácuo é tão insondável que parecemos estrangeiros buscando um mínimo de dignidade em um mundo que insiste em não nos reconhecer.

Ouse, então, pedir um banco para alcançar na pia do banheiro de um hotel! Não importa quantas estrelas, o espanto é de quem parece ouvir alguém pedindo uma cadeira com design dos irmãos Campana e a resposta, quase sempre é: Não temos! Até aparecerem com uma caixa de maçã ou um engradado de bebidas. Ou, ainda, com uma cadeira de dois braços, que ocupa todo o banheiro. A situação se repete em instituições financeiras, balcões de atendimento e por aí afora.

Insisto em escrever sobre isso e estou sempre buscando respostas para questões que envolvem leis, acessibilidade e inclusão. Ao reler, recentemente, um artigo da arquiteta Flavia Boni Licht chamado “Acessibilidade – um fator de inclusão social”, uma afirmação do também arquiteto João Filgueiras Lima chamou minha atenção: “Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um.”

A frase sintetiza o que penso de leis, normas, regras, estatutos e tudo o que é criado para colocar uma certa ordem na vida dos humanos. Leis são necessárias. Regulam, dão garantias. Apontam a preocupação da sociedade. Mas fundamental mesmo é a atitude, a capacidade de se colocar no lugar do outro e mudar a regra, se a situação pede. Empresas e instituições, públicas ou privadas, na maioria das vezes, cumprem ordens, sem a preocupação de entender o cotidiano de quem tem uma deficiência.

Enquanto a burocracia discute como incluir, a vida anda e vamos dando um jeito de encarar com dignidade o cotidiano desse mundo “normal”. Um mundo tão normal e tão acomodado que não vê na diversidade uma maneira de sair dos espaços institucionalizados e inventar, reinventar, criar, mudar, facilitar. A diferença, seja ela qual for, necessita de olhares sensíveis, capazes de ver o invisível, acolher e ousar.

 Por Tamar Matsafi
Por Tamar Matsafi

Acessibilidade e inclusão para quê? Entre desabafos e constatações

Pra onde ir, por Tamar Matsafi
Pra onde ir, por Tamar Matsafi.

Alguém que me lê em algum momento já parou para pensar efetivamente nos banheiros de ônibus e de aviões? Acessibilidade zero para qualquer pessoa que tenha uma necessidade física especial. Eu, com 1m10cm de altura, quase não consigo me movimentar nesses minúsculos banheiros.

Mas não é só o nanismo. E as pessoas altas e acima do peso, como se acomodam nesses cubículos? E as que têm dificuldades de movimento ou de se segurar? E quem está em cadeira de rodas?  E as crianças?

A questão não é simples.

Mais acentos, mais passagens vendidas, mais lucro? É essa a lógica? Dane-se o conforto e a acessibilidade. Afinal todos precisam viajar e, se não há melhores opções, que assim seja. É uma hipótese. A sociedade do “quero sempre mais” é desumana. E poucos pensam em minimizar as dificuldades, que dirá resolver!

O dinheiro dos impostos pagos regularmente pelo cidadão para garantir algum serviço de qualidade vaza pela corrupção miúda e farta que percorre as veias abertas das administrações sem escrúpulos de muitos governos. E sangra muitas vidas, especialmente a vida de milhares de brasileiros que trabalham eticamente e dizem não ao ilícito, ao abuso de poder, ao dinheiro fácil.

Na sociedade do lucro acima de tudo, o outro só é considerado se contribuir para aumentá-lo e para o acúmulo de quem já tem em demasia. É o que temos. Gastos para atender uma demanda específica de quem tem uma dificuldade são vistos como desnecessários. Não dão “ibope” a ninguém. Conquistas? Só com muita luta. Algumas reivindicações voltadas para a acessibilidade esbarram no quesito verba. “Não está previsto”. “Não foi orçado”.  Estanca na burocracia. “Não podemos fazer sem autorização”. Morre no desinteresse generalizado. “O que eu ganho brigando pela sua causa?”

