Da série Acessibilidade para quê? Fragmentos do cotidiano quase absurdo 3

Há sempre um jeito, por TamarMafsafi
Há sempre um jeito, por Tamar Mafsafi.

Entro na lotação. O motorista arranca bruscamente. Sem perceber que não alcanço em praticamente nada e tenho dificuldades para me segurar, como uma senhora com uma criança no colo e um senhor bem mais velho. Dane-se! Acessibilidade para que mesmo? Mas isso ainda é pouco. Dirigia como se estivesse em uma pista de corrida desgastada e cheia de buracos. Aos solavancos. Tinha horário a cumprir, imaginei. Os passageiros, sem condições de se proteger, eram um mero acaso naquela rota.

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Com expressão irritada, o motorista do ônibus estaciona longe da calçada. Se pessoas mais velhas, crianças, alguém com problema nas pernas, ou eu que tenho 1m10cm de altura e pernas curtas, não conseguem ou têm dificuldades para descer e subir do ônibus é apenas um detalhe. Ele tem horário a cumprir e um roteiro para dar conta.  É o que importa.

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O motorista travava tanto que cheguei ao centro da cidade, vindo de um bairro não muito distante, cansada de tanto tentar me segurar, ou melhor, me equilibrar. Quando é que os responsáveis pelo transporte público vão entender que anões, assim como pessoas com outras deficiências físicas, velhos, crianças, entre tantos outros cidadãos, têm muitas dificuldades em situações assim? Só com essa compreensão vão conseguir orientar as equipes que cotidianamente enfrentam as ruas tumultuadas e engarrafadas, com horários a cumprir. Olhar para o outro, colocar-se no lugar do outro, é um bom exercício para governos e administradores.

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O jovem tinha tanta pressa que entrou correndo no ônibus, foi passando rapidamente e jogou a mochila que carregava nas costas no rosto de uma pessoa bem mais baixa do que ele. Olhar para o entorno para quê? Tinha muita pressa. Em seguida, o engarrafamento parou tudo.

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Chego ao balcão de quase um metro e meio de altura com os meus 1m10cm. Do outro lado, a atendente, que quase não me vê, como eu quase não a vejo, não se dá ao trabalho de se levantar da cadeira para me olhar, falar comigo, dar um bom dia, boa tarde, qualquer atitude razoavelmente acolhedora. Ou eu me estico o que der, ficando na ponta dos pés, para que ela possa me ouvir, ou nada feito. Ainda bem que sou elástica e estou de bem com a vida.

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Já no supermercado, a máquina para inserir o cartão e efetuar o pagamento era lá em cima. Impossível alcançar. Qual a solução? Um engradado, um caixote de plástico, enfim. E pensar que supermercados vendem escadas. Refletir, olhar, colocar-se no lugar do outro, não é o forte de quem trabalha burocraticamente. Cumpre ordens. E ordens são ordens!

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Almoço em Gramado. Sozinha. Ao solicitar uma cadeira mais alta, ouvi do garçom: “Não temos.” Nem perguntou o motivo da solicitação. Apenas me olhou com ar estupefato. É assim, mesmo nos lugares mais preparados para o turismo. É assim, mesmo com os vastos e fartos discursos pela inclusão. É assim. E pronto. E ponto.

Ainda no almoço em Gramado. O mesmo garçom coloca os apetrechos bem na ponta da mesa (temperos, guardanapos, copo, bebida), distantes dos meus braços curtos. Trabalho mecânico. Sensibilidade zero. Distraído, não observa, não olha, não vê. Está distante da convivência com o cliente, que dirá do cliente com uma diferença, mesmo que marcante. E o lugar, charmoso, quase vazio. Uma pena. Nem o turismo se dá conta.

Inclusão para quê? Fragmentos do absurdo cotidiano 2

Subindo o morro, por Tamar Matsafi.
Subindo o morro, por Tamar Matsafi.

Por conta de tudo o que aconteceu de ilegítimo, abusivo e arbitrário no governo brasileiro desde a última semana, minha percepção diz que as políticas de inclusão, que ganharam representatividade nos últimos anos, estão seriamente ameaçadas, bem como a diversidade que nos constitui. A extinção dos Ministérios das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, embutidos agora sob o comando do Ministério da Justiça, é tristemente simbólica. Assim como é simbolicamente triste o fim dos Ministérios da Cultura e das Comunicações.

O que ouvi recentemente em uma fila de supermercado revela muito do que pode vir por aí: “As mulheres e os negros devem ter direitos, é claro, desde que provem que têm capacidade. Se provarem, não precisarão de nenhuma instituição, ou o que seja, para se encostar e viver do dinheiro público”. Comentário, no mínimo, machista, racista e irresponsável de um senhor branco conversando com outro senhor branco. Os senhores da casa grande? Entre risos e deboches, davam asas ao preconceito, baseados no senso comum.

A julgar pelo ponto de vista desses cidadãos, os brancos de cabelos lisos, olhos claros, esguios e fortes, mais os tantos outros predicados da almejada “raça pura”, não necessitam mostrar competência. Já nascem com salvaguarda.

Mas afinal nós todos – independente de gênero, raça, cor, orientação sexual, tamanho, opinião, posição social – não deveríamos ser aceitos como somos, com nossas capacidades, limites e possibilidades?

Abrindo caminhos por Tamar Matsafi.
Abrindo caminhos por Tamar Matsafi.

As pessoas que têm algum tipo de deficiência encaram muitas barreiras para viver dignamente, assumir uma atividade de trabalho e entrar no “fabuloso universo dos seres produtivos”. São olhadas de maneira estranha e muito questionadas. Para serem autorizadas, necessitam do que a sociedade chama de superação – palavra que, particularmente, não me agrada. Quem consegue emprego pela Lei de Cotas também enfrenta problemas de adequação e entendimento no ambiente de trabalho. E quando contestam, muitas vezes não são compreendidos. Simplificando a questão, parece que estar empregado é o que basta.

Os grupos normalmente têm dificuldade de encarar uma conversa franca sobre a deficiência, de um lado e de outro. Algumas empresas e alguns gestores não conseguem ver o profissional com sua deficiência e suas habilidades. Executam normas, leis, protocolos. Tudo está encaixado aqui e ali e parece impossível desfazer as caixas. A burocracia não suporta pensar fora do já estabelecido. A burocracia é cumpridora. Pouco analisa e pouco pensa. Apenas, enquadra.

Puxando a rede, por Tamar Matsafi
Puxando a rede, por Tamar Matsafi.

Mesmo assim tivemos muitos avanços. Consolidou-se uma rede de políticas públicas, com o apoio de grupos autônomos, voltada para o atendimento de pessoas vulneráveis socialmente, pessoas com deficiência e as que sofrem algum tipo de discriminação ou violência, no sentido de garantir seus direitos, a integridade e a liberdade de ir e vir.

Lamentavelmente, o cenário mudou. E diante do que está se desenhando no campo das decisões políticas do país, obscuro e retrógrado, é preciso estar atento e forte para garantir direitos sociais importantes conquistados nos últimos anos. Avanços que deram voz aos excluídos, abriram portas para o protagonismo das mulheres, garantiram vagas para os negros nas universidades e possibilitaram que jovens de famílias de baixa renda chegassem ao ensino superior não podem se perder. São conquistas libertárias que partem do entendimento de que a grande riqueza humana está na diversidade, nas trocas coletivas e nessa imensa rede multicultural que nos aproxima e fortalece. Não podemos nos acostumar com menos porque somos mais!

Fragmentos da possível delicadeza cotidiana – Por que incluir?

Incluir para que todos tenham, na medida do possível, uma vida autônoma, segura, livre, em condições de usufruir com dignidade tudo o que aí está para ser curtido, não importa o tipo de deficiência, a raça, a cor, a opção sexual.