Enquanto isso, a sonegação de impostos corre solta, governos aprovam obras desnecessárias, fecham os olhos para o superfaturamento e o caixa dois, não fiscalizam, trocam benesses por votos, perdoam dívidas de grandes empresários em troca de apoio e fazem o mínimo pelas pessoas, o que custa muito pouco na maioria das vezes.

Enquanto isso, muitos políticos eleitos para cuidar dos interesses da população, que deveriam ser olhados e tratados como trabalhadores do país, acumulam regalias. Além dos salários polpudos, têm uma série de auxílios. Trabalham em causa própria. Criam projetos desnecessários. Transformam mandatos em empregos. Só pensam na próxima eleição para garantir mais quatro anos. Facilitam o trânsito dos corruptos. Enriquecem ilicitamente. E, como se não bastasse, ainda são tratados como seres especiais, fazendo uso do tal “foro privilegiado”.

Assim é o Brasil dos deitados em berço esplêndido que aí está, escancarado, para quem quiser ver.

Que dor é essa, por Tamar Matsafi.
Que dor é essa, por Tamar Matsafi.

Quando se fala de acessibilidade e do que pode ser feito efetivamente, de ordem prática, para incluir as pessoas, se cai no vazio.

Vou dar um exemplo simples, que diz muito dessa realidade.

Sempre que entro em um banco, público ou privado, e procuro um mínimo de acesso, não encontro. A única exceção é a agência do Banco do Estado do Rio Grande do Sul, onde tenho conta, e que já comentei aqui. As pessoas que atendem são gentis, mas burocráticas. Não sabem o que fazer comigo, muito menos propor uma alternativa que me dê autonomia. A pergunta “Vocês têm um banquinho ou uma cadeira onde eu possa subir?” desnorteia. E a resposta, invariavelmente, é “só temos com rodinhas”. Não dá!

Às vezes, a situação é tão vulnerável, e tão humilhante, que a vontade é virar as costas e não voltar. De modo geral, as pessoas com alguma dificuldade física quando pedem ajuda são tratadas de forma infantil, como se fossem ignorantes, senis, tontas, seres de outra galáxia.

A solução? Neste caso específico, revelar as senhas para conseguir pagar uma conta, tirar um extrato, pegar algum dinheiro.

Volto à velha tecla, já batida: de que adiantam discursos e leis se ninguém é preparado para acolher a diferença? Se poucos conseguem ver que é possível andar na direção contrária da padronização e da burocracia? A melhor maneira de combater o espanto, que vem com o preconceito, é a informação, o conhecimento, a vivência. Mas ainda estamos longe disso, lamentavelmente.

Quando falo de padronização, burocracia, preconceito, falo desses pequenos descasos cotidianos, lamentavelmente já incorporados no dia-a-dia de muitos. Falo da intolerância absurda que provoca tanta violência, medo e morte. Falo do silêncio.

O episódio do senhor que tentava pegar uma calça e uma blusa em uma caixa de doações da campanha do agasalho, em um supermercado de Porto Alegre, é um exemplo triste desse tipo de descaso. A noite era gelada, mas ele foi impedido porque só a Defesa Civil poderia retirar as peças.  Assim funciona a burocracia.

Cores da diversidade, por Tamar Matsafi.
Cores da diversidade, por Tamar Matsafi.

E o massacre violento em Orlando, nos EUA, na madrugada do dia 12 de junho, em uma boate gay? Tragédia motivada pela homofobia. “Não aceito, então mato”. Assim se manifesta o preconceito radical.

Foi um atentado contra todos os que lutam pela diversidade, pelo diálogo, pelos direitos humanos. Os que se calam e se recusam a ouvir a voz da comunidade LGBT, entre outras tantas vozes dissonantes, preocupados apenas em responsabilizar alguém rapidamente para encerrar o assunto, não querem o debate. Preferem o silêncio. E silenciar é consentir, deixando brechas para que outras formas de violência se manifestem.

Diferença, inclusão, direitos humanos – debate urgente em tempos de desmonte

Possibilidade, uma  escada, por Tamar Matsafi
Possibilidade, uma escada, por Tamar Matsafi

A formação de grupos humanos aponta para um fenômeno curioso. Ao mesmo tempo em que se criam traços de identidade entre seus integrantes, admite-se a exclusão de determinadas pessoas. Certas características e comportamentos são bem-vindos e outros repudiados. A sociedade trata de afastar aqueles que fogem aos padrões de normalidade sobre os quais está estruturada.

Assim se construiu uma teoria da normalidade, sem que se saiba exatamente de que modo e sob que fundamentos. Superficialmente, tem-se um padrão já inscrito na cultura a que todos, de algum modo, se conformam. Os que se afastam ou não correspondem sofrem vários tipos de discriminação.

A mensagem socialmente instituída é clara: cada grupo no seu lugar fazendo o seu papel para evitar o conflito. Essa é a condição para que negros, homossexuais, mulheres, índios, pobres, assim como pessoas que apresentam alguma deficiência, sejam aceitas. É necessário que cumpram os papéis que a ordem social historicamente lhes aponta. Já nascemos, portanto, marcados, inseridos em um meio incapaz de conviver com a diversidade e que, para aliviar sua culpa, reserva “generosamente” alguns espaços aos diferentes.

Excluídos, po Tamar Matsafi
Excluídos, po Tamar Matsafi

O impulso primeiro de todo o excluído é ocupar esses espaços, respondendo passivamente às expectativas. Não responder é recusar o lugar da vítima, do coitado, e assumir-se como sujeito diferente, capaz e com direitos, instaurando uma desordem necessária. Minha reflexão se faz justamente sobre esse deslocamento fundamental das imagens pré-construídas.

Como se constitui esse sujeito diferente? Que posição ocupa em relação aos discursos que se fazem sobre ele? Acomoda-se, revolta-se, submete-se, resiste e acrescenta um efeito novo e crítico? Sacode as certezas já estabelecidas a seu respeito? Inquieta a maioria conformada ao padrão clássico de beleza, comportamento, origem e meio social? Que discussão provoca?

As sociedades modernas, em razão de sua aspiração igualitária, criaram mecanismos dedicados a anular a diferença para, em um segundo momento, segregar todo aquele que não se conforma aos padrões estabelecidos. Mascaram a dificuldade de assimilação da diferença, enquanto grupos que sofrem preconceito lutam prioritariamente pela conquista de dispositivos legais que proíbam a discriminação, o que é interessante, mas também pode mascarar o problema.

A questão pode ser vista por outro prisma. Não se trata de anular as diferenças, porque elas efetivamente existem, nem de reduzir a discussão apenas à conquista de dispositivos legais. É preciso muito mais para abstrair o preconceito resultante de um processo histórico e cultural que fixa um modelo, no qual o sujeito se inscreve desde o nascimento.

Militares brasileiros quando torturavam mulheres grávidas durante a ditadura costumavam dizer: “Se for homem, branco e saudável, quando nascer, ficaremos com ele”.

Pra onde ir, por Tamar Matsafi
Pra onde ir, por Tamar Matsafi

O que desejo aqui é alertar o sujeito excluído para a necessidade de vigiar os efeitos sobre ele próprio das noções que apreende e incorpora culturalmente desde um ponto de vista padronizado. Essas noções tendem a torná-lo intimamente suscetível ao que aparece como seu “defeito”, levando-o muitas vezes a concordar que está aquém do que realmente deveria ser.

O caso do estupro coletivo de uma jovem, recentemente, no Brasil, é um exemplo contundente do que falo. Muita gente culpa a menina pela violência absurda que sofreu.

Em uma sociedade moldada por e para pessoas supostamente “normais”, que responde a padrões já traçados, como o machismo, as limitações são muitas. Nesse contexto, as pessoas dependem muito da solidariedade, da boa vontade, do bom humor e da disponibilidade dos outros e, claro, dos mecanismos que cria para a sua sobrevivência, defesa, bem-estar.

Quem sofre preconceito pela condição física, mental, intelectual, social, de gênero ou comportamento pode e deve impor o seu jeito de ser, subvertendo o estigma e a vitimização. As conquistas feitas até agora apontam para a diferença no sentido de repensá-la e não mais ignorar ou mascarar. No momento em que parte da sociedade começa a entender que a grande riqueza humana está na diversidade, essa discussão tem que ganhar mais fôlego. Não pode se dispersar justo agora em que os direitos humanos perdem espaço e importância no cenário nacional e praticamente já não têm nenhuma representação efetiva no governo que aí está.