Equipe do filme Mulheres no Poder. Crédito: Divulgação
Equipe do filme Mulheres no Poder. Divulgação

É o que propõe o filme Mulheres no Poder, escrito e dirigido por Gustavo Acioli, que estreia no dia 12 de maio com a inserção de recursos inclusivos de audiodescrição, legendas e de LIBRAS, por meio do aplicativo MovieReading. Em parceria com a Lavoro Produções, a Iguale Comunicação e Acessibilidade é a responsável pela produção e aplicação desses recursos, disponíveis para as produções audiovisuais, beneficiando pessoas com deficiência intelectual, visual e auditiva. Segundo Mauricio Santana, diretor da Iguale, o download do aplicativo é gratuito para IOS e Android. Depois de instalado no celular ou tablet, o usuário baixa o arquivo referente ao recurso que necessita para assistir ao filme em tempo real ao exibido na tela do cinema.

Para usar o app com o recurso da audiodescrição é necessário ter fones de ouvido conectados ao telefone celular. O MovieReading consegue sincronizar os arquivos de acessibilidade com o som do filme em exibição através do reconhecimento do áudio, portanto é preciso tomar cuidado para não obstruir a captação do microfone do celular ou tablet. Este microfone é o mesmo que transmite a voz para outra pessoa quando se está numa ligação telefônica. O app poderá ser experimentado em todas as salas de cinema onde o filme estiver em cartaz. A Iguale é a responsável pelo aplicativo MovieReading no Brasil e na América Latina.

O filme entra em cartaz em Porto Alegre e Santa Cruz do Sul/RS, São Paulo/SP, Rio de Janeiro e São Gonçalo/RJ, Belo Horizonte/MG e Salvador/BA. A produção é da Lavoro Produções, coordenada por Lara Pozzobon.

Incluir para que a educação em casa, na escola, na rua, em qualquer ambiente, seja realmente múltipla, livre de preconceitos, transformadora.

Frame do teaser disponível no YouTube.
Teaser do filme está disponível no YouTube.

Assim é o trabalho realizado pela Fadem/Fundação de Atendimento de Deficiência Múltipla, instituição sem fins lucrativos, especializada no atendimento a bebês, crianças e adolescentes de baixa renda, portadores de necessidades especiais. O documentário Vamos Falar de Inclusão? O case FADEM, dirigido por Bibiana Xausa-Bosak, lançado no dia 4 de maio no Teatro Bruno Kiefer, lotado, da Casa de Cultura Mario Quintana, mostra, de um jeito leve e comovente, o cotidiano de uma equipe interdisciplinar que atende um público com vários tipos de deficiência e atrasos no desenvolvimento, e suas famílias. A produção vai contribuir para a reflexão de todos nós sobre a inclusão. Ali estão profissionais que investem no potencial das pessoas e no direito que cada um tem de viver a infância e a adolescência da melhor maneira possível, incluídas não só na escola, mas na vida.

Assista aqui ao teaser do filme que logo estará no YouTube.

Para o psicanalista Alfredo Jerusalinsky, do Centro Lydia Coriat, que participou de um painel após a exibição do documentário, “a inclusão é na família, na praça, na escola, na sociedade. Nós humanos voamos sem saber voar. Estamos sempre além do limite que nosso corpo nos impõe. Permitir que nossos semelhantes cheguem a voar para além dos limites é a ética da civilização”.

Incluir para que mais historinhas como a que conto a seguir aconteçam.

Foto: Arquivo Pessoal.
Foto: Arquivo Pessoal

Há alguns anos, em uma agência do Banrisul, a surpresa do gerente. “Não alcanças no caixa, o que vamos fazer”? Respondo com outra pergunta e uma solução: Tens um banco, uma escadinha ou uma cadeira mesmo? Pausa. Ele sai. Demora um pouco. E lá vem com uma cadeira toda desengonçada, de rodinhas. É o que o banco – instituição financeira muito rica, que cobra até o suspiro dos clientes! – oferece. Corro o risco de subir e cair, mas isso não importa. O problema foi resolvido! E seguiram me olhando como se estivessem vendo um cavalo verde.

Algum tempo depois, o guarda do mesmo Banrisul nos olha – estávamos lá eu e minha irmã Marlene – e afirma que vai conseguir uma escada pra nós. Um belo dia chegamos no banco e ele, todo orgulhoso, nos apresenta uma escadinha decente, inteira, nova. Felicidade estampada no rosto dele e nos nossos! De onde a gente menos espera, vem uma solução, inclusiva e sensível.