Não, não é um pesadelo

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Em busca de horizontes, por Tamar Matsafi

É real. E estamos bem acordados, de olhos bem abertos diante de atitudes ultrajantes, torpes, machistas, que humilham, ofendem, roubam direitos, intimidam, sem qualquer resquício de humanidade e respeito. Estupro coletivo de uma jovem indefesa por 33 homens. Crianças com deficiência rejeitadas em escolas particulares. Movimento LGBT condenado por núcleos conservadores e por religiosos. Negros hostilizados. Índios dizimados. Agressão disseminada em espaços voltados para a educação.
A escancarada apologia da tortura e do estupro, a violência e a supressão de direitos básicos trazem na sua essência uma brutal reação à diversidade e às conquistas das minorias, que são conquistas de todos nós. O objetivo é empurrar toda pessoa que apresenta alguma diferença (física, mental, intelectual, racial, de comportamento) para um lugar de esquecimento, de não participação, uma espécie de limbo onde as vozes são apagadas. A discriminação que nos é imposta vem da construção de uma teoria da normalidade sem fundamento algum.
Tempos sombrios.

“Joga pedra na Geni! / Joga pedra na Geni! / Ela é feita pra apanhar / Ela é boa de cuspir / Ela dá pra qualquer um / Maldita Geni!”. “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque.

Não, não é um pesadelo. É o que é. Perdemos o sono e está difícil sonhar.
A realidade cruel não dá trégua. No Planalto Central, um Congresso formado por uma maioria inescrupulosa decide os destinos do país com olhos vorazes voltados para seus umbigos ambiciosos. Bilhões escorrem por mãos desprezíveis, passam pelas vias mais sórdidas, compram silêncio, poder, conveniência e recheiam instituições financeiras e bolsos já fartamente recheados. Enquanto isso, trabalhadores e aposentados parecem ser os únicos responsáveis pela crise da previdência social. E é recomendável encolher direitos, salários e gastos sociais, penalizando ainda mais os que já têm muito pouco. Tudo para alinhar os descaminhos do Brasil.
Tempos de desencanto.

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes / Índios e padres e bichas, negros e mulheres / E adolescentes fazem o carnaval / Enquanto os homens exercem seus podres poderes / Morrer e matar de fome, de raiva e de sede / São tantas vezes gestos naturais”. “Podres poderes”, de Caetano Veloso.

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Construção, por Tamar Matsafi

Quando lancei este blog com a proposta de refletir sobre exclusão, preconceito e limites de uma sociedade despreparada para acolher a diferença, não imaginei que teria pela frente dias tão vertiginosos. Falar sobre estas questões me parece ainda mais necessário diante de tudo o que está acontecendo. Lamentavelmente, para uma sociedade que se mostra incapaz de encarar e assimilar a diversidade, em razão de suas aspirações perfeccionistas, é muito mais fácil mascarar, ignorar, eliminar.Tempos de não deixar passar.

“E se acabou no chão feito um pacote flácido / Agonizou no meio do passeio público / Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. “Construção”, de Chico Buarque.

Reafirmo e quero deixar claro que, quando falo de acessibilidade e inclusão, falo de cidadania, respeito, direitos sociais básicos, independência, liberdade, acolhimento. Ao rotular ou desprezar as diferenças, anula-se a singularidade que torna os indivíduos únicos. Anula-se a criatividade. Anula-se a democracia. Anula-se o humano.
Enquanto os defensores dessa casta, representada pela tal “raça pura” acima de qualquer suspeita, insistirem em jogar para as margens os que veem como imperfeitos, nossos caminhos permanecerão minados pela intolerância.
O psicanalista Robson de Freitas Pereira, no artigo “Pra não dizer que não falei de flores”, publicado no Sul21, em que comenta a Noite dos Museus de Porto Alegre, refere-se ao discurso da intolerância como uma tentativa de “expulsar do próprio corpo a diferença e a fragilidade”.

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Temos pressa, Tamar Matsafi

Volto a dizer que a soma de tantas imperfeições é o que nos faz gente e nos torna infinitamente inquietos e utópicos. Não queremos apenas atrapalhar o trânsito “feito um pacote tímido”. Queremos parar o trânsito para que nos olhem como seres humanos com direito à vida plena.
Queremos conversar civilizadamente sobre o que somos. E volto ao texto do Robson. “Tentar expulsar, eliminar o que nos angustia é impossível – Freud já nos interpretou: não somos pacíficos por natureza, civilizar é lidar com a angústia e fazer com que as palavras tenham mais valor que a espada, o revólver ou a estupidez”.
Tempos de não desistir.

“O pulso ainda pulsa / O pulso ainda pulsa”. “O Pulso”, de Marcelo Fromer, Tony Bellotto e Arnaldo Antunes.

Da série Acessibilidade para quê? Fragmentos do cotidiano quase absurdo 3

Há sempre um jeito, por TamarMafsafi
Há sempre um jeito, por Tamar Mafsafi.

Entro na lotação. O motorista arranca bruscamente. Sem perceber que não alcanço em praticamente nada e tenho dificuldades para me segurar, como uma senhora com uma criança no colo e um senhor bem mais velho. Dane-se! Acessibilidade para que mesmo? Mas isso ainda é pouco. Dirigia como se estivesse em uma pista de corrida desgastada e cheia de buracos. Aos solavancos. Tinha horário a cumprir, imaginei. Os passageiros, sem condições de se proteger, eram um mero acaso naquela rota.

*

Com expressão irritada, o motorista do ônibus estaciona longe da calçada. Se pessoas mais velhas, crianças, alguém com problema nas pernas, ou eu que tenho 1m10cm de altura e pernas curtas, não conseguem ou têm dificuldades para descer e subir do ônibus é apenas um detalhe. Ele tem horário a cumprir e um roteiro para dar conta.  É o que importa.

*

O motorista travava tanto que cheguei ao centro da cidade, vindo de um bairro não muito distante, cansada de tanto tentar me segurar, ou melhor, me equilibrar. Quando é que os responsáveis pelo transporte público vão entender que anões, assim como pessoas com outras deficiências físicas, velhos, crianças, entre tantos outros cidadãos, têm muitas dificuldades em situações assim? Só com essa compreensão vão conseguir orientar as equipes que cotidianamente enfrentam as ruas tumultuadas e engarrafadas, com horários a cumprir. Olhar para o outro, colocar-se no lugar do outro, é um bom exercício para governos e administradores.

*

O jovem tinha tanta pressa que entrou correndo no ônibus, foi passando rapidamente e jogou a mochila que carregava nas costas no rosto de uma pessoa bem mais baixa do que ele. Olhar para o entorno para quê? Tinha muita pressa. Em seguida, o engarrafamento parou tudo.

*

Chego ao balcão de quase um metro e meio de altura com os meus 1m10cm. Do outro lado, a atendente, que quase não me vê, como eu quase não a vejo, não se dá ao trabalho de se levantar da cadeira para me olhar, falar comigo, dar um bom dia, boa tarde, qualquer atitude razoavelmente acolhedora. Ou eu me estico o que der, ficando na ponta dos pés, para que ela possa me ouvir, ou nada feito. Ainda bem que sou elástica e estou de bem com a vida.

*

Já no supermercado, a máquina para inserir o cartão e efetuar o pagamento era lá em cima. Impossível alcançar. Qual a solução? Um engradado, um caixote de plástico, enfim. E pensar que supermercados vendem escadas. Refletir, olhar, colocar-se no lugar do outro, não é o forte de quem trabalha burocraticamente. Cumpre ordens. E ordens são ordens!

*

Almoço em Gramado. Sozinha. Ao solicitar uma cadeira mais alta, ouvi do garçom: “Não temos.” Nem perguntou o motivo da solicitação. Apenas me olhou com ar estupefato. É assim, mesmo nos lugares mais preparados para o turismo. É assim, mesmo com os vastos e fartos discursos pela inclusão. É assim. E pronto. E ponto.