O gerente, em outro momento, nos disse: “Viram a escada que eu consegui para vocês?” Resposta: “Vimos e agradecemos muito ao guarda da agência. Se ele não tivesse ouvido o nosso pedido, que tanto espanto provocou em vocês, a escada não estaria aqui”. Olhos esbugalhados nos olhando. Desde então, sempre que preciso tenho a minha escada quando vou ao banco.

A vida que surge a todo instante – Trabalho e diferença

Trabalho, por Tamar Matsafi

Quando falo de diversidade, inclusão, diferença, falo de um universo humano muito vasto e muito rico que vou desvendando aos poucos. E que contou com a colaboração da Marlene e dos estudos que fazia sobre discurso e linguagem e, mais recentemente, sobre a interlocução entre linguagem, psicanálise e ergologia. Por conta disso, no Dia do Trabalho retomei alguns artigos da Marlene e do filósofo francês Yves Schwartz, um pensador da subjetividade no trabalho, que refletem sobre a complexidade embutida no fazer cotidiano, o que está muito próximo do que proponho neste blog. Minha escrita de hoje é inspirada nessas leituras.

Não há na atividade de trabalho uma simples execução de algo, por mais mecânico que seja. Há a convocação de um indivíduo único, com capacidades bem mais amplas, ou não, do que as enumeradas ou exigidas pela tarefa que executa. Há singularidade. E a cada tarefa, cria-se uma nova situação que nenhuma racionalidade anterior é capaz de dar conta. Na perspectiva ergológica de Schwartz, por exemplo, o homem na atividade de trabalho coloca em marcha um saber pessoal que vem da sua história, da soma da experiência familiar, social, cultural e profissional. Há sempre um dado subjetivo indissociável a ser considerado.

Logo, é impossível pensar o exercício profissional sem levar em conta o trabalhador e sua subjetividade, suas escolhas, suas ideias, seus conhecimentos práticos, seus valores, seus dramas interiores. Mesmo que normas gerais regulem o agir social e sejam essenciais à sobrevivência humana, elas não dissipam a maneira com que cada um dá conta do seu saber. Sempre teremos pontos de fuga, oriundos de um conhecimento não explícito. Até porque ser determinado unicamente pelas normas, pelas imposições do meio exterior, não é viver. Ao contrário, é algo patológico, nocivo à saúde.

Há sempre um saber-fazer (norma) e um saber-agir (renormalização) que interagem e se somam na atividade de trabalho. Há que se olhar para o sujeito, então, sob o pressuposto de que aspectos subjetivos são aí inevitavelmente mobilizados. Embora as ações humanas sejam pautadas pela regularidade, o sujeito, ao agir, mobiliza escolhas particulares, promovendo uma negociação entre o que está instituído e o que é da ordem do inesperado. A vida é sempre tentativa de criar, de ser. As normas são conquistas da sociedade, mas se olhadas como “um fim em si”, apresentam o risco de desconsiderar “a vida que surge a todo instante”.

Segundo Yves Schwartz, “a saúde começa com a tentativa de redesenhar parcialmente o meio em se vive”. Ao perceber o trabalho a partir de uma perspectiva humana, evita-se a coisificação das pessoas porque são elas com o seu talento, a sua vivência e a sua sabedoria que fazem a diferença. O fazer só, repetida e mecanicamente, não é a definição do que dá certo.

 

Da série Acessibilidade para quê? Fragmentos do absurdo cotidiano

Há sempre um desejo de ser olhada e quem sabe admirada sem o “mas” que se interfere no cotidiano, desajeitado e sem modos, dando asas a um olhar interno crítico, muitas vezes cruel. Que olhar é esse que de dentro de mim me espreita? Os olhares todos do mundo são prolongamentos desse olhar primeiro, fundador, inquietante? Será que vem da relação que estabelecemos com esses olhares estranhos, invasores, a autorização para o ingresso efetivo no universo dos chamados “normais”? Há um quê indecifrável nesse “mas” que ergue barreiras, aprisiona e celebra a intolerância, acobertado pela feliz possibilidade de ignorarmos o que não queremos ver.