Ainda no almoço em Gramado. O mesmo garçom coloca os apetrechos bem na ponta da mesa (temperos, guardanapos, copo, bebida), distantes dos meus braços curtos. Trabalho mecânico. Sensibilidade zero. Distraído, não observa, não olha, não vê. Está distante da convivência com o cliente, que dirá do cliente com uma diferença, mesmo que marcante. E o lugar, charmoso, quase vazio. Uma pena. Nem o turismo se dá conta.

Inclusão para quê? Fragmentos do absurdo cotidiano 2

Subindo o morro, por Tamar Matsafi.
Subindo o morro, por Tamar Matsafi.

Por conta de tudo o que aconteceu de ilegítimo, abusivo e arbitrário no governo brasileiro desde a última semana, minha percepção diz que as políticas de inclusão, que ganharam representatividade nos últimos anos, estão seriamente ameaçadas, bem como a diversidade que nos constitui. A extinção dos Ministérios das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, embutidos agora sob o comando do Ministério da Justiça, é tristemente simbólica. Assim como é simbolicamente triste o fim dos Ministérios da Cultura e das Comunicações.

O que ouvi recentemente em uma fila de supermercado revela muito do que pode vir por aí: “As mulheres e os negros devem ter direitos, é claro, desde que provem que têm capacidade. Se provarem, não precisarão de nenhuma instituição, ou o que seja, para se encostar e viver do dinheiro público”. Comentário, no mínimo, machista, racista e irresponsável de um senhor branco conversando com outro senhor branco. Os senhores da casa grande? Entre risos e deboches, davam asas ao preconceito, baseados no senso comum.

A julgar pelo ponto de vista desses cidadãos, os brancos de cabelos lisos, olhos claros, esguios e fortes, mais os tantos outros predicados da almejada “raça pura”, não necessitam mostrar competência. Já nascem com salvaguarda.

Mas afinal nós todos – independente de gênero, raça, cor, orientação sexual, tamanho, opinião, posição social – não deveríamos ser aceitos como somos, com nossas capacidades, limites e possibilidades?

Abrindo caminhos por Tamar Matsafi.
Abrindo caminhos por Tamar Matsafi.

As pessoas que têm algum tipo de deficiência encaram muitas barreiras para viver dignamente, assumir uma atividade de trabalho e entrar no “fabuloso universo dos seres produtivos”. São olhadas de maneira estranha e muito questionadas. Para serem autorizadas, necessitam do que a sociedade chama de superação – palavra que, particularmente, não me agrada. Quem consegue emprego pela Lei de Cotas também enfrenta problemas de adequação e entendimento no ambiente de trabalho. E quando contestam, muitas vezes não são compreendidos. Simplificando a questão, parece que estar empregado é o que basta.

Os grupos normalmente têm dificuldade de encarar uma conversa franca sobre a deficiência, de um lado e de outro. Algumas empresas e alguns gestores não conseguem ver o profissional com sua deficiência e suas habilidades. Executam normas, leis, protocolos. Tudo está encaixado aqui e ali e parece impossível desfazer as caixas. A burocracia não suporta pensar fora do já estabelecido. A burocracia é cumpridora. Pouco analisa e pouco pensa. Apenas, enquadra.

Puxando a rede, por Tamar Matsafi
Puxando a rede, por Tamar Matsafi.

Mesmo assim tivemos muitos avanços. Consolidou-se uma rede de políticas públicas, com o apoio de grupos autônomos, voltada para o atendimento de pessoas vulneráveis socialmente, pessoas com deficiência e as que sofrem algum tipo de discriminação ou violência, no sentido de garantir seus direitos, a integridade e a liberdade de ir e vir.

Lamentavelmente, o cenário mudou. E diante do que está se desenhando no campo das decisões políticas do país, obscuro e retrógrado, é preciso estar atento e forte para garantir direitos sociais importantes conquistados nos últimos anos. Avanços que deram voz aos excluídos, abriram portas para o protagonismo das mulheres, garantiram vagas para os negros nas universidades e possibilitaram que jovens de famílias de baixa renda chegassem ao ensino superior não podem se perder. São conquistas libertárias que partem do entendimento de que a grande riqueza humana está na diversidade, nas trocas coletivas e nessa imensa rede multicultural que nos aproxima e fortalece. Não podemos nos acostumar com menos porque somos mais!