Grades, por Tamar Matsafi
Grades, por Tamar Matsafi

Eles vinham conversando animadamente pela calçada. Jovens, muito jovens. Quando me viram, pararam, trocaram olhares e caíram numa gargalhada farta, debochada e infindável. Fazer o quê? A vida é mesmo assim! Expressão que aprendi com um amigo muito querido. Ou, assim é a vida! – como dizia um rapaz que fazia consertos no meu apartamento.

Entro em uma agência da Caixa Econômica Federal. Não alcanço em nada, o que é muito comum nas instituições bancárias. Nem no buraco para colocar o celular e os metais todos para depois, desarmada, ser autorizada a passar pela porta giratória. Do lado de lá, o guarda me olha intrigado. Do lado de cá, abro meus pequenos braços querendo dizer “e agora, o que fazer”? Ele, atrapalhado, grita, “o que a senhora tem na bolsa?”. A resposta, óbvia: celular, agenda, caneta, carteira, chave, colírio… Abro a bolsa, ele estica o pescoço, mas acho que não vê nada. Finalmente, do lado onde estou, aparece outro guarda. Admirado, faz a mesmo pergunta. Repito, abro novamente a bolsa, ele espia e diz “Pode liberar a entrada”. Inúmeros olhares e nenhum questionamento sobre acessibilidade, inclusão, dificuldade, qualquer coisa neste sentido. Todos tropeçam na burocracia. Mudar o script para quê?

Em um prédio, no centro de Porto Alegre. Cheguei, dei bom dia e pedi: “Por favor, podes chamar o elevador porque não alcanço no botão?” Sem levantar a cabeça para me olhar, ele respondeu, automaticamente: “Fique à vontade!”. Eu: “Ahn!?” E falei um pouco mais alto, com firmeza. Ele, com uma rabiada de olho na minha direção, resmungou um “ah!”, levantou com o celular em punho, foi até o elevador, tocou no botão e já ia voltar quando expliquei: “Por favor, preciso que o senhor toque no botão de dentro também. Vou no 10º andar e o painel é muito alto”. Ele parou, olhos grudados no celular, até o elevador chegar. Tocou. E voltou para o seu brinquedinho. Nenhum rasgo de olhar um pouco humano! Muitos porteiros de prédios da contemporaneidade distraem suas longas horas de trabalho mergulhados no vasto universo descortinado pelos celulares. Isso é fato. E ponto!

Não é para qualquer um – Orçamento, diplomacia, moral e anões

Chegando lá, por Tamar Matsafi
Chegando lá, por Tamar Matsafi

O que uma coisa tem a ver com a outra? Explico.

“Ser anão não é para qualquer um”. Assim o jornalista Luiz Antônio Araujo termina um artigo publicado no jornal Zero Hora no dia 28 de julho de 2014. Um belo texto em que ele lembra do primeiro anão que conheceu e escreve sobre notoriedade, preconceito, maus tratos e extermínio. Ao ler, pensei na condição de tantas pessoas mundo afora que suportam algum tipo de discriminação pela condição física, mental, intelectual, social, de comportamento, gênero, raça ou cor. Não é para qualquer um, mesmo.

Falando especificamente dos anões, somos muito poucos, segundo velhas estatísticas, mas o impacto que provocamos é grande e, às vezes, assustador. Para o bem e para o mal. Dos mitos que correm por aí, passando pelo grotesco, pelo universo das histórias infantis, pela chacota vulgar, pelo espanto e pela hipervalorização, vivemos entre opostos. E é neste universo contraditório, pouco acolhedor, que cavamos um lugar social, nem sempre cômodo, sem passaporte para uma vida natural.

Temos dificuldades. Muitas. E repito: a sociedade não está preparada para a singularidade, mesmo com as políticas de inclusão e acessibilidade. Necessárias, é claro, mas de pouco efeito se não entendidas e aplicadas com sensibilidade. A educação para a diferença precisa vir bem antes. O preconceito está entranhado na pele, no olhar, na atitude, nas situações sociais. Está no inconsciente coletivo. É inerente aos humanos.

Em relação aos anões é tão desolador que a palavra virou sinônimo do que é considerado indigno, torpe, pouco e é usada de forma pejorativa, indigesta. É o caso de expressões como “salário com perna de anão” (referência ao salário considerado baixo), “anão moral” (usada por Ciro Gomes ao se referir a Michel Temer, ‘traidor e parceiro íntimo de tudo que não presta, à frente deste capítulo do golpe de estado em marcha no Brasil’, e seu sócio Eduardo Cunha), “anão diplomático” (porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, ao reagir às críticas do Itamaraty que condenou o uso desproporcional da força militar por Israel na faixa de Gaza, em julho de 2014). E, ainda, “anões do orçamento” (nome dado a um grupo de deputados no final dos anos 1980, início dos 90, envolvidos em fraudes com recursos do Orçamento da União, investigados por uma CPI, parlamentares sem repercussão nacional, ou seja, ‘anões do poder’).

Por conta disso, andando pelas ruas, já ouvi e ouço muita piada infame. E não sou apegada ao politicamente correto.  De modo geral, encaro essas situações com bom humor. Acontece que tais expressões, ao apontar o que há de pior no cenário político deteriorado do país, acabam ratificando o preconceito. São sentenças que reverberam no ir e vir cotidiano e na autoestima, por mais preparados que estejamos para encarar a afronta e a rejeição. Somam-se aos olhares curiosos, aos dedos apontando, à invasão de privacidade, às perguntas indiscretas e perversas, ao riso, ao toque desrespeitoso, aos que nos ignoram nas filas e nos balcões.

Mas, como tudo na vida tem o seu contrário, é impossível ignorar o ganho secundário através da admiração excessiva, do elogio fácil, do aplauso à inteligência e à coragem, muito frequentes, espécies de salvaguardas que podem ser perigosas, criar falsas ilusões e mascarar uma condição que precisa ser enfrentada sem adereços, a olho nu.

Desde que o mundo é mundo, a diferença existe. Não somos iguais. Mesmo que a regra seja impor uma perfeição estabelecida pela ambição do homem, no sentido de eliminar tudo o que aponte para a possibilidade do imperfeito, ou seja, para a sua fragilidade, é na diversidade que está a nossa grande riqueza.

O poder, aliado à necessidade da perfeição, sempre alimentou uma elite cruel, em busca de uma impossível “raça pura”. O desejo predominante é acabar com os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, que Araújo refere no artigo ao falar do nazismo. Assim se escravizou, exterminou, torturou, subjugou toda e qualquer pessoa, grupo ou raça que não contribuísse com o “aprimoramento da espécie humana”.

Ainda vivemos sob esse eco. É assim que se discrimina. E é contra essa subjugação que lutamos.

Mais ou menos assim

Foto: Criança na janela, por Tamar Matsafi

A solidão do excluído, por Tamar Matsafi
A solidão do excluído, por Tamar Matsafi

Historicamente, a sociedade sempre reservou um lugar para aqueles que fogem dos padrões sobre os quais está estruturada. Nesse lugar estão hipoteticamente protegidos, não desafiam a ordem e não desacomodam conceitos e pré-conceitos.

Ninguém se espanta, por exemplo, ao ver o negro como porteiro, operário ou empregada doméstica. O homossexual como cabeleireiro, costureiro, fazendo o gênero pitoresco, de humor fino/ferino também não surpreende. Bem como o anão, visto como figura grotesca ou mágica, alvo de chacota, divertindo as pessoas, parece tão normal! Tudo certo com a mulher comandando um fogão, mas daí a dirigir os destinos do país…

Da mesma forma, ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma outra diferença,física, intelectual ou mental. É o caso de crianças com síndrome de Down e autismo que têm matrícula negada   em   escolas   regulares.   Muitos   jovens   que   procuram   emprego   são   barrados   na   primeira entrevista porque sua diferença vira obstáculo, mesmo que não seja.

É o que cabe aos diferentes nesse latifúndio da dita normalidade. E isso não pode ser comum!

Ao ignorar, excluir ou rotular as diferenças toma-se o caminho mais fácil e mais curto para a anulação do humano, da cidadania, do caráter criativo e inusitado dos indivíduos que estão no encontro de suas múltiplas   possibilidades   e   capacidades.   E   é   nesse   não   querer   ver   que   reside   o   perigo   para   o acirramento da intolerância em todos os níveis.