Fragmentos da possível delicadeza cotidiana – Por que incluir?

Incluir para que todos tenham, na medida do possível, uma vida autônoma, segura, livre, em condições de usufruir com dignidade tudo o que aí está para ser curtido, não importa o tipo de deficiência, a raça, a cor, a opção sexual.

Equipe do filme Mulheres no Poder. Crédito: Divulgação
Equipe do filme Mulheres no Poder. Divulgação

É o que propõe o filme Mulheres no Poder, escrito e dirigido por Gustavo Acioli, que estreia no dia 12 de maio com a inserção de recursos inclusivos de audiodescrição, legendas e de LIBRAS, por meio do aplicativo MovieReading. Em parceria com a Lavoro Produções, a Iguale Comunicação e Acessibilidade é a responsável pela produção e aplicação desses recursos, disponíveis para as produções audiovisuais, beneficiando pessoas com deficiência intelectual, visual e auditiva. Segundo Mauricio Santana, diretor da Iguale, o download do aplicativo é gratuito para IOS e Android. Depois de instalado no celular ou tablet, o usuário baixa o arquivo referente ao recurso que necessita para assistir ao filme em tempo real ao exibido na tela do cinema.

Para usar o app com o recurso da audiodescrição é necessário ter fones de ouvido conectados ao telefone celular. O MovieReading consegue sincronizar os arquivos de acessibilidade com o som do filme em exibição através do reconhecimento do áudio, portanto é preciso tomar cuidado para não obstruir a captação do microfone do celular ou tablet. Este microfone é o mesmo que transmite a voz para outra pessoa quando se está numa ligação telefônica. O app poderá ser experimentado em todas as salas de cinema onde o filme estiver em cartaz. A Iguale é a responsável pelo aplicativo MovieReading no Brasil e na América Latina.

O filme entra em cartaz em Porto Alegre e Santa Cruz do Sul/RS, São Paulo/SP, Rio de Janeiro e São Gonçalo/RJ, Belo Horizonte/MG e Salvador/BA. A produção é da Lavoro Produções, coordenada por Lara Pozzobon.

Incluir para que a educação em casa, na escola, na rua, em qualquer ambiente, seja realmente múltipla, livre de preconceitos, transformadora.

Frame do teaser disponível no YouTube.
Teaser do filme está disponível no YouTube.

Assim é o trabalho realizado pela Fadem/Fundação de Atendimento de Deficiência Múltipla, instituição sem fins lucrativos, especializada no atendimento a bebês, crianças e adolescentes de baixa renda, portadores de necessidades especiais. O documentário Vamos Falar de Inclusão? O case FADEM, dirigido por Bibiana Xausa-Bosak, lançado no dia 4 de maio no Teatro Bruno Kiefer, lotado, da Casa de Cultura Mario Quintana, mostra, de um jeito leve e comovente, o cotidiano de uma equipe interdisciplinar que atende um público com vários tipos de deficiência e atrasos no desenvolvimento, e suas famílias. A produção vai contribuir para a reflexão de todos nós sobre a inclusão. Ali estão profissionais que investem no potencial das pessoas e no direito que cada um tem de viver a infância e a adolescência da melhor maneira possível, incluídas não só na escola, mas na vida.

Assista aqui ao teaser do filme que logo estará no YouTube.

Para o psicanalista Alfredo Jerusalinsky, do Centro Lydia Coriat, que participou de um painel após a exibição do documentário, “a inclusão é na família, na praça, na escola, na sociedade. Nós humanos voamos sem saber voar. Estamos sempre além do limite que nosso corpo nos impõe. Permitir que nossos semelhantes cheguem a voar para além dos limites é a ética da civilização”.

Incluir para que mais historinhas como a que conto a seguir aconteçam.

Foto: Arquivo Pessoal.
Foto: Arquivo Pessoal

Há alguns anos, em uma agência do Banrisul, a surpresa do gerente. “Não alcanças no caixa, o que vamos fazer”? Respondo com outra pergunta e uma solução: Tens um banco, uma escadinha ou uma cadeira mesmo? Pausa. Ele sai. Demora um pouco. E lá vem com uma cadeira toda desengonçada, de rodinhas. É o que o banco – instituição financeira muito rica, que cobra até o suspiro dos clientes! – oferece. Corro o risco de subir e cair, mas isso não importa. O problema foi resolvido! E seguiram me olhando como se estivessem vendo um cavalo verde.

Algum tempo depois, o guarda do mesmo Banrisul nos olha – estávamos lá eu e minha irmã Marlene – e afirma que vai conseguir uma escada pra nós. Um belo dia chegamos no banco e ele, todo orgulhoso, nos apresenta uma escadinha decente, inteira, nova. Felicidade estampada no rosto dele e nos nossos! De onde a gente menos espera, vem uma solução, inclusiva e sensível.

O gerente, em outro momento, nos disse: “Viram a escada que eu consegui para vocês?” Resposta: “Vimos e agradecemos muito ao guarda da agência. Se ele não tivesse ouvido o nosso pedido, que tanto espanto provocou em vocês, a escada não estaria aqui”. Olhos esbugalhados nos olhando. Desde então, sempre que preciso tenho a minha escada quando vou ao banco.

A vida que surge a todo instante – Trabalho e diferença

Trabalho, por Tamar Matsafi

Quando falo de diversidade, inclusão, diferença, falo de um universo humano muito vasto e muito rico que vou desvendando aos poucos. E que contou com a colaboração da Marlene e dos estudos que fazia sobre discurso e linguagem e, mais recentemente, sobre a interlocução entre linguagem, psicanálise e ergologia. Por conta disso, no Dia do Trabalho retomei alguns artigos da Marlene e do filósofo francês Yves Schwartz, um pensador da subjetividade no trabalho, que refletem sobre a complexidade embutida no fazer cotidiano, o que está muito próximo do que proponho neste blog. Minha escrita de hoje é inspirada nessas leituras.

Não há na atividade de trabalho uma simples execução de algo, por mais mecânico que seja. Há a convocação de um indivíduo único, com capacidades bem mais amplas, ou não, do que as enumeradas ou exigidas pela tarefa que executa. Há singularidade. E a cada tarefa, cria-se uma nova situação que nenhuma racionalidade anterior é capaz de dar conta. Na perspectiva ergológica de Schwartz, por exemplo, o homem na atividade de trabalho coloca em marcha um saber pessoal que vem da sua história, da soma da experiência familiar, social, cultural e profissional. Há sempre um dado subjetivo indissociável a ser considerado.

Logo, é impossível pensar o exercício profissional sem levar em conta o trabalhador e sua subjetividade, suas escolhas, suas ideias, seus conhecimentos práticos, seus valores, seus dramas interiores. Mesmo que normas gerais regulem o agir social e sejam essenciais à sobrevivência humana, elas não dissipam a maneira com que cada um dá conta do seu saber. Sempre teremos pontos de fuga, oriundos de um conhecimento não explícito. Até porque ser determinado unicamente pelas normas, pelas imposições do meio exterior, não é viver. Ao contrário, é algo patológico, nocivo à saúde.

Há sempre um saber-fazer (norma) e um saber-agir (renormalização) que interagem e se somam na atividade de trabalho. Há que se olhar para o sujeito, então, sob o pressuposto de que aspectos subjetivos são aí inevitavelmente mobilizados. Embora as ações humanas sejam pautadas pela regularidade, o sujeito, ao agir, mobiliza escolhas particulares, promovendo uma negociação entre o que está instituído e o que é da ordem do inesperado. A vida é sempre tentativa de criar, de ser. As normas são conquistas da sociedade, mas se olhadas como “um fim em si”, apresentam o risco de desconsiderar “a vida que surge a todo instante”.

Segundo Yves Schwartz, “a saúde começa com a tentativa de redesenhar parcialmente o meio em se vive”. Ao perceber o trabalho a partir de uma perspectiva humana, evita-se a coisificação das pessoas porque são elas com o seu talento, a sua vivência e a sua sabedoria que fazem a diferença. O fazer só, repetida e mecanicamente, não é a definição do que dá certo.