Não reagir e assim responder a um discurso já dado não desafia nenhuma norma, logo não inquieta ninguém e não muda nada.

O espanto necessário surge no momento em que as margens desse latifúndio são extrapoladas.

É quando a diferença fala mais alto e a sociedade obriga-se a lidar com o que não sabe, não quer saber e não quer ver. Já não está mais diante do estereótipo, mas da pessoa real, de carne e osso, com sentimentos, contradições e a sua diferença. A desordem aparece, desarticulando a frágil perfeição da ordem social. Então começa a mudança.

Cabe,  portanto,   a  nós,   com  a   nossa  diferença,   seguir  subvertendo   a  ordem.   Recusar  os   lugares determinados. Não se acomodar no papel de coitados, vítimas ou heróis em busca da superação. Só assim construiremos relações mais humanas, agregadoras, libertárias, fundamentais para a eliminação do   preconceito.   É   vital  fazer   com   que   a   sociedade   entenda   as   múltiplas   possibilidades   que   as diferenças trazem, fora dos discursos instituídos, ultrapassados e redutores.

Não somos nem coitados, nem vítimas, nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com os nossos limites, os nossos sonhos e as nossas aptidões. A frase de uma canção de Caetano Veloso,“Dom de Iludir”, define bem esse sentimento: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Porque, então, não falar abertamente do que somos, com nossos medos, preconceitos, vontade de mudar e viver livres, leves e soltos?

Dores e delícias de ser o que se é

Lelei e MarleneA proposta é compartilhar neste espaço ideias, experiências, sonhos e inquietações, no sentido de refletir coletivamente sobre questões relacionadas ao cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma diferença marcante. Diferença que exclui e provoca o preconceito, limite triste de uma sociedade linear, que não está preparada para perceber e aceitar o outro na sua dimensão. Encarar a exclusão é tarefa difícil porque todo ser humano busca o acolhimento. Há que se ter cuidado para não cair na vitimização e no paternalismo ou alimentar fetiches, heroísmos ou clichês. Há que se ter sabedoria para lidar com uma condição delicada que, às vezes, é jogada em uma espécie de limbo, onde permanece intocável pela dificuldade do enfrentamento. Em resumo, é fundamental evitar os estereótipos. Por isso, falar da diferença, encarando a fragilidade da condição humana, contrapor-se ao preconceito e saudar a diversidade, é desafio necessário e urgente.

É o que queremos aqui neste blog que nasceu de muitas conversas instigantes. Especialmente do estímulo da arquiteta Flavia Boni Licht, que provocou meu encontro com a jornalista Núbia Silveira, mais adiante com Carmen Crochemore, diretora executiva do portal Sul21 e, recentemente, com o editor Milton Ribeiro. E, claro, do apoio de amigos que acompanham tudo com entusiasmo.

O desejo de falar sobre o impacto da diferença e do quanto o convívio é duro muitas vezes já fazia parte das muitas conversas que Marlene, minha irmã, e eu tínhamos quase cotidianamente. Encarar uma vida a ser vivida com o nanismo, portanto cheia de limites, em uma época em que não se falava em inclusão e acessibilidade, foi desafiador desde a infância. Ainda é! E para mim é muito emocionante que este blog seja lançado justamente no dia 5 de abril de 2016, quando faz um ano da morte da Marlene.

Pensar a diferença de maneira ampla, a partir da perspectiva da acessibilidade e da inclusão, ampliou nossos horizontes. Quando Flavia me pediu para escrever algo sobre as dificuldades enfrentadas pelos anões no dia a dia, nosso interesse aumentou. A proposta desacomodava conceitos clássicos, enraizados, e apontava para uma sociedade como soma de diferenças e não de homens hipoteticamente iguais – tudo o que queríamos para potencializar um debate que já estava nas nossas vidas há muito tempo.

Para além da eliminação de barreiras físicas, acessibilidade é cidadania, direito social, independência, capacidade de olhar o outro e de acolher, “porque o olhar nunca termina de aprender a ver”, como escreveu a psicanalista Diana Corso em algum momento e anotei em um dos tantos blocos que carrego comigo.

O caminho é longo, mas estou na estrada. Sempre estive